quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Quando eu morrer, saiba que...

A mulher e o marido conversavam:

– Amor – disse ela –, se um dia eu morrer, precisarei que você saiba de uma coisa.

– Como assim “se” um dia você morrer? Um dia, você vai morrer!

– Ora, não zombe de mim! É só o jeito de falar. Digamos, então, que QUANDO eu morrer, precisarei que você saiba de uma coisa.

– Melhorou, mas há outro problema. – Ele ria, divertindo-se. – Esse verbo no futuro não faz sentido. Como você “precisará” que eu saiba de uma coisa se você já vai estar morta?

– De novo, era só o jeito de falar...

– Mas, meu bem, mortos só precisam de um caixão confortável e silêncio na tumba.

– Você vai passar o dia a fazer piadas ou vai ouvir o que você precisa saber?

– Ok. Me diga, vá lá.

– QUANDO eu morrer, PRECISO que você saiba de uma coisa. Melhorou?

– Não. Agora, tem um problema de lógica temporal. Você está me dizendo que quando algo acontecer no futuro, você precisa que eu saiba de uma coisa no presente. Sem sentido. É claro que simplesmente mudar o verbo para o futuro não adianta, porque, como eu disse, mortos não precisam de nada. Porém, como você falou, parece que você está morrendo agora e, por isso, usou “preciso”, no presente. Tenta de novo, amor.

Dessa vez, o marido não ficou convencido de sua fala e percebeu que não tinha mais argumentos para interrompê-la. Resolveu ouvi-la, por fim. Mas a esposa se irritou e disse:

– É a última vez que vou falar e não quero saber se você vai ficar zombando de mim. É a última vez mesmo! E vou falar como eu quiser!

– Ok, não precisa se irritar. Você sabe que eu só estava brincando. Me diz, amor, o que você quer que eu saiba.

– Bem, quando eu morrer, quero que você saiba que... Ah, dane-se! Perdi a vontade de falar.

E ela morreu.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O doutor e o mecânico

O dono da maior sapataria do bairro chegou à oficina mecânica e já foi logo saudando o mecânico Josimar: 

– Fala, meu querido! Como é que está essa força?  

– Tudo em ordem, doutor – respondeu Josimar. – Que o senhor manda? 

– Essa lata velha está esquentando muito! Acho que a ventoinha pifou, o arrefecimento foi para o escambau! 

– Carrão desse e o senhor chama de lata velha, doutor? Uma potência dessa está duzentão, está não? 

– Por aí, por aí... E essa camisa feia? – Referia-se à camisa do Flamengo que estava por baixo do macacão de Josimar. 

– Ô, doutor, o manto a gente não tira do corpo não! Dá azar! 

– Tu está é doido! Agora, qualquer pano de chão é manto, é? Servido aí? – Enquanto conversavam, o empresário comprou um cafezinho e um salgado na confeitaria cujo balcão dava para a rua, ao lado da oficina. 

– Tomei café agora, doutor. Valeu aí! 

– Deixe de vergonha, rapaz! Dê aqui uma dentada! 

– Tenho vergonha, não, senhor. Agradeço mesmo, de coração. 

– Nunca vi flamenguista com vergonha. Na hora de roubar a gente e fazer gol em impedimento, vocês não têm vergonha, né? 

– Deixa de papo, doutor! Está com inveja porque o Vasco só faz é ser vice! 

– É claro! Vocês compram a CBF, a Globo, o raio que o parta! E ainda têm a petulância de dizerem que são hexa! 

– E não somos? 

– Pois fale isso lá em Pernambuco! 

– Ah, doutor, vem não! Nosso time está bom, precisa é de um centroavante! 

– Ué! Pensei que Obina fosse melhor do que Eto’o... 

– Deixe de prosa que o senhor sabe que isso é papo de torcida. 

– Papo de torcida é que vocês nos roubaram um título e depois vêm tirar onda de que somos vice, mas está tranquilo, estou de boa. Estou pilotando avião demais para me preocupar com futebol. 

– Que quê é isso, doutor! – Josimar riu, evidenciando o espaço frontal em sua arca dentária. – Aquela mulher lá é toda tua, é? 

– Oxe, e não é? Trinta anos mais nova, meu cumpadi! Trinta anos! Do caralho! 

