sexta-feira, 13 de março de 2015

A menina adulta

Tinha cinco anos e era uma menina muito estranha. Gostava mais da companhia dos adultos que das outras crianças. Nas festinhas, não se sentava com outras meninas de sua idade, mas se infiltrava nas rodinhas de adultos. Não possuía aquela conduta típica das crianças cercadas por gente mais velha: ouvir e nada falar. Ela, não. Falava, interagia e, quando lhe vinham com assuntos infantis ou falavam com ela como se fala com uma criança, emburrava-se e cruzava os braços.

Com calça jeans, bolsa e salto alto, completou seis anos de idade com um acervo de expressões que ouvira dos mais velhos. Reproduzia-o com enorme desenvoltura, variando de acordo com o quão adulto achava ser o tema, ainda que ignorasse por completo seu sentido. Tentou algumas vezes usar a expressão “cheque sem fundo”, que a remetia a algo importante da vida econômica adulta. Lia efetivamente a seção de economia dos jornais, embora não entendesse boa parte.

Cumprimentava todos os vizinhos com sisudos “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Ouvia jazz, via telejornais e cruzava as pernas (tudo, ela pensava, marcas da vida adulta). Vinte anos se passaram e ela morreu com noventa de idade.

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