sábado, 21 de março de 2015

Contos: por que não lê-los?

Nunca entendi muito bem por que contos não encontraram seu espaço no mercado editorial. Eles têm tantas vantagens.


Os contos, para início de conversa, são pequenos, menores que romances. Depois, não exigem uma continuação. Uma coletânea de contos pode ser abandonada no meio sem o menor peso na consciência: basta você ler uns dois contos e não gostar deles. Exigem, portanto, um fôlego muito menor por parte do leitor. Os contos estão para a literatura como os curtas-metragens estão para o cinema: tinham tudo para ser o produto preferido do chamado homem contemporâneo, mas, por alguma razão que me escapa, veem-se marginalizados. Para não parecer que escrevo em defesa própria (afinal, sou um escritor de contos), vou citar dois contistas que li recentemente e que me agradaram muito.

O primeiro é o sergipano Antônio Carlos Viana, que já tem cinco obras lançadas, das quais li "Aberto está o inferno". Com uma pegada muito boa em seus textos, ele tem um quê de Bukowski tupiniquim. Os contos são tristes, talvez não no sentido que comumente se dê à tristeza (de um final ruim ou uma tragédia inesperada), mas no de algo mau que está ali presente, de forma permanente. Seus contos contêm um pessimismo de fundo, uma sensibilidade aguçada, o que acaba por deixar uma sensação ruim, mas acalentadora.

Depois, li o diplomata paranaense Mário Araújo, com sua coletânea "Restos". Mais poético e menos direto que Antônio Carlos Viana, tem sempre uma metáfora na manga. É o tipo de contista do cotidiano, aquele escritor que você nota que tem uma interessante interpretação dos fatos, das pessoas, de suas características mais singelas. Descreve bem diferentes tipos de brasileiros, cria situações críveis, muito bem narradas, tendo como temas recorrentes viagens e futebol. Por viver em Brasília, partilha conosco da mesma cidade, presente em alguns de seus contos.

Esses foram dois sujeitos que gostei muito de ler, mas há outros. O próprio Machado, para mim, foi melhor contista que romancista. Já ouvi que a situação de mercado dos contos não é mais tão má quanto antes, mas, verdade seja dita (agora, sim, falando em defesa própria, quem eu quero enganar?), eu ainda gostaria que melhorasse um bocado.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em março de 2015. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

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