segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Morto

Forte, alto, bronzeado, estava morto. Músculos torneados, cabelos lisos e queimados pelo sol, estava morto. Olhos pretos, barba por fazer, alguns arranhões e cicatrizes, estava morto. Morto, com uma calça jeans rasgada e uma camiseta branca sem manga. Morto, estendido em meio a uma vegetação rasteira, que se movia com o vento que jamais cessava na região. O céu azul, o sol a queimar sua pele mesmo depois de morta. Os insetos o visitavam, pousavam em seu nariz, passeavam por sua boca, deslocavam-se para a sua testa e iam embora. Os mais preguiçosos encontravam abrigo na concavidade dos músculos de seus braços. Uma chuva fina começava a cair, de repente, e logo o sol furava a negritude das nuvens e alcançava novamente o corpo no chão. Mais uma vez, chovia. Agora, o sol, incapaz de uma nova vitória contra as nuvens cinzentas, via a garoa virar tempestade. Ele, morto, desconhecia o número de raios que subitamente caíam na região onde estava seu corpo. Anoitecia. A chuva cessava, mas a noite não tinha luar, a escuridão era plena. Seu rosto, reconhecidamente moreno, tornava-se já levemente pálido, decorridos alguns dias. Silêncio, não havia jamais, porque o vento roçava nas folhas das árvores com o mesmo farfalhar com que os besouros  rasavam no mato em uma dança violenta. Meio-dia. O sol só cega quem enxerga, mas ele está morto. Da chuva que caiu nas últimas noites, não restaram marcas no céu azul, mas sim no chão  algumas poças de água que serviam de bebedouro para pássaros sedentos. Mas, logo, chove de novo. A natureza, indiferente ao falecido, dava alguns espetáculos, como o arco-íris que se formava fruto das constantes alternâncias entre sol e chuva. Ele não vê, pois está morto. Não há muitos animais carnívoros por perto, porém ele não tem sorte, pois já morreu. Além disso, as próprias bactérias já pareciam estar fazendo seu trabalho. Diz-se que um corpo ao ar livre leva de duas a seis semanas para sofrer decomposição, o que não deve tardar, dado o inchaço que já se faz visível. Urubus o visitam. Sangue, não há, nunca houve. Fedor, tampouco: o vento arejava. A cada fim de chuva, os pássaros cantavam mais alto, parecendo comemorar não se sabe se o fato de ter chovido ou o término da precipitação. Dez dias e dez noites já se passaram. Morto, não viu as borboletas brincarem ao redor de seu corpo que já beirava o irreconhecível. O tempo passa. Meia-noite. O planeta inicia mais uma rotação.

2 comentários:

  1. Marcelo, terminou aí, creio que está faltando mais alguma coisa. Pense e escreva, estou no aguardo

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    1. Por enquanto, a narração termina aí mesmo. Pode haver uma continuação, mas aí já vai ser outro conto. =)

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