– O senhor já é cinquentão, é? Está conservado. 

– Cinco ponto três, irmão! E ela, vinte e três aninhos! 

– Boto fé! 

– E que buceta! – Aqui, o empresário abaixou a voz, curvou-se em direção ao mecânico e pôs o braço em seus ombros. – Que buceta! Já comeu uma loira, Josimar? 

– Loira, só tingida, doutor. 

– Porra, não sabe o que está perdendo! Buceta rosinha, Josimar. E para dar uns tapas, que delícia! Fica a marca da mão todinha na bunda, Josimar! Bom demais, viu? 

– Se Deus inventou coisa melhor que mulher, guardou para ele. 

– Mas não é qualquer mulher não. Aquela lá é top demais! E não arrega não, viu? Tem tempo ruim não! Quer foder o tempo todo! Vou viajar amanhã com ela para Caldas Novas! 

– Boto fé. Então, o senhor está feliz, isso é que importa. Porque homem nenhum se sustenta sem um braço de mulher, viu? E os negócios, vão bem? 

– Uma merda! O pior natal dos últimos anos. Brasileiro não tem mais dinheiro, Josimar! 

– Pior... 

– A renda só faz despencar e esses filhos da puta ainda reelegem o PT. 

– Oxe, mas PT foi bom para nós, pobres. 

– Que bom o quê? E tu lá sabe o que é bom nessa vida, homem? Um mecânico falando o que é bom para o país! Olha lá, Josimar, preciso desse carro pronto hoje, hein! Não vai furar comigo! – E deu um tapinha no ombro de Josimar.

– Hoje dá, não, senhor. Carro de Dona Beth está na frente. 

– Que Dona Beth? 

– Oxe, sua vizinha! 

– Ah, porra, aquele paliozinho? Bota aquilo para o fim da fila, Josimar! 

– Dá não, doutor. Se não, a gente perde a freguesa. 

– Porra, Josimar, há quantos anos a gente se conhece? Te trato com o maior carinho, maior respeito. A gente troca uma ideia massa aqui para quê? Para você me fazer essa desfeita? 

– Desculpa, doutor, mas se eu fizer seu carro antes, o patrão briga. 

– Aquele pela-saco? A barriga dele está tão grande que ele não vê nem a piroca entre as pernas, você acha que ela vai notar um carro a mais, um carro a menos? 

– Vai, sim, senhor. O carro de Dona Beth tem que estar pronto hoje. Ela deixou aqui já tem dois dias. 

– E para que mulher quer carro? – E gargalhou, mas, vendo que seu riso não foi compartilhado por Josimar, completou: – Digo: para que a Dona Beth, em específico, tem tanta urgência com o carro dela? 

– Para trabalhar, doutor. 

– Você não está entendendo, Josimar. Você ouviu que amanhã estou indo para Caldas Novas com aquele avião? Preciso do carro para essa viagem, mermão! 

– Dá, não, senhor. 

– Porra, Josimar, você já está me deixando puto! Na moral, qual é seu problema? 

– O carro de Dona Beth chegou antes. 

– Para o caralho com aquele Palio de merda! 

– Que isso, doutor... A gente se esforça para comprar o carro que nossa condição permite, né? 

– Condição de quê? De vagabunda? 

– Ela é professora, doutor. 

– De criança, né? Por causa dela, nossa educação vai muito bem! 

– Meu filho é aluno dela, doutor. 

– Então, troca ele de escola, se não vai virar mecânico, que nem o pai! 

Josimar não respondeu, pareceu ter se entristecido. O dono da sapataria se desculpou: 

– Desculpa aí, Josimar. Não quis te ofender. 

– Está de boa, doutor. 

– Josimar, vou te pedir agora na maior humildade. Na moral. Você é homem, você entende. Você mesmo disse que homem nenhum se sustenta sem um braço de mulher. Eu preciso viajar com a minha namorada. Entendo as necessidades de Dona Beth. Respeito muito Dona Beth, longe de mim fazer pouco de quem guia essa nação, nossos educadores. Mas à escola dar aula, ela pode ir de ônibus mais um dia. Só um diazinho. Já eu não posso adiar essa viagem, Josimar.  

