segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Não fale com estranhos

Vitor trabalhava em uma empresa onde dividia o mesmo espaço físico com outros trinta funcionários, separados apenas por pequenas divisórias desmontáveis que guardavam os computadores utilizados por cada um.

Dos trinta trabalhadores, Vitor se considerava, apesar das picuinhas normais de ambiente de trabalho, colega de todos e amigo de alguns. Destes últimos, os mais próximos eram Bruno, Cesar e Claudio, tendo sido padrinho de casamento de dois deles. Além dos amigos, outras pessoas constantemente frequentavam o mesmo círculo, saindo juntos para beber, visitando uns as casas dos outros etc. E vale ressaltar que Vitor jamais havia tido nenhuma desavença com nenhum dos trinta trabalhadores.
Justamente devido ao bom relacionamento de Vitor com os outros, um dia ele foi chamado à mesa do presidente e lhe foi oferecido o cargo de coordenador geral da empresa. Tal posto só está abaixo do próprio presidente, o que significa dizer que Vitor pularia, de uma só vez, as funções de gerente, supervisor, supervisor geral e diretor, para, em um só salto, passar de mero funcionário a coordenador geral, o braço direito do presidente.

Obviamente, o próprio Vitor ficou muito surpreso com a oferta e foi necessário que o presidente repetisse a proposta para Vitor se certificar de que ouvira corretamente. Coordenador geral, sim, uma justa recompensa ao melhor e mais esforçado de todos os funcionários daquela empresa, mais dedicado até mesmo que outras pessoas que estavam hierarquicamente superiores a ele, justificando-se, assim, a queima de etapas na progressão.

Vitor agradeceu, aceitou e, assim que saía da sala do presidente, já pegava o celular para telefonar para sua esposa e dar as boas notícias. Com a mudança de cargo, seu salário aumentaria em 250%, será mesmo possível? Era um sonho que precisava compartilhar. Antes que pudesse pressionar qualquer tecla do telefone, porém, seus colegas já o esperavam além do corredor, no grande espaço compartilhado, afoitos pela notícia. Nunca haviam presenciado nenhum funcionário ser chamado diretamente pelo presidente. Quando alguma instrução superior se fazia necessária, era repassada pelo gerente ou, no máximo, pelo supervisor, respeitando-se a hierarquia vigente. Justificou-se, assim, a imensa agitação que percorreu a empresa naquele dia.

O que ele disse? O que aconteceu? Você será promovido? Será despedido? Tem algum recado do presidente? Como é a sala dele? Como é a mesa dele?

 Calma, gente.  disse Vitor, ainda ofegante. – Serei promovido. – E abriu um largo sorriso.

Nesse instante, gritos de exaltação tomaram todo o ambiente e vários abraços e congratulações vieram em direção de Vitor. “Parabéns, parabéns! Nosso novo gerente!”

 Serei coordenador geral!

O quê?! Coordenador geral?! Já?! Como isso é possível? E o antigo coordenador geral? Que houve com ele? Por que o diretor não foi promovido a coordenador geral, em vez de Vitor? Que significa isso?!

– Estou tão surpreso quanto vocês! – exclamou Vitor, contendo os olhos marejados e expandindo o sorriso. – Mas foi o que o presidente me disse. Coordenador geral!

Agora, os gritos viravam uivos de exaltação e Vitor chegou a ser arremessado para cima por seus colegas. A partir do dia seguinte, Vitor já estaria empossado em sua nova função.

Quando, por fim, o outro dia chegou, Vitor entrou às 8 da manhã, como de costume, e, dados os eventuais bons-dias, foi ocupar seu tradicional espaço, em frente ao antigo computador. Foi aí que seu amigo Bruno o alertou:

 Você vai continuar aqui? Acredito que o presidente te queira mais próximo dele. Aqui, não é lugar para um coordenador geral.

Vitor pensou, coçou a testa e respondeu:

 Será? Pode ter razão. Mas aqui é o meu lugar. Não gostaria de sair desse convívio.
 Terá que se desapegar, Vitor.

