quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Devagar

Devagar, vou divagar
De vagar, vou me encontrar
De vagar, vou divagar
Devagar, vou me encontrar

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Feriadão

Todo dia, aquela mesma rotina: acordar, beber uma água de coco, andar pela areia, tomar um banho de mar e passar algum tempo na rede ou na espreguiçadeira, sem nada pensar nem fazer. Era exaustivo. Não tinha hora para nada, era senhor de seu próprio tempo, sem a fácil submissão a um relógio que determina quando e o que temos que fazer. A paisagem, monótona: mar, coqueiros, areia, sempre a mesma coisa. Só o céu mudava de vez em quando, variando entre o azul e o levemente nublado, ocasiões em que chovia apenas o necessário para preservar o verde das plantas. Um horror, não conseguia mais suportar essa mesmice. Que vontade de ir para a cidade, onde via carros, ônibus, caminhões, motos, veículos de todas as formas e cores, onde havia um arranha-céu envolto a casas, a favelas, a prédios menores ou maiores, uma enorme variedade geométrica de desenhos para contemplar. E a poluição sonora do mar, isso era o pior de tudo: sempre o quebrar das ondas, uniforme, opressor, não dando trégua jamais. Nada a ver com a cidade, onde inúmeros sons coexistiam, de buzinas de automóveis a pessoas berrando, do ronco do motor de um ônibus aos anúncios gritados de vendedores ambulantes. Essa vida no litoral era um horror. Os remédios receitados pelos psiquiatras não lhe traziam os resultados desejados, embora não evitassem os efeitos colaterais, causando-lhe ansiedade, pânico, aflição. Com essa enorme insegurança que tomava conta da costa, sabia que podia a qualquer momento ser picado por um besouro ou um marimbondo e, por isso, dormia com todas as janelas e portas trancadas, numa sensação de terrível inquietude. Quando ouvia o som de uma simples mosca, acordava assustado, perdia o sono, o que acentuava o caos que era o seu relógio biológico.

A felicidade só era possível quando havia um feriadão. Um simples fim de semana não era suficiente para que ele recarregasse as baterias e se sentisse novamente bem disposto na segunda-feira. Dois dias são muito pouco. Mas, quando chegava um feriadão, aí a coisa era diferente. Pegava seu carro e dirigia para São Paulo, encarando horas de congestionamento. Felicidade, enfim! Viajava com os vidros do carro abaixados, respirando a pureza do gás carbônico dos automóveis a 20 por hora. Por que não podia ser sempre assim? Levava horas até São Paulo e, quando chegava à cidade, sua primeira providência era comprar uma água de coco de caixinha, com seu sabor fantasticamente artificial. Comprava, junto, todas as iguarias que só uma grande capital pode proporcionar, como nuggets, miojo e suco enlatado. A fila para pagar era longa, o que era muito mais terapêutico para ele do que as sessões de terapia que pagava no litoral.

De posse de todas essas mercadorias, entrava novamente no seu carro, parava em vários sinais vermelhos – que, muito mais amigáveis do que a anarquia litorânea, têm a função essencial de facilitar a nossa vida, indicando se devemos seguir ou parar – e trocava algumas palavras com pedintes que lavavam seu para-brisa à força. Passava horas procurando por uma vaga para estacionar, com a sensação libertadora de saber que estava em busca de algo em específico, nada a ver com aquela violência da costa, que lhe oprimia sem lhe dar nenhum objetivo. Depois de, por fim, estacionar, identificava-se ao porteiro do prédio comercial, encaminhava-se ao vestiário e colocava seu traje de férias: terno e gravata. Que beleza, pensava ao se olhar no espelho. A barriguinha escondida, os músculos flácidos escondidos, tudo devidamente encoberto por aquela roupa milagrosa, ao contrário do que acontece com a reveladora sunga de praia. Logo depois, pegava fila no elevador e, passado algum tempo, estava em um andar alto, onde desfrutaria de preciosos momentos no escritório da empresa. Pena que passa tão rápido… Logo já era domingo e hora de voltar para casa. A música do Fantástico anunciava que teria que desfrutar do trânsito de volta ao litoral, engarrafamento este que, embora fosse extremamente agradável, não lhe trazia tanta felicidade quanto o congestionamento da ida, pois, em um, sabia que estava indo para o paraíso de São Paulo e, no outro, dirigia rumo à maldita praia.

Chegava de mau humor ao litoral, mas sabia que assim era a vida. Enquanto não se aposentasse, não poderia sonhar com uma estadia em São Paulo por mais de quatro ou cinco dias. Paciência. O som do farfalhar das árvores anunciava mais uma tenebrosa semana a se iniciar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Morto

Forte, alto, bronzeado, estava morto. Músculos torneados, cabelos lisos e queimados pelo sol, estava morto. Olhos pretos, barba por fazer, alguns arranhões e cicatrizes, estava morto. Morto, com uma calça jeans rasgada e uma camiseta branca sem manga. Morto, estendido em meio a uma vegetação rasteira, que se movia com o vento que jamais cessava na região. O céu azul, o sol a queimar sua pele mesmo depois de morta. Os insetos o visitavam, pousavam em seu nariz, passeavam por sua boca, deslocavam-se para a sua testa e iam embora. Os mais preguiçosos encontravam abrigo na concavidade dos músculos de seus braços. Uma chuva fina começava a cair, de repente, e logo o sol furava a negritude das nuvens e alcançava novamente o corpo no chão. Mais uma vez, chovia. Agora, o sol, incapaz de uma nova vitória contra as nuvens cinzentas, via a garoa virar tempestade. Ele, morto, desconhecia o número de raios que subitamente caíam na região onde estava seu corpo. Anoitecia. A chuva cessava, mas a noite não tinha luar, a escuridão era plena. Seu rosto, reconhecidamente moreno, tornava-se já levemente pálido, decorridos alguns dias. Silêncio, não havia jamais, porque o vento roçava nas folhas das árvores com o mesmo farfalhar com que os besouros  rasavam no mato em uma dança violenta. Meio-dia. O sol só cega quem enxerga, mas ele está morto. Da chuva que caiu nas últimas noites, não restaram marcas no céu azul, mas sim no chão  algumas poças de água que serviam de bebedouro para pássaros sedentos. Mas, logo, chove de novo. A natureza, indiferente ao falecido, dava alguns espetáculos, como o arco-íris que se formava fruto das constantes alternâncias entre sol e chuva. Ele não vê, pois está morto. Não há muitos animais carnívoros por perto, porém ele não tem sorte, pois já morreu. Além disso, as próprias bactérias já pareciam estar fazendo seu trabalho. Diz-se que um corpo ao ar livre leva de duas a seis semanas para sofrer decomposição, o que não deve tardar, dado o inchaço que já se faz visível. Urubus o visitam. Sangue, não há, nunca houve. Fedor, tampouco: o vento arejava. A cada fim de chuva, os pássaros cantavam mais alto, parecendo comemorar não se sabe se o fato de ter chovido ou o término da precipitação. Dez dias e dez noites já se passaram. Morto, não viu as borboletas brincarem ao redor de seu corpo que já beirava o irreconhecível. O tempo passa. Meia-noite. O planeta inicia mais uma rotação.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Oito minutos antes de sua morte

Oito minutos antes de sua morte, no leito do hospital, minha velha companheira teve ainda força para perguntar:

– O que você viu nela?

