sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Flores no esgoto

O técnico da companhia de água da cidade estava debruçado sobre o asfalto quente, mexendo em sabe-se lá o que no bueiro. Vez ou outra viam-se pequenas baratas saindo de lá e fugindo de forma apressada pela calçada, aparentemente desconcertadas com a súbita iluminação encontrada.

Um senhor se aproximou com um sorvete na mão e falou:

– Barata é um bicho injustiçado, né? Nem os ativistas dos direitos dos animais defendem uma barata. Ninguém gosta delas. É unânime!
– Também, pudera, né, meu senhor? – respondeu o funcionário. – Que bicho nojento da moléstia!
– Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Se é unânime que se trata de um bicho repugnante, é porque ele deve ter algo de encantador.

O trabalhador fez um assovio de reprovação e voltou a cabeça para dentro do bueiro. O velho continuou chupando seu sorvete, ridiculamente (não que seja culpa dele; é que um homem chupando um sorvete é sempre uma cena ridícula).

– Da mesma forma, acho encantadora sua profissão – disse o senhor. O trabalhador voltou de novo sua cabeça para a claridade e perguntou:
– Como é que é? Acha o quê?
– Encantadora. Sua profissão, assim como as baratas, é, na opinião unânime, repugnante. Assim como as baratas são encantadoras em um mundo onde toda unanimidade é burra, o mesmo posso dizer do seu trabalho.
– Meu senhor, então me explique qual é o encanto disso aqui, porque eu não estou entendendo não.
O velho pensou um pouco e, sem deixar de ser ridículo com seu sorvete, falou:

– Às vezes, andamos por um caminho florido e, repentinamente, pisamos em flores e não sabemos que abaixo se esconde um buraco. Já aconteceu contigo?
– Não, senhor.
– Nunca te aconteceu pisar em flores sem que houvesse um chão embaixo?
– Não, senhor.
– Metaforicamente falando.
– Não, senhor.
– Bem, comigo, sim. Já pisei em flores e caí no esgoto. Aposto que o contrário é também possível, isto é: tatear o esgoto e colher flores.
– Não, senhor, o senhor não está entendendo mesmo. Aqui, não tem flor não. Aqui, só tem merda, meu senhor. A sua merda, a minha, a da sua mãe, a daquela gostosa ali na esquina, a merda de toda a cidade. Flor, é na floricultura. Aqui, tem merda.

O velhote, então, ficou meio sem jeito e resolveu ir embora.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Arquitetos do horror

Toda grande cidade é feia. E a maioria das pequenas, também. Em todas, veem-se becos mal iluminados, prédios desordenados, pinturas descascando e pessoas desgastadas. Em todas, há fios cruzando postes, bloqueando o horizonte. Não importa a cidade: há sempre lixos, poças de água, construções caóticas, muros de concreto, árvores renegadas a obstáculos e céus renegados a detalhes. Janelas com grades pesadas fazem todo edifício parecer um presídio. Aparelhos de ar condicionado se multiplicam, independentemente do clima do lugar, como verrugas cancerosas em uma pele já envelhecida. A feiura é multifacetada, mas está sempre lá.

– As cidades só são bonitas se vistas de cima – ela me disse, enquanto atirava pedras no lago, em direção ao reflexo da lua. Seu objetivo era conseguir arremessar a pedra além do desenho lunar que flutuava sobre a gélida água noturna. Eu me afligia, porque, quanto mais ela errava, menos tinha chances de vir a acertar, já que, com a rotação do planeta, o reflexo da lua se distanciava cada vez mais.

– Eu diria que as cidades só são bonitas se vistas ou de muito longe ou de muito perto – eu respondi.

– Fala como se conhecesse todas as cidades do mundo... – ela disse. Era uma negra alta, de certamente mais de 1.80, totalmente curvilínea: não só quanto ao quadril, mas todo o seu corpo era um sutil desenho de curvas. Seus braços, que se realçavam no arremesso das pedras, desistiam da retidão tão logo alcançavam a área do cotovelo, quando se afinavam num traço perfeito. De cabelos longos, pouco acima da cintura, confundia-se com a negritude da noite e com o farfalhar da vegetação. Jamais abandonava o olhar altivo, superior, o corpo malemolente.

