sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Feriadão

Todo dia, aquela mesma rotina: acordar, beber uma água de coco, andar pela areia, tomar um banho de mar e passar algum tempo na rede ou na espreguiçadeira, sem nada pensar nem fazer. Era exaustivo. Não tinha hora para nada, era senhor de seu próprio tempo, sem a fácil submissão a um relógio que determina quando e o que temos que fazer. A paisagem, monótona: mar, coqueiros, areia, sempre a mesma coisa. Só o céu mudava de vez em quando, variando entre o azul e o levemente nublado, ocasiões em que chovia apenas o necessário para preservar o verde das plantas. Um horror, não conseguia mais suportar essa mesmice. Que vontade de ir para a cidade, onde via carros, ônibus, caminhões, motos, veículos de todas as formas e cores, onde havia um arranha-céu envolto a casas, a favelas, a prédios menores ou maiores, uma enorme variedade geométrica de desenhos para contemplar. E a poluição sonora do mar, isso era o pior de tudo: sempre o quebrar das ondas, uniforme, opressor, não dando trégua jamais. Nada a ver com a cidade, onde inúmeros sons coexistiam, de buzinas de automóveis a pessoas berrando, do ronco do motor de um ônibus aos anúncios gritados de vendedores ambulantes. Essa vida no litoral era um horror. Os remédios receitados pelos psiquiatras não lhe traziam os resultados desejados, embora não evitassem os efeitos colaterais, causando-lhe ansiedade, pânico, aflição. Com essa enorme insegurança que tomava conta da costa, sabia que podia a qualquer momento ser picado por um besouro ou um marimbondo e, por isso, dormia com todas as janelas e portas trancadas, numa sensação de terrível inquietude. Quando ouvia o som de uma simples mosca, acordava assustado, perdia o sono, o que acentuava o caos que era o seu relógio biológico.

A felicidade só era possível quando havia um feriadão. Um simples fim de semana não era suficiente para que ele recarregasse as baterias e se sentisse novamente bem disposto na segunda-feira. Dois dias são muito pouco. Mas, quando chegava um feriadão, aí a coisa era diferente. Pegava seu carro e dirigia para São Paulo, encarando horas de congestionamento. Felicidade, enfim! Viajava com os vidros do carro abaixados, respirando a pureza do gás carbônico dos automóveis a 20 por hora. Por que não podia ser sempre assim? Levava horas até São Paulo e, quando chegava à cidade, sua primeira providência era comprar uma água de coco de caixinha, com seu sabor fantasticamente artificial. Comprava, junto, todas as iguarias que só uma grande capital pode proporcionar, como nuggets, miojo e suco enlatado. A fila para pagar era longa, o que era muito mais terapêutico para ele do que as sessões de terapia que pagava no litoral.

De posse de todas essas mercadorias, entrava novamente no seu carro, parava em vários sinais vermelhos – que, muito mais amigáveis do que a anarquia litorânea, têm a função essencial de facilitar a nossa vida, indicando se devemos seguir ou parar – e trocava algumas palavras com pedintes que lavavam seu para-brisa à força. Passava horas procurando por uma vaga para estacionar, com a sensação libertadora de saber que estava em busca de algo em específico, nada a ver com aquela violência da costa, que lhe oprimia sem lhe dar nenhum objetivo. Depois de, por fim, estacionar, identificava-se ao porteiro do prédio comercial, encaminhava-se ao vestiário e colocava seu traje de férias: terno e gravata. Que beleza, pensava ao se olhar no espelho. A barriguinha escondida, os músculos flácidos escondidos, tudo devidamente encoberto por aquela roupa milagrosa, ao contrário do que acontece com a reveladora sunga de praia. Logo depois, pegava fila no elevador e, passado algum tempo, estava em um andar alto, onde desfrutaria de preciosos momentos no escritório da empresa. Pena que passa tão rápido… Logo já era domingo e hora de voltar para casa. A música do Fantástico anunciava que teria que desfrutar do trânsito de volta ao litoral, engarrafamento este que, embora fosse extremamente agradável, não lhe trazia tanta felicidade quanto o congestionamento da ida, pois, em um, sabia que estava indo para o paraíso de São Paulo e, no outro, dirigia rumo à maldita praia.

Chegava de mau humor ao litoral, mas sabia que assim era a vida. Enquanto não se aposentasse, não poderia sonhar com uma estadia em São Paulo por mais de quatro ou cinco dias. Paciência. O som do farfalhar das árvores anunciava mais uma tenebrosa semana a se iniciar.

Um comentário:

  1. E se eu te disser que me senti quase assim qdo me aposentei e saí do Rio pra morar em Maricá?
    Sempre que ia ao Rio voltava dirigindo, chorando pela ponte. Sentia falta do trânsito, do barulho, da enorme emoção que era aguardar o sinal abrir na Presidente Vargas e entrar à direita na Rio Branco. Aquelas árvores, os edifícios, o cheiro da poluição amalgamado no da maresia que vinha do Aterro!

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