Fingi um espanto, mimetizei a surpresa que não me acometeu. Claro: fiquei levemente surpreendido por a pergunta se dar nesse momento, quando ela mal tinha energia para falar, tomada por uma série de máquinas e líquidos, naquele clima hospitalar hostil, mas eu sabia que um dia ela levantaria aquela questão. Ela não morreria sem fazê-lo e, uma vez que sabia que não tardaria a cruzar a fronteira final, não havia outra hora para trazer à tona a inevitável interrogativa: o que eu vi nela, na outra, na amante?
Não adiantava eu dizer que não sabia do que se tratava, que eu não tinha ninguém; seria uma bobagem, a última mentira numa vida de faz-de-conta. Eu sabia que ela sabia; sempre soube que ela soube. Restou-me respirar com pesada autopiedade (pois a piedade que eu tinha era de mim, por ter que responder àquilo em momento tão importuno, não era dela. Ao contrário: quanto a ela, bateu-me uma vontade de machucá-la, ofendê-la, ser sincero pela primeira vez na minha longa vida conjugal). Respondi:

– O que eu vi nela, inicialmente, foi beleza. Esse foi o primeiro motivo por eu ter preferido ela a você. Ela é mais jovem, mais bonita, mais saudável: sempre foi mais saudável, sempre cuidou mais de si. E mais de mim, também. Ela sempre me tratou muito melhor do que você. Ela me deu todos os carinhos que você não me deu e me beijou todos os beijos de que você se esqueceu. Ela é melhor na cama, também. No início, você era boa; depois, ficou meia-boca; posteriormente, ruim e, por fim, inexistente. Com ela, nunca dormi insatisfeito. Além de todas as proficuidades do corpo, ela tem vantagens quanto ao espírito. Enquanto você me enche o saco com banalidades do cotidiano, ela sabe como ninguém retirar do mesmo dia-a-dia fontes de singelas felicidades rotineiras. Por fim, mas não menos importante: cansei da sua burrice. Sem hipocrisia: só é hipócrita quem teme o futuro e nós não temos mais futuro juntos, você já está para morrer. Não vou mais fingir um relativismo inventado, dizer que existem várias formas de inteligência etc. Não: você não é inteligente nem se esforça para ser. Você não tem o mínimo de cultura. E dane-se se isso parece piegas, mas não posso deixar de preferir ela, leitora de Thomas Mann, a você, leitora de Caras.

Eu ia citar mais coisas, dizer que só não havia ainda me divorciado por inércia, preguiça, conjuntura social, quem sabe para não machucar as crianças, mas achei que já estava bom demais. Ela não me respondeu – coitada, nem podia. Em vez disso, tocou minha mão e olhou nos meus olhos como quem tem algo a dizer, mas não pode ou não quer falar. Seu olhar tinha um brilho úmido, mas nenhuma lágrima escorreu. Era um olhar apaixonado, eu diria. Acho que pela primeira vez me amou. Adormeceu eternamente com um sorriso. Um sorriso que, de alguma forma, eu propiciei.
E, aqui, poderia acabar a história. De fato, quando a relatei a amigos, só falei até essa parte. Entretanto, só recentemente me veio uma forte lembrança, não sei se fruto da idade que começa a me pesar – e, portanto, começo a ver chifre em cabeça de coelho – ou se apenas recalquei essa memória por anos. Ela adormeceu com um sorriso, mas minha nova interpretação daquele gesto labial não é mais a de que ela me amou pela primeira vez. Digo: talvez, tenha me amado, sim, naquele momento, acho que aqueles olhos não enganavam. Mas havia algo além. O riso retorcido não era de alguém apaixonado, mas de alguém que se divertia. Ela morreu feliz, mas possivelmente não por amor, mas por graça – ou, explicando-me: por achar graça de mim. Riu zombando da minha cara. Zombando, sim: era um sorriso zombeteiro, era isso. Agora, por que debochava de mim, não sei. Mas estou convencido de que algo em seus mais íntimos segredos lhe dizia que, por alguma razão que desconheço, eu era adorável – e não detestável, como seria de se supor –, mas, acima de tudo, que eu era um idiota.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

S de sequestro

Gustavo estava empolgado com seu primeiro dia de trabalho. Passou meses deixando currículo em diversos lugares, chegando a ser chamado para algumas entrevistas, mas sempre sendo eliminado em alguma etapa do processo (na maioria das vezes, na maldita dinâmica de grupos, que costumava premiar os candidatos mais mal educados e mais faladores). Um dia, a sorte mudou. Foi com satisfação que seu telefone tocou, informando-lhe que já poderia começar em uma empresa (que ele nem sabia do que era) no dia seguinte.

Blusa social, perfume, cabelos penteados, rosto barbeado, lá foi ele, jovem universitário, para seu primeiro dia no até então único emprego de sua vida. Foi recebido pela secretária do supervisor, que lhe pediu para esperar um pouco na antessala, pois em breve o chefe faria as honras. De fato, não tardou muito para um senhor empertigado sair de seu gabinete e ir cumprimentar o acanhado novo funcionário:

– Gustavo?
– Sou eu.
– Prazer. Antônio.
– Prazer.

Após o devido aperto de mãos, Antônio guiou Gustavo para o interior do gabinete, onde se sentaram diante de uma mesa oval de reuniões, propícia para mais de trinta pessoas, mas que testemunhava o encontro solitário dos dois.

– Gustavo, inicialmente quero te dizer que é uma honra tê-lo em nossa empresa. Há tempos estamos carentes de um novo funcionário, mas não queríamos contratar o primeiro candidato. Foi necessário um minucioso processo seletivo até chegarmos a alguém que realmente nos agradasse, como é o seu caso. Vejo, pelo seu currículo, que, embora você não tenha experiência, sua formação acadêmica nos pareceu a ideal para a pessoa que buscamos. Vejo que você já está no último semestre da faculdade, o que é ótimo para nós, pois poderemos aliar seus conhecimentos teóricos recém-adquiridos com sua garra e vontade para pô-los em prática instantaneamente. Queremos sangue novo e acreditamos ser uma responsabilidade social de todo empregador abrir as portas para jovens que acabaram de se formar ou que estão em processo de conclusão de curso. E, justamente por não querermos atrapalhar seus estudos, gostaria de estabelecer seu horário de trabalho. Como está sua grade horária na faculdade?
– Só estou fazendo monografia, senhor.
– Portanto, está com o dia livre, pode trabalhar no horário comercial, normalmente. Deixo diante de ti duas opções: 8 às 5, com uma hora de almoço, ou 8 às 6, com duas horas.
– 8 às 5 está bom.
– Ótimo. O salário, você já sabe... Alguma dúvida?
– Só com relação às minhas atribuições.
– Claro. Elas te serão passadas pela Natália, nossa coordenadora. É com ela que você vai ter mais contato. Vamos lá para você conhecer tanto ela quanto as outras pessoas da equipe?

Gustavo aquiesceu e Antônio levantou-se da cadeira, abrindo a porta e deixando o novato sair antes. Caminharam por um longo corredor com carpete, onde se viam várias salas sob placas azuis em que se liam diversas siglas e seus significados: a maioria começando com S, de Seção. Somente em algumas salas – que, para Gustavo, pareciam escolhidas ao acaso –, o chefe parava, abrindo a porta e apresentando o jovem funcionário aos presentes. Sorrisinho aqui, balanço de cabeça ali, aperto de mãos acolá, saíam das salas e voltavam ao corredor, rumo a um novo S.

Seção de Recrutamento, Seção de Pessoal (qual a diferença entre as duas?, Gustavo se perguntou), Seção de Loteamento (que diabos é isso?), Seção de Pagamento, Seção de Marketing e Estratégia, Seção de Comércio, Seção Orçamentária, Copa. Enfim, algo que não era seção, de onde vinha o nostálgico cheiro de cafezinho, que, embora familiar, estava longe de ser o mesmo aroma do café caseiro. Aqui, o odor estava misturado com outro cheiro, talvez o de papéis e arquivos que todo o edifício absorvia.

“Mais um para o bolão do Sportv!”, brincava um empregado da Seção de Infraestrutura; “você que é o novo estagiário?”, perguntava outro, para o qual ele tinha que explicar que não era estagiário, mas funcionário. Foram diversos tapinhas nas costas até chegarem à Natália, a já mencionada coordenadora.

– Bem, Gustavo, vou te deixar aqui com a Natália – disse Antônio –, pois, como já te disse, é com ela que você vai lidar diariamente. Ela agora vai te passar suas tarefas e sua rotina de trabalho. Precisando, é só chamar. Foi um prazer e estou certo de que não vamos nos arrepender da contratação.
– Obrigado – respondeu Gustavo, meio sem saber por que agradecia.
– Olá, Gustavo – disse Natália, com um sorriso que a Gustavo pareceu forçado. Ela saiu andando para o interior de uma sala mais espaçosa que as outras e Gustavo achou por bem segui-la. Andaram uns três minutos em silêncio, ela na frente e ele a acompanhando. Chegaram à Seção de Arquivo.
– Aqui, será seu local de trabalho – disse Natália. Ela ligou o único computador que havia no local, cujo sistema operacional ainda era o obsoleto Windows 98, e abriu algumas planilhas Excel. – Basicamente, sua missão inicial será alimentar essas planilhas. Precisamos digitalizar tudo isso aqui. – Ao redor da caquética máquina, gavetas enferrujadas de arquivos iam quase até o teto. Vou pôr o Vânderson e o Wellington para trabalharem com você. – Gustavo ficou se perguntando se já havia sido apresentado a algum dos dois.

