segunda-feira, 21 de setembro de 2015

S de sequestro

Gustavo estava empolgado com seu primeiro dia de trabalho. Passou meses deixando currículo em diversos lugares, chegando a ser chamado para algumas entrevistas, mas sempre sendo eliminado em alguma etapa do processo (na maioria das vezes, na maldita dinâmica de grupos, que costumava premiar os candidatos mais mal educados e mais faladores). Um dia, a sorte mudou. Foi com satisfação que seu telefone tocou, informando-lhe que já poderia começar em uma empresa (que ele nem sabia do que era) no dia seguinte.

Blusa social, perfume, cabelos penteados, rosto barbeado, lá foi ele, jovem universitário, para seu primeiro dia no até então único emprego de sua vida. Foi recebido pela secretária do supervisor, que lhe pediu para esperar um pouco na antessala, pois em breve o chefe faria as honras. De fato, não tardou muito para um senhor empertigado sair de seu gabinete e ir cumprimentar o acanhado novo funcionário:

– Gustavo?
– Sou eu.
– Prazer. Antônio.
– Prazer.

Após o devido aperto de mãos, Antônio guiou Gustavo para o interior do gabinete, onde se sentaram diante de uma mesa oval de reuniões, propícia para mais de trinta pessoas, mas que testemunhava o encontro solitário dos dois.

– Gustavo, inicialmente quero te dizer que é uma honra tê-lo em nossa empresa. Há tempos estamos carentes de um novo funcionário, mas não queríamos contratar o primeiro candidato. Foi necessário um minucioso processo seletivo até chegarmos a alguém que realmente nos agradasse, como é o seu caso. Vejo, pelo seu currículo, que, embora você não tenha experiência, sua formação acadêmica nos pareceu a ideal para a pessoa que buscamos. Vejo que você já está no último semestre da faculdade, o que é ótimo para nós, pois poderemos aliar seus conhecimentos teóricos recém-adquiridos com sua garra e vontade para pô-los em prática instantaneamente. Queremos sangue novo e acreditamos ser uma responsabilidade social de todo empregador abrir as portas para jovens que acabaram de se formar ou que estão em processo de conclusão de curso. E, justamente por não querermos atrapalhar seus estudos, gostaria de estabelecer seu horário de trabalho. Como está sua grade horária na faculdade?
– Só estou fazendo monografia, senhor.
– Portanto, está com o dia livre, pode trabalhar no horário comercial, normalmente. Deixo diante de ti duas opções: 8 às 5, com uma hora de almoço, ou 8 às 6, com duas horas.
– 8 às 5 está bom.
– Ótimo. O salário, você já sabe... Alguma dúvida?
– Só com relação às minhas atribuições.
– Claro. Elas te serão passadas pela Natália, nossa coordenadora. É com ela que você vai ter mais contato. Vamos lá para você conhecer tanto ela quanto as outras pessoas da equipe?

Gustavo aquiesceu e Antônio levantou-se da cadeira, abrindo a porta e deixando o novato sair antes. Caminharam por um longo corredor com carpete, onde se viam várias salas sob placas azuis em que se liam diversas siglas e seus significados: a maioria começando com S, de Seção. Somente em algumas salas – que, para Gustavo, pareciam escolhidas ao acaso –, o chefe parava, abrindo a porta e apresentando o jovem funcionário aos presentes. Sorrisinho aqui, balanço de cabeça ali, aperto de mãos acolá, saíam das salas e voltavam ao corredor, rumo a um novo S.

Seção de Recrutamento, Seção de Pessoal (qual a diferença entre as duas?, Gustavo se perguntou), Seção de Loteamento (que diabos é isso?), Seção de Pagamento, Seção de Marketing e Estratégia, Seção de Comércio, Seção Orçamentária, Copa. Enfim, algo que não era seção, de onde vinha o nostálgico cheiro de cafezinho, que, embora familiar, estava longe de ser o mesmo aroma do café caseiro. Aqui, o odor estava misturado com outro cheiro, talvez o de papéis e arquivos que todo o edifício absorvia.

