quarta-feira, 22 de abril de 2015

Terapia de um moribundo

Por que vocês sempre perguntam como foi nossa infância? Confesso que isso me dá nos nervos, mas longe de mim querer questionar seu trabalho... Minha infância foi boa. Normal, eu acho. É engraçado: não tive nenhum fato marcante nessa época... Meus pais nunca se separaram, não morreu nenhum ente querido, nenhuma namorada ou amigo mais significativos... Mas as memórias mais expressivas que tenho da minha vida são de quando eu era criança. Não são nada de mais, doutor, são coisas do dia-a-dia, mas que, se acontecessem (como certamente aconteceram) depois que virei adulto, não me marcariam tanto. O quê? Difícil exemplificar, mas vejamos: um dia comprei uma coca-cola com cachorro-quente na cantina da escola. Não era normal, porque normalmente eu comprava joelho, não cachorro-quente. Que importância tem isso? Absolutamente nenhuma. Mas pronto, me marcou.

É muito estranho visitar um lugar em que você viveu e do qual saiu há muito tempo. Acho que há poucas emoções similares, o senhor não acha? Digo isso porque o senhor perguntou sobre a minha infância e veja que coincidência: estive, semana passada, na cidade onde nasci, agora a trabalho. Lá se iam trinta e seis anos sem pisar ali. Quantas coisas mudaram, quantas permanecem as mesmas! Mas não imaginava que ia sentir o que senti quando passei pela escola onde estudei, pelas ruas onde brinquei, pelos becos onde namorei, pela padaria – que agora é uma igreja – aonde eu ia toda manhã comprar pão para os meus pais... E passar em frente à minha casa, imagine o senhor! Chorei um bocado, vou confessar. Sei lá por quê, não sei mesmo. Como disse, minha infância não teve nada de mais, não sei por que me senti assim. E tampouco eu me sentia saudoso quanto àquela cidade. Pouco depois de eu sair de casa, meus pais também se mudaram, meus principais amigos também... Eu não tinha mais o menor vínculo com aquele lugar. Ou pensava não ter, né? Sabe o que é pior, doutor? Chorei por uma casa que nem de longe lembrava a que eu morei. Os muros foram pintados, o salão da frente deu lugar a uma garagem, as janelas de madeira são agora de vidro, a atmosfera da casa está mesmo muito diferente... Mas chorei, vai entender?

Como estou sendo sincero, vou contar ao senhor. Eu toquei a campainha lá. Quem me atendeu foi um garoto de uns dez ou onze anos. Perguntei seu nome, quando haviam se mudado, fiz uma série de questionamentos que amedrontou o coitado... Ele voltou correndo para dentro e eu saí de lá, antes que os pais ou algum adulto viessem tomar satisfações. Fui covarde mesmo. Hoje, essa recomendação que as mães dão aos filhos, de não falarem com estranhos, me parece esquisita demais. Não sei se era costume da época ou se foi coisa só dos meus pais, mas eles me diziam justamente o contrário: para falar com as pessoas, procurar ajudá-las, ser bondoso etc. Se eu escuto alguém perguntando informação na rua para um terceiro e este não sabe responder, eu interrompo, eu me meto na conversa, eu tento ajudar. Mas, se o mesmo acontecer com um garoto que foi aconselhado a não falar com estranhos, provavelmente ele vai ignorar mesmo se a pergunta for feita diretamente a ele.