Em seguida, Natália explicou um pouco sobre arquivos correntes, arquivo morto, mas não se aprofundou muito, porque um estudante universitário no último período, obviamente, já sabia disso tudo.

– Alguma dúvida? – perguntou Natália.
– Não. Você pode só me mostrar onde fica o banheiro?
– Sim. No primeiro piso, próximo à porta de entrada, à sua direita.
– Posso ir lá?
– Claro.
– Obrigado.

Em vez de virar à direita, Gustavo ultrapassou a porta de entrada e correu como nunca em sua vida, os cabelos ao vento e a chuva no rosto. Correu não se sabe para onde. Há quem diga que até hoje não voltou.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A brincadeira

Queriam brincar para se livrar do medo. Era uma noite estranha, de lua cheia, mas mal iluminada. As nuvens que ofuscavam o luar desciam até muito baixo, rebentando nas árvores da grande praça. As lâmpadas dos postes apresentavam uma manta de névoa que tornava tudo mais desconfortável. O frio era úmido e, mesmo sem chuva, Isabela podia sentir seus óculos molhados, tendo que enxugá-los constantemente na camisa, que, por sua vez, tampouco se encontrava totalmente seca.

– Mas brincar de quê? – Dalila perguntou.
– Não sei... – Isabela respondeu, em uma voz manhosa e aflita.
– Você não tem nada na sua mochila?
– Só cadernos...

Dalila e Isabela eram irmãs. Dalila, com nove anos, era só um ano mais velha que Isabela. 

– A gente devia voltar para casa – sugeriu Isabela.
– Já é mais de meia-noite. Se acordarmos a mãe agora, ela vai brigar.
– A gente tem que contar a verdade. Temos que dizer que saímos de casa e nos esquecemos de pegar a chave. Não foi culpa nossa. 

Dalila não aceitou a sugestão. Já havia enviado uma mensagem de celular para sua mãe, dizendo que dormiriam na casa de uma colega da escola. Na última vez em que saíram de casa e se esqueceram de levar a chave, ouviram promessas de que apanhariam se isso se repetisse.

– Não quero passar a noite aqui.
– Não seja criança, Isabela. O que a gente tem que fazer é ocupar nossas mentes.

Um uivo se fez ouvir ao fundo.

– Lua cheia... – mencionou Isabela.
– Isso é só um cachorro – respondeu Dalila, fingindo estar convicta.

O vento também uivava, soberano no espaço.

– Pega seu caderno. Vamos brincar de forca – disse Dalila.

Isabela obedeceu, mas não conseguiram levar a brincadeira adiante. O ar úmido e baixo molhava o papel, que se desmanchava ao toque da caneta.

– Está ficando muito frio – disse Dalila. – Temos que brincar de algo que movimente o corpo.

Isabela não respondeu, muito preocupada em tentar acompanhar o dueto entre o uivo do animal e o uivo do vento.

– Por que esses olhos esbugalhados, Isabela? Parece que vai ser atacada a qualquer momento.
– Só estou com frio.
– Por isso que eu disse que temos que brincar de algo que nos aqueça.
– Pique-pega?
– Pique-esconde – propôs Dalila.
– Pique-esconde é chato – disse Isabela, que, na verdade, apenas achava uma péssima ideia se separarem naquele lugar assustador, tanto mais para se esconderem.

O vento já não mais uivava, mas aumentava gradativamente de intensidade. Um redemoinho de folhas secas rodeou as irmãs. Isabela levou as mãos ao rosto, para proteger os olhos da poeira.

– Pique-pega cansa muito – respondeu Dalila. – O jogo tem que esquentar o corpo, mas sem cansar.
– Pique-esconde é chato. Por que tem que ser tudo como você quer?
– Então, vamos brincar uma rodada de pique-esconde e outra de pique-pega. 
– Tá...

Tiraram par ou ímpar para ver quem começaria procurando. Dalila se esconderia primeiro.

– Conta até 30 – disse Dalila.
– Ok... – Isabela fechou os olhos – Um, dois, três...

Ao destapar o rosto, Isabela sentiu uma enorme quantidade de lágrimas vir de uma só vez aos seus olhos. Não tinha mais ninguém por perto e lamentou profundamente ter aceitado aquela brincadeira estúpida. O cenário era apocalíptico, nada se fazia ouvir, com exceção de alguns animais que pareciam pouco amigáveis. A lua tímida se mostrava por trás de algumas nuvens, colorindo-as funestamente.

Isabela começou a andar lentamente, tomando cuidado para não pisar em nenhum formigueiro ou em outros bichos supostamente nocivos. Seu peito tremia, já não se sabe se de medo ou de frio. Sua boca tensionava-se, assim como seus pelos se encrespavam com o farfalhar soturno.

– Dalila! Dalila! – gritou no meio da praça. – Não quero mais brincar!

Ninguém respondeu.

– Dalila! Não te encontro! Você ganhou!

A irmã não apareceu.

Isabela teria mesmo de encontrá-la. Foi só fazer tal constatação e uma cobra se pôs em seu caminho. Isabela parou. Não sabia se havia lido em algum lugar ou se era só o seu instinto, mas pensou ser melhor ficar parada. Mover-se poderia incentivar um ataque do réptil ameaçador, que a encarava, também imóvel, como se uma estivesse à espera do movimento da outra. Queria chamar mais uma vez pela irmã, mas agora achou que nem sequer sons deveria emitir. A cobra virou-se e foi embora, transformando-se em uma sombra humana mais à frente.

"Devo estar imaginando coisas", Isabela pensou. Começou a recapitular por que tinham ido parar naquela praça enorme e sombria. Poderiam esperar o sol raiar em outro ponto da cidade, mas, agora, nada mais parecia fazer sentido, seu coração palpitava. Caminhou mais um pouco, tomando coragem e atravessando um grupo de cinco árvores por onde se adensava a escuridão. Pensou ter visto novas sombras: definitivamente, não estava sozinha. Os uivos voltaram. Um animal em quatro patas se aproximava. A lua encontrou um espaço por entre as nuvens e repentinamente iluminava o local. O quadrúpede já se fazia notar. Isabela correu, o animal veio atrás. Isabela subiu numa árvore, pisando falso em um galho e arranhando o joelho.

– Eu vou morrer nesse lugar... – disse em voz baixa, chorosa. – Não vou sair daqui nunca mais... Vou morrer...

Mas ela saiu, assim que sentiu que tinha se apoiado em algo que parecia uma colmeia. Antes que pudesse provocar maiores reações das abelhas, jogou-se do topo da árvore. No chão, o animal não mais a esperava, o que tomou como imensa sorte. Com a queda, porém, machucou as pernas. Levantou-se com dificuldade, coxeando por entre novas árvores, à procura da irmã. Ouviu risadas humanas ao fundo.

Aproximando-se, viu por trás de árvores uma velha e uma vassoura. Correu em sentido oposto. Os uivos voltaram. Tropeçou. O animal que havia sumido reapareceu em seu encalço. A velha também se aproximava. Isabela ainda conseguiu se levantar, mas, antes que pudesse dar impulso ao seu corpo e retomar a corrida, sentiu um toque em seu ombro.

– Aonde você está indo? – perguntou a pessoa atrás, com uma voz masculina, rouca e assustadora. Sem olhar, Isabela desferiu-lhe uma cotovelada e correu o máximo que pôde. Foi quando ouviu ser chamada nominalmente. Não sabia como poderiam conhecê-la de nome. Nesse momento, por fim, a precipitação que se fazia notar nas nuvens veio abaixo. A chuva, ao menos, lavou o sangue dos seus joelhos. Resolveu andar em direção à voz, tomada, senão por uma súbita coragem, mais por uma humana curiosidade.

A visibilidade já estava muito pior. A voz misteriosa continuava a gritar por seu nome, no círculo central da praça. Aproximou-se, mas não conseguiu dar um passo além da escuridão onde se encontrava. O incentivo veio quando notou que a velha com a vassoura e o animal em quatro patas a seguiam. Junto deles, vinha ainda um exército de sombras humanas portando armas que, na ausência de uma luz que revelasse o contrário, pareciam martelos, machados e facões. Foi nesse momento que Isabela resolveu sair de trás de todas aquelas árvores e adentrar o centro da praça, de onde tinha se separado da irmã e de onde vinha a voz que a chamava.