– Dá, não, senhor. O carro dela chegou antes. 

– Porra, Josimar! Você é broxa? Você é viado? Qual é seu problema? Eu preciso comer aquela mulher amanhã, Josimar. 

– Pois coma aqui em Brasília, doutor. O senhor não precisa ir para Caldas Novas para isso não. 

– Caralho! Vai tomar no cu, Josimar! A gente trata os outros com educação, com o maior respeito, e quando precisa de um favor, recebe o quê? É bom para a gente aprender a ser escroto com quem é escroto com a gente! Bonzinho só se fode, está ouvindo? Só se fode! Vai à merda, Josimar! Seu tremendo filho de uma puta! Mecânico de merda, sujo de graxa filho da puta! 

O empresário entrou em seu carro, bateu a porta com força, cantou pneu e arrancou. Seu Josimar ainda tentou gritar: “Não viaje com esse carro não! É perigoso!”. De nada adiantou. Ele não sabe se o sujeito viajou ou não, mas passou alguns dias preocupado. Na hipótese menos ruim, fundiria o motor! Se algo lhe acontecesse na estrada, Josimar se sentiria culpado. Paciência, é a vida. Nunca mais tornou a ver o doutor seu amigo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O cemitério dos solitários

O que ela sentia enquanto caminhava da Praça dos Três Poderes até a rodoviária, não sabia. Ou sabia, mas não podia nomear, o que dava na mesma. Um sentimento só faz sentido quando lhe damos um nome. Resolveu chamar àquilo solidão. Creditou-lhe à monumentalidade que dá nome ao eixo que liga o Palácio do Planalto, onde era ajudante de limpeza, até a rodoviária, onde pegava o ônibus para sua casa, em São Sebastião. Quem, como ela, faz esse trajeto a pé todos os dias, passando por todos os ministérios, caminhando rumo ao inalcançável horizonte, certamente, um dia, já se sentiu solitário.

Ajudante de limpeza, o que isso significava? Nem sequer era a responsável, em si, pela limpeza. Não: era uma mera ajudante. Isso não mexia com seu orgulho, no entanto. Se um dia tivera orgulho, perdera-o havia muitos anos. Não sentia falta do orgulho, vivia muito bem sem ele. Preferia, antes, vencer esse sentimento que chamou de solidão, mas cujo nome não sabia se era mesmo esse. Isolamento, pequenez, incompatibilidade, não pertencimento, talvez houvesse termos mais apropriados, mas que não cabiam em seu limitado vocabulário. Solidão. Preferiu assim chamar e assim passou a ser. O que se nomeia é. Se ela se diz solitária, quem lhe dirá o contrário? Talvez, o mal do século seja a solidão não por causa de uma característica inerente à nossa época, mas simplesmente por causa da popularidade do nome, que se encaixa bem em qualquer conversa despretensiosa, proliferando-se no vocabulário universal. Vai ver as pessoas se acham solitárias por um tipo de mimetismo vocabular, oriundo de uma limitação conceitual provocada pelo escanteamento de termos que melhor definiriam nossos sentimentos.

Seja como for, ela caminhava da Praça dos Três Poderes até a rodoviária para pegar um ônibus que depois a conduziria de volta pelo mesmo caminho, passando pelo Palácio do Planalto, seguindo pela Ponte JK, até São Sebastião. Em vez de esperar em algum ponto de ônibus entre a praça e a rodoviária, fazia a pé esse trajeto, que não é curto, sob o pretexto de pegar um ônibus mais vazio, de entrar na fila para os ônibus de São Sebastião sem a necessidade de subir no primeiro que aparecer, podendo escolher até, enfim, ter a oportunidade de viajar sentada. Mas sabia que não era assim. A fila existia só até chegar o ônibus, desmanchando-se assim que o veículo estacionasse em sua respectiva baia. Então, somente hoje, sob o que denominou solidão, pôde perceber o verdadeiro motivo de ir diariamente até a rodoviária: gostava dessa caminhada. Além disso, preferia adiar seu retorno para casa, onde encontraria um marido que pouca ou nenhuma conexão tinha com ela. Se, durante a andança, a solidão, mesmo não sendo agradável, tinha algo de pleno, de libertador, o mesmo não se pode dizer sobre quando ela chegava em casa: a pior solidão é aquela em que se está acompanhado.
A tal solidão que dela se apoderava só piorou quando nuvens carregadas se avolumaram sobre o Eixo Monumental, em pleno mês de julho, auge do período de seca. O sentimento de haver algo errado, alguma peça que não se encaixava em um amplo quebra-cabeça, a sensação de estranhamento se intensificava conforme o céu progressivamente se resumia a pontos azuis em meio a uma imensidão cinzenta. Brasília é o cemitério dos solitários. Esse céu, essas nuvens tão baixas, esse horizonte, essa amplidão, tudo a nos lembrar constantemente que não somos nada. E o marido em casa, vazio, desconexo, inapto a unir um nada ao outro. Lembrou-se de uma amiga de São Paulo com quem havia tempos não se encontrava. Um dia, essa amiga lhe dissera que São Paulo, sim, é o cemitério dos solitários, uma metrópole fria, tão densa quanto tensa, tão viva quanto morta. Ficou sem entendê-la: como assim São Paulo é uma cidade fria, com tanta gente? Não. Brasília é o cemitério dos solitários.

