quinta-feira, 23 de julho de 2015

O um lugar

Devido à timidez do mundo em mostrar-se aos olhos do homem, este, assim entendido como unidade da grande espécie humana e não como humanidade em geral, a fim de cumprir desígnio de Deus, teve de desbravar as cidades e romper as fronteiras mais inimagináveis do que outrora se chamavam áreas inexploradas, para encontrar um lugar, o lugar, o um lugar.

Disse-lhe Deus que, cansado da presunçosa criatividade humana, que desafiou seu criador, não cessando em modificar a Terra, obra divina que, por si só, já se encontrava acabada, ele, Deus, desfaria o planeta, destruiria sua própria arte, com exceção do um lugar, para o qual seriam enviados os bilhões de pessoas que habitam os países. Em outras palavras, Deus determinava que o Homem, este, sim, entendido como humanidade, não desapareceria, mas ao contrário: viveria para presenciar a destruição de seu antigo habitat, para envergonhar-se de sua insensatez ao desafiar os poderes do Imperador do Universo, com desmedidas alterações nos quatro cantos da Mãe Terra.

O homem, pequeno, assustado com a tarefa que determinaria o futuro do Homem, grandioso, dizia-se incapaz de realizar o intento do Pai, enfurecendo-o ainda mais, pois Ele, que conhecia os pensamentos do subordinado, irritava-se não com o esboço de rebeldia, mas com a razão que a causava, isto é: a sensação de pequenez do homem diante do Homem e não perante Deus, cujo simples suspiro já é maior que toda a humanidade. A fúria divina gerou uma série de catástrofes por todo o planeta, mostrando ao homem que este não tinha escolha a não ser acatar a determinação de seu Pai, que sua desobediência causaria muito mais sofrimento aos seus ditos irmãos do que o pior lugar que pudesse escolher para abrigar a espécie humana.

Deus, terrível, impiedoso, deleitava-se com a perspectiva de ver o Homem, os homens, todos espremidos, em um cubículo de terra, lamentando o grandioso espaço externo por eles próprios destruído, isto porque, embora fosse Ele aquele que daria fim a quase todo o planeta, estava certo de que assim o faria porque, anteriormente, os humanos, sem prévia autorização, tanto o haviam modificado que, agora, ele já se tinha tornado irreconhecível. 

Nem a mais vil e mimada das crianças agiria tão cruelmente, mas fato é que o homem, por fim, conformou-se em desbravar as cidades, de leste a oeste e de norte a sul do mundo, para encontrar o abrigo para seus irmãos. Os locais eram visitados por mais de uma vez, a fim de se conhecerem todas as suas estações e variações climáticas, e o homem deveria ter em mente que qualquer lugar poderia ser o eleito, desde que não ultrapassasse a tantos quilômetros quadrados, pois Deus se mostrava irredutível em sua determinação de espremer a espécie humana em um cárcere não demasiadamente espaçoso.

O homem levou anos até anunciar sua escolha, gerando ansiosa irritação por parte do Pai, que cria estar seu subordinado ganhando tempo, procrastinando indefinidamente uma decisão que, por mais que não pudesse ser rápida e levianamente promulgada, tampouco era passível de quase uma década de infinitas pesquisas. Pois então, o homem, dadas as desculpas pelo longo tempo transcorrido, noticiou a Deus que já havia escolhido o um lugar. Por mais irônico que parecesse, mesmo tendo o homem percorrido os quatro cantos do planeta, esse local era sua própria casa. Terra de solo moreno, montanhas curvas, vegetação rasteira, águas doces e salgadas, clima e odor que, mesmo no inverno, nunca deixavam de ser, respectivamente, quente e primaveril, tratando-se do lugar perfeito para o homem.

Deus assentiu e, naquele momento, destruiu em grandes lavas o que outrora era Terra, com exceção do um lugar, guiando todas as pessoas, sôfregas, desesperadas, para o Eldorado encontrado por aquele sujeito. Acontece que este, sabedor da joia que tinha consigo, maravilhado com seu um lugar, aquele que para mais nenhuma pessoa poderia ser casa, mas só para ele próprio, trancou a porta de acesso ao local, não permitindo que ninguém ali entrasse. Agora, sua casa não era só casa, mas era mundo. E Deus, atônito, viu seu vingativo plano fracassar e não apenas o mundo ser destruído, mas também os homens que o habitavam, exceções feitas àquela maravilhosa porção de terra e ao homem que ali residia.

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