A praça já estava menos enevoada do que minutos atrás, mas a chuva pesada tornava a visibilidade ainda pior. Precisava caminhar um pouco mais para dar forma à sombra da pessoa que ali estava, à espera de Isabela. Percebeu pela silhueta no chão que se tratava de uma mulher e que ela tinha uma arma de fogo apontada em sua direção.

– Por que vai me matar? – Isabela perguntou, chorando.
– Ela não vai te matar. Ela disse que não faz mal a gente ter esquecido a chave – respondeu Dalila, com o celular, não um revólver, estendido em direção a Isabela. – Liga para ela porque ela quer falar contigo.

Quando Isabela pegou o celular, viu o horário.

– Ainda são 8 da noite, Dalila.
– Pois é... Parece que perdemos um pouco a noção do tempo. Vamos embora.

Saíram da praça e foram caminhando para casa. No caminho, percebiam-se os cachorros de rua, o gari cabeludo que varre o passeio público e as sombras de todos os trabalhadores saindo do trem e regressando aos seus lares, com guarda-chuvas nas mãos.

– A propósito, te procurei por um bom tempo e não te encontrei – disse Dalila, irritada. – Você sempre rouba! Era a minha vez de me esconder! Você tinha era que procurar! Onde você estava, afinal?

Isabela não respondeu, porque estava passando pelo vendedor de amendoim e não queria ser notada por ele, que se contorcia e reclamava de ter tomado uma cotovelada nem sabia de quem.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Um mau dia

1

– Puta que pariu! – foram as primeiras palavras do dia de Getúlio. O celular tremia em sua mão, tamanha a raiva que sentia, fazendo com que simulasse arremessá-lo pela janela (felizmente, ficou só na ameaça). Levantou da cama irritadíssimo, jurando que abandonaria para sempre esse hábito de checar seus e-mails assim que acordasse: isso nunca lhe fazia bem. Tomou banho xingando, amarrotou a blusa social enquanto a vestia, arrombou o sapato colocando-o com a máxima violência nos pés. – Puta que pariu!

Desceu a escada bufando, dirigindo-se rumo à cozinha, cômodo que o conduziria para fora de casa e onde o filho de Getúlio preparava-lhe o café da manhã.

– Não quero essa merda! Você já está arrumado?

O garoto respondeu que sim. Tinha pouco menos de dez anos de idade e o incomum costume de acordar mais cedo que o pai e preparar sucrilhos para ele, a fim de proporcionar-lhe alguns minutos a mais de sono. Todos achavam esse hábito, além de raríssimo para a idade, “muito fofo”, como falavam as amigas de Getúlio, e ele mesmo se admirava com o carinho dessa rotina de seu filho, mas nesse dia a irritação era maior.

– Vem logo para o carro! Vamos embora!

O garoto foi calado para o banco de carona: o pai o deixa todos os dias na escola antes de ir para o trabalho. Só quando se puseram em movimento (com uma audível cantada de pneu), o menino perguntou o porquê do mau humor.

– Mandei e-mail para um amigo – o pai falou – e o idiota me respondeu dizendo: “Te respondo em breve”. Puta que pariu!

O garoto sorriu, mas o pai prosseguiu, como se o filho não tivesse entendido o motivo da irritação:

– Por que o imbecil me mandou isso? Se ia me responder depois, que esperasse, oras! Mas que caralho!

O filho não verbalizou seus pensamentos: 1) Nunca tinha visto o pai falar palavrões na sua frente; 2) o pai já estava estressado com outras coisas: só o e-mail não era motivo suficiente; 3) foi um e-mail engraçado.

No percurso, ao diminuir a velocidade diante da via preferencial, ouviu uma buzinada do carro de trás. Foi o estopim. Em vez de simplesmente reduzir a marcha, freou por completo. Abriu a porta, desceu do carro e seguiu rumo ao veículo de trás. O filho ficou no carro, assustado, seguindo com os olhos os passos do pai, que caminhava violentamente. O condutor de trás, visivelmente alarmado, tentou fechar seu vidro, mas, antes que conseguisse, Getúlio o impediu, pondo a mão na janela com o máximo de força que pôde.

– Está buzinando por quê, seu retardado?

O motorista era já um senhor, que não conseguia falar nada.

– Muito macho para enfiar a mão na buzina, mas, agora, não consegue falar nada, né? Seu monte de merda! – E seguiram-se vários xingamentos e palavrões, deixando trêmulo o maxilar já frouxo do velho. – Enfia a buzina no seu cu!

Quando Getúlio, por fim, cansou-se e deu-se por satisfeito, o velho conseguiu responder:

– O senhor não tem educação.

Dada a resposta, o velho girou o volante e arrancou com o carro, deixando Getúlio parado no meio da rua, a alguns passos de seu próprio carro. Poderia ter impedido a partida do velho, mas a última frase deixou-o sem reação. “O senhor não tem educação”: isso nem sequer é um xingamento. É pior do que “você é um bobo”. Não mantinha o nível do desbocado diálogo, em que Getúlio xingava o velho com nomes desprovidos de qualquer vínculo com a realidade. O que é um filho da puta? Não é nada! Um “vai tomar no cu” ou, usando as palavras de Getúlio, “enfia a buzina no seu cu”, não tem nenhum significado. Porém, ao ouvir que não tinha educação, Getúlio viu-se diante de uma denúncia, embora branda, diretamente acusatória, pensada, constituída de sentido.
Voltou para o carro, tonto, e, sem encarar o filho, engatou a primeira marcha e seguiu adiante.
– Um palhaço, não é? – disse Getúlio ao filho, referindo-se ao velho. De novo, utilizou uma ofensa sem nenhuma acepção. O silêncio do garoto foi incriminador, o que piorou ainda mais o estado de espírito de Getúlio. Não é que se visse como um modelo para o filho, mas o que o incomodava era estar errado e, aí, o juiz poderia ser qualquer um: era apenas uma coincidência o fato de a testemunha ser seu próprio filho.

Ao deixar o garoto na escola, este desceu do carro sem falar nada. Getúlio, transtornado com a situação, já dirigia de volta para o trabalho, quando se deu conta de que não poderia deixar a situação daquele jeito. Era pai daquele garoto: não podia permitir que o filho lhe dissesse – embora ele não tenha dito nada – o que é certo e o que é errado. Pegou o primeiro retorno e voltou para o colégio.
Sua raiva crescia segundo a segundo, dirigia como um louco. Não podia permitir que um fedelho descesse do carro sem se despedir do próprio pai. Se fosse um frouxo agora na criação do filho, perderia para sempre as rédeas da educação do garoto. Ao pensar na palavra “educação”, lembrou-se do velho e um frio enraivecido percorreu-lhe o estômago.

Chegando à escola, percebeu que o portão já estava fechado. Começou a bater como um maluco. A inspetora veio ver o que ocasionava tal escândalo. Percebendo Getúlio na rua, perguntou-lhe se sabia quem estava a dar pancadas no portão. Nem cogitou que pudesse ser o próprio Getúlio, sujeito pacato, bem educado (ao contrário do que dissera o velho), culto, dedicado, sempre presente nas reuniões de pais, responsável por criar (e muito bem) sozinho seu filho, depois que a mãe do menino morreu no parto... Getúlio era uma ótima pessoa: qualquer um que o conhecesse em outro dia concordaria com isso. Dotado sempre de um largo sorriso, não era propriamente bonito, mas cativante. Seus quarenta e cinco anos caíam-lhe muito bem, dando-lhe um aspecto de experiente solteirão, com barbas e cabelos que nem sequer flertavam com o grisalho. Naquele dia, porém, estava irreconhecível.

– Eu estava batendo no portão! – respondeu Getúlio, em tom ameaçador.
– O senhor? – perguntou a inspetora, desconcertada. – Algo de urgente?
– Quero ver meu filho!
– As aulas já começaram, senhor. Posso transmitir algum recado?

Repito que todos gostavam de Getúlio. Se ele insistisse apenas um pouco, a inspetora permitiria que ele entrasse em sala de aula. Mas ele não estava preparado para uma negativa.
2

As matérias na TV seguem um arquétipo. Toda notícia de determinado tema é informada de acordo com esse ou aquele modelo. Quem nunca viu notícias de homicídios, em que amigos e conhecidos do assassino declaram não saberem como aquilo foi acontecer, que o sujeito era boa praça, recatado, trabalhador etc.?
Getúlio virou manchete, cujo padrão não se modificou.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O um lugar

Devido à timidez do mundo em mostrar-se aos olhos do homem, este, assim entendido como unidade da grande espécie humana e não como humanidade em geral, a fim de cumprir desígnio de Deus, teve de desbravar as cidades e romper as fronteiras mais inimagináveis do que outrora se chamavam áreas inexploradas, para encontrar um lugar, o lugar, o um lugar.