– O que eu quero dizer é que – eu disse, tentando vencer o mal estar que sua presença naturalmente me impunha – existe uma altura máxima de observação, antes da qual as cidades, mesmo se vistas de longe, serão feias. Se eu voar por essa cidade em um helicóptero baixo, perceberei as casas com telhados horrorosos, os prédios tapando a paisagem... Acima disso, em um avião, por exemplo, o que há são o nada e as luzes, o que diminui muito essa carência do belo.

– Quem se importa com o telhado das casas?

– Daqui de baixo, ninguém. Mas só o cito para justificar minha teoria de que, se vista de cima, mas não de tão alto, toda cidade é feia.

– E por que você disse que a cidade é bonita se vista de perto?

– Não apenas de perto, mas de muito perto! Quando perdemos o panorama, quando tudo o que temos é um recorte, essa cidade pode ser bonita. Se estamos diante de um cartão postal, por exemplo. Mas se obtivermos um distanciamento adequado, maior que o de um cartão postal e menor que o da janela do avião, não há cidade que sustente sua beleza. Prova disso são as atrações turísticas. Toda cidade tem aquela tradicional atração: subir, subir, subir, não importa se rumo a uma torre, a um edifício muito alto, mas subir, o importante é subir, o máximo possível, e, lá de cima, contemplar a cidade. Evidentemente, você não alcança a altura de um avião, mas já está alto o suficiente para não ver as paredes mofadas, descascadas, os fios dos postes, os sacos de lixo, as janelas em forma de grade, os aparelhos de ar condicionado, todos os exemplos que citei e que não vou repetir: o feio infinito que toma conta das grandes cidades do mundo.

Nessa hora, ela abaixou os braços. Acho que desistiu de alcançar a lua. Não sei se se cansou ou se, por fim, cessaram-se as pedras no chão.

– A violência, a ansiedade, o cansaço, o divórcio, o suicídio, o choro, o desespero, a desesperança, a desestrutura, a depressão – eu dizia, aumentando a voz –, tudo isso é culpa da nossa arquitetura mundialmente cinzenta, do urbanismo monstruoso que nos mata, todos os dias.

– Quem faz as cidades? – ela perguntou. – Nós! As cidades são nosso reflexo, por isso são caóticas, cinzentas. Por isso, estão cheias de rachaduras, desbotadas, envelhecidas. A cidade se vê em nós do mesmo jeito que a lua se vê naquele lago.

Nossos discursos pareciam se encontrar, enfim, embora eu defendesse que nós somos o reflexo da cidade e ela dissesse o contrário. Contudo, justamente nessa hora de maior convergência, não a vi mais. Não sei para onde ela foi, se imergiu no lago ou se emergiu para a vida. Eu sei que eu fiquei lá. Não sei por quanto tempo, nem sei se lá ainda continuo, tristemente inútil, como as costas de um prédio sem janela, ora aproveitadas por uma miserável equipe de marketing, ora apenas esperando o descascar final.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Disseram que escrevo

Bruno tinha quatro anos quando ouviu de sua mãe: “Esse menino é muito quieto, nunca sorri”. Não era verdade. Ele sorria. Sorria na escola, sorria com os colegas, sorria vendo TV, mas sua mãe não notava. Desde então, ele passou a evitar os sorrisos.

Maria, ao contrário, era tida como levada. A professora um dia falou que ela era muito bagunceira. Não foi em tom de crítica nem nada assim, mas fato é que Maria, que, quando sozinha, preferia ficar quieta e descansar, ao se ver na presença de outras pessoas – especialmente da professora –, não podia deixar de fazer o que esperavam dela: bagunça. Um único dia mais introspectiva, perguntavam-lhe: “Maria, você está triste? Que você tem?”.

