sábado, 7 de fevereiro de 2015

O merda que me tornei

Ele chegou para mim com seu romance recém-escrito e me pediu para lê-lo. Era uma história de uma faxineira que se apaixonava por um sujeito endinheirado e que largava os filhos no campo para ir morar com o namorado na cidade.

– Tentei enviar esse manuscrito a alguns escritores renomados, mas eles nunca me responderam, então procurei alguém mais acessível.

Tentei recalcar o significado daquilo: ele enviou seu romance para mim porque eu não sou renomado. Escolhi me fixar na lisonja por ter sido eu o escolhido para ler seu texto, ainda que isso só se tenha dado por eu ser “mais acessível”.

– O que eu quis foi fazer algo realista – ele me disse, com um ar meio ingênuo, o que fez com o que eu me sentisse um bobalhão. Não que eu tivesse algo a ver com a ingenuidade dele, mas acontece que eu próprio me identifiquei com seu tom inocente. Eu estava certo de que eu também falava daquele jeito quando ia comentar sobre meus textos.
– Ok, vou ler – consenti, meio a contragosto. Embora não se tratasse de um amigo, ele era um conhecido, um colega dos tempos de faculdade, não podia negar o favor (afinal, sou “acessível”).
– Queria fazer algo realista, sabe? – ele se repetiu, como se minha não resposta a esse ponto em específico significasse que eu não o tinha ouvido. – Tentei usar o palavreado que as faxineiras usam! 
– Que faxineiras você conhece? – eu perguntei. Ele já ia balbuciando “a min...”, quando eu o interrompi: – Sem ser a sua, evidentemente.
– Ah, sei que são pessoas como a gente! Conheço algumas, sim.

Filhinho de papai do caralho! Aquilo me irritou: já ia ler o texto do cara de mau grado. Justamente para que minha má vontade não influenciasse minha avaliação, pedi-lhe que me procurasse de novo em uma semana, que não o leria naquele mesmo dia.

– São só cem páginas! – ele disse. E o que ele queria? Que eu lesse as cem páginas enquanto ele ficava lá, me olhando com aquela cara de bunda azeda?
– Em uma semana. Aliás, não me procure, não. Deixe que eu te mando um e-mail com as minhas impressões. – Nisso, eu já fui abrindo a porta do apartamento, em um singelo convite (ou nem tão singelo) para que ele se retirasse.

Acontece que o sujeito não é má pessoa, mas tem daquelas caras lisinhas que dão nos nervos de qualquer um, além do cabelinho loirinho arrumadinho, o que faz dele uma pessoa toda no diminutivo. Sempre viveu numa casa no Lago Sul – porra, nascido e criado no Lago! Não podia, ao menos, ter crescido em outro canto? Usava o carro para comprar pão, nunca pegou um ônibus na vida! Eu queria escrever um livro sobre ele! Isso era o que eu queria! Um “livro realista, sabe?”, porque ele deve ser “como a gente”. Eu iria perguntar a ele como foi sua adolescência, como ele comia mulher sem pegar ônibus, como ele trepava antes da maioridade, se era levado pelo pai até a casa da namoradinha ou se ficou na punheta até o Detran aprovar suas barbeiragens e lhe dar esse porte de arma que é a carteira de motorista.

Sim, ele me irritava, mas, acima disso, eu próprio me irritava. Essas elucubrações vieram enquanto eu fumava um cigarro no pilotis do meu prédio no Plano Piloto, eu próprio pertencente a essa classe à qual eu não queria pertencer! Quem eu queria enganar? Quem eu queria criticar? Quando tinha sido a última vez em que eu usei transporte público? Ah, na minha viagem a Dubai, é claro. Eu que vá à merda com a minha hipocrisia, porque eu não sou muito diferente dele. Tentei me defender da minha consciência, alegando que, enquanto ele nasceu e cresceu na região de Brasília que, se fosse um país independente, teria o melhor IDH do mundo, eu, por minha vez, estudei em escola pública, passei toda a minha vida pegando ônibus, nunca nem de longe fui tão abastado quanto ele... Eu, sim, podia ser um escritor – era o que eu dizia para mim mesmo, arrogantemente, infantilmente –, ele, não! Ou, tudo bem: se ele queria escrever, que escrevesse, mas não sobre uma faxineira, não algum “livro realista, sabe?”. Que escrevesse sobre a sociedade bunda mole que ele conhece, por que não? A corte francesa, por acaso, escrevia sobre os miseráveis de Paris? Todos esses escritores sanguessugas do século XVIII falavam sobre os desafortunados da sociedade? Por que ele tinha que se meter em escrever sobre uma faxineira? Será que é porque é isso que está vendendo: falar sobre vítimas da guerra, oprimidos pela miséria, doentes e esfomeados? Teriam os leitores do hemisfério norte se cansado de ler sobre suas próprias vidas (as quais, afinal, eles já conheciam muito bem) e passado a consumir a literatura dos oprimidos (que, apesar de tudo, era escrita por pessoas de seus próprios grupos e do de meu colega, que achavam que estavam escrevendo algo “realista”)?

