quinta-feira, 18 de junho de 2015

Agonia na sala de espera

Eu estava na sala de espera, meia hora adiantado para um médico que tradicionalmente se atrasava. Minha ansiedade não me permitia ficar em casa, esperar mais. Segurava entre as mãos frias um exame que dizia se eu estava ou não com uma doença terminal (cujo nome não importa), mas eu não conseguia interpretá-lo, precisava esperar pelas palavras de um profissional, o veredito sobre a minha vida (ou a minha morte, como preferirem).
Por mais que eu esfregasse as mãos, elas continuavam gélidas, transpirando um suor frio. Na TV da recepção, um programa matutino, desses para donas de casa, com uma receita qualquer de comida. O tom da voz da apresentadora era irritante e todos os envolvidos (tinha uns convidados, me parece) riam. Em todos os rostos, havia um sorriso devastador, como se zombassem de mim, a quilômetros de distância, que esperava impacientemente pelas palavras finais do médico: você viverá, você morrerá.

Levantei-me, fui ao banheiro, mesmo sem vontade. Encarei o vaso por alguns minutos, não mijei. Suspendi as calças de novo. O que eu não queria era ficar sentado, vendo uma mulher na TV fazendo bolo. Olhei-me no espelho: velho. Cabelos, tinha poucos; rugas, tinha muitas. Barba rasa, olhos caídos, pescoço flácido. O que eu queria? Viver para quê? Era óbvio que a morte estava próxima. Se não fosse por essa doença, seria por outra. Ainda que não fosse por intermédio dessa enfermidade, eu, obviamente, não viveria mais que alguns anos. Eu estava mesmo velho. Alguém na minha idade pode se dar ao luxo de temer a morte?

Voltei para a recepção, sentei-me em uma cadeira mais distante da TV, de modo que apenas o odioso áudio chegava a mim, não a imagem (porque, se uma TV está em frente a ti, ainda que você não a queira ver, seus olhos não desgrudam da tela). Comecei a travar diálogos mentais. Eu tinha que me preparar para o pior. Eu morreria, eu estava doente, esses sintomas que eu vinha sentindo não podiam ser outra coisa que não essa temível doença. Eu morreria, e daí? O que eu tinha a perder? Minha vida não era mais nada. Todas as pessoas que eu já amei morreram. Todas já se foram, uma atrás da outra, cada uma por um motivo, todas me abandonaram. Hoje, só amo fotos. Amo porta-retratos. Quem sabe, depois da morte, não encontre todas essas pessoas de novo? A morte pode ser boa e eu estou a temê-la. Por quê?

Elucubrações, enganações. Eu queria era viver! Eu queria muito viver!

Se eu pudesse, se eu nascesse de novo, faria tudo diferente. Não por me arrepender de ter feito o que fiz, mas para experimentar coisas novas. A cada dia, uma porta se fecha na nossa vida. Quando você escolhe um caminho, vários outros ficam para trás. Ah, como eu queria ser criança de novo! Não porque é uma fase áurea, na qual estamos livres de preocupações; não, nada dessas baboseiras que as pessoas falam. Eu queria ser criança simplesmente para poder ter todos os caminhos ao meu alcance novamente. Eu faria teatro, cursaria pintura, aprenderia violino, investiria na Bolsa de Valores. Sim, investiria mesmo. Um dia uma economista noticiava na TV que, de acordo com uma das muitas pesquisas estúpidas que se fazem nessa vida, os jovens têm a pior educação financeira do país. Não sei os critérios que usaram para avaliar uma coisa dessas, mas o que me marcou foi o óbvio comentário da tal economista: “Uma pena, porque os jovens têm o bem mais precioso para investir: o tempo”. Claro, é isso mesmo. Eu, aqui, com meus setenta e tantos anos, vou investir o quê? Nem se eu fosse um bilionário.