Não só com crianças isso acontece. Breno, enquanto ocupava importante cargo de chefia de uma multinacional, já havia percebido que as pessoas tendem a se comportar conforme determinada expectativa. Rotineiramente, falava a seus subordinados – em particular, sem os outros notarem a estratégia – que se tratava de profissionais qualificados e competentes. Se determinado empregado se atrasasse algum dia, ao invés de repreendê-lo, Breno o elogiava pela sua pontualidade; se um trabalhador se envolvesse em alguma briga, Breno lhe dizia estar surpreso, pois se tratava de sujeito tão sereno; se outro fosse individualista, Breno lhe propunha trabalhar mais em grupo, pois estava certo de que o funcionário tinha características indispensáveis para o trabalho em equipe. E dava certo. No fim do mês, era espantoso averiguar a porcentagem de metas cumpridas. Um trabalhador, que sempre ficava na casa dos 70% de metas, ouvia de Breno: “Esperava, no mínimo, 90% de você, afinal você é tão competente!”. E o sujeito, de fato, passava a bater 90% ou mais a partir do mês seguinte.

As pessoas só se constituem a partir da visão do outro. Ainda que neguem, por mais que abominem a ideia, os indivíduos se camuflam através de máscaras sociais, escondendo-se tão intensamente que acabam por virar tal disfarce. A questão é quem molda essa máscara. Nunca é a própria pessoa, mas outra. De tanto adjetivarem Jaqueline, ela já se convenceu que é simpática e vaidosa. Ela, que, outrora, não era comunicativa tampouco se importava tanto com a aparência, depois das definições, passou a ser um mar de sorrisos e um oceano de maquiagens.

O doutor Pedro está quase enlouquecendo de tanto tratar de loucos. Muito atencioso à mídia, trata-se do mais famoso psiquiatra da cidade, estando presente, por essas razões, em quase toda matéria sobre o tema nos jornais, rádios e TVs locais. Diz ele que recebe em sua clínica diversos casos de gente que ouvia uma caracterização de um conjunto de amigos e outra oposta de um segundo grupo. O repórter pede detalhes e ele os dá. Para o canal 4, ele diz: “Tenho um paciente que falou que seus amigos do trabalho o chamam de beberrão, mas os colegas do clube reclamam que ele bebe pouco”. Quando ele contou esse mesmo caso no canal 7, o entrevistador rebateu: “Ué, é só ele beber muito com os amigos de trabalho e pouco com os do clube”. “Ah, claro”, respondeu o doutor, “mas e quando ambos os grupos vão juntos para o bar? Ele entra em parafuso”. Na vigésima ou trigésima vez em que ele contava algum caso análogo, agora no canal 13, o jornalista brincou: “Fala para os loucos entrarem no Facebook. Lá estarão todos os seus amigos e parentes reunidos e os doidos terão que escolher uma só máscara para mostrar”. “Oh, eles entram”, disse o médico, “mas, coitados, nunca conseguem postar nada”.

O doutor Pedro, a propósito, costumava odiar dar entrevista. Mas alguém um dia lhe disse que ele era muito atencioso com a imprensa...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Não fale com estranhos

Vitor trabalhava em uma empresa onde dividia o mesmo espaço físico com outros trinta funcionários, separados apenas por pequenas divisórias desmontáveis que guardavam os computadores utilizados por cada um.

Dos trinta trabalhadores, Vitor se considerava, apesar das picuinhas normais de ambiente de trabalho, colega de todos e amigo de alguns. Destes últimos, os mais próximos eram Bruno, Cesar e Claudio, tendo sido padrinho de casamento de dois deles. Além dos amigos, outras pessoas constantemente frequentavam o mesmo círculo, saindo juntos para beber, visitando uns as casas dos outros etc. E vale ressaltar que Vitor jamais havia tido nenhuma desavença com nenhum dos trinta trabalhadores.
Justamente devido ao bom relacionamento de Vitor com os outros, um dia ele foi chamado à mesa do presidente e lhe foi oferecido o cargo de coordenador geral da empresa. Tal posto só está abaixo do próprio presidente, o que significa dizer que Vitor pularia, de uma só vez, as funções de gerente, supervisor, supervisor geral e diretor, para, em um só salto, passar de mero funcionário a coordenador geral, o braço direito do presidente.

Obviamente, o próprio Vitor ficou muito surpreso com a oferta e foi necessário que o presidente repetisse a proposta para Vitor se certificar de que ouvira corretamente. Coordenador geral, sim, uma justa recompensa ao melhor e mais esforçado de todos os funcionários daquela empresa, mais dedicado até mesmo que outras pessoas que estavam hierarquicamente superiores a ele, justificando-se, assim, a queima de etapas na progressão.

