terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Disseram que escrevo

Bruno tinha quatro anos quando ouviu de sua mãe: “Esse menino é muito quieto, nunca sorri”. Não era verdade. Ele sorria. Sorria na escola, sorria com os colegas, sorria vendo TV, mas sua mãe não notava. Desde então, ele passou a evitar os sorrisos.

Maria, ao contrário, era tida como levada. A professora um dia falou que ela era muito bagunceira. Não foi em tom de crítica nem nada assim, mas fato é que Maria, que, quando sozinha, preferia ficar quieta e descansar, ao se ver na presença de outras pessoas – especialmente da professora –, não podia deixar de fazer o que esperavam dela: bagunça. Um único dia mais introspectiva, perguntavam-lhe: “Maria, você está triste? Que você tem?”.

Não só com crianças isso acontece. Breno, enquanto ocupava importante cargo de chefia de uma multinacional, já havia percebido que as pessoas tendem a se comportar conforme determinada expectativa. Rotineiramente, falava a seus subordinados – em particular, sem os outros notarem a estratégia – que se tratava de profissionais qualificados e competentes. Se determinado empregado se atrasasse algum dia, ao invés de repreendê-lo, Breno o elogiava pela sua pontualidade; se um trabalhador se envolvesse em alguma briga, Breno lhe dizia estar surpreso, pois se tratava de sujeito tão sereno; se outro fosse individualista, Breno lhe propunha trabalhar mais em grupo, pois estava certo de que o funcionário tinha características indispensáveis para o trabalho em equipe. E dava certo. No fim do mês, era espantoso averiguar a porcentagem de metas cumpridas. Um trabalhador, que sempre ficava na casa dos 70% de metas, ouvia de Breno: “Esperava, no mínimo, 90% de você, afinal você é tão competente!”. E o sujeito, de fato, passava a bater 90% ou mais a partir do mês seguinte.

As pessoas só se constituem a partir da visão do outro. Ainda que neguem, por mais que abominem a ideia, os indivíduos se camuflam através de máscaras sociais, escondendo-se tão intensamente que acabam por virar tal disfarce. A questão é quem molda essa máscara. Nunca é a própria pessoa, mas outra. De tanto adjetivarem Jaqueline, ela já se convenceu que é simpática e vaidosa. Ela, que, outrora, não era comunicativa tampouco se importava tanto com a aparência, depois das definições, passou a ser um mar de sorrisos e um oceano de maquiagens.

O doutor Pedro está quase enlouquecendo de tanto tratar de loucos. Muito atencioso à mídia, trata-se do mais famoso psiquiatra da cidade, estando presente, por essas razões, em quase toda matéria sobre o tema nos jornais, rádios e TVs locais. Diz ele que recebe em sua clínica diversos casos de gente que ouvia uma caracterização de um conjunto de amigos e outra oposta de um segundo grupo. O repórter pede detalhes e ele os dá. Para o canal 4, ele diz: “Tenho um paciente que falou que seus amigos do trabalho o chamam de beberrão, mas os colegas do clube reclamam que ele bebe pouco”. Quando ele contou esse mesmo caso no canal 7, o entrevistador rebateu: “Ué, é só ele beber muito com os amigos de trabalho e pouco com os do clube”. “Ah, claro”, respondeu o doutor, “mas e quando ambos os grupos vão juntos para o bar? Ele entra em parafuso”. Na vigésima ou trigésima vez em que ele contava algum caso análogo, agora no canal 13, o jornalista brincou: “Fala para os loucos entrarem no Facebook. Lá estarão todos os seus amigos e parentes reunidos e os doidos terão que escolher uma só máscara para mostrar”. “Oh, eles entram”, disse o médico, “mas, coitados, nunca conseguem postar nada”.

O doutor Pedro, a propósito, costumava odiar dar entrevista. Mas alguém um dia lhe disse que ele era muito atencioso com a imprensa...

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