Por fim, deixei toda essa chateação de lado e fui ler seu manuscrito. Foi acertada a decisão de não lê-lo no mesmo dia, mas minha irritação, ao contrário do que eu previa, não tinha diminuído muito. Por isso, evitei tecer maiores anotações em seu texto, que, como um todo, sejamos sinceros, estava bem escrito. Fiz algumas correções gramaticais, troquei alguns pronomes de lugar, tudo com o “controlar alterações” do Word, pois não queria mexer autoritária e diretamente em seu texto. Todas essas modificações ele acatou, com exceção de uma, que foi o que gerou debate:

– Achei muito forçado... – eu respondi, quando ele me perguntou por que eu tinha marcado a expressão “não é brinquedo não” numa das falas da personagem principal.
– Forçado por quê? – ele perguntou. – É uma expressão popular, falada por faxineiras, qual é o problema?

Aquela generalização, aquelas palavras, toda a escolha semântica que ele usou para se justificar me irritou de tal modo que eu decidi não responder àquele e-mail. A raiva foi tanta que eu deletei, denunciei como spam! Mas não adiantou. Dois dias depois, ele me ligou:

– Por que você não gostou daquela passagem? Só falta esse detalhe para eu enviar o livro para publicação.

Publicação? Ele iria publicar aquela merda? Com essa rapidez toda, sem nem sequer ser avaliado por um editor ou algo do tipo? Ok, respirei: há dois tipos de editora: as que te respondem rapidamente, aceitando a publicação, mas te cobram o olho da cara e as que levam meses para te dar uma posição e geralmente não a dão – e, quando o fazem, é para negar. Ele seria publicado pelo primeiro grupo de editoras, eu quis me convencer. Seria uma editora pequena, fraca, dessas que aceitam qualquer droga desde que você pague. Ele nunca seria lido. E por que eu queria me convencer disso? Que tipo de sentimento mesquinho era esse?

– Nenhuma pessoa na vida real fala “não é brinquedo não” – eu respondi, contendo toda a raiva para não deixá-la transparecer na minha voz.
– Cara, você está por fora – ele me disse, para meu desespero.
– É uma expressão de novela – eu disse, separando sílaba por sílaba, como estratégia para acalmar a respiração. – Não tem nada a ver com a vida real.
– Conheço pessoas reais que falam.
– Aham... Faxineiras, inclusive? – ironizei.
– Faxineiras, inclusive – ele me respondeu, muito sério.
– Cara, você só conhece a sua faxineira! Você não sabe nada da vida! – eu explodi, a raiva contida de dias. – Se é que ela fala, ela é uma, apenas uma pessoa! Não pense que sabe alguma coisa, você não conhece nada, você conhece uma faxineira! Uma!
– Você conhece quantas?

Era a pior coisa que ele podia ter dito. Aquela pergunta me destruiu. Nem sequer uma faxineira eu conhecia. Isso poderia ser uma vantagem minha, poderia significar que, enquanto a única faxineira que ele conhecia era a mulher de cuja mão de obra ele abusava, eu não explorava ninguém. Mas a verdade era que eu tinha uma faxineira e, pior, eu nem falava com ela. Vai ver ela falava vários “não é brinquedo não” e eu não sabia. E além dela? Nenhuma. Meus amigos eram todos uns almofadinhas bebedores de vinho que discutiam Foucalt e comiam foie gras.

– Conheço algumas – menti. – E nenhuma cometia os erros de português que você colocou nas falas da sua personagem.
– Ah, não? Como elas falavam?
– Sei lá! O que quero dizer é que sua personagem é um preconceito, um estereótipo, uma ofensa!
– Repito a pergunta: como elas falavam?
– No Rio, conheci uma que tinha mestrado em Letras – eu disse, ressuscitando uma história que me foi contada por uma vizinha ao se referir à empregada da amiga dela. Ou seja: não faço ideia se era verdade.
– Então, você quer que eu pegue essa uma empregada que era mestra em Letras e a transforme na heroína do meu livro? Não... Isso é muito mais preconceituoso! – Pelo tom de voz, ele, enfim, também estava irritado. – Meu livro é uma denúncia social e não vou usar uma personagem falsa, dessas que, na vida real, são uma em um milhão, para protagonizar meu romance. Seria o mesmo que falar que qualquer camelô pode virar um empresário de sucesso só porque o Silvio Santos conseguiu. Não! No dia em que eu escrever sobre camelôs, meu personagem não será o Silvio Santos. Acuse-me de preconceito, se quiser, mas quando eu falar sobre um negro da favela, não é sobre o cara que venceu na vida que vou escrever. Não: eu vou falar sobre o negro favelado que entrou para o mundo do crime e morreu! Minha travesti, por sua vez, nunca vai ser a Roberta Close, mas, sim, um traveco de rua que aguenta violência e humilhação todo dia. E, além do mais, se você quer mesmo a minha opinião, acho que você nunca conheceu faxineira com mestrado em Letras porra nenhuma! Você inventou essa merda toda!

E ele desligou o telefone na minha cara. No fim da fala, ele já estava gritando. A voz de menino bonzinho deu lugar a um timbre grave, enfurecido. Lamento que aquela conversa se tenha dado por telefone. Queria ver a cara dele ao falar tudo aquilo. Na minha imaginação, suas bochechas de neném ficaram vermelhas e os olhinhos de sono fecharam-se mais ainda até dele saírem lágrimas. Não lágrimas de menininho, como ele já deve ter derramado aos montes, mas lágrimas de raiva, fruto da convicção de um discurso.

Ele ganhou meu respeito. Passei a gostar muito mais dele a partir daquele dia. Nunca mais voltamos a nos falar, mas ele conseguiu me fazer ver o merda que me tornei.

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