Vitor, então, foi à sala do presidente, bateu respeitosamente à sua porta e, vendo que ninguém abria, preparou-se para retornar, quando a secretária presidencial falou, de sua mesinha de frente para a porta:

 O senhor presidente ainda não chegou. Mas o senhor pode entrar.
 Oh, não, não. Melhor não. Vou esperá-lo lá no salão dos funcionários.
 O posto de trabalho do coordenador geral não é no salão dos funcionários – disse a secretária, com semblante sério e intocável.
 Imagino que não – respondeu Vitor, que, ao contrário da moça, esforçava-se para sorrir. – Mas não sei onde trabalharei a partir de agora.
 Será na mesma sala do presidente, juntamente com ele. – A mulher continuava séria.
 Pode ser. Nesse caso, é melhor esperá-lo. – E Vitor foi andando, para não dar tempo de a moça responder. Entretanto, mal virava o corredor, o próprio presidente chegava no sentido contrário.
 Vitor, bom dia! Que bom que já veio diretamente para a minha sala, fez muito bem. Espero que tenha gostado da sua mesa. Só tive tempo de arrumá-la ontem, depois da nossa conversa, ainda precisa ser melhorada. Sinta-se à vontade para modificar o que desejar.
 Na realidade, ainda não vi minha mesa – disse Vitor, timidamente, sendo levado pelo presidente rumo à sala.
 Cátia! – falou o presidente, em direção à secretária. – Como deixou o coordenador geral aqui de fora? 

Nesse momento, os olhos de Cátia fuzilaram Vitor, mas ele tentou explicar o mal-entendido, embora o presidente não o ouvisse.

A partir de então, Vitor era, de fato, o coordenador geral da empresa. Eram várias funções novas, muitas outras responsabilidades, dentre elas a de fiscalizar os funcionários.

 Essa era uma função que, embora exercida por todos aqueles hierarquicamente superiores, era efetuada mais acentuadamente pelo gerente – explicou o presidente. – Normal, afinal o gerente era o primeiro degrau acima deles. Dessa forma, o supervisor fiscalizava o gerente, o supervisor geral fiscalizava o supervisor, o diretor fiscalizava o supervisor geral e, assim, sucessivamente. Mas minha vontade é a de implantar um novo sistema de fiscalização conjunta em nossa empresa, de modo que todos possam fiscalizar todos. É um meio de controlar as indisciplinas e, sobretudo, a corrupção. Perdemos uma boa verba no ano passado que não sabemos para onde foi. Em outras palavras: houve desvio. Falando especificamente sobre os funcionários gerais, que constituem a casta mais baixa de nossa empresa, acredito que você seja o melhor nome para essa função de fiscalização, uma vez que, por anos, trabalhou entre eles e era bem visto por todos. Como eu disse ontem, seu bom relacionamento com todos foi fator determinante para eu te chamar para essa função. Sei que, por confiarem em você, não hesitarão em cometer velhas indisciplinas na sua presença, ainda que você esteja nessa nova função. Soma-se a isso o fato de você ser o coordenador geral da empresa, alguém que, historicamente, tem a função de fiscalizá-los, mas não o faz exatamente, cabendo tal função, por anos, na prática, para os gerentes. Esse foi outro motivo para eu te convidar para ser coordenador geral, não para gerente, supervisor nem nada. Enfim, além de todas as responsabilidades típicas de um coordenador geral, espero de você a minimização das indisciplinas ocorridas nessa empresa. Cansei de perder dinheiro porque às 17:50 o telefone tocava e não tinha ninguém para atendê-lo. Nosso horário de saída é 18:00, não 17:40, não 17:45. Se quinze minutos são desprezíveis, que saiam às 18:15, não às 17:45. Esse é só um exemplo, Vitor. Só um exemplo de indisciplina que se transformou em cultura na nossa empresa. Isso não pode mais ocorrer. E conto com você para isso.

Vitor aquiesceu, mas com um péssimo sentimento. A última coisa que desejava era assumir o papel de dedo-duro da empresa. Começou a fazer algumas tarefas, na sala do presidente, ao lado deste, mas se sentindo mal e com pouca atenção. No ambiente, ficavam apenas os dois e o silêncio imperava, ocasionalmente interrompido por risadas vindas do saguão dos funcionários, onde Vitor trabalhava até o dia anterior.

– Risos ao invés de trabalho – murmurou o presidente. – Isso deve acabar, Vitor. Isso deve acabar.

Ironicamente, o pensamento de Vitor, ao ouvir as risadas, era exatamente o oposto: “Eu preferia estar lá”. Quando o relógio marcou 17:30, o presidente ordenou:

– Vitor, vá para o saguão e me relate amanhã os nomes daqueles que sairão mais cedo.
Vitor tentou argumentar que existia ponto eletrônico, que era desnecessária essa caça às bruxas, mas, vendo que o presidente se irritava com suas tímidas objeções, resolveu obedecê-lo. Chegando ao saguão, foi recebido com entusiasmo pelos seus antigos colegas. Muitos foram os que saíram mais cedo. Vitor, porém, no dia seguinte, não comunicou nada ao presidente e, dada a intensa infelicidade que lhe abateu após o expediente, prometeu para si mesmo: se, em uma semana, essa terrível sensação não cessar, pedirá para retornar ao antigo cargo.

