quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Oito minutos antes de sua morte

Oito minutos antes de sua morte, no leito do hospital, minha velha companheira teve ainda força para perguntar:

– O que você viu nela?

Fingi um espanto, mimetizei a surpresa que não me acometeu. Claro: fiquei levemente surpreendido por a pergunta se dar nesse momento, quando ela mal tinha energia para falar, tomada por uma série de máquinas e líquidos, naquele clima hospitalar hostil, mas eu sabia que um dia ela levantaria aquela questão. Ela não morreria sem fazê-lo e, uma vez que sabia que não tardaria a cruzar a fronteira final, não havia outra hora para trazer à tona a inevitável interrogativa: o que eu vi nela, na outra, na amante?
Não adiantava eu dizer que não sabia do que se tratava, que eu não tinha ninguém; seria uma bobagem, a última mentira numa vida de faz-de-conta. Eu sabia que ela sabia; sempre soube que ela soube. Restou-me respirar com pesada autopiedade (pois a piedade que eu tinha era de mim, por ter que responder àquilo em momento tão importuno, não era dela. Ao contrário: quanto a ela, bateu-me uma vontade de machucá-la, ofendê-la, ser sincero pela primeira vez na minha longa vida conjugal). Respondi:

– O que eu vi nela, inicialmente, foi beleza. Esse foi o primeiro motivo por eu ter preferido ela a você. Ela é mais jovem, mais bonita, mais saudável: sempre foi mais saudável, sempre cuidou mais de si. E mais de mim, também. Ela sempre me tratou muito melhor do que você. Ela me deu todos os carinhos que você não me deu e me beijou todos os beijos de que você se esqueceu. Ela é melhor na cama, também. No início, você era boa; depois, ficou meia-boca; posteriormente, ruim e, por fim, inexistente. Com ela, nunca dormi insatisfeito. Além de todas as proficuidades do corpo, ela tem vantagens quanto ao espírito. Enquanto você me enche o saco com banalidades do cotidiano, ela sabe como ninguém retirar do mesmo dia-a-dia fontes de singelas felicidades rotineiras. Por fim, mas não menos importante: cansei da sua burrice. Sem hipocrisia: só é hipócrita quem teme o futuro e nós não temos mais futuro juntos, você já está para morrer. Não vou mais fingir um relativismo inventado, dizer que existem várias formas de inteligência etc. Não: você não é inteligente nem se esforça para ser. Você não tem o mínimo de cultura. E dane-se se isso parece piegas, mas não posso deixar de preferir ela, leitora de Thomas Mann, a você, leitora de Caras.

Eu ia citar mais coisas, dizer que só não havia ainda me divorciado por inércia, preguiça, conjuntura social, quem sabe para não machucar as crianças, mas achei que já estava bom demais. Ela não me respondeu – coitada, nem podia. Em vez disso, tocou minha mão e olhou nos meus olhos como quem tem algo a dizer, mas não pode ou não quer falar. Seu olhar tinha um brilho úmido, mas nenhuma lágrima escorreu. Era um olhar apaixonado, eu diria. Acho que pela primeira vez me amou. Adormeceu eternamente com um sorriso. Um sorriso que, de alguma forma, eu propiciei.
E, aqui, poderia acabar a história. De fato, quando a relatei a amigos, só falei até essa parte. Entretanto, só recentemente me veio uma forte lembrança, não sei se fruto da idade que começa a me pesar – e, portanto, começo a ver chifre em cabeça de coelho – ou se apenas recalquei essa memória por anos. Ela adormeceu com um sorriso, mas minha nova interpretação daquele gesto labial não é mais a de que ela me amou pela primeira vez. Digo: talvez, tenha me amado, sim, naquele momento, acho que aqueles olhos não enganavam. Mas havia algo além. O riso retorcido não era de alguém apaixonado, mas de alguém que se divertia. Ela morreu feliz, mas possivelmente não por amor, mas por graça – ou, explicando-me: por achar graça de mim. Riu zombando da minha cara. Zombando, sim: era um sorriso zombeteiro, era isso. Agora, por que debochava de mim, não sei. Mas estou convencido de que algo em seus mais íntimos segredos lhe dizia que, por alguma razão que desconheço, eu era adorável – e não detestável, como seria de se supor –, mas, acima de tudo, que eu era um idiota.

8 comentários:

  1. Estava me deliciando com o resgate dele. Coisa de babar de regozijo por alguém, finalmente, ser franco sobre 'pq te traí".
    Eu já traí. Mas não pude exorcizar pq seria mau, seria feio, cruel. Mas eu quereria ser cruel, ser bem má nessa hora, mas não pude.
    Lembrei de Chico, de me perdoa por te trair.
    Pena que logo o teu assunto se desvirtuou e minha catarse ficou no caminho. Como sempre.
    Uma ânsia de tapa na cara escorreu dos meus dedos. Pena que você não me ajudou.

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    1. Hahaha, você achou o fim muito anticlimático?

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    2. Sim! Até pareceu que o anti clímax foi proposital.

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    3. Mais ou menos. A intenção era mais dar uma guinada à história. Mas não posso dizer que não gosto de anticlímax nos meus textos. XD

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  2. tu escreve muito bem, meu caro.

    giovani iemini

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    1. Escreve mesmo! Finalmente achei o blog, mais de um ano depois. Já estou acompanhando!

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