terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O impulso

Ela estava em um riacho, pulando de pedra em pedra para atravessá-lo. Era uma aventura arriscada, porque a profundidade da água era grande e ela não sabia nadar. Já havia pulado sete pedras, quando percebeu que a oitava era falsa. Tratava-se da cabeça de um jacaré, camuflado. Um sentimento de pânico a abateu. Olhou para trás, queria voltar. No entanto, as pedras pelas quais ela tinha vindo sumiram. Só podia prosseguir. Deveria pular sobre o jacaré. Tomou impulso e foi. Acordou. 

Não teve tempo para se aliviar. Quando acordou, notou que seu prédio pegava fogo. Estava no vigésimo andar de um edifício cujos andares mais baixos já haviam sido tomados pelo incêndio. O prédio estava desmoronando. Ela teria que pular. Certamente, morreria na queda, mas que diferença fazia? Se ficasse, também morreria. Tomou impulso e foi. Acordou. 

Despertou com ladrões invadindo sua casa. Desejaria morar no prédio em chamas do sonho, onde os bandidos encontrariam maiores dificuldades para entrar. Sua casa, porém, era baixa, sem cerca, com a porta dando diretamente para a rua. Correu em direção ao toalete, onde pretendia se trancar. Os ladrões entraram no seu quarto no instante em que ela alcançou o banheiro. Um dos criminosos notou e apontou a arma em sua direção. Parecia novato no mundo do crime, estava assustado, atiraria por inexperiência. No instinto, ela abriu a janela do cômodo e se esgueirou para pular. Na parte de fora, porém, outro bandido a esperava. Não teve tempo para decidir se morreria no interior ou no exterior da casa. Tomou impulso e foi. Acordou. 

O celular tocava ao lado da cama. Era seu filho. Agradeceu a ele por tê-la tirado de sucessivos pesadelos. Porém, ela não esperava pela notícia que ele tinha para lhe dar. Acabara de ser raptado. Estava telefonando escondido dos sequestradores. Ele passou a localização aproximada de onde achava estar o cativeiro. Ela tentou contatar a polícia, sem êxito. Ia ela mesma salvar seu filho, num inconsequente ato de loucura. Correu em direção ao carro e girou a chave na ignição. Tomou impulso e foi. Acordou. 

Seu marido a sacudia na cama:

 Estou saindo para o trabalho. Já são 7:10. Você vai se atrasar. 

Olhou para o rosto barbudo e odiado do marido. Maldizia o dia do casamento. Maldizia mais ainda seu trabalho, sua rotina, sua vida. Paciência: tinha que escovar os dentes, tomar banho, pegar trem lotado... Esse era o pior pesadelo, pois não terminaria. Tomou impulso e foi. Não acordou. 

4 comentários:

  1. conto interessante.
    vc é o único escritor de quem leio os textos publicados pelo facebook.
    continue! eu gosto!

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    1. Apesar de se tratar de um sonho com sequência de situações diferentes, tenha certeza Marcelo, que seu conto está ótimo, exatamente como nos pesadelos, além disso linguajem clara,e com dinâmica.Parabéns.Você é excelente escritor.

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