segunda-feira, 8 de junho de 2015

O dia dos namorados literário

Durante milênios, escritores e pensadores declamaram o amor. Ah, se esses poetas soubessem que estavam fadados a virar citações de Facebook!


Com o dia dos namorados, já sabemos que veremos nas redes sociais citações e mais citações, verdadeiras ou não, de vários escritores. Nelas, leremos as definições de amor dos pobres autores que morreram e não estão mais aqui para se defender. O amor, que sempre esteve na ponta dos dedos dos romancistas, adquiriu inúmeras facetas ao longo dos anos. Como dizer que Dom Quixote amou Dulcineia da mesma forma que Bentinho amou Capitu? Mas as pessoas insistem em postar no Facebook que o amor é... O amor é nada. O amor é um nome que damos a algo que sentimos e não sabemos o que é nem se é parecido com o que o outro sente. Quando você diz para sua namorada que a ama e ela diz que também te ama, cada um está pensando em uma coisa diferente, assim como estão todos aqueles que vociferam esse nobre sentimento. O ser humano é essencialmente solitário porque nunca conseguirá se expressar com a precisão necessária para se fazer entender completamente. Lily, protagonista do estupendo “Travesuras de la niña mala”, do peruano Vargas Llosa, amava seu “niño bueno”, que, por sua vez, amava Lily, e um sentimento era totalmente distinto do outro. Imagine se a Lucíola de José de Alencar compartilharia do amor que a Gabriela do Jorge Amado tinha por Nacib. Ou pior: pense no que era o amor para Bukowski, Dostoiévski e Camilo Castelo Branco. Tudo amor. Tudo reduzido a um nome, quatro letras, algumas frases no Facebook e pronto: Clarice Lispector acabou de ter uma convulsão em seu túmulo.

Talvez, o correto não seja dizer que o amor é nada. Vai ver o amor é tudo. Ou, quem sabe, o amor é alguma coisa. É algo que a gente acha que sente, mas vai ver ninguém sente nada porque você não sabe o que eu sinto nem eu sei o que meu vizinho sente. Aliás, estou aqui a falar sobre o amor de Capitu sem a menor pretensão de achar que sei o que se passava pela cabeça de Machado quando escreveu o romance. Eu não sei nada do que é o amor para Machado e ele não apenas não sabe nada sobre o que é o amor para outra pessoa como nem mesmo sabe o que é o amor para a própria Capitu, que, mais que uma personagem, ganhou vida e virou alguma coisa que eu também não sei o que é.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias, em junho de 2015.

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