Chegando à rodoviária, descartou a hipótese de aquele estranho sentimento advir da amplidão do Eixo Monumental. Continuava solitária, esquisita, um ser um tanto quanto autômato, regressando à casa que não queria voltar, para, na manhã seguinte, encaminhar-se ao trabalho aonde não queria ir. Avistou a fila, enorme, e decidiu-se por comprar um pastel na Viçosa, como se lhe faltassem forças para enfrentar o amontoado de gente, que, apesar disso, só aumentava. Vendedores de bala, de pendrives, de óculos escuros, ambulantes dos mais diversificados segmentos disputavam espaço com motoristas de transporte ilegal.

Comeu o pastel, envolta à poluição sonora, tão solitária na claustrofobia da rodoviária quanto na imensidão do Eixo Monumental. Entrou, por fim, na fila do 180.1, ônibus que fazia o percurso mais curto até São Sebastião. Decorreram-se muitos minutos até chegar sua vez de subir na condução. Foi quando algo lhe despertou um pensamento, tirando-a do automatismo: por que pegar o ônibus mais rápido, se o que ela queria era justamente adiar a volta? Brecou na escada do veículo: um pé no primeiro degrau e o outro no chão da rua. Um adolescente mais apressado tirou-a do torpor com gritos impacientes:

– Arrocha, tia!

Voltou para fora, extasiada, caminhando até o 197.3, ônibus que, se não fazia o mesmo trajeto do 180.1, tampouco se afastava muito do melhor caminho, desviando-se apenas um pouco pelo Lago Sul. "Não, esse também não." Foi para o 147.5, o mais voltoso deles, que desviava totalmente do percurso ao ir até a W3.

Chegou tarde em casa. Solitária, como sempre, desde sempre. O marido não a recebeu, não a cumprimentou, via qualquer coisa na TV, ele que trabalhava na portaria de algum condomínio do Jardim Botânico, mais perto de casa, e, portanto, voltava antes da esposa. Ele também flanava pelo vazio que lhe tomara e em que se tornara. Ela, por sua vez, tomou banho, requentou a comida do fim de semana, jantou por obrigação e, antes de vestir seu pijama, passou só de calcinha em frente ao esposo, que nada percebeu. E, assim, terminou o dia. Ele, olhos vagos como os de um zumbi, absorvido pela luz da TV, mas não absolvido pela luz da mulher.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

O merda que me tornei

Ele chegou para mim com seu romance recém-escrito e me pediu para lê-lo. Era uma história de uma faxineira que se apaixonava por um sujeito endinheirado e que largava os filhos no campo para ir morar com o namorado na cidade.

– Tentei enviar esse manuscrito a alguns escritores renomados, mas eles nunca me responderam, então procurei alguém mais acessível.

Tentei recalcar o significado daquilo: ele enviou seu romance para mim porque eu não sou renomado. Escolhi me fixar na lisonja por ter sido eu o escolhido para ler seu texto, ainda que isso só se tenha dado por eu ser “mais acessível”.

