domingo, 29 de março de 2015

Poesia urbana

Acredito que há poucas cenas tão poéticas quanto um grupo de carros, de noite, com faróis acesos, seguindo numa estrada, numa avenida, numa rua, numa via qualquer, desde que em linha reta. Não me refiro a congestionamentos: para haver poesia, os carros têm que estar em movimento, mas não um ou outro e, sim, todos  e repito: em linha reta e à noite. O mesmo fluxo de veículos de dia não teria a menor graça.

 Você é louco!  disse-me um amigo, quando lhe falei essa minha opinião.  Vá para o campo ou para a montanha e verá poesia. Ou, então, vá para Ipanema e encare a praia por alguns minutos. Olhe para ela, ouça o quebrar de suas ondas. Mas, por favor, não me fale de poesia aqui! Aqui, não!

Estávamos no alto de uma passarela que dá uma bela vista da Avenida Presidente Vargas, uma das mais movimentadas do Rio. Bela, para mim. Para meu amigo, era o horror. Para ele, dificilmente haverá poesia em alguma criação humana. Ele pensa que a poesia consiste exatamente no natural. O que é criado, forjado por mãos humanas, não pode ser poético.

 A Muralha da China é poética?
 Nem pensar.
 A Torre Eiffel?
 Pelo amor de Deus!
 O Corcovado?
 O Corcovado, sim. O Cristo, não.
Por aí, já se vê que, para ele, carros e poesia estão em extremos tão opostos quanto água e fogo. E não discordo. O que penso, porém, é que aqueles automóveis nada mais são do que uma continuação dos corpos de seus motoristas (e, aí, está a naturalidade). Quando eles pisam nos pedais de seus veículos, seus pés se prolongam até a base dos pneus que tocam o chão. Imaginar quem são essas pessoas, todas juntas, em um só sentido, na mesma via, escondidas atrás de seus volantes, aí reside a poesia. Por que a necessidade poética dos faróis acesos? Talvez, seja uma questão meramente estética; quiçá, porque o brilho das luzes ofusque as faces dos motoristas.

Aqueles carros não sabem para onde vão; provavelmente, nem sabem de onde vêm. O mar, o sol, a lua, a montanha e as nuvens também não sabem, mas nem fazem questão de saber, não são dotados de uma consciência que exige uma explicação de suas existências. Já os homens, guiando seus veículos como guiam suas vidas  autômatos sem inteligência ou vontade , esses, que foram concebidos com consciência, não existem se não se conhecem e, como não se conhecem, não existem. Não posso deixar de ver poesia nisso.

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