Era domingo e, como haviam combinado desde o início da semana, os quatro maiores amigos (Claudio, Bruno, Cesar e Vitor) resolveram almoçar juntos, com suas famílias. Algo de muito estranho ocorreu nesse evento e, dada a sutilidade dos acontecimentos, Vitor não sabia se eram eles reais ou frutos do mal-estar que lhe tomava a alma.

Em suma, com tudo o que Vitor falava os amigos concordavam. A primeira impressão seria de puxa-saquismo, mas não era bem o caso. Parecia a Vitor que seus amigos, com quem tantas discussões já teve sobre a vida, perderam a intimidade com ele, perderam a capacidade de dizer: “Eu discordo”. Às vezes, os três não meramente concordavam, mas complementavam uma colocação que dispensava complementos. Por exemplo: Vitor disse que não entendia como determinado livro havia sido tão vendido no país. Bruno disse: “O livro é uma droga”; Cesar falou: “Os leitores não são exigentes” e Claudio acrescentou: “Esse tipo de livro sempre vende”. É claro que esse tipo de livro sempre vende, era o tipo de livro que o próprio Claudio lia, mas por que ele não confrontava Vitor, de alguma forma, como já feito em tantas outras vezes?

Outro momento que fez com que Vitor se sentisse muito mal: enquanto a mesa estava sendo preparada, ele comentou que seu estômago “estava roncando”. A metáfora é tão desgastada que isso nem mesmo pode ser considerado uma piada. Porém, todos riram! Não foram gargalhadas nem nada exagerado (por isso, repito: Vitor não achava que estavam meramente puxando o seu saco), mas risos contidos, embora audíveis, risos não espontâneos, que só fazem as pessoas sem intimidade entre si.

Os quatro amigos sempre foram muito próximos. Constantemente, nem sequer se cumprimentavam quando chegavam ao trabalho, mas já começavam uma conversa supérflua qualquer. Xingavam-se em tom de brincadeira, riam – espontaneamente – uns dos outros, divertiam-se com o incorreto. Vitor perguntou-se, portanto, por que Claudio disse “estar muito feliz" com o seu sucesso profissional ou por que os outros dois lhe desejaram “toda a sorte do mundo”. Você só deseja “toda a sorte do mundo” para quem, no fundo, é indiferente aos seus olhos, com quem você, ainda que não antipatize, também não se importa nem um pouco se vai ou não ter sorte.

Na segunda-feira, Vitor estava com um estado de espírito ainda mais sombrio, que só piorava com o passar das horas e dos dias. Quando completou uma semana, decidiu: ia pedir para retornar ao seu antigo cargo. Se o presidente se ofendesse e quisesse demiti-lo, para o inferno, que o demitisse! Mas não podia continuar nessa situação.

A primeira missão do dia, portanto, foi logo comunicar sua decisão ao chefe. O presidente não entendeu sua justificativa (“não me adaptei à nova função”), mas, embora relutante, mostrou-se mais compreensivo do que Vitor esperava. Não o demitiu, não o repreendeu, apenas acatou seu desejo. Vitor voltava a ser um funcionário de baixa hierarquia.

– Por que você voltou? – foi a pergunta de todos.
– Foi só um período de testes – respondia Vitor. – Não me adaptei.

Mas quem não tinha se adaptado, de fato, eram os colegas de Vitor. Nenhum dos trinta funcionários, incluindo Claudio, Bruno e Cesar, esperava pela volta de Vitor e pareceram ver nele um estranho. Nunca ninguém soube – nem sequer desconfiou – que Vitor algum dia já esteve ali para, em tese, vigiá-los. Nunca se sentiram traídos nem ameaçados por Vitor. Mas simplesmente não mais o reconheciam. Se Vitor realmente mudou ou se era apenas coisa da cabeça deles não se sabe, mas a terrível sensação que se apoderou de Vitor enquanto coordenador geral, ao contrário do que ele planejou, não desapareceu com a retomada da antiga função. 

Hoje, Vitor está desempregado. Acabou por ser demitido da empresa. Na verdade, ele praticamente pediu demissão, pois começou a chegar atrasado, a faltar sem justificativa, a executar erroneamente suas tarefas etc. Hoje, ele procura um novo trabalho com novos amigos, mas não deixa de se lembrar com carinho dos anos que antecederam sua admissão como coordenador geral. Desde então, sua infelicidade só aumenta. Parece que até sua esposa anda distante. A pobre da mulher nunca conseguiu entender toda essa história, por mais que Vitor a explicasse. Era tudo subjetivo demais. Fato é que nunca mais ninguém teve intimidade suficiente com ele, nunca mais deixaram de rir de suas piadas-não-piadas, nunca mais dispensaram complementos dispensáveis, nunca mais voltaram a discordar de Vitor.

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