“Mais um para o bolão do Sportv!”, brincava um empregado da Seção de Infraestrutura; “você que é o novo estagiário?”, perguntava outro, para o qual ele tinha que explicar que não era estagiário, mas funcionário. Foram diversos tapinhas nas costas até chegarem à Natália, a já mencionada coordenadora.

– Bem, Gustavo, vou te deixar aqui com a Natália – disse Antônio –, pois, como já te disse, é com ela que você vai lidar diariamente. Ela agora vai te passar suas tarefas e sua rotina de trabalho. Precisando, é só chamar. Foi um prazer e estou certo de que não vamos nos arrepender da contratação.
– Obrigado – respondeu Gustavo, meio sem saber por que agradecia.
– Olá, Gustavo – disse Natália, com um sorriso que a Gustavo pareceu forçado. Ela saiu andando para o interior de uma sala mais espaçosa que as outras e Gustavo achou por bem segui-la. Andaram uns três minutos em silêncio, ela na frente e ele a acompanhando. Chegaram à Seção de Arquivo.
– Aqui, será seu local de trabalho – disse Natália. Ela ligou o único computador que havia no local, cujo sistema operacional ainda era o obsoleto Windows 98, e abriu algumas planilhas Excel. – Basicamente, sua missão inicial será alimentar essas planilhas. Precisamos digitalizar tudo isso aqui. – Ao redor da caquética máquina, gavetas enferrujadas de arquivos iam quase até o teto. Vou pôr o Vânderson e o Wellington para trabalharem com você. – Gustavo ficou se perguntando se já havia sido apresentado a algum dos dois.

Em seguida, Natália explicou um pouco sobre arquivos correntes, arquivo morto, mas não se aprofundou muito, porque um estudante universitário no último período, obviamente, já sabia disso tudo.

– Alguma dúvida? – perguntou Natália.
– Não. Você pode só me mostrar onde fica o banheiro?
– Sim. No primeiro piso, próximo à porta de entrada, à sua direita.
– Posso ir lá?
– Claro.
– Obrigado.

Em vez de virar à direita, Gustavo ultrapassou a porta de entrada e correu como nunca em sua vida, os cabelos ao vento e a chuva no rosto. Correu não se sabe para onde. Há quem diga que até hoje não voltou.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A brincadeira

Queriam brincar para se livrar do medo. Era uma noite estranha, de lua cheia, mas mal iluminada. As nuvens que ofuscavam o luar desciam até muito baixo, rebentando nas árvores da grande praça. As lâmpadas dos postes apresentavam uma manta de névoa que tornava tudo mais desconfortável. O frio era úmido e, mesmo sem chuva, Isabela podia sentir seus óculos molhados, tendo que enxugá-los constantemente na camisa, que, por sua vez, tampouco se encontrava totalmente seca.

– Mas brincar de quê? – Dalila perguntou.
– Não sei... – Isabela respondeu, em uma voz manhosa e aflita.
– Você não tem nada na sua mochila?
– Só cadernos...

Dalila e Isabela eram irmãs. Dalila, com nove anos, era só um ano mais velha que Isabela. 

– A gente devia voltar para casa – sugeriu Isabela.
– Já é mais de meia-noite. Se acordarmos a mãe agora, ela vai brigar.
– A gente tem que contar a verdade. Temos que dizer que saímos de casa e nos esquecemos de pegar a chave. Não foi culpa nossa. 

Dalila não aceitou a sugestão. Já havia enviado uma mensagem de celular para sua mãe, dizendo que dormiriam na casa de uma colega da escola. Na última vez em que saíram de casa e se esqueceram de levar a chave, ouviram promessas de que apanhariam se isso se repetisse.