Acho que me tocou também o fato de aquele garoto me lembrar meu irmão. Fisicamente só. O jeito de falar – ou de não falar – era outro. Tenho saudades do meu irmão, doutor, mas foi Deus quem o levou há uns dois anos. Junto com ele, foram-se também outros amigos. Na mesma época, ou seja, entre meus 50 e 60 anos. É assim mesmo, né? A vida tem seus ciclos de morte. Como eu já falei, durante a minha infância, não morreu ninguém que eu estimasse muito. Na verdade, até os meus 25 anos, não morreu ninguém que eu conhecesse, independentemente de estimar ou não. Engraçado, né? Meu primeiro contato com a morte foi muito tardio. Foi mesmo aos 25 que o pai de um grande amigo meu morreu. Doeu em mim também. Ele fazia grandes almoços aos domingos e sempre me convidava, junto com toda a sua família, como se eu também fosse parte dela. Era um falatório, uma fartura de comida: família de italianos reunida no domingo, o senhor sabe... Nessa mesma época, morreram vários pais de amigos... Acho que, até os 30 anos, ou os pais ou as mães dos meus principais amigos já haviam morrido. Nos meus 31, foi minha mãe que me deixou... Aos 34, meu pai... Aos 35, todos os pais de todos os amigos... Foram dez anos – dos meus 25 aos meus 35 anos – sepultando entes queridos, meus e de amigos.

Depois disso, passou um tempo sem que ninguém morresse. Aí, quando eu alcancei meus 50 anos, começou uma outra fase, muito mais dolorosa: a morte dos próprios amigos. Quase todos se foram. Os principais, quero dizer. Dos 50 aos 60 anos, perdi todos eles, incluindo meu irmão, de quem o garoto que atendeu a campainha me lembrava. Acho que por isso vim aqui, porque acho que, assim como meus próprios pais morreram no período de morte dos pais dos outros, eu também morrerei na época em que meu irmão e amigos morreram, eles que tinham minha mesma faixa etária.

Saber que vou morrer me desanima. Claro, eu sei que não necessariamente vou morrer agora, sei de tudo isso... Sei que é coisa da minha cabeça, mas, se não fosse maluquice minha, não estaria aqui. Eu tenho perfeita consciência de que a associação que fiz entre a morte dos meus pais e a minha é absurda, mas, apesar de, no campo racional, eu saber disso, não consigo evitar uns sentimentos bem desagradáveis com relação a essa suposta brevidade da morte.

Vejo que o senhor está mesmo preocupado comigo... Vou tratar de tranquilizá-lo. Vou citar pelo menos uma coisa boa de saber que vou morrer: tenho muito menos com o que me preocupar. Passamos a vida inteira ansiosos com o futuro, isso desde criança, quando nos enchem com as perguntas do tipo “o que você quer ser quando crescer?”. É assim durante toda a nossa vida. Temos que escolher uma faculdade, um trabalho, promoção no emprego, um trabalho melhor, mais salário, mais dinheiro, filhos, o futuro dos filhos... Enfim, futuro, futuro, futuro! Para mim, não há futuro. Olha que sensacional! Posso pousar minha cabeça no travesseiro e dormir em paz, sem me preocupar com o amanhã.

Se eu tivesse filhos, ainda estaria preocupado com o futuro deles, mas não tenho. Dou fim à minha linhagem. Não pense que eu não queria tê-los, mas não achei mãe para eles. Nunca aconteceu comigo aquela coincidência: eu me apaixonar justamente pela mulher que se apaixonasse por mim. Não sei como esses relacionamentos são possíveis. Acho que, nos casais que existem, uma das partes está mentindo o seu amor. Pense bem no número de homens no mundo e no número de mulheres. Agora, me diga, matematicamente, as chances de isso acontecer. Ou que seja entre dois homens, duas mulheres, qualquer combinação sexual: por que um vai amar exatamente aquele que te ama? Me parece muito improvável e, comigo, se isso chegou perto de acontecer, foi só uma vez.

