quinta-feira, 21 de maio de 2015

Refeitura do que não pode ser refeito

Ontem, bati o carro. Bati feio, por sorte não me aconteceu nada grave, só algumas escoriações. O que lamento mesmo é o estado em que o automóvel ficou. Destruído, perda total, nem seguro tinha. A culpa foi minha; ainda vou ter que pagar o conserto do outro veículo. Felizmente, com o outro motorista, tampouco ocorreram maiores danos. Isso, sim, foi sorte: nenhum dos dois ferido! Foi uma batida frontal, o tipo de colisão que mais mata no trânsito. Eu estava numa via de uma só faixa, forcei uma ultrapassagem pela contramão, calculei mal a distância para o carro que vinha em sentido contrário e pronto! Dois carros destruídos, mas duas vidas preservadas. É nisso que quero pensar. Eu sobrevivi. O outro sobreviveu. Eu poderia estar morto, agora. Ou poderia estar vivo, mas com o peso de ser um assassino. Ambos sobrevivemos. Agora, como vou arcar com esse prejuízo financeiro, isso eu não sei. Mas o mais importante é a vida.

Eu não era para ter feito aquela ultrapassagem idiota. Não tem nem 24 horas desde que bati. Se eu pudesse voltar no tempo… Voltar um dia, um dia exato. Seriam criadas duas realidades paralelas? Eu só queria voltar 24 horas… Era óbvio que eu ia bater, que erro estúpido de cálculo! Era um caminhão que estava à minha frente. Se fosse outro carro normal, eu o ultrapassaria, tranquilamente, mas um caminhão, um veículo comprido daqueles… Era evidente que não daria tempo. A colisão foi forte, não sei como não morri, muita sorte. Nem matei ninguém.

O caminhão estava a 50 por hora, nem estava tão lento. Não era autoestrada nem nada. Eu poderia ter ficado atrás dele. Digamos que eu o tivesse ultrapassado: o que teria conseguido? Teria conquistado quantos míseros segundos? Eu já ia virar em duas esquinas. Poderia ter ficado atrás da merda do caminhão! Que estupidez!

Isso foi só um pesadelo. Eu acordo e meu carro está estacionado, intacto. Nada disso aconteceu. Não, isso seria querer demais, não tem como desfazer a besteira que eu fiz. O que seria mais plausível: ele me liga, o outro condutor. Diz-me que eu não preciso me preocupar, que ele não vai me cobrar o conserto de seu carro. Pede desculpas por ter sido grosseiro comigo após o acidente, estava de cabeça quente, espera que eu o compreenda. Eu compreendo, sim, digo que eu é que peço desculpas e o agradeço imensamente pelo perdão da dívida. Mas o telefone não toca, ele não me liga para me perdoar, afinal.

Bate-me um sono fora de hora, fruto de um nervosismo paradoxal, que me agita, mas que também me deixa sonolento. A vontade é de dormir para esquecer a vida. Durmo, mas não mais que uma soneca. Acordo com o coração super palpitante, barulhento, um formigamento na altura dos ombros, uma dor de barriga esquisita. Ansioso, preciso resolver logo isso. Levanto-me da cama. Ele me liga, pede desculpas pela grosseria, perdoa-me a dívida. Tenho que resolver logo isso, mas como? Não tenho dinheiro, não posso fazer nada no momento, só me resta esperar pela resposta do meu pai, que ficou de me emprestar uma grana. O outro não liga, afinal, e, se ligar, não vai ser para me perdoar, mas, ao contrário, para me cobrar! Filho da puta! 

Ando pela casa, olho a garagem pela janela de minha sala. Meu carro não está lá, mas imagino que esteja. Intacto, não houve batida nenhuma. De novo, os olhos pesam, uma vontade não de dormir, mas de morrer temporariamente. Preciso do carro para o trabalho, não sei como meu chefe vai reagir à notícia, que ainda não tive coragem de contar. Ao menos, não me machuquei. É o que importa, não é? Nem matei ninguém. O outro motorista não me liga, mas meu chefe me liga. "Fiquei sabendo que você se acidentou no trânsito, espero que esteja bem. Já que agora você está sem carro, vou te dar um aumento, como recompensa pelos gastos que você vai ter". Claro! Sonha mesmo!

Que estupidez aquela ultrapassagem! Por quê? Quis economizar dez segundos e perdi sei lá quanto! Pelo menos, não a vida. Sono. O outro motorista me liga, perdoou minha dívida. Sono. Coração disparado. Eu encontro 20 mil reais na rua. Meu carro não está destruído. O caminhão está à minha frente, mas eu espero. Chego até a diminuir a velocidade. 40 por hora. Viro em segurança à direita e me desvencilho da companhia indesejada daquele enorme veículo. O outro condutor me telefona, "não esquenta com a dívida, acontece com qualquer um". Meu chefe me liga. Vai me dar um reajuste salarial. Faz 23 horas desde que bati. Consigo voltar um dia, através de uma máquina do tempo, coisa inovadora. Maluquice. O outro motorista me liga: isso, sim, é plausível. Não é não. Pelo menos, não morri nem matei ninguém.

Estou dirigindo, pela centésima vez no mesmo lugar, pela centésima vez atrás do caminhão, pela centésima vez querendo ultrapassá-lo, mas permanecendo onde estou, pois, assim, não bato. Mas bati. Na vida real, fora dos meus pensamentos, eu bati. Vou ter que pagar essa merda. Meu pai não me liga, para dizer quanto ele conseguiu para me emprestar. Sono. Mas dormir, não dá. Não dá para dormir de verdade, uma noite inteira. Meu chefe me liga, o outro motorista me liga, merda de vida que não tem retorno. Pelo menos, estou vivo. É um aprendizado, tudo é um aprendizado, né? Deus me protegeu: estou vivo e não matei ninguém. Nada disso aconteceu, meu carro está inteiro, estacionado aqui em casa. Meu pai me liga, dizendo que conseguiu uma bolada não para me emprestar, mas para me dar! O outro motorista me telefona, falando que não preciso me preocupar em pagá-lo. Meu chefe me procura, vou ter um aumento. O carro não bateu. Estou novamente atrás do caminhão. O outro veículo, que bateria em mim, agora passa em sentido contrário com segurança, pois eu nunca saí de trás do caminhão. Meu chefe, meu pai e o outro motorista me ligam. Estou atrás do caminhão. Sono. A vida é uma merda de uma linha que não volta. Sono. Pelo menos, estou vivo.

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