sábado, 7 de fevereiro de 2015

O filho eterno

Um título impactante, pesado, interpretado sob vários prismas, “O filho eterno” narra a história de um escritor que tem um filho com síndrome de Down. “O filho eterno” por causa da incompreensão temporal do menino? Ou por que assim é qualquer filho: eterno?


Esse pode ser um tipo de história bem chata: um pai que tem um filho com alguma deficiência e, juntos, eles conseguem vencer os medos e preconceitos da vida. Não é isso. Na verdade, nem posso dizer se eles venceram coisa nenhuma. O protagonista, sob cujo ponto de vista a história se desenrola (embora em terceira pessoa) é um sujeito culto, leitor de Nietzsche, ex-estudante de teatro, na batalha para ser um escritor (ou, ao menos, para ser lido). Sua cultura, proporcionalmente inversa à sua pouca maturidade emocional, é posta em xeque quando o médico anuncia que seu filho é mongoloide, termo em voga nos anos 80 e hoje em desuso. O aspirante a escritor (que nunca conseguiu se sustentar escrevendo, mas, sim, consertando relógios e sendo bancado pela esposa) vê-se imerso na vergonha de ter um filho Down. Desesperado, busca outros diagnósticos, todos unânimes: não é uma criança normal. A única esperança do pai passa a ser a morte do filho. Focado nas estatísticas de que crianças com Down tendem a falecer prematuramente, prende-se a esse pensamento para suportar a humilhação de ter um doente mental em casa, fruto de seus próprios genes. O garoto, porém, cresce, envelhece: o filho eterno.

Felipe (assim se chama o garoto, ao passo que o nome do pai nunca é citado) desmistifica, mas também desromantiza vários estigmas de portadores de Down. Sua relação paterna é ressignificada a todo instante e o próprio pai tem sua alma dissecada com minúcia pelo autor, Cristovão Tezza, que é catarinense, viveu em Curitiba, nasceu em 1952 e ainda é ativo no meio literário. "O filho eterno" é um livro recente, de 2007, vencedor de inúmeros prêmios (destaca-se um concedido pela Associação Francesa de Psiquiatria). Foi eleito pelo Globo um dos dez melhores livros de ficção da década. De linguagem extremamente elegante, já foi lançado em aproximadamente quinze países e é uma dessas obras que me deixam feliz por, de vez em quando, escantear os grandes clássicos e encarar romances contemporâneos. Tezza é como um autor historicamente relevante (a qualidade não deixa nada a desejar), só que falando do nosso tempo e da nossa terra (afinal, de bônus, ele ainda é brasileiro).

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em janeiro de 2015. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

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