Ela era mesmo bonita, sabe? Mas não deu certo... Chegamos a morar juntos por um tempo, mas não durou. Ela se irritava muito comigo, pelas menores bobagens. Veja o senhor um exemplo. Eu às vezes pedia para ela ficar nua em casa, pois eu queria olhá-la. O senhor é homem, vai me entender. Sabe quando não temos um propósito sexual, mas só queremos admirar a nudez da nossa mulher? O senhor é ou já foi casado? Me entenderá. Ela tomava isso como insulto, dizia que eu a tratava como uma coisa. Sei lá se ela não tinha alguma razão... É verdade que, quando ela estava nua, não a via como uma pessoa, com seus desejos, sentimentos, fraquezas, emoções, tudo isso. Mas tampouco a via como coisa. A via como uma expressão da arte divina (e olhe que sou ateu). É isso. Podia passar horas olhando para ela nua, como passaria horas admirando um quadro renascentista. E o quadro é coisa? Não propriamente, é muito mais do que uma coisa. Mas tampouco é uma pessoa. É arte, apenas arte. Do mais alto fio de cabelo até os dedinhos de seus pés, como eu a admirava! Mas bem, não sei por que me enveredei por esse caminho, já que isso era só um exemplo das várias atitudes minhas que a irritavam... Às vezes, também, eu a olhava pelo buraco da fechadura do banheiro... Não ria de mim, doutor, era a única forma que eu encontrava de vê-la em sua mais desinibida intimidade, ou seja, a mais pura expressão de arte. Um dia ela me flagrou e o senhor já imagina a reação que teve! 

Acontece, doutor, que, para mim, a beleza não pode ter significado. Um filme é belo por ser belo, uma música é bela por ser bela, um poema é belo por ser belo. Se vem alguém me dizer que gostou de um filme por causa de sua mensagem, de uma música por causa do significado de sua letra ou qualquer justificativa do tipo, eu posso concordar, eu posso dizer que sim, o artista foi mesmo genial, mas não, não é necessariamente belo. Ao menos, não por isso. Quando o senhor vê o pôr-do-sol, em um lindo horizonte multicolorido, o senhor o achará belo por quê? Por causa do significado do céu, das nuvens, do sol? Não! É belo porque é belo! Sabe o senhor por que sou ateu? Já fui mais convicto em meu ateísmo, devo dizer – talvez esteja mais flexível por causa da proximidade de minha morte. Não, ah, não, não faça essa cara! Já estou conformado com minha morte. Mas por que comecei a falar sobre isso? O que o ateísmo tem a ver com o que eu dizia? Ah, claro! O que ia falar era o seguinte: os teístas querem me fazer acreditar que Deus existe porque, do contrário, quem teria feito esse belo mundo em que vivemos? Ninguém, lhes respondo. E essa é a graça! Eles querem dar um sentido ao pôr-do-sol em um lindo horizonte multicolorido do qual falei! Não, não tem sentido, essa é a beleza! “E por que você vive, então?” Por nada! Não é lindo viver por nada? E daqui a pouco tempo vou morrer, também por nada! "Venha cá", eu digo a meus amigos religiosos, "o universo tem um zilhão de anos. As estrelas, a galáxia, o sol, o planeta, os primeiros animais... Pensa em quanto tempo isso está aí. E haveria de existir um plano para a NOSSA vida? Que importamos? Nada, absolutamente nada, não somos nada!" Não somos nada, doutor... E isso é mesmo bonito. É tão bonito quanto o corpo da minha antiga amada... Sim, eu a amava, dane-se, vou confessar! Para que levar segredos para o meu túmulo? Estou pagando é para colocar tudo isso para fora, não é mesmo? Nunca disse nem mesmo para ela que a amava, mas a amava, sim! Não era lá muito recíproco – lembre-se das probabilidades matemáticas –, mas eu, da minha parte, a amava loucamente!