– Não quero passar a noite aqui.
– Não seja criança, Isabela. O que a gente tem que fazer é ocupar nossas mentes.

Um uivo se fez ouvir ao fundo.

– Lua cheia... – mencionou Isabela.
– Isso é só um cachorro – respondeu Dalila, fingindo estar convicta.

O vento também uivava, soberano no espaço.

– Pega seu caderno. Vamos brincar de forca – disse Dalila.

Isabela obedeceu, mas não conseguiram levar a brincadeira adiante. O ar úmido e baixo molhava o papel, que se desmanchava ao toque da caneta.

– Está ficando muito frio – disse Dalila. – Temos que brincar de algo que movimente o corpo.

Isabela não respondeu, muito preocupada em tentar acompanhar o dueto entre o uivo do animal e o uivo do vento.

– Por que esses olhos esbugalhados, Isabela? Parece que vai ser atacada a qualquer momento.
– Só estou com frio.
– Por isso que eu disse que temos que brincar de algo que nos aqueça.
– Pique-pega?
– Pique-esconde – propôs Dalila.
– Pique-esconde é chato – disse Isabela, que, na verdade, apenas achava uma péssima ideia se separarem naquele lugar assustador, tanto mais para se esconderem.

O vento já não mais uivava, mas aumentava gradativamente de intensidade. Um redemoinho de folhas secas rodeou as irmãs. Isabela levou as mãos ao rosto, para proteger os olhos da poeira.

– Pique-pega cansa muito – respondeu Dalila. – O jogo tem que esquentar o corpo, mas sem cansar.
– Pique-esconde é chato. Por que tem que ser tudo como você quer?
– Então, vamos brincar uma rodada de pique-esconde e outra de pique-pega. 
– Tá...

Tiraram par ou ímpar para ver quem começaria procurando. Dalila se esconderia primeiro.

– Conta até 30 – disse Dalila.
– Ok... – Isabela fechou os olhos – Um, dois, três...

Ao destapar o rosto, Isabela sentiu uma enorme quantidade de lágrimas vir de uma só vez aos seus olhos. Não tinha mais ninguém por perto e lamentou profundamente ter aceitado aquela brincadeira estúpida. O cenário era apocalíptico, nada se fazia ouvir, com exceção de alguns animais que pareciam pouco amigáveis. A lua tímida se mostrava por trás de algumas nuvens, colorindo-as funestamente.

Isabela começou a andar lentamente, tomando cuidado para não pisar em nenhum formigueiro ou em outros bichos supostamente nocivos. Seu peito tremia, já não se sabe se de medo ou de frio. Sua boca tensionava-se, assim como seus pelos se encrespavam com o farfalhar soturno.

– Dalila! Dalila! – gritou no meio da praça. – Não quero mais brincar!

Ninguém respondeu.

– Dalila! Não te encontro! Você ganhou!

A irmã não apareceu.

Isabela teria mesmo de encontrá-la. Foi só fazer tal constatação e uma cobra se pôs em seu caminho. Isabela parou. Não sabia se havia lido em algum lugar ou se era só o seu instinto, mas pensou ser melhor ficar parada. Mover-se poderia incentivar um ataque do réptil ameaçador, que a encarava, também imóvel, como se uma estivesse à espera do movimento da outra. Queria chamar mais uma vez pela irmã, mas agora achou que nem sequer sons deveria emitir. A cobra virou-se e foi embora, transformando-se em uma sombra humana mais à frente.

"Devo estar imaginando coisas", Isabela pensou. Começou a recapitular por que tinham ido parar naquela praça enorme e sombria. Poderiam esperar o sol raiar em outro ponto da cidade, mas, agora, nada mais parecia fazer sentido, seu coração palpitava. Caminhou mais um pouco, tomando coragem e atravessando um grupo de cinco árvores por onde se adensava a escuridão. Pensou ter visto novas sombras: definitivamente, não estava sozinha. Os uivos voltaram. Um animal em quatro patas se aproximava. A lua encontrou um espaço por entre as nuvens e repentinamente iluminava o local. O quadrúpede já se fazia notar. Isabela correu, o animal veio atrás. Isabela subiu numa árvore, pisando falso em um galho e arranhando o joelho.