– O que eu quis foi fazer algo realista – ele me disse, com um ar meio ingênuo, o que fez com o que eu me sentisse um bobalhão. Não que eu tivesse algo a ver com a ingenuidade dele, mas acontece que eu próprio me identifiquei com seu tom inocente. Eu estava certo de que eu também falava daquele jeito quando ia comentar sobre meus textos.
– Ok, vou ler – consenti, meio a contragosto. Embora não se tratasse de um amigo, ele era um conhecido, um colega dos tempos de faculdade, não podia negar o favor (afinal, sou “acessível”).
– Queria fazer algo realista, sabe? – ele se repetiu, como se minha não resposta a esse ponto em específico significasse que eu não o tinha ouvido. – Tentei usar o palavreado que as faxineiras usam! 
– Que faxineiras você conhece? – eu perguntei. Ele já ia balbuciando “a min...”, quando eu o interrompi: – Sem ser a sua, evidentemente.
– Ah, sei que são pessoas como a gente! Conheço algumas, sim.

Filhinho de papai do caralho! Aquilo me irritou: já ia ler o texto do cara de mau grado. Justamente para que minha má vontade não influenciasse minha avaliação, pedi-lhe que me procurasse de novo em uma semana, que não o leria naquele mesmo dia.

– São só cem páginas! – ele disse. E o que ele queria? Que eu lesse as cem páginas enquanto ele ficava lá, me olhando com aquela cara de bunda azeda?
– Em uma semana. Aliás, não me procure, não. Deixe que eu te mando um e-mail com as minhas impressões. – Nisso, eu já fui abrindo a porta do apartamento, em um singelo convite (ou nem tão singelo) para que ele se retirasse.

Acontece que o sujeito não é má pessoa, mas tem daquelas caras lisinhas que dão nos nervos de qualquer um, além do cabelinho loirinho arrumadinho, o que faz dele uma pessoa toda no diminutivo. Sempre viveu numa casa no Lago Sul – porra, nascido e criado no Lago! Não podia, ao menos, ter crescido em outro canto? Usava o carro para comprar pão, nunca pegou um ônibus na vida! Eu queria escrever um livro sobre ele! Isso era o que eu queria! Um “livro realista, sabe?”, porque ele deve ser “como a gente”. Eu iria perguntar a ele como foi sua adolescência, como ele comia mulher sem pegar ônibus, como ele trepava antes da maioridade, se era levado pelo pai até a casa da namoradinha ou se ficou na punheta até o Detran aprovar suas barbeiragens e lhe dar esse porte de arma que é a carteira de motorista.

Sim, ele me irritava, mas, acima disso, eu próprio me irritava. Essas elucubrações vieram enquanto eu fumava um cigarro no pilotis do meu prédio no Plano Piloto, eu próprio pertencente a essa classe à qual eu não queria pertencer! Quem eu queria enganar? Quem eu queria criticar? Quando tinha sido a última vez em que eu usei transporte público? Ah, na minha viagem a Dubai, é claro. Eu que vá à merda com a minha hipocrisia, porque eu não sou muito diferente dele. Tentei me defender da minha consciência, alegando que, enquanto ele nasceu e cresceu na região de Brasília que, se fosse um país independente, teria o melhor IDH do mundo, eu, por minha vez, estudei em escola pública, passei toda a minha vida pegando ônibus, nunca nem de longe fui tão abastado quanto ele... Eu, sim, podia ser um escritor – era o que eu dizia para mim mesmo, arrogantemente, infantilmente –, ele, não! Ou, tudo bem: se ele queria escrever, que escrevesse, mas não sobre uma faxineira, não algum “livro realista, sabe?”. Que escrevesse sobre a sociedade bunda mole que ele conhece, por que não? A corte francesa, por acaso, escrevia sobre os miseráveis de Paris? Todos esses escritores sanguessugas do século XVIII falavam sobre os desafortunados da sociedade? Por que ele tinha que se meter em escrever sobre uma faxineira? Será que é porque é isso que está vendendo: falar sobre vítimas da guerra, oprimidos pela miséria, doentes e esfomeados? Teriam os leitores do hemisfério norte se cansado de ler sobre suas próprias vidas (as quais, afinal, eles já conheciam muito bem) e passado a consumir a literatura dos oprimidos (que, apesar de tudo, era escrita por pessoas de seus próprios grupos e do de meu colega, que achavam que estavam escrevendo algo “realista”)?