Sabe o que acho engraçado? É que a minha morte é essencial na minha vida. É por isso que estou aqui, porque vou morrer em breve. Doutor, não faça essa cara, já sou um sessentão, é claro que vou morrer. Eu sei que ainda posso ser considerado jovem, que a expectativa de vida de alguém da minha classe social é muito mais longa, mas veja o senhor que, como eu já disse, todos os meus amigos morreram, por que comigo há de ser diferente? Em que sou melhor que eles? Eu diria até mesmo que sou pior do que eles... Sempre me tratei menos, fumei mais, me exercitei menos, bebi mais... Não tem por que eu durar muito tempo. Mas veja, não era isso o que eu ia falar. O que eu estava dizendo é que acho engraçado o fato de a minha morte ser essencial na minha vida. Eu não sou nada para o universo – e não me queixo disso, ao contrário, vejo beleza nessa minha insignificância, já te disse –, mas, apesar de o universo estar pouco se lixando se vou morrer ou não, a morte é tudo para mim, percebe? É o que me guia, é meu norte, é o que preenche meus pensamentos dia e noite. E, para a galáxia, que importa eu morrer? Agora mesmo, pense o senhor, quantas pessoas estão morrendo? Respire um pouco. Pronto. Aquelas já morreram e outras estão morrendo agora. E que importam? Eu continuo aqui, o senhor continua aí, as estrelas, os planetas, os oceanos, os desertos e as florestas continuam todos em seus respectivos lugares. O mesmo ocorrerá quando eu morrer. E, para mim, somente para mim, a morte é tudo.

Um colega meu, que também morreu, me dizia que, além da fase da morte dos pais dos amigos (e, consequentemente, dos próprios pais) e da fase da morte dos amigos (e, consequentemente, da minha própria), há uma outra fase de mortes que não experimentei: a morte dos filhos. Nesse caso, não se trata de uma morte no sentido literal, afinal prediz o universo que os filhos morrerão depois dos pais, mas ele se referia ao momento em que os filhos saem de casa. Para esse meu colega, é um tipo de morte. Posso entendê-lo. Senti-me assim quando aquela minha namorada saiu de casa e fiquei sozinho naquele apartamento imenso... (Mentira, não era imenso. Tinha 50 metros quadrados, mas, para mim, sozinho, era imenso.)

Não, doutor, não... Eu sabia que o senhor ia falar isso... Não me sinto sozinho. Hoje, não. Vivo sozinho, mas não sou sozinho. Ou melhor: sou, sim, solitário, mas isso não me causa sofrimento nenhum. Até prefiro assim, para ser sincero. É bom, porque, quando eu morrer, a ninguém causarei dor.

Eu devia escrever isso tudo... Devia mesmo... Mas me falta concentração. Falar é muito mais fácil; não precisamos nos concentrar para falar, mas, para escrever, sim. Para escrever, é necessário o combo solidão mais concentração e eu só tenho o primeiro elemento. Não consigo me focar em nada, doutor, desde que essa ideia de morrer me veio à mente. Isso me atormenta dia e noite. Acho que vou morrer simplesmente por pensar que vou morrer... Não me tome por supersticioso, não! Não digo com isso que pensamentos atraem fatos, nada disso. É que, de tanto pensar que vou morrer, estou ansioso e vou acabar ficando doente... E, bem, vou acabar morrendo, em decorrência dessa ansiedade.

Que inferno, doutor! Não quero morrer!

Por falar em inferno, será para lá que eu vou?

Que estupidez! Estou te falando que esse meu ateísmo anda meio fajuto...

Chega, doutor, acho que já falei demais! Meu Deus, olha a hora! Já estou aqui há muito mais tempo do que dura a sessão! (Olha eu falando "meu Deus!"...) Por que o senhor não me interrompeu? Que horror! Quanto te devo, doutor? Aqui está. Não, toma mais isso também. E tome também esse cheque. Não tenho mesmo para quem deixar minha herança e o senhor é um homem de bem. Até mais, doutor. Não sei se volto na próxima semana, porque... O senhor sabe... Minha hora está por chegar... Desculpe essas lágrimas, não sei o que estou fazendo. É que realmente não queria morrer! Até mais, doutor. Tchau, tchau, tchau, tchau! Tenho que ir! Tchau!

3 comentários:

  1. Confissões de um ateu!

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  2. Confissões de um ateu!

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  3. Para quem está tão longe dos 60 vc consegue bastante empatia com os sentimentos que assombram os sexagenários.
    Um deles é a busca por referências na ânsia do apego à vida, já que elas vão mesmo se perdendo seja pela descaracterização da casa primeva, seja pela morte de pessoas queridas. Portanto entenda que, mais uma vez, eu me aconchegue nas suas palavras.

    Adorei o desfecho!

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