domingo, 9 de julho de 2017

Sono rubro

Dobrando a esquina, vi a ambulância em frente à minha casa. Cansado do dia de trabalho – ou de estudo ou de atividades físicas, não sei, mas certamente cansado –, avistei a ambulância. Ao contrário do que eu planejava, não descansaria. Uma dor aguda atingiu minha coluna, o suor rapidamente empapou minhas mãos. Uma ambulância. Uma multidão em torno dela. O vermelho da sirene silenciosa coloria a fachada cinza de onde eu vivia e salpicava de cores de sangue a noite negra de uma rua mal-iluminada.

Não, eu não descansaria. E realmente não sabia por que estava cansado, mas me encontrava exausto. Não conseguia andar com a pressa que eu tentava impor aos meus passos. Me contorcia na cama e caminhava rumo à ambulância. Pensei nos meus dois filhos, na minha esposa... O que teria acontecido? A quem teria acontecido? Eu caminhava, muito mais lentamente do que gostaria, mas minhas pernas falhavam na tentativa de empurrar a calçada para trás, minha boca falhava na tentativa de emitir um grito que me pudesse despertar.

Num lampejo de consciência, tateei o meu lado e senti minha esposa. Ela estava ali, um alívio. No entanto, restavam meus filhos, em outro quarto. Por exclusão, concluí que o problema havia sido com um deles. O vermelho da noite me cegava. Eu caminhava. Queria correr e não podia. Que cansaço era aquele que despencava sobre mim, como uma força imperiosa capaz de deter meu desespero? Soquei a cama, frustrado, esgotado, tudo se movia em mim, menos a boca. Não gritava. Não corria. Não descobria o que fazia uma ambulância em frente à minha casa, o que faziam as pessoas àquela hora da noite. Se ao menos elas pudessem abrir um pequeno espaço entre si e me possibilitassem ver, daqui de longe, uma pista que desvendasse o mistério que me inquietava.

Naquele passo, eu levaria toda a noite até chegar ao local almejado. Mas eu tinha que prosseguir. Ou gritar e pôr fim a tudo ou andar, ainda que a passos lentos. Casa por casa, pouco a pouco fui me aproximando. Alguns vizinhos já me notavam. Franziam seus lábios e inclinavam a cabeça, num curioso misto de solidariedade e reprovação. Quis perguntar o que havia acontecido, nenhum som emiti. Andei um pouco mais e pude ver uma maca, sendo carregada de dentro da residência rumo à parte traseira da ambulância. Pelo tamanho da pessoa que era carregada, descartei a possibilidade de algo ter acontecido com meus filhos. O vermelho da sirene, porém, ainda me distanciava de um correto entendimento da situação. Um adulto. Tateei de novo a cama, minha esposa estava ali. Não era ela. Era eu. Era eu quem estava sendo socorrido pela equipe médica. Quis gritar, mas fracassei de novo. Continuei andando. Cheguei ao local. Uma pessoa uniformizada impediu minha passagem. Quis lhe explicar que o acidentado era eu, que eu tinha o direito de perguntar o que tinha acontecido comigo. Não lhe podia falar, porém. Sorte minha que ele próprio perguntou:

– O senhor conhece a vítima?

Sacudi a cabeça num gesto afirmativo. Cerrei as mãos, desmanchei os lençóis, chutei o baú, tensionei todos os músculos do corpo e, por fim, gritei. Gritei. Gritei que sim. Gritei que sim, sim, sim, sou eu. Sou eu! E, ofegante, abri os olhos.

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