terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Arquitetos do horror

Toda grande cidade é feia. E a maioria das pequenas, também. Em todas, veem-se becos mal iluminados, prédios desordenados, pinturas descascando e pessoas desgastadas. Em todas, há fios cruzando postes, bloqueando o horizonte. Não importa a cidade: há sempre lixos, poças de água, construções caóticas, muros de concreto, árvores renegadas a obstáculos e céus renegados a detalhes. Janelas com grades pesadas fazem todo edifício parecer um presídio. Aparelhos de ar condicionado se multiplicam, independentemente do clima do lugar, como verrugas cancerosas em uma pele já envelhecida. A feiura é multifacetada, mas está sempre lá.

– As cidades só são bonitas se vistas de cima – ela me disse, enquanto atirava pedras no lago, em direção ao reflexo da lua. Seu objetivo era conseguir arremessar a pedra além do desenho lunar que flutuava sobre a gélida água noturna. Eu me afligia, porque, quanto mais ela errava, menos tinha chances de vir a acertar, já que, com a rotação do planeta, o reflexo da lua se distanciava cada vez mais.

– Eu diria que as cidades só são bonitas se vistas ou de muito longe ou de muito perto – eu respondi.

– Fala como se conhecesse todas as cidades do mundo... – ela disse. Era uma negra alta, de certamente mais de 1.80, totalmente curvilínea: não só quanto ao quadril, mas todo o seu corpo era um sutil desenho de curvas. Seus braços, que se realçavam no arremesso das pedras, desistiam da retidão tão logo alcançavam a área do cotovelo, quando se afinavam num traço perfeito. De cabelos longos, pouco acima da cintura, confundia-se com a negritude da noite e com o farfalhar da vegetação. Jamais abandonava o olhar altivo, superior, o corpo malemolente.

– O que eu quero dizer é que – eu disse, tentando vencer o mal estar que sua presença naturalmente me impunha – existe uma altura máxima de observação, antes da qual as cidades, mesmo se vistas de longe, serão feias. Se eu voar por essa cidade em um helicóptero baixo, perceberei as casas com telhados horrorosos, os prédios tapando a paisagem... Acima disso, em um avião, por exemplo, o que há são o nada e as luzes, o que diminui muito essa carência do belo.

– Quem se importa com o telhado das casas?

– Daqui de baixo, ninguém. Mas só o cito para justificar minha teoria de que, se vista de cima, mas não de tão alto, toda cidade é feia.

– E por que você disse que a cidade é bonita se vista de perto?

– Não apenas de perto, mas de muito perto! Quando perdemos o panorama, quando tudo o que temos é um recorte, essa cidade pode ser bonita. Se estamos diante de um cartão postal, por exemplo. Mas se obtivermos um distanciamento adequado, maior que o de um cartão postal e menor que o da janela do avião, não há cidade que sustente sua beleza. Prova disso são as atrações turísticas. Toda cidade tem aquela tradicional atração: subir, subir, subir, não importa se rumo a uma torre, a um edifício muito alto, mas subir, o importante é subir, o máximo possível, e, lá de cima, contemplar a cidade. Evidentemente, você não alcança a altura de um avião, mas já está alto o suficiente para não ver as paredes mofadas, descascadas, os fios dos postes, os sacos de lixo, as janelas em forma de grade, os aparelhos de ar condicionado, todos os exemplos que citei e que não vou repetir: o feio infinito que toma conta das grandes cidades do mundo.

Nessa hora, ela abaixou os braços. Acho que desistiu de alcançar a lua. Não sei se se cansou ou se, por fim, cessaram-se as pedras no chão.

– A violência, a ansiedade, o cansaço, o divórcio, o suicídio, o choro, o desespero, a desesperança, a desestrutura, a depressão – eu dizia, aumentando a voz –, tudo isso é culpa da nossa arquitetura mundialmente cinzenta, do urbanismo monstruoso que nos mata, todos os dias.

– Quem faz as cidades? – ela perguntou. – Nós! As cidades são nosso reflexo, por isso são caóticas, cinzentas. Por isso, estão cheias de rachaduras, desbotadas, envelhecidas. A cidade se vê em nós do mesmo jeito que a lua se vê naquele lago.

Nossos discursos pareciam se encontrar, enfim, embora eu defendesse que nós somos o reflexo da cidade e ela dissesse o contrário. Contudo, justamente nessa hora de maior convergência, não a vi mais. Não sei para onde ela foi, se imergiu no lago ou se emergiu para a vida. Eu sei que eu fiquei lá. Não sei por quanto tempo, nem sei se lá ainda continuo, tristemente inútil, como as costas de um prédio sem janela, ora aproveitadas por uma miserável equipe de marketing, ora apenas esperando o descascar final.

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