segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O avô e o neto momentos antes da morte

O menino de 12 anos conversava com seu avô, no quarto do hospital.

 Como foi a sua vida?

 Que pergunta… Parece que já estou morto.

 Não! Não foi o que eu quis dizer!

Mas foi o que ele quis dizer.

Era uma tarde fria de julho, ainda mais gelada no quarto hospitalar.

 Não se preocupe. Eu sei que vou morrer em breve.

 Não fala assim!

 A minha vida foi boa  ele respondeu, por fim. Não teve forças para elaborar mais. Cada palavra enunciada era uma enorme dificuldade.

 Descansa. Dorme um pouco. Não precisa falar.

O médico entrou no quarto. Sempre se surpreendia com a postura do menino, aparentemente maduro para a idade.

 Como estão as dores?  perguntou o doutor.

 Não dói mais nada… Mais nada… – respondeu o doente.

O médico revisou os equipamentos que ainda mantinham vivo o paciente, e logo saiu. Não demorou muito para o enfermo fechar os olhos, ainda não em definitivo.

O neto e o avô ficaram assim por mais de uma hora. Um, dormindo; o outro, encarando o nada, imerso em uma atmosfera de luto antecipado.

 Como ele está?  perguntou uma enfermeira, passado mais algum tempo.

 Bem. Dormindo.

 Estou no corredor. Qualquer coisa, me chama.

O acompanhante concordou. Seu olhar sempre visava a barriga do doente, para se certificar de que ela ainda subia e descia.

Dada hora, o paciente acordou. Com esforço, pronunciando sílaba por sílaba, ainda conseguiu dizer:

 Só quero me despedir. Estou morrendo... Agora.

O outro chorou. Já não podia fazer mais nada para manter com ele uma das pessoas por quem mais tinha amor. Segurou sua mão. Viu a vida se apagar naquele leito.

A cabeça do menino tombou definitivamente para o lado.  Aos prantos, o velho saiu do quarto para comunicar a morte de seu amado neto.