Vitor agradeceu, aceitou e, assim que saía da sala do presidente, já pegava o celular para telefonar para sua esposa e dar as boas notícias. Com a mudança de cargo, seu salário aumentaria em 250%, será mesmo possível? Era um sonho que precisava compartilhar. Antes que pudesse pressionar qualquer tecla do telefone, porém, seus colegas já o esperavam além do corredor, no grande espaço compartilhado, afoitos pela notícia. Nunca haviam presenciado nenhum funcionário ser chamado diretamente pelo presidente. Quando alguma instrução superior se fazia necessária, era repassada pelo gerente ou, no máximo, pelo supervisor, respeitando-se a hierarquia vigente. Justificou-se, assim, a imensa agitação que percorreu a empresa naquele dia.

O que ele disse? O que aconteceu? Você será promovido? Será despedido? Tem algum recado do presidente? Como é a sala dele? Como é a mesa dele?

 Calma, gente.  disse Vitor, ainda ofegante. – Serei promovido. – E abriu um largo sorriso.

Nesse instante, gritos de exaltação tomaram todo o ambiente e vários abraços e congratulações vieram em direção de Vitor. “Parabéns, parabéns! Nosso novo gerente!”

 Serei coordenador geral!

O quê?! Coordenador geral?! Já?! Como isso é possível? E o antigo coordenador geral? Que houve com ele? Por que o diretor não foi promovido a coordenador geral, em vez de Vitor? Que significa isso?!

– Estou tão surpreso quanto vocês! – exclamou Vitor, contendo os olhos marejados e expandindo o sorriso. – Mas foi o que o presidente me disse. Coordenador geral!

Agora, os gritos viravam uivos de exaltação e Vitor chegou a ser arremessado para cima por seus colegas. A partir do dia seguinte, Vitor já estaria empossado em sua nova função.

Quando, por fim, o outro dia chegou, Vitor entrou às 8 da manhã, como de costume, e, dados os eventuais bons-dias, foi ocupar seu tradicional espaço, em frente ao antigo computador. Foi aí que seu amigo Bruno o alertou:

 Você vai continuar aqui? Acredito que o presidente te queira mais próximo dele. Aqui, não é lugar para um coordenador geral.

Vitor pensou, coçou a testa e respondeu:

 Será? Pode ter razão. Mas aqui é o meu lugar. Não gostaria de sair desse convívio.
 Terá que se desapegar, Vitor.

Vitor, então, foi à sala do presidente, bateu respeitosamente à sua porta e, vendo que ninguém abria, preparou-se para retornar, quando a secretária presidencial falou, de sua mesinha de frente para a porta:

 O senhor presidente ainda não chegou. Mas o senhor pode entrar.
 Oh, não, não. Melhor não. Vou esperá-lo lá no salão dos funcionários.
 O posto de trabalho do coordenador geral não é no salão dos funcionários – disse a secretária, com semblante sério e intocável.
 Imagino que não – respondeu Vitor, que, ao contrário da moça, esforçava-se para sorrir. – Mas não sei onde trabalharei a partir de agora.
 Será na mesma sala do presidente, juntamente com ele. – A mulher continuava séria.
 Pode ser. Nesse caso, é melhor esperá-lo. – E Vitor foi andando, para não dar tempo de a moça responder. Entretanto, mal virava o corredor, o próprio presidente chegava no sentido contrário.
 Vitor, bom dia! Que bom que já veio diretamente para a minha sala, fez muito bem. Espero que tenha gostado da sua mesa. Só tive tempo de arrumá-la ontem, depois da nossa conversa, ainda precisa ser melhorada. Sinta-se à vontade para modificar o que desejar.
 Na realidade, ainda não vi minha mesa – disse Vitor, timidamente, sendo levado pelo presidente rumo à sala.
 Cátia! – falou o presidente, em direção à secretária. – Como deixou o coordenador geral aqui de fora? 

Nesse momento, os olhos de Cátia fuzilaram Vitor, mas ele tentou explicar o mal-entendido, embora o presidente não o ouvisse.