Disse-lhe Deus que, cansado da presunçosa criatividade humana, que desafiou seu criador, não cessando em modificar a Terra, obra divina que, por si só, já se encontrava acabada, ele, Deus, desfaria o planeta, destruiria sua própria arte, com exceção do um lugar, para o qual seriam enviados os bilhões de pessoas que habitam os países. Em outras palavras, Deus determinava que o Homem, este, sim, entendido como humanidade, não desapareceria, mas ao contrário: viveria para presenciar a destruição de seu antigo habitat, para envergonhar-se de sua insensatez ao desafiar os poderes do Imperador do Universo, com desmedidas alterações nos quatro cantos da Mãe Terra.

O homem, pequeno, assustado com a tarefa que determinaria o futuro do Homem, grandioso, dizia-se incapaz de realizar o intento do Pai, enfurecendo-o ainda mais, pois Ele, que conhecia os pensamentos do subordinado, irritava-se não com o esboço de rebeldia, mas com a razão que a causava, isto é: a sensação de pequenez do homem diante do Homem e não perante Deus, cujo simples suspiro já é maior que toda a humanidade. A fúria divina gerou uma série de catástrofes por todo o planeta, mostrando ao homem que este não tinha escolha a não ser acatar a determinação de seu Pai, que sua desobediência causaria muito mais sofrimento aos seus ditos irmãos do que o pior lugar que pudesse escolher para abrigar a espécie humana.

Deus, terrível, impiedoso, deleitava-se com a perspectiva de ver o Homem, os homens, todos espremidos, em um cubículo de terra, lamentando o grandioso espaço externo por eles próprios destruído, isto porque, embora fosse Ele aquele que daria fim a quase todo o planeta, estava certo de que assim o faria porque, anteriormente, os humanos, sem prévia autorização, tanto o haviam modificado que, agora, ele já se tinha tornado irreconhecível. 

Nem a mais vil e mimada das crianças agiria tão cruelmente, mas fato é que o homem, por fim, conformou-se em desbravar as cidades, de leste a oeste e de norte a sul do mundo, para encontrar o abrigo para seus irmãos. Os locais eram visitados por mais de uma vez, a fim de se conhecerem todas as suas estações e variações climáticas, e o homem deveria ter em mente que qualquer lugar poderia ser o eleito, desde que não ultrapassasse a tantos quilômetros quadrados, pois Deus se mostrava irredutível em sua determinação de espremer a espécie humana em um cárcere não demasiadamente espaçoso.

O homem levou anos até anunciar sua escolha, gerando ansiosa irritação por parte do Pai, que cria estar seu subordinado ganhando tempo, procrastinando indefinidamente uma decisão que, por mais que não pudesse ser rápida e levianamente promulgada, tampouco era passível de quase uma década de infinitas pesquisas. Pois então, o homem, dadas as desculpas pelo longo tempo transcorrido, noticiou a Deus que já havia escolhido o um lugar. Por mais irônico que parecesse, mesmo tendo o homem percorrido os quatro cantos do planeta, esse local era sua própria casa. Terra de solo moreno, montanhas curvas, vegetação rasteira, águas doces e salgadas, clima e odor que, mesmo no inverno, nunca deixavam de ser, respectivamente, quente e primaveril, tratando-se do lugar perfeito para o homem.

Deus assentiu e, naquele momento, destruiu em grandes lavas o que outrora era Terra, com exceção do um lugar, guiando todas as pessoas, sôfregas, desesperadas, para o Eldorado encontrado por aquele sujeito. Acontece que este, sabedor da joia que tinha consigo, maravilhado com seu um lugar, aquele que para mais nenhuma pessoa poderia ser casa, mas só para ele próprio, trancou a porta de acesso ao local, não permitindo que ninguém ali entrasse. Agora, sua casa não era só casa, mas era mundo. E Deus, atônito, viu seu vingativo plano fracassar e não apenas o mundo ser destruído, mas também os homens que o habitavam, exceções feitas àquela maravilhosa porção de terra e ao homem que ali residia.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Agonia na sala de espera

Eu estava na sala de espera, meia hora adiantado para um médico que tradicionalmente se atrasava. Minha ansiedade não me permitia ficar em casa, esperar mais. Segurava entre as mãos frias um exame que dizia se eu estava ou não com uma doença terminal (cujo nome não importa), mas eu não conseguia interpretá-lo, precisava esperar pelas palavras de um profissional, o veredito sobre a minha vida (ou a minha morte, como preferirem).
Por mais que eu esfregasse as mãos, elas continuavam gélidas, transpirando um suor frio. Na TV da recepção, um programa matutino, desses para donas de casa, com uma receita qualquer de comida. O tom da voz da apresentadora era irritante e todos os envolvidos (tinha uns convidados, me parece) riam. Em todos os rostos, havia um sorriso devastador, como se zombassem de mim, a quilômetros de distância, que esperava impacientemente pelas palavras finais do médico: você viverá, você morrerá.

Levantei-me, fui ao banheiro, mesmo sem vontade. Encarei o vaso por alguns minutos, não mijei. Suspendi as calças de novo. O que eu não queria era ficar sentado, vendo uma mulher na TV fazendo bolo. Olhei-me no espelho: velho. Cabelos, tinha poucos; rugas, tinha muitas. Barba rasa, olhos caídos, pescoço flácido. O que eu queria? Viver para quê? Era óbvio que a morte estava próxima. Se não fosse por essa doença, seria por outra. Ainda que não fosse por intermédio dessa enfermidade, eu, obviamente, não viveria mais que alguns anos. Eu estava mesmo velho. Alguém na minha idade pode se dar ao luxo de temer a morte?

Voltei para a recepção, sentei-me em uma cadeira mais distante da TV, de modo que apenas o odioso áudio chegava a mim, não a imagem (porque, se uma TV está em frente a ti, ainda que você não a queira ver, seus olhos não desgrudam da tela). Comecei a travar diálogos mentais. Eu tinha que me preparar para o pior. Eu morreria, eu estava doente, esses sintomas que eu vinha sentindo não podiam ser outra coisa que não essa temível doença. Eu morreria, e daí? O que eu tinha a perder? Minha vida não era mais nada. Todas as pessoas que eu já amei morreram. Todas já se foram, uma atrás da outra, cada uma por um motivo, todas me abandonaram. Hoje, só amo fotos. Amo porta-retratos. Quem sabe, depois da morte, não encontre todas essas pessoas de novo? A morte pode ser boa e eu estou a temê-la. Por quê?

Elucubrações, enganações. Eu queria era viver! Eu queria muito viver!

Se eu pudesse, se eu nascesse de novo, faria tudo diferente. Não por me arrepender de ter feito o que fiz, mas para experimentar coisas novas. A cada dia, uma porta se fecha na nossa vida. Quando você escolhe um caminho, vários outros ficam para trás. Ah, como eu queria ser criança de novo! Não porque é uma fase áurea, na qual estamos livres de preocupações; não, nada dessas baboseiras que as pessoas falam. Eu queria ser criança simplesmente para poder ter todos os caminhos ao meu alcance novamente. Eu faria teatro, cursaria pintura, aprenderia violino, investiria na Bolsa de Valores. Sim, investiria mesmo. Um dia uma economista noticiava na TV que, de acordo com uma das muitas pesquisas estúpidas que se fazem nessa vida, os jovens têm a pior educação financeira do país. Não sei os critérios que usaram para avaliar uma coisa dessas, mas o que me marcou foi o óbvio comentário da tal economista: “Uma pena, porque os jovens têm o bem mais precioso para investir: o tempo”. Claro, é isso mesmo. Eu, aqui, com meus setenta e tantos anos, vou investir o quê? Nem se eu fosse um bilionário.