Por fim, deixei toda essa chateação de lado e fui ler seu manuscrito. Foi acertada a decisão de não lê-lo no mesmo dia, mas minha irritação, ao contrário do que eu previa, não tinha diminuído muito. Por isso, evitei tecer maiores anotações em seu texto, que, como um todo, sejamos sinceros, estava bem escrito. Fiz algumas correções gramaticais, troquei alguns pronomes de lugar, tudo com o “controlar alterações” do Word, pois não queria mexer autoritária e diretamente em seu texto. Todas essas modificações ele acatou, com exceção de uma, que foi o que gerou debate:

– Achei muito forçado... – eu respondi, quando ele me perguntou por que eu tinha marcado a expressão “não é brinquedo não” numa das falas da personagem principal.
– Forçado por quê? – ele perguntou. – É uma expressão popular, falada por faxineiras, qual é o problema?

Aquela generalização, aquelas palavras, toda a escolha semântica que ele usou para se justificar me irritou de tal modo que eu decidi não responder àquele e-mail. A raiva foi tanta que eu deletei, denunciei como spam! Mas não adiantou. Dois dias depois, ele me ligou:

– Por que você não gostou daquela passagem? Só falta esse detalhe para eu enviar o livro para publicação.

Publicação? Ele iria publicar aquela merda? Com essa rapidez toda, sem nem sequer ser avaliado por um editor ou algo do tipo? Ok, respirei: há dois tipos de editora: as que te respondem rapidamente, aceitando a publicação, mas te cobram o olho da cara e as que levam meses para te dar uma posição e geralmente não a dão – e, quando o fazem, é para negar. Ele seria publicado pelo primeiro grupo de editoras, eu quis me convencer. Seria uma editora pequena, fraca, dessas que aceitam qualquer droga desde que você pague. Ele nunca seria lido. E por que eu queria me convencer disso? Que tipo de sentimento mesquinho era esse?

– Nenhuma pessoa na vida real fala “não é brinquedo não” – eu respondi, contendo toda a raiva para não deixá-la transparecer na minha voz.
– Cara, você está por fora – ele me disse, para meu desespero.
– É uma expressão de novela – eu disse, separando sílaba por sílaba, como estratégia para acalmar a respiração. – Não tem nada a ver com a vida real.
– Conheço pessoas reais que falam.
– Aham... Faxineiras, inclusive? – ironizei.
– Faxineiras, inclusive – ele me respondeu, muito sério.
– Cara, você só conhece a sua faxineira! Você não sabe nada da vida! – eu explodi, a raiva contida de dias. – Se é que ela fala, ela é uma, apenas uma pessoa! Não pense que sabe alguma coisa, você não conhece nada, você conhece uma faxineira! Uma!
– Você conhece quantas?

Era a pior coisa que ele podia ter dito. Aquela pergunta me destruiu. Nem sequer uma faxineira eu conhecia. Isso poderia ser uma vantagem minha, poderia significar que, enquanto a única faxineira que ele conhecia era a mulher de cuja mão de obra ele abusava, eu não explorava ninguém. Mas a verdade era que eu tinha uma faxineira e, pior, eu nem falava com ela. Vai ver ela falava vários “não é brinquedo não” e eu não sabia. E além dela? Nenhuma. Meus amigos eram todos uns almofadinhas bebedores de vinho que discutiam Foucalt e comiam foie gras.

