segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Um mau dia

1

– Puta que pariu! – foram as primeiras palavras do dia de Getúlio. O celular tremia em sua mão, tamanha a raiva que sentia, fazendo com que simulasse arremessá-lo pela janela (felizmente, ficou só na ameaça). Levantou da cama irritadíssimo, jurando que abandonaria para sempre esse hábito de checar seus e-mails assim que acordasse: isso nunca lhe fazia bem. Tomou banho xingando, amarrotou a blusa social enquanto a vestia, arrombou o sapato colocando-o com a máxima violência nos pés. – Puta que pariu!

Desceu a escada bufando, dirigindo-se rumo à cozinha, cômodo que o conduziria para fora de casa e onde o filho de Getúlio preparava-lhe o café da manhã.

– Não quero essa merda! Você já está arrumado?

O garoto respondeu que sim. Tinha pouco menos de dez anos de idade e o incomum costume de acordar mais cedo que o pai e preparar sucrilhos para ele, a fim de proporcionar-lhe alguns minutos a mais de sono. Todos achavam esse hábito, além de raríssimo para a idade, “muito fofo”, como falavam as amigas de Getúlio, e ele mesmo se admirava com o carinho dessa rotina de seu filho, mas nesse dia a irritação era maior.

– Vem logo para o carro! Vamos embora!

O garoto foi calado para o banco de carona: o pai o deixa todos os dias na escola antes de ir para o trabalho. Só quando se puseram em movimento (com uma audível cantada de pneu), o menino perguntou o porquê do mau humor.

– Mandei e-mail para um amigo – o pai falou – e o idiota me respondeu dizendo: “Te respondo em breve”. Puta que pariu!

O garoto sorriu, mas o pai prosseguiu, como se o filho não tivesse entendido o motivo da irritação:

– Por que o imbecil me mandou isso? Se ia me responder depois, que esperasse, oras! Mas que caralho!

O filho não verbalizou seus pensamentos: 1) Nunca tinha visto o pai falar palavrões na sua frente; 2) o pai já estava estressado com outras coisas: só o e-mail não era motivo suficiente; 3) foi um e-mail engraçado.

No percurso, ao diminuir a velocidade diante da via preferencial, ouviu uma buzinada do carro de trás. Foi o estopim. Em vez de simplesmente reduzir a marcha, freou por completo. Abriu a porta, desceu do carro e seguiu rumo ao veículo de trás. O filho ficou no carro, assustado, seguindo com os olhos os passos do pai, que caminhava violentamente. O condutor de trás, visivelmente alarmado, tentou fechar seu vidro, mas, antes que conseguisse, Getúlio o impediu, pondo a mão na janela com o máximo de força que pôde.

– Está buzinando por quê, seu retardado?

O motorista era já um senhor, que não conseguia falar nada.

– Muito macho para enfiar a mão na buzina, mas, agora, não consegue falar nada, né? Seu monte de merda! – E seguiram-se vários xingamentos e palavrões, deixando trêmulo o maxilar já frouxo do velho. – Enfia a buzina no seu cu!

Quando Getúlio, por fim, cansou-se e deu-se por satisfeito, o velho conseguiu responder:

– O senhor não tem educação.

Dada a resposta, o velho girou o volante e arrancou com o carro, deixando Getúlio parado no meio da rua, a alguns passos de seu próprio carro. Poderia ter impedido a partida do velho, mas a última frase deixou-o sem reação. “O senhor não tem educação”: isso nem sequer é um xingamento. É pior do que “você é um bobo”. Não mantinha o nível do desbocado diálogo, em que Getúlio xingava o velho com nomes desprovidos de qualquer vínculo com a realidade. O que é um filho da puta? Não é nada! Um “vai tomar no cu” ou, usando as palavras de Getúlio, “enfia a buzina no seu cu”, não tem nenhum significado. Porém, ao ouvir que não tinha educação, Getúlio viu-se diante de uma denúncia, embora branda, diretamente acusatória, pensada, constituída de sentido.
Voltou para o carro, tonto, e, sem encarar o filho, engatou a primeira marcha e seguiu adiante.
– Um palhaço, não é? – disse Getúlio ao filho, referindo-se ao velho. De novo, utilizou uma ofensa sem nenhuma acepção. O silêncio do garoto foi incriminador, o que piorou ainda mais o estado de espírito de Getúlio. Não é que se visse como um modelo para o filho, mas o que o incomodava era estar errado e, aí, o juiz poderia ser qualquer um: era apenas uma coincidência o fato de a testemunha ser seu próprio filho.

Ao deixar o garoto na escola, este desceu do carro sem falar nada. Getúlio, transtornado com a situação, já dirigia de volta para o trabalho, quando se deu conta de que não poderia deixar a situação daquele jeito. Era pai daquele garoto: não podia permitir que o filho lhe dissesse – embora ele não tenha dito nada – o que é certo e o que é errado. Pegou o primeiro retorno e voltou para o colégio.
Sua raiva crescia segundo a segundo, dirigia como um louco. Não podia permitir que um fedelho descesse do carro sem se despedir do próprio pai. Se fosse um frouxo agora na criação do filho, perderia para sempre as rédeas da educação do garoto. Ao pensar na palavra “educação”, lembrou-se do velho e um frio enraivecido percorreu-lhe o estômago.

Chegando à escola, percebeu que o portão já estava fechado. Começou a bater como um maluco. A inspetora veio ver o que ocasionava tal escândalo. Percebendo Getúlio na rua, perguntou-lhe se sabia quem estava a dar pancadas no portão. Nem cogitou que pudesse ser o próprio Getúlio, sujeito pacato, bem educado (ao contrário do que dissera o velho), culto, dedicado, sempre presente nas reuniões de pais, responsável por criar (e muito bem) sozinho seu filho, depois que a mãe do menino morreu no parto... Getúlio era uma ótima pessoa: qualquer um que o conhecesse em outro dia concordaria com isso. Dotado sempre de um largo sorriso, não era propriamente bonito, mas cativante. Seus quarenta e cinco anos caíam-lhe muito bem, dando-lhe um aspecto de experiente solteirão, com barbas e cabelos que nem sequer flertavam com o grisalho. Naquele dia, porém, estava irreconhecível.

– Eu estava batendo no portão! – respondeu Getúlio, em tom ameaçador.
– O senhor? – perguntou a inspetora, desconcertada. – Algo de urgente?
– Quero ver meu filho!
– As aulas já começaram, senhor. Posso transmitir algum recado?

Repito que todos gostavam de Getúlio. Se ele insistisse apenas um pouco, a inspetora permitiria que ele entrasse em sala de aula. Mas ele não estava preparado para uma negativa.
2

As matérias na TV seguem um arquétipo. Toda notícia de determinado tema é informada de acordo com esse ou aquele modelo. Quem nunca viu notícias de homicídios, em que amigos e conhecidos do assassino declaram não saberem como aquilo foi acontecer, que o sujeito era boa praça, recatado, trabalhador etc.?
Getúlio virou manchete, cujo padrão não se modificou.

2 comentários:

  1. Oi. Te li por causa do seu bilhete na Casa da Pamonha.

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    1. Uow! Que legal, cara! E que saudade da Casa da Pamonha, hahaha!
      Leu e gostou? =)

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