A partir de então, Vitor era, de fato, o coordenador geral da empresa. Eram várias funções novas, muitas outras responsabilidades, dentre elas a de fiscalizar os funcionários.

 Essa era uma função que, embora exercida por todos aqueles hierarquicamente superiores, era efetuada mais acentuadamente pelo gerente – explicou o presidente. – Normal, afinal o gerente era o primeiro degrau acima deles. Dessa forma, o supervisor fiscalizava o gerente, o supervisor geral fiscalizava o supervisor, o diretor fiscalizava o supervisor geral e, assim, sucessivamente. Mas minha vontade é a de implantar um novo sistema de fiscalização conjunta em nossa empresa, de modo que todos possam fiscalizar todos. É um meio de controlar as indisciplinas e, sobretudo, a corrupção. Perdemos uma boa verba no ano passado que não sabemos para onde foi. Em outras palavras: houve desvio. Falando especificamente sobre os funcionários gerais, que constituem a casta mais baixa de nossa empresa, acredito que você seja o melhor nome para essa função de fiscalização, uma vez que, por anos, trabalhou entre eles e era bem visto por todos. Como eu disse ontem, seu bom relacionamento com todos foi fator determinante para eu te chamar para essa função. Sei que, por confiarem em você, não hesitarão em cometer velhas indisciplinas na sua presença, ainda que você esteja nessa nova função. Soma-se a isso o fato de você ser o coordenador geral da empresa, alguém que, historicamente, tem a função de fiscalizá-los, mas não o faz exatamente, cabendo tal função, por anos, na prática, para os gerentes. Esse foi outro motivo para eu te convidar para ser coordenador geral, não para gerente, supervisor nem nada. Enfim, além de todas as responsabilidades típicas de um coordenador geral, espero de você a minimização das indisciplinas ocorridas nessa empresa. Cansei de perder dinheiro porque às 17:50 o telefone tocava e não tinha ninguém para atendê-lo. Nosso horário de saída é 18:00, não 17:40, não 17:45. Se quinze minutos são desprezíveis, que saiam às 18:15, não às 17:45. Esse é só um exemplo, Vitor. Só um exemplo de indisciplina que se transformou em cultura na nossa empresa. Isso não pode mais ocorrer. E conto com você para isso.

Vitor aquiesceu, mas com um péssimo sentimento. A última coisa que desejava era assumir o papel de dedo-duro da empresa. Começou a fazer algumas tarefas, na sala do presidente, ao lado deste, mas se sentindo mal e com pouca atenção. No ambiente, ficavam apenas os dois e o silêncio imperava, ocasionalmente interrompido por risadas vindas do saguão dos funcionários, onde Vitor trabalhava até o dia anterior.

– Risos ao invés de trabalho – murmurou o presidente. – Isso deve acabar, Vitor. Isso deve acabar.

Ironicamente, o pensamento de Vitor, ao ouvir as risadas, era exatamente o oposto: “Eu preferia estar lá”. Quando o relógio marcou 17:30, o presidente ordenou:

– Vitor, vá para o saguão e me relate amanhã os nomes daqueles que sairão mais cedo.
Vitor tentou argumentar que existia ponto eletrônico, que era desnecessária essa caça às bruxas, mas, vendo que o presidente se irritava com suas tímidas objeções, resolveu obedecê-lo. Chegando ao saguão, foi recebido com entusiasmo pelos seus antigos colegas. Muitos foram os que saíram mais cedo. Vitor, porém, no dia seguinte, não comunicou nada ao presidente e, dada a intensa infelicidade que lhe abateu após o expediente, prometeu para si mesmo: se, em uma semana, essa terrível sensação não cessar, pedirá para retornar ao antigo cargo.

Era domingo e, como haviam combinado desde o início da semana, os quatro maiores amigos (Claudio, Bruno, Cesar e Vitor) resolveram almoçar juntos, com suas famílias. Algo de muito estranho ocorreu nesse evento e, dada a sutilidade dos acontecimentos, Vitor não sabia se eram eles reais ou frutos do mal-estar que lhe tomava a alma.

