quarta-feira, 4 de março de 2015

A sobremesa da vida

No período que antecedeu minha morte, decepcionei muita gente.
Estava eu a fazer exames de rotina, quando o médico me descobriu uma doença terminal. Não havia mais o que ser feito, ele dizia, eu pagava o preço por anos sem me ter consultado, sem ter buscado nenhuma informação sobre minha saúde, o preço de uma vida de maus hábitos alimentares, cigarro, bebidas, enfim, motivos não faltavam. Achei insensível por parte do doutor me dar esporro durante a fala em que anunciava minha vindoura morte. Agora, como ele mesmo dizia, nada mais podia ser feito; eu não precisava, portanto, ouvir todo aquele sermão. Cheguei a desconfiar que meu caso nem era dos piores, que o médico só queria me repreender e que minha doença terminal era apenas um meio para a bronca. Fui a outros profissionais, mas nada adiantou. Eram vãs minhas esperanças. Eu ia mesmo morrer.

Minha morte estava marcada para um mês depois. Cheguei ao ridículo de perguntar se, pelo fato de se tratar de fevereiro, que só tem 28 dias, eu viveria um bocado mais. O médico, sempre insensível, caçoou de mim. Sim, viveria mais dois dias, ele disse. Meu prazo era de trinta dias, sem tirar nem pôr. A irônica exatidão daquela matemática me irritou e saí do consultório a bater portas, xingando todas as gerações da família do doutor. Como se pode ver, eu estava mesmo transtornado. Eu não era tão velho, ainda não tinha alcançado meus sessenta anos. Meu fundo previdenciário, que desperdício!

Aos poucos, porém, resignei-me. O que me incomodava verdadeiramente era ter de contar a notícia a amigos e parentes. Hoje, daqui do outro mundo, vejo que seria melhor não ter falado nada e ter simplesmente esperado que me encontrassem morto em meu apartamento pequeno, porém bem localizado, de frente para a praia, mirante de um belo pôr-do-sol. Mas, na época, isso nem me ocorreu. Eu tinha que contar que morreria dentro de trinta dias e esse fardo me pesava violentamente.

Decidi começar pelo meu filho, o que seria justamente a pior tarefa. Quando criança, ele já havia perdido a mãe e, agora, estava prestes a descobrir que eu também já estava nas últimas. Ele já tinha seus 25 anos, era casado e estava bem encaminhado na vida, mas supus ser uma notícia dura, de toda forma. E foi. Ele, a princípio, ficou calado. Depois, chorou. Por fim, negou. Disse que tinha que haver algo de errado nesse prognóstico. Não adiantou eu lhe dizer que já havia ido a dois médicos; ele me fez ir a um terceiro, a um quarto, a um quinto... A previsão se mantinha. Conformou-se, então. Sugeriu-me viver meu último mês com entusiasmo, fazer tudo o que eu sempre quis, mas nunca pude, disse que estaria comigo naquele período, que me amava.

Reação parecida tiveram alguns amigos para os quais também contei minha situação. Disseram que eu deveria viver intensamente aquele mês, fazer tudo o que sempre desejei, realizar meus mais profundos sonhos etc. Era a hora de promover loucuras, de cruzar o mundo, nadar pelo Atlântico até a Groenlândia, saltar de paraquedas na Antártida, correr pela Sibéria e gritar aos esquimós, viajar aos cantos mais desconhecidos do planeta. Havia ainda os menos viajantes que me sugeriam não cruzar o mundo em um balão nem nada assim, mas gastar meu dinheiro com as prostitutas mais caras e mais bonitas da cidade (e quem sabe não pagá-las?), participar de orgias, experimentar as drogas mais pesadas, ter as ondas mais delirantes. Eu poderia assaltar um banco, participar de corridas de carro, talvez até capotar. Eu poderia xingar meu patrão, levantar a saia da secretária, pôr fogo no escritório... Eu poderia tudo, nada me deteria. O que nos para é o medo e só há medo onde há futuro. Mas não havia futuro, só havia o presente. Era a hora de me libertar. Aquela era a sobremesa da vida. Passamos nossa vida inteira preocupados com o amanhã e nos esquecemos de viver o hoje. Não que esse chavão seja algo ruim, afinal é realmente necessário pensar no futuro. Passamos nossa infância respondendo o que queremos ser quando crescermos, entramos no colégio pensando na universidade, ingressamos na universidade visando ao mercado de trabalho e trabalhamos buscando uma boa aposentadoria. Mas o que acontecia comigo? Que se passava com alguém como eu, que não tinha futuro? 

Por que eu decepcionei muita gente no período que antecedeu minha morte? Porque não fiz nada disso. Nenhuma loucura. Nem sequer pedi demissão do meu trabalho; contentei-me com uma licença médica. Passei meu último mês de vida em casa, trancafiado, vendo TV, comendo enlatados e bebendo refrigerante. Não, eu não estava deprimido. Estava feliz, à minha maneira. Vez ou outra meu filho ou algum amigo me visitavam, tentando me levar para fora de casa, sugerindo viagens e excentricidades que eu cortesmente negava. Eu estava feliz e concordava com a teoria de que aquela era a sobremesa da vida. Mas cada um tem a sobremesa que mais lhe apetece e meu cardápio de doces era bem diferente do deles.

2 comentários:

  1. Leitura de fácil compreensão; você trata o drama da morte como coisa corriqueira, não dramatizou, isso gostei. Cometeu umas "escorregadas na língua portuguesa ",
    devemos solicitar a expert na língua portuguesa para fazer revisão. Mas parabéns.

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    1. Que bom que gostou! Quais escorregadas você percebeu?

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