Pensei, pensei e nada de o médico me chamar! Já estava com vontade de chorar. Tem choro de felicidade, choro de tristeza, choro de raiva, o meu seria de ansiedade. Que agonia! Eu queria essa resposta logo! Eu queria viver, eu queria viver, eu queria muito viver, ainda que não pudesse investir na Bolsa nem cursar violino, pintura e teatro. Eu queria viver, quem eu quero enganar? Que papo é esse de que todos que eu amo já morreram? Já morreram, sim, mas eu estava vivo! E queria continuar vivo! Por favor, doutor, não me diga que vou morrer. Se o senhor me disser uma atrocidade dessas, posso não reagir bem. Posso me encolher no canto do seu consultório e nunca mais sair de lá. Eu quero que o senhor saiba que já tem duas semanas que fiz esse exame e, se só agora trouxe o resultado, foi porque o senhor não tinha horário vago. Mas foram duas semanas infernais! As piores semanas da minha vida! Não me aguento mais, justamente porque eu quero viver!

Como é engraçado: as piores semanas da minha história foram justamente as semanas que antecederam uma suposta descoberta de que eu morreria. Ou seja, não apenas a morte me tira a vida propriamente dita como, de bônus, ainda me tira duas semanas da própria vida que de mim já será tirada!

“Senhor Fulano, favor comparecer ao consultório 6.”

Sou eu! Chegou a hora! Onde fica o consultório 6? Mas que diabo, onde fica isso? Quero ir logo ao consultório 6, mas não sei onde isso fica! Vou à recepcionista e pergunto. 

– No fim do corredor, à sua direita – me responde a mocinha. Eu já tinha virado as costas, apressadamente, quando ela me disse: – Vê se escreve esse conto com um final feliz.

– Como é que é? – perguntei, a cabeça virada para ela e os pés querendo ir logo ao consultório.

– É isso mesmo – ela respondeu. – Já estou farta dos seus contos com finais trágicos. Não leio nada para me sentir mal. Leio para ficar feliz. Se for escrever que vai morrer, nem escreva. Vá ao consultório 6 e escreva que o doutor disse que o senhor ainda vai viver muito mais!

Abanei a cabeça, positiva e obedientemente. Eu nunca tinha pensado que meus contos fossem tristes. Não é verdade isso, aquela mocinha foi muito injusta. Tenho vários textos com finais felizes! Por que fui tão complacente com ela? Por que não a mandei ao inferno? Será que foi só por causa da minha pressa de ir logo ver o doutor?

Entrando no consultório, dei meus exames ao médico antes mesmo de cumprimentá-lo. O maldito, com toda a calma do mundo, pegou os óculos, que estavam apoiados na camisa, prendeu-os atrás das orelhas, lentamente, segurou o exame, em câmera lenta, leu cada linha do diagnóstico... Pareceu-me que esse processo todo levou cinco horas! Dada hora, ele disse:

– Muito bem... – Estremeci-me por completo. – O senhor não tem nada.

Gritei com força, exultante! Perguntei de novo, para me certificar de que tinha ouvido corretamente:

– Não tenho nada? Nenhuma doença? Vou viver? É isso?

Ele respondeu afirmativamente. Caí no ridículo de beijar suas mãos, saí pulando do consultório, passei pela recepcionista e falei:

– Meu conto tem um final feliz! Um final feliz!

– Até que enfim! – ela me respondeu, rindo.

Saí da clínica mais leve do que nunca. Velho como estava, podia saltar mais alto do que com meus vinte anos. O alívio é o melhor sentimento que existe. Não é a felicidade: é o alívio! Comecei a dançar sozinho na rua, a rir como um doido, gritava como um louco, para qualquer transeunte:

– Eu vou viver! Eu vou viver!

Eu queria mesmo era fazer uma festa, mas, como dito, todo mundo morreu, ninguém iria a festa nenhuma. Tudo bem, caminhei até a minha casa, em vez de pegar um ônibus, andando e bailando, cantando, sozinho, sentindo-me um Chaplin renascido. Eu viveria! Eu vivia!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O dia dos namorados literário

Durante milênios, escritores e pensadores declamaram o amor. Ah, se esses poetas soubessem que estavam fadados a virar citações de Facebook!


Com o dia dos namorados, já sabemos que veremos nas redes sociais citações e mais citações, verdadeiras ou não, de vários escritores. Nelas, leremos as definições de amor dos pobres autores que morreram e não estão mais aqui para se defender. O amor, que sempre esteve na ponta dos dedos dos romancistas, adquiriu inúmeras facetas ao longo dos anos. Como dizer que Dom Quixote amou Dulcineia da mesma forma que Bentinho amou Capitu? Mas as pessoas insistem em postar no Facebook que o amor é... O amor é nada. O amor é um nome que damos a algo que sentimos e não sabemos o que é nem se é parecido com o que o outro sente. Quando você diz para sua namorada que a ama e ela diz que também te ama, cada um está pensando em uma coisa diferente, assim como estão todos aqueles que vociferam esse nobre sentimento. O ser humano é essencialmente solitário porque nunca conseguirá se expressar com a precisão necessária para se fazer entender completamente. Lily, protagonista do estupendo “Travesuras de la niña mala”, do peruano Vargas Llosa, amava seu “niño bueno”, que, por sua vez, amava Lily, e um sentimento era totalmente distinto do outro. Imagine se a Lucíola de José de Alencar compartilharia do amor que a Gabriela do Jorge Amado tinha por Nacib. Ou pior: pense no que era o amor para Bukowski, Dostoiévski e Camilo Castelo Branco. Tudo amor. Tudo reduzido a um nome, quatro letras, algumas frases no Facebook e pronto: Clarice Lispector acabou de ter uma convulsão em seu túmulo.

Talvez, o correto não seja dizer que o amor é nada. Vai ver o amor é tudo. Ou, quem sabe, o amor é alguma coisa. É algo que a gente acha que sente, mas vai ver ninguém sente nada porque você não sabe o que eu sinto nem eu sei o que meu vizinho sente. Aliás, estou aqui a falar sobre o amor de Capitu sem a menor pretensão de achar que sei o que se passava pela cabeça de Machado quando escreveu o romance. Eu não sei nada do que é o amor para Machado e ele não apenas não sabe nada sobre o que é o amor para outra pessoa como nem mesmo sabe o que é o amor para a própria Capitu, que, mais que uma personagem, ganhou vida e virou alguma coisa que eu também não sei o que é.

………

Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias, em junho de 2015.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Refeitura do que não pode ser refeito

Ontem, bati o carro. Bati feio, por sorte não me aconteceu nada grave, só algumas escoriações. O que lamento mesmo é o estado em que o automóvel ficou. Destruído, perda total, nem seguro tinha. A culpa foi minha; ainda vou ter que pagar o conserto do outro veículo. Felizmente, com o outro motorista, tampouco ocorreram maiores danos. Isso, sim, foi sorte: nenhum dos dois ferido! Foi uma batida frontal, o tipo de colisão que mais mata no trânsito. Eu estava numa via de uma só faixa, forcei uma ultrapassagem pela contramão, calculei mal a distância para o carro que vinha em sentido contrário e pronto! Dois carros destruídos, mas duas vidas preservadas. É nisso que quero pensar. Eu sobrevivi. O outro sobreviveu. Eu poderia estar morto, agora. Ou poderia estar vivo, mas com o peso de ser um assassino. Ambos sobrevivemos. Agora, como vou arcar com esse prejuízo financeiro, isso eu não sei. Mas o mais importante é a vida.

Eu não era para ter feito aquela ultrapassagem idiota. Não tem nem 24 horas desde que bati. Se eu pudesse voltar no tempo… Voltar um dia, um dia exato. Seriam criadas duas realidades paralelas? Eu só queria voltar 24 horas… Era óbvio que eu ia bater, que erro estúpido de cálculo! Era um caminhão que estava à minha frente. Se fosse outro carro normal, eu o ultrapassaria, tranquilamente, mas um caminhão, um veículo comprido daqueles… Era evidente que não daria tempo. A colisão foi forte, não sei como não morri, muita sorte. Nem matei ninguém.

O caminhão estava a 50 por hora, nem estava tão lento. Não era autoestrada nem nada. Eu poderia ter ficado atrás dele. Digamos que eu o tivesse ultrapassado: o que teria conseguido? Teria conquistado quantos míseros segundos? Eu já ia virar em duas esquinas. Poderia ter ficado atrás da merda do caminhão! Que estupidez!

Isso foi só um pesadelo. Eu acordo e meu carro está estacionado, intacto. Nada disso aconteceu. Não, isso seria querer demais, não tem como desfazer a besteira que eu fiz. O que seria mais plausível: ele me liga, o outro condutor. Diz-me que eu não preciso me preocupar, que ele não vai me cobrar o conserto de seu carro. Pede desculpas por ter sido grosseiro comigo após o acidente, estava de cabeça quente, espera que eu o compreenda. Eu compreendo, sim, digo que eu é que peço desculpas e o agradeço imensamente pelo perdão da dívida. Mas o telefone não toca, ele não me liga para me perdoar, afinal.

