sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O cemitério dos solitários

O que ela sentia enquanto caminhava da Praça dos Três Poderes até a rodoviária, não sabia. Ou sabia, mas não podia nomear, o que dava na mesma. Um sentimento só faz sentido quando lhe damos um nome. Resolveu chamar àquilo solidão. Creditou-lhe à monumentalidade que dá nome ao eixo que liga o Palácio do Planalto, onde era ajudante de limpeza, até a rodoviária, onde pegava o ônibus para sua casa, em São Sebastião. Quem, como ela, faz esse trajeto a pé todos os dias, passando por todos os ministérios, caminhando rumo ao inalcançável horizonte, certamente, um dia, já se sentiu solitário.

Ajudante de limpeza, o que isso significava? Nem sequer era a responsável, em si, pela limpeza. Não: era uma mera ajudante. Isso não mexia com seu orgulho, no entanto. Se um dia tivera orgulho, perdera-o havia muitos anos. Não sentia falta do orgulho, vivia muito bem sem ele. Preferia, antes, vencer esse sentimento que chamou de solidão, mas cujo nome não sabia se era mesmo esse. Isolamento, pequenez, incompatibilidade, não pertencimento, talvez houvesse termos mais apropriados, mas que não cabiam em seu limitado vocabulário. Solidão. Preferiu assim chamar e assim passou a ser. O que se nomeia é. Se ela se diz solitária, quem lhe dirá o contrário? Talvez, o mal do século seja a solidão não por causa de uma característica inerente à nossa época, mas simplesmente por causa da popularidade do nome, que se encaixa bem em qualquer conversa despretensiosa, proliferando-se no vocabulário universal. Vai ver as pessoas se acham solitárias por um tipo de mimetismo vocabular, oriundo de uma limitação conceitual provocada pelo escanteamento de termos que melhor definiriam nossos sentimentos.

Seja como for, ela caminhava da Praça dos Três Poderes até a rodoviária para pegar um ônibus que depois a conduziria de volta pelo mesmo caminho, passando pelo Palácio do Planalto, seguindo pela Ponte JK, até São Sebastião. Em vez de esperar em algum ponto de ônibus entre a praça e a rodoviária, fazia a pé esse trajeto, que não é curto, sob o pretexto de pegar um ônibus mais vazio, de entrar na fila para os ônibus de São Sebastião sem a necessidade de subir no primeiro que aparecer, podendo escolher até, enfim, ter a oportunidade de viajar sentada. Mas sabia que não era assim. A fila existia só até chegar o ônibus, desmanchando-se assim que o veículo estacionasse em sua respectiva baia. Então, somente hoje, sob o que denominou solidão, pôde perceber o verdadeiro motivo de ir diariamente até a rodoviária: gostava dessa caminhada. Além disso, preferia adiar seu retorno para casa, onde encontraria um marido que pouca ou nenhuma conexão tinha com ela. Se, durante a andança, a solidão, mesmo não sendo agradável, tinha algo de pleno, de libertador, o mesmo não se pode dizer sobre quando ela chegava em casa: a pior solidão é aquela em que se está acompanhado.
A tal solidão que dela se apoderava só piorou quando nuvens carregadas se avolumaram sobre o Eixo Monumental, em pleno mês de julho, auge do período de seca. O sentimento de haver algo errado, alguma peça que não se encaixava em um amplo quebra-cabeça, a sensação de estranhamento se intensificava conforme o céu progressivamente se resumia a pontos azuis em meio a uma imensidão cinzenta. Brasília é o cemitério dos solitários. Esse céu, essas nuvens tão baixas, esse horizonte, essa amplidão, tudo a nos lembrar constantemente que não somos nada. E o marido em casa, vazio, desconexo, inapto a unir um nada ao outro. Lembrou-se de uma amiga de São Paulo com quem havia tempos não se encontrava. Um dia, essa amiga lhe dissera que São Paulo, sim, é o cemitério dos solitários, uma metrópole fria, tão densa quanto tensa, tão viva quanto morta. Ficou sem entendê-la: como assim São Paulo é uma cidade fria, com tanta gente? Não. Brasília é o cemitério dos solitários.

Chegando à rodoviária, descartou a hipótese de aquele estranho sentimento advir da amplidão do Eixo Monumental. Continuava solitária, esquisita, um ser um tanto quanto autômato, regressando à casa que não queria voltar, para, na manhã seguinte, encaminhar-se ao trabalho aonde não queria ir. Avistou a fila, enorme, e decidiu-se por comprar um pastel na Viçosa, como se lhe faltassem forças para enfrentar o amontoado de gente, que, apesar disso, só aumentava. Vendedores de bala, de pendrives, de óculos escuros, ambulantes dos mais diversificados segmentos disputavam espaço com motoristas de transporte ilegal.

Comeu o pastel, envolta à poluição sonora, tão solitária na claustrofobia da rodoviária quanto na imensidão do Eixo Monumental. Entrou, por fim, na fila do 180.1, ônibus que fazia o percurso mais curto até São Sebastião. Decorreram-se muitos minutos até chegar sua vez de subir na condução. Foi quando algo lhe despertou um pensamento, tirando-a do automatismo: por que pegar o ônibus mais rápido, se o que ela queria era justamente adiar a volta? Brecou na escada do veículo: um pé no primeiro degrau e o outro no chão da rua. Um adolescente mais apressado tirou-a do torpor com gritos impacientes:

– Arrocha, tia!

Voltou para fora, extasiada, caminhando até o 197.3, ônibus que, se não fazia o mesmo trajeto do 180.1, tampouco se afastava muito do melhor caminho, desviando-se apenas um pouco pelo Lago Sul. "Não, esse também não." Foi para o 147.5, o mais voltoso deles, que desviava totalmente do percurso ao ir até a W3.

Chegou tarde em casa. Solitária, como sempre, desde sempre. O marido não a recebeu, não a cumprimentou, via qualquer coisa na TV, ele que trabalhava na portaria de algum condomínio do Jardim Botânico, mais perto de casa, e, portanto, voltava antes da esposa. Ele também flanava pelo vazio que lhe tomara e em que se tornara. Ela, por sua vez, tomou banho, requentou a comida do fim de semana, jantou por obrigação e, antes de vestir seu pijama, passou só de calcinha em frente ao esposo, que nada percebeu. E, assim, terminou o dia. Ele, olhos vagos como os de um zumbi, absorvido pela luz da TV, mas não absolvido pela luz da mulher.

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