quarta-feira, 29 de abril de 2015

O vestido que você comprou

Lembro-me muito bem daquele vestido que você comprou. Lembro-me minuciosamente de seus detalhes, sua cor, seu caimento. Isso porque te caía muito bem, ninguém pode negar. Lembro-me ainda de quando o compraste, a data e o local da aquisição, seu preço promocional, qualquer coisa entre 50 e 900 reais. Era um sábado, ou um domingo, talvez feriado, porque eu não estava no trabalho. Uma segunda-feira à noite, também é possível. Algo entre os dias 5 e 25, porque sei que não era nem início nem fim de mês. Como também não era nem início nem fim de ano, suponho que era entre março e outubro. Ah, lembro-me de tudo com exatidão, meu amor. Eu estava contigo quando você comprou aquele vestido azul, meio vermelho, amarelado, esverdeado, um preto bem brilhoso. Eu estava lá, ao seu lado, naquela loja do segundo ou do terceiro andar do shopping, não do quarto, porque este é praça de alimentação, nem do primeiro, porque subimos uma escada rolante. Era uma loja de canto, bem no meio do corredor. Você saiu do provador, perguntando minha opinião, e eu tirei o som do futebol na TV para te dar a devida atenção, pois você tinha acabado de chegar em casa; eu me levantei do sofá e te beijei e você perguntou o que eu tinha achado do vestido. Eu falei que era lindo e o tirei, despindo-te quase por completo, pois faltavam ainda o sutiã e a calcinha, que, aliás, você disse que também eram novos. Mais uma vez, você pediu minha opinião e eu repeti o adjetivo, passando-o apenas para o plural: lindos. Lembro-me deles também. A calcinha era branca, rosa, azul-bebê. O sutiã era exatamente da mesma cor, verde, preto. Quando o arranquei, deixando-te só de calcinha vermelha, revelaram-se bicos de seios tímidos que, com o primeiro toque, enrijeceram-se, traiçoeiros. Quando a calcinha amarela ficou pelo tapete, desvendando a leve penugem resistente aos modismos, eriçaram-se outros pelos, dançantes como os olhos que se fechavam. A partir daí, a memória principia a me deixar e tudo do que me lembro é o exato ângulo entre sua barriga e seus seios, os dezesseis fios de cabelo – agora, dezessete – que caíam-te sobre o rosto, enquanto você cavalgava com o olho direito aberto por menos de três milímetros e o esquerdo, piscando, ritmicamente, até o fim. Os quatro pequenos arranhões, com um quinto ainda branco, que se desenhavam entre sua nuca e seu pescoço, deles não me lembro, tampouco do aroma que, divertidamente, eu encontrava tanto entre suas pernas quanto em seu colo. Também me foge o comprimento dos seus cabelos, a um palmo e meio acima do início de suas nádegas, mas que podiam oscilar para dois palmos, quando você abandonava a posição vertical de seu corpo para apoiar-se em quatro bases. É, de nada disso me lembro, só mesmo do vestido, lindo, meio bege, meio roxo, assim, prateado como o ouro.

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