Bate-me um sono fora de hora, fruto de um nervosismo paradoxal, que me agita, mas que também me deixa sonolento. A vontade é de dormir para esquecer a vida. Durmo, mas não mais que uma soneca. Acordo com o coração super palpitante, barulhento, um formigamento na altura dos ombros, uma dor de barriga esquisita. Ansioso, preciso resolver logo isso. Levanto-me da cama. Ele me liga, pede desculpas pela grosseria, perdoa-me a dívida. Tenho que resolver logo isso, mas como? Não tenho dinheiro, não posso fazer nada no momento, só me resta esperar pela resposta do meu pai, que ficou de me emprestar uma grana. O outro não liga, afinal, e, se ligar, não vai ser para me perdoar, mas, ao contrário, para me cobrar! Filho da puta! 

Ando pela casa, olho a garagem pela janela de minha sala. Meu carro não está lá, mas imagino que esteja. Intacto, não houve batida nenhuma. De novo, os olhos pesam, uma vontade não de dormir, mas de morrer temporariamente. Preciso do carro para o trabalho, não sei como meu chefe vai reagir à notícia, que ainda não tive coragem de contar. Ao menos, não me machuquei. É o que importa, não é? Nem matei ninguém. O outro motorista não me liga, mas meu chefe me liga. "Fiquei sabendo que você se acidentou no trânsito, espero que esteja bem. Já que agora você está sem carro, vou te dar um aumento, como recompensa pelos gastos que você vai ter". Claro! Sonha mesmo!

Que estupidez aquela ultrapassagem! Por quê? Quis economizar dez segundos e perdi sei lá quanto! Pelo menos, não a vida. Sono. O outro motorista me liga, perdoou minha dívida. Sono. Coração disparado. Eu encontro 20 mil reais na rua. Meu carro não está destruído. O caminhão está à minha frente, mas eu espero. Chego até a diminuir a velocidade. 40 por hora. Viro em segurança à direita e me desvencilho da companhia indesejada daquele enorme veículo. O outro condutor me telefona, "não esquenta com a dívida, acontece com qualquer um". Meu chefe me liga. Vai me dar um reajuste salarial. Faz 23 horas desde que bati. Consigo voltar um dia, através de uma máquina do tempo, coisa inovadora. Maluquice. O outro motorista me liga: isso, sim, é plausível. Não é não. Pelo menos, não morri nem matei ninguém.

Estou dirigindo, pela centésima vez no mesmo lugar, pela centésima vez atrás do caminhão, pela centésima vez querendo ultrapassá-lo, mas permanecendo onde estou, pois, assim, não bato. Mas bati. Na vida real, fora dos meus pensamentos, eu bati. Vou ter que pagar essa merda. Meu pai não me liga, para dizer quanto ele conseguiu para me emprestar. Sono. Mas dormir, não dá. Não dá para dormir de verdade, uma noite inteira. Meu chefe me liga, o outro motorista me liga, merda de vida que não tem retorno. Pelo menos, estou vivo. É um aprendizado, tudo é um aprendizado, né? Deus me protegeu: estou vivo e não matei ninguém. Nada disso aconteceu, meu carro está inteiro, estacionado aqui em casa. Meu pai me liga, dizendo que conseguiu uma bolada não para me emprestar, mas para me dar! O outro motorista me telefona, falando que não preciso me preocupar em pagá-lo. Meu chefe me procura, vou ter um aumento. O carro não bateu. Estou novamente atrás do caminhão. O outro veículo, que bateria em mim, agora passa em sentido contrário com segurança, pois eu nunca saí de trás do caminhão. Meu chefe, meu pai e o outro motorista me ligam. Estou atrás do caminhão. Sono. A vida é uma merda de uma linha que não volta. Sono. Pelo menos, estou vivo.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Lançamento de livro



No dia 28 de maio, no Rio, vai ocorrer o lançamento do meu livro de contos! Para quem quiser ir lá, vai ser no Multifoco Bistrô (Av. Mem de Sá, 126, Lapa), entre 18 e 21 horas

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O vestido que você comprou

Lembro-me muito bem daquele vestido que você comprou. Lembro-me minuciosamente de seus detalhes, sua cor, seu caimento. Isso porque te caía muito bem, ninguém pode negar. Lembro-me ainda de quando o compraste, a data e o local da aquisição, seu preço promocional, qualquer coisa entre 50 e 900 reais. Era um sábado, ou um domingo, talvez feriado, porque eu não estava no trabalho. Uma segunda-feira à noite, também é possível. Algo entre os dias 5 e 25, porque sei que não era nem início nem fim de mês. Como também não era nem início nem fim de ano, suponho que era entre março e outubro. Ah, lembro-me de tudo com exatidão, meu amor. Eu estava contigo quando você comprou aquele vestido azul, meio vermelho, amarelado, esverdeado, um preto bem brilhoso. Eu estava lá, ao seu lado, naquela loja do segundo ou do terceiro andar do shopping, não do quarto, porque este é praça de alimentação, nem do primeiro, porque subimos uma escada rolante. Era uma loja de canto, bem no meio do corredor. Você saiu do provador, perguntando minha opinião, e eu tirei o som do futebol na TV para te dar a devida atenção, pois você tinha acabado de chegar em casa; eu me levantei do sofá e te beijei e você perguntou o que eu tinha achado do vestido. Eu falei que era lindo e o tirei, despindo-te quase por completo, pois faltavam ainda o sutiã e a calcinha, que, aliás, você disse que também eram novos. Mais uma vez, você pediu minha opinião e eu repeti o adjetivo, passando-o apenas para o plural: lindos. Lembro-me deles também. A calcinha era branca, rosa, azul-bebê. O sutiã era exatamente da mesma cor, verde, preto. Quando o arranquei, deixando-te só de calcinha vermelha, revelaram-se bicos de seios tímidos que, com o primeiro toque, enrijeceram-se, traiçoeiros. Quando a calcinha amarela ficou pelo tapete, desvendando a leve penugem resistente aos modismos, eriçaram-se outros pelos, dançantes como os olhos que se fechavam. A partir daí, a memória principia a me deixar e tudo do que me lembro é o exato ângulo entre sua barriga e seus seios, os dezesseis fios de cabelo – agora, dezessete – que caíam-te sobre o rosto, enquanto você cavalgava com o olho direito aberto por menos de três milímetros e o esquerdo, piscando, ritmicamente, até o fim. Os quatro pequenos arranhões, com um quinto ainda branco, que se desenhavam entre sua nuca e seu pescoço, deles não me lembro, tampouco do aroma que, divertidamente, eu encontrava tanto entre suas pernas quanto em seu colo. Também me foge o comprimento dos seus cabelos, a um palmo e meio acima do início de suas nádegas, mas que podiam oscilar para dois palmos, quando você abandonava a posição vertical de seu corpo para apoiar-se em quatro bases. É, de nada disso me lembro, só mesmo do vestido, lindo, meio bege, meio roxo, assim, prateado como o ouro.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Terapia de um moribundo

Por que vocês sempre perguntam como foi nossa infância? Confesso que isso me dá nos nervos, mas longe de mim querer questionar seu trabalho... Minha infância foi boa. Normal, eu acho. É engraçado: não tive nenhum fato marcante nessa época... Meus pais nunca se separaram, não morreu nenhum ente querido, nenhuma namorada ou amigo mais significativos... Mas as memórias mais expressivas que tenho da minha vida são de quando eu era criança. Não são nada de mais, doutor, são coisas do dia-a-dia, mas que, se acontecessem (como certamente aconteceram) depois que virei adulto, não me marcariam tanto. O quê? Difícil exemplificar, mas vejamos: um dia comprei uma coca-cola com cachorro-quente na cantina da escola. Não era normal, porque normalmente eu comprava joelho, não cachorro-quente. Que importância tem isso? Absolutamente nenhuma. Mas pronto, me marcou.

