segunda-feira, 6 de abril de 2015

A despedida

Vínhamos tristes no carro. Ela, um pouco embriagada pelo vinho; eu dirigia sóbrio, mas nem por isso menos distante. Voltávamos do jantar de despedida que nos tinham preparado. No dia seguinte, entregaríamos o carro, que já estava vendido, e, em menos de 48 horas, estaríamos no avião, embarcando para um país desses que estavam em guerra nos anos 90, que têm um idioma que só eles falam, que pouco sabem de inglês, que parecem pouco receptivos a estrangeiros, embora, no fundo, eu nada saiba do meu destino. Era bom viajar: isso, era. Não nos arrependíamos. O que nos pesava era o fato de ser a última vez que fazíamos aquelas coisas. Era a última vez que passávamos por aquela rua, por aquela ponte, dobrávamos aquela esquina e guiávamos aquele carro, tudo o que tinha feito parte da nossa história por tantos anos.

No banco do carona, ela adormecia, a boca entreaberta, a cabeça descaída para a esquerda. Ao volante, eu me despedia de cada pedaço de asfalto deixado para trás, reduzindo a velocidade para prolongar o adeus, como um casal de namorados que se abraça demoradamente no terminal de embarque de um aeroporto. Já passava das duas da madrugada, só tinha eu na rua, uma sensação ainda pior de ser um ponto no meio do nada. Desejei imediatamente estar preso em um engarrafamento, com faróis altos e buzinas a alardearem a minha presença e legitimarem minha existência. No entanto, só tinha eu, a 40 por hora numa via de 80, olhando cada árvore como quem sabe que nunca mais as verá de novo.

Ela balbuciou algo, perguntando se já tínhamos chegado em casa. Estamos longe, eu respondi, graças à minha velocidade reduzida. Estamos longe, a um oceano de distância. Agora, casa é lá, não mais aqui. Ou casa não é nem lá nem aqui. Não há casa. Ela, sonolenta, sorriu, não sei de quê, fazendo-me pensar que minha casa é ela. Ela é tudo o que tenho que levar na mala. No país esquisito de língua esquisita, é ela que vou montar e nela que vou morar. É ela que vou erguer e nela que vou viver.

De repente, começou a chover, o que foi estranho, pois havia minutos o céu estava todo estrelado. A cidade também se despedia de mim, romantizei, infantilmente. A cidade está pouco se lixando para mim. Os lugares não se importam com as pessoas, estão lá a despeito delas, ainda que por causa delas se transformem. Os lugares são imortais, mesmo se mudarem de nome, de cenário, de relevância. O espaço é o que há. As pessoas habitam esses espaços, modificando-os, iludindo-se arrogantemente ao acharem que os destroem, mas elas se vão, ao contrário dos lugares. As pessoas morrem. Olhar cada pedaço da cidade com os olhos de quem não mais voltará é, acima de tudo, encarar a morte. Um dia, cientes ou não, olharemos nossas próprias mãos também pela última vez.

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