– Conheço algumas – menti. – E nenhuma cometia os erros de português que você colocou nas falas da sua personagem.
– Ah, não? Como elas falavam?
– Sei lá! O que quero dizer é que sua personagem é um preconceito, um estereótipo, uma ofensa!
– Repito a pergunta: como elas falavam?
– No Rio, conheci uma que tinha mestrado em Letras – eu disse, ressuscitando uma história que me foi contada por uma vizinha ao se referir à empregada da amiga dela. Ou seja: não faço ideia se era verdade.
– Então, você quer que eu pegue essa uma empregada que era mestra em Letras e a transforme na heroína do meu livro? Não... Isso é muito mais preconceituoso! – Pelo tom de voz, ele, enfim, também estava irritado. – Meu livro é uma denúncia social e não vou usar uma personagem falsa, dessas que, na vida real, são uma em um milhão, para protagonizar meu romance. Seria o mesmo que falar que qualquer camelô pode virar um empresário de sucesso só porque o Silvio Santos conseguiu. Não! No dia em que eu escrever sobre camelôs, meu personagem não será o Silvio Santos. Acuse-me de preconceito, se quiser, mas quando eu falar sobre um negro da favela, não é sobre o cara que venceu na vida que vou escrever. Não: eu vou falar sobre o negro favelado que entrou para o mundo do crime e morreu! Minha travesti, por sua vez, nunca vai ser a Roberta Close, mas, sim, um traveco de rua que aguenta violência e humilhação todo dia. E, além do mais, se você quer mesmo a minha opinião, acho que você nunca conheceu faxineira com mestrado em Letras porra nenhuma! Você inventou essa merda toda!

E ele desligou o telefone na minha cara. No fim da fala, ele já estava gritando. A voz de menino bonzinho deu lugar a um timbre grave, enfurecido. Lamento que aquela conversa se tenha dado por telefone. Queria ver a cara dele ao falar tudo aquilo. Na minha imaginação, suas bochechas de neném ficaram vermelhas e os olhinhos de sono fecharam-se mais ainda até dele saírem lágrimas. Não lágrimas de menininho, como ele já deve ter derramado aos montes, mas lágrimas de raiva, fruto da convicção de um discurso.

Ele ganhou meu respeito. Passei a gostar muito mais dele a partir daquele dia. Nunca mais voltamos a nos falar, mas ele conseguiu me fazer ver o merda que me tornei.

O filho eterno

Um título impactante, pesado, interpretado sob vários prismas, “O filho eterno” narra a história de um escritor que tem um filho com síndrome de Down. “O filho eterno” por causa da incompreensão temporal do menino? Ou por que assim é qualquer filho: eterno?


Esse pode ser um tipo de história bem chata: um pai que tem um filho com alguma deficiência e, juntos, eles conseguem vencer os medos e preconceitos da vida. Não é isso. Na verdade, nem posso dizer se eles venceram coisa nenhuma. O protagonista, sob cujo ponto de vista a história se desenrola (embora em terceira pessoa) é um sujeito culto, leitor de Nietzsche, ex-estudante de teatro, na batalha para ser um escritor (ou, ao menos, para ser lido). Sua cultura, proporcionalmente inversa à sua pouca maturidade emocional, é posta em xeque quando o médico anuncia que seu filho é mongoloide, termo em voga nos anos 80 e hoje em desuso. O aspirante a escritor (que nunca conseguiu se sustentar escrevendo, mas, sim, consertando relógios e sendo bancado pela esposa) vê-se imerso na vergonha de ter um filho Down. Desesperado, busca outros diagnósticos, todos unânimes: não é uma criança normal. A única esperança do pai passa a ser a morte do filho. Focado nas estatísticas de que crianças com Down tendem a falecer prematuramente, prende-se a esse pensamento para suportar a humilhação de ter um doente mental em casa, fruto de seus próprios genes. O garoto, porém, cresce, envelhece: o filho eterno.

Felipe (assim se chama o garoto, ao passo que o nome do pai nunca é citado) desmistifica, mas também desromantiza vários estigmas de portadores de Down. Sua relação paterna é ressignificada a todo instante e o próprio pai tem sua alma dissecada com minúcia pelo autor, Cristovão Tezza, que é catarinense, viveu em Curitiba, nasceu em 1952 e ainda é ativo no meio literário. "O filho eterno" é um livro recente, de 2007, vencedor de inúmeros prêmios (destaca-se um concedido pela Associação Francesa de Psiquiatria). Foi eleito pelo Globo um dos dez melhores livros de ficção da década. De linguagem extremamente elegante, já foi lançado em aproximadamente quinze países e é uma dessas obras que me deixam feliz por, de vez em quando, escantear os grandes clássicos e encarar romances contemporâneos. Tezza é como um autor historicamente relevante (a qualidade não deixa nada a desejar), só que falando do nosso tempo e da nossa terra (afinal, de bônus, ele ainda é brasileiro).

………

Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em janeiro de 2015. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.