quarta-feira, 18 de maio de 2016

A névoa

Vou andando para onde não há nada, ou há, não sei. Creio não haver. Isso me incomoda, não sei por quê: onde estou, já tenho tudo do que preciso.

Retifico. Aqui, onde estou, é um lugar que não existe, pois já não estou mais ali. Estou sempre um passo além. Vou encontrando as coisas, mas, até pouco tempo, não sabia o que veria. Só enxergo os lugares quando os alcanço. A escuridão e a imprevisibilidade me assustam.

As árvores são bonitas, o céu é bonito, o mar, o lago, o sol, a neve, a chuva, as nuvens, há tanta beleza nisso tudo, nessas coisas que acompanham minha trajetória incerta. Mas tudo isso está ao meu lado, ainda que o local onde estou agora não seja o mesmo em que estarei em breve. À minha frente, não há nada.

À minha frente, está tudo tão escuro... Ou melhor, escuro, não. Está cinza. Acinzentado. Como uma névoa. Eu vou vencendo essa neblina e, passo a passo, vou reencontrando aquelas coisas que, desde lá atrás, nunca me abandonaram: as árvores, o sol, o céu...

Um bom observador contemplaria as laterais do percurso, os ambientes onde as belas coisas estão. Mas tal não sou. Se à frente não há nada, por que meus olhos encaram aquela direção, em vez de visar os lados? Às vezes, é até melhor olhar para trás do que para frente, pois o que ficou pelo caminho também é bonito. Tudo é melhor do que olhar para frente. Pode até ser que haja beleza no porvir, mas a desconheço. Continuo vendo apenas névoa e mais névoa.