Pensei, pensei e nada de o médico me chamar! Já estava com vontade de chorar. Tem choro de felicidade, choro de tristeza, choro de raiva, o meu seria de ansiedade. Que agonia! Eu queria essa resposta logo! Eu queria viver, eu queria viver, eu queria muito viver, ainda que não pudesse investir na Bolsa nem cursar violino, pintura e teatro. Eu queria viver, quem eu quero enganar? Que papo é esse de que todos que eu amo já morreram? Já morreram, sim, mas eu estava vivo! E queria continuar vivo! Por favor, doutor, não me diga que vou morrer. Se o senhor me disser uma atrocidade dessas, posso não reagir bem. Posso me encolher no canto do seu consultório e nunca mais sair de lá. Eu quero que o senhor saiba que já tem duas semanas que fiz esse exame e, se só agora trouxe o resultado, foi porque o senhor não tinha horário vago. Mas foram duas semanas infernais! As piores semanas da minha vida! Não me aguento mais, justamente porque eu quero viver!

Como é engraçado: as piores semanas da minha história foram justamente as semanas que antecederam uma suposta descoberta de que eu morreria. Ou seja, não apenas a morte me tira a vida propriamente dita como, de bônus, ainda me tira duas semanas da própria vida que de mim já será tirada!

“Senhor Fulano, favor comparecer ao consultório 6.”

Sou eu! Chegou a hora! Onde fica o consultório 6? Mas que diabo, onde fica isso? Quero ir logo ao consultório 6, mas não sei onde isso fica! Vou à recepcionista e pergunto. 

– No fim do corredor, à sua direita – me responde a mocinha. Eu já tinha virado as costas, apressadamente, quando ela me disse: – Vê se escreve esse conto com um final feliz.

– Como é que é? – perguntei, a cabeça virada para ela e os pés querendo ir logo ao consultório.

– É isso mesmo – ela respondeu. – Já estou farta dos seus contos com finais trágicos. Não leio nada para me sentir mal. Leio para ficar feliz. Se for escrever que vai morrer, nem escreva. Vá ao consultório 6 e escreva que o doutor disse que o senhor ainda vai viver muito mais!

Abanei a cabeça, positiva e obedientemente. Eu nunca tinha pensado que meus contos fossem tristes. Não é verdade isso, aquela mocinha foi muito injusta. Tenho vários textos com finais felizes! Por que fui tão complacente com ela? Por que não a mandei ao inferno? Será que foi só por causa da minha pressa de ir logo ver o doutor?

Entrando no consultório, dei meus exames ao médico antes mesmo de cumprimentá-lo. O maldito, com toda a calma do mundo, pegou os óculos, que estavam apoiados na camisa, prendeu-os atrás das orelhas, lentamente, segurou o exame, em câmera lenta, leu cada linha do diagnóstico... Pareceu-me que esse processo todo levou cinco horas! Dada hora, ele disse:

– Muito bem... – Estremeci-me por completo. – O senhor não tem nada.

Gritei com força, exultante! Perguntei de novo, para me certificar de que tinha ouvido corretamente:

– Não tenho nada? Nenhuma doença? Vou viver? É isso?

Ele respondeu afirmativamente. Caí no ridículo de beijar suas mãos, saí pulando do consultório, passei pela recepcionista e falei:

– Meu conto tem um final feliz! Um final feliz!

– Até que enfim! – ela me respondeu, rindo.

Saí da clínica mais leve do que nunca. Velho como estava, podia saltar mais alto do que com meus vinte anos. O alívio é o melhor sentimento que existe. Não é a felicidade: é o alívio! Comecei a dançar sozinho na rua, a rir como um doido, gritava como um louco, para qualquer transeunte:

– Eu vou viver! Eu vou viver!

Eu queria mesmo era fazer uma festa, mas, como dito, todo mundo morreu, ninguém iria a festa nenhuma. Tudo bem, caminhei até a minha casa, em vez de pegar um ônibus, andando e bailando, cantando, sozinho, sentindo-me um Chaplin renascido. Eu viveria! Eu vivia!

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