– Eu vou morrer nesse lugar... – disse em voz baixa, chorosa. – Não vou sair daqui nunca mais... Vou morrer...

Mas ela saiu, assim que sentiu que tinha se apoiado em algo que parecia uma colmeia. Antes que pudesse provocar maiores reações das abelhas, jogou-se do topo da árvore. No chão, o animal não mais a esperava, o que tomou como imensa sorte. Com a queda, porém, machucou as pernas. Levantou-se com dificuldade, coxeando por entre novas árvores, à procura da irmã. Ouviu risadas humanas ao fundo.

Aproximando-se, viu por trás de árvores uma velha e uma vassoura. Correu em sentido oposto. Os uivos voltaram. Tropeçou. O animal que havia sumido reapareceu em seu encalço. A velha também se aproximava. Isabela ainda conseguiu se levantar, mas, antes que pudesse dar impulso ao seu corpo e retomar a corrida, sentiu um toque em seu ombro.

– Aonde você está indo? – perguntou a pessoa atrás, com uma voz masculina, rouca e assustadora. Sem olhar, Isabela desferiu-lhe uma cotovelada e correu o máximo que pôde. Foi quando ouviu ser chamada nominalmente. Não sabia como poderiam conhecê-la de nome. Nesse momento, por fim, a precipitação que se fazia notar nas nuvens veio abaixo. A chuva, ao menos, lavou o sangue dos seus joelhos. Resolveu andar em direção à voz, tomada, senão por uma súbita coragem, mais por uma humana curiosidade.

A visibilidade já estava muito pior. A voz misteriosa continuava a gritar por seu nome, no círculo central da praça. Aproximou-se, mas não conseguiu dar um passo além da escuridão onde se encontrava. O incentivo veio quando notou que a velha com a vassoura e o animal em quatro patas a seguiam. Junto deles, vinha ainda um exército de sombras humanas portando armas que, na ausência de uma luz que revelasse o contrário, pareciam martelos, machados e facões. Foi nesse momento que Isabela resolveu sair de trás de todas aquelas árvores e adentrar o centro da praça, de onde tinha se separado da irmã e de onde vinha a voz que a chamava.

A praça já estava menos enevoada do que minutos atrás, mas a chuva pesada tornava a visibilidade ainda pior. Precisava caminhar um pouco mais para dar forma à sombra da pessoa que ali estava, à espera de Isabela. Percebeu pela silhueta no chão que se tratava de uma mulher e que ela tinha uma arma de fogo apontada em sua direção.

– Por que vai me matar? – Isabela perguntou, chorando.
– Ela não vai te matar. Ela disse que não faz mal a gente ter esquecido a chave – respondeu Dalila, com o celular, não um revólver, estendido em direção a Isabela. – Liga para ela porque ela quer falar contigo.

Quando Isabela pegou o celular, viu o horário.

– Ainda são 8 da noite, Dalila.
– Pois é... Parece que perdemos um pouco a noção do tempo. Vamos embora.

Saíram da praça e foram caminhando para casa. No caminho, percebiam-se os cachorros de rua, o gari cabeludo que varre o passeio público e as sombras de todos os trabalhadores saindo do trem e regressando aos seus lares, com guarda-chuvas nas mãos.

– A propósito, te procurei por um bom tempo e não te encontrei – disse Dalila, irritada. – Você sempre rouba! Era a minha vez de me esconder! Você tinha era que procurar! Onde você estava, afinal?

Isabela não respondeu, porque estava passando pelo vendedor de amendoim e não queria ser notada por ele, que se contorcia e reclamava de ter tomado uma cotovelada nem sabia de quem.