Em suma, com tudo o que Vitor falava os amigos concordavam. A primeira impressão seria de puxa-saquismo, mas não era bem o caso. Parecia a Vitor que seus amigos, com quem tantas discussões já teve sobre a vida, perderam a intimidade com ele, perderam a capacidade de dizer: “Eu discordo”. Às vezes, os três não meramente concordavam, mas complementavam uma colocação que dispensava complementos. Por exemplo: Vitor disse que não entendia como determinado livro havia sido tão vendido no país. Bruno disse: “O livro é uma droga”; Cesar falou: “Os leitores não são exigentes” e Claudio acrescentou: “Esse tipo de livro sempre vende”. É claro que esse tipo de livro sempre vende, era o tipo de livro que o próprio Claudio lia, mas por que ele não confrontava Vitor, de alguma forma, como já feito em tantas outras vezes?

Outro momento que fez com que Vitor se sentisse muito mal: enquanto a mesa estava sendo preparada, ele comentou que seu estômago “estava roncando”. A metáfora é tão desgastada que isso nem mesmo pode ser considerado uma piada. Porém, todos riram! Não foram gargalhadas nem nada exagerado (por isso, repito: Vitor não achava que estavam meramente puxando o seu saco), mas risos contidos, embora audíveis, risos não espontâneos, que só fazem as pessoas sem intimidade entre si.

Os quatro amigos sempre foram muito próximos. Constantemente, nem sequer se cumprimentavam quando chegavam ao trabalho, mas já começavam uma conversa supérflua qualquer. Xingavam-se em tom de brincadeira, riam – espontaneamente – uns dos outros, divertiam-se com o incorreto. Vitor perguntou-se, portanto, por que Claudio disse “estar muito feliz" com o seu sucesso profissional ou por que os outros dois lhe desejaram “toda a sorte do mundo”. Você só deseja “toda a sorte do mundo” para quem, no fundo, é indiferente aos seus olhos, com quem você, ainda que não antipatize, também não se importa nem um pouco se vai ou não ter sorte.

Na segunda-feira, Vitor estava com um estado de espírito ainda mais sombrio, que só piorava com o passar das horas e dos dias. Quando completou uma semana, decidiu: ia pedir para retornar ao seu antigo cargo. Se o presidente se ofendesse e quisesse demiti-lo, para o inferno, que o demitisse! Mas não podia continuar nessa situação.

A primeira missão do dia, portanto, foi logo comunicar sua decisão ao chefe. O presidente não entendeu sua justificativa (“não me adaptei à nova função”), mas, embora relutante, mostrou-se mais compreensivo do que Vitor esperava. Não o demitiu, não o repreendeu, apenas acatou seu desejo. Vitor voltava a ser um funcionário de baixa hierarquia.

– Por que você voltou? – foi a pergunta de todos.
– Foi só um período de testes – respondia Vitor. – Não me adaptei.

Mas quem não tinha se adaptado, de fato, eram os colegas de Vitor. Nenhum dos trinta funcionários, incluindo Claudio, Bruno e Cesar, esperava pela volta de Vitor e pareceram ver nele um estranho. Nunca ninguém soube – nem sequer desconfiou – que Vitor algum dia já esteve ali para, em tese, vigiá-los. Nunca se sentiram traídos nem ameaçados por Vitor. Mas simplesmente não mais o reconheciam. Se Vitor realmente mudou ou se era apenas coisa da cabeça deles não se sabe, mas a terrível sensação que se apoderou de Vitor enquanto coordenador geral, ao contrário do que ele planejou, não desapareceu com a retomada da antiga função. 

Hoje, Vitor está desempregado. Acabou por ser demitido da empresa. Na verdade, ele praticamente pediu demissão, pois começou a chegar atrasado, a faltar sem justificativa, a executar erroneamente suas tarefas etc. Hoje, ele procura um novo trabalho com novos amigos, mas não deixa de se lembrar com carinho dos anos que antecederam sua admissão como coordenador geral. Desde então, sua infelicidade só aumenta. Parece que até sua esposa anda distante. A pobre da mulher nunca conseguiu entender toda essa história, por mais que Vitor a explicasse. Era tudo subjetivo demais. Fato é que nunca mais ninguém teve intimidade suficiente com ele, nunca mais deixaram de rir de suas piadas-não-piadas, nunca mais dispensaram complementos dispensáveis, nunca mais voltaram a discordar de Vitor.