É muito estranho visitar um lugar em que você viveu e do qual saiu há muito tempo. Acho que há poucas emoções similares, o senhor não acha? Digo isso porque o senhor perguntou sobre a minha infância e veja que coincidência: estive, semana passada, na cidade onde nasci, agora a trabalho. Lá se iam trinta e seis anos sem pisar ali. Quantas coisas mudaram, quantas permanecem as mesmas! Mas não imaginava que ia sentir o que senti quando passei pela escola onde estudei, pelas ruas onde brinquei, pelos becos onde namorei, pela padaria – que agora é uma igreja – aonde eu ia toda manhã comprar pão para os meus pais... E passar em frente à minha casa, imagine o senhor! Chorei um bocado, vou confessar. Sei lá por quê, não sei mesmo. Como disse, minha infância não teve nada de mais, não sei por que me senti assim. E tampouco eu me sentia saudoso quanto àquela cidade. Pouco depois de eu sair de casa, meus pais também se mudaram, meus principais amigos também... Eu não tinha mais o menor vínculo com aquele lugar. Ou pensava não ter, né? Sabe o que é pior, doutor? Chorei por uma casa que nem de longe lembrava a que eu morei. Os muros foram pintados, o salão da frente deu lugar a uma garagem, as janelas de madeira são agora de vidro, a atmosfera da casa está mesmo muito diferente... Mas chorei, vai entender?

Como estou sendo sincero, vou contar ao senhor. Eu toquei a campainha lá. Quem me atendeu foi um garoto de uns dez ou onze anos. Perguntei seu nome, quando haviam se mudado, fiz uma série de questionamentos que amedrontou o coitado... Ele voltou correndo para dentro e eu saí de lá, antes que os pais ou algum adulto viessem tomar satisfações. Fui covarde mesmo. Hoje, essa recomendação que as mães dão aos filhos, de não falarem com estranhos, me parece esquisita demais. Não sei se era costume da época ou se foi coisa só dos meus pais, mas eles me diziam justamente o contrário: para falar com as pessoas, procurar ajudá-las, ser bondoso etc. Se eu escuto alguém perguntando informação na rua para um terceiro e este não sabe responder, eu interrompo, eu me meto na conversa, eu tento ajudar. Mas, se o mesmo acontecer com um garoto que foi aconselhado a não falar com estranhos, provavelmente ele vai ignorar mesmo se a pergunta for feita diretamente a ele.

Acho que me tocou também o fato de aquele garoto me lembrar meu irmão. Fisicamente só. O jeito de falar – ou de não falar – era outro. Tenho saudades do meu irmão, doutor, mas foi Deus quem o levou há uns dois anos. Junto com ele, foram-se também outros amigos. Na mesma época, ou seja, entre meus 50 e 60 anos. É assim mesmo, né? A vida tem seus ciclos de morte. Como eu já falei, durante a minha infância, não morreu ninguém que eu estimasse muito. Na verdade, até os meus 25 anos, não morreu ninguém que eu conhecesse, independentemente de estimar ou não. Engraçado, né? Meu primeiro contato com a morte foi muito tardio. Foi mesmo aos 25 que o pai de um grande amigo meu morreu. Doeu em mim também. Ele fazia grandes almoços aos domingos e sempre me convidava, junto com toda a sua família, como se eu também fosse parte dela. Era um falatório, uma fartura de comida: família de italianos reunida no domingo, o senhor sabe... Nessa mesma época, morreram vários pais de amigos... Acho que, até os 30 anos, ou os pais ou as mães dos meus principais amigos já haviam morrido. Nos meus 31, foi minha mãe que me deixou... Aos 34, meu pai... Aos 35, todos os pais de todos os amigos... Foram dez anos – dos meus 25 aos meus 35 anos – sepultando entes queridos, meus e de amigos.

Depois disso, passou um tempo sem que ninguém morresse. Aí, quando eu alcancei meus 50 anos, começou uma outra fase, muito mais dolorosa: a morte dos próprios amigos. Quase todos se foram. Os principais, quero dizer. Dos 50 aos 60 anos, perdi todos eles, incluindo meu irmão, de quem o garoto que atendeu a campainha me lembrava. Acho que por isso vim aqui, porque acho que, assim como meus próprios pais morreram no período de morte dos pais dos outros, eu também morrerei na época em que meu irmão e amigos morreram, eles que tinham minha mesma faixa etária.

Saber que vou morrer me desanima. Claro, eu sei que não necessariamente vou morrer agora, sei de tudo isso... Sei que é coisa da minha cabeça, mas, se não fosse maluquice minha, não estaria aqui. Eu tenho perfeita consciência de que a associação que fiz entre a morte dos meus pais e a minha é absurda, mas, apesar de, no campo racional, eu saber disso, não consigo evitar uns sentimentos bem desagradáveis com relação a essa suposta brevidade da morte.

Vejo que o senhor está mesmo preocupado comigo... Vou tratar de tranquilizá-lo. Vou citar pelo menos uma coisa boa de saber que vou morrer: tenho muito menos com o que me preocupar. Passamos a vida inteira ansiosos com o futuro, isso desde criança, quando nos enchem com as perguntas do tipo “o que você quer ser quando crescer?”. É assim durante toda a nossa vida. Temos que escolher uma faculdade, um trabalho, promoção no emprego, um trabalho melhor, mais salário, mais dinheiro, filhos, o futuro dos filhos... Enfim, futuro, futuro, futuro! Para mim, não há futuro. Olha que sensacional! Posso pousar minha cabeça no travesseiro e dormir em paz, sem me preocupar com o amanhã.

Se eu tivesse filhos, ainda estaria preocupado com o futuro deles, mas não tenho. Dou fim à minha linhagem. Não pense que eu não queria tê-los, mas não achei mãe para eles. Nunca aconteceu comigo aquela coincidência: eu me apaixonar justamente pela mulher que se apaixonasse por mim. Não sei como esses relacionamentos são possíveis. Acho que, nos casais que existem, uma das partes está mentindo o seu amor. Pense bem no número de homens no mundo e no número de mulheres. Agora, me diga, matematicamente, as chances de isso acontecer. Ou que seja entre dois homens, duas mulheres, qualquer combinação sexual: por que um vai amar exatamente aquele que te ama? Me parece muito improvável e, comigo, se isso chegou perto de acontecer, foi só uma vez.

Ela era mesmo bonita, sabe? Mas não deu certo... Chegamos a morar juntos por um tempo, mas não durou. Ela se irritava muito comigo, pelas menores bobagens. Veja o senhor um exemplo. Eu às vezes pedia para ela ficar nua em casa, pois eu queria olhá-la. O senhor é homem, vai me entender. Sabe quando não temos um propósito sexual, mas só queremos admirar a nudez da nossa mulher? O senhor é ou já foi casado? Me entenderá. Ela tomava isso como insulto, dizia que eu a tratava como uma coisa. Sei lá se ela não tinha alguma razão... É verdade que, quando ela estava nua, não a via como uma pessoa, com seus desejos, sentimentos, fraquezas, emoções, tudo isso. Mas tampouco a via como coisa. A via como uma expressão da arte divina (e olhe que sou ateu). É isso. Podia passar horas olhando para ela nua, como passaria horas admirando um quadro renascentista. E o quadro é coisa? Não propriamente, é muito mais do que uma coisa. Mas tampouco é uma pessoa. É arte, apenas arte. Do mais alto fio de cabelo até os dedinhos de seus pés, como eu a admirava! Mas bem, não sei por que me enveredei por esse caminho, já que isso era só um exemplo das várias atitudes minhas que a irritavam... Às vezes, também, eu a olhava pelo buraco da fechadura do banheiro... Não ria de mim, doutor, era a única forma que eu encontrava de vê-la em sua mais desinibida intimidade, ou seja, a mais pura expressão de arte. Um dia ela me flagrou e o senhor já imagina a reação que teve! 

Acontece, doutor, que, para mim, a beleza não pode ter significado. Um filme é belo por ser belo, uma música é bela por ser bela, um poema é belo por ser belo. Se vem alguém me dizer que gostou de um filme por causa de sua mensagem, de uma música por causa do significado de sua letra ou qualquer justificativa do tipo, eu posso concordar, eu posso dizer que sim, o artista foi mesmo genial, mas não, não é necessariamente belo. Ao menos, não por isso. Quando o senhor vê o pôr-do-sol, em um lindo horizonte multicolorido, o senhor o achará belo por quê? Por causa do significado do céu, das nuvens, do sol? Não! É belo porque é belo! Sabe o senhor por que sou ateu? Já fui mais convicto em meu ateísmo, devo dizer – talvez esteja mais flexível por causa da proximidade de minha morte. Não, ah, não, não faça essa cara! Já estou conformado com minha morte. Mas por que comecei a falar sobre isso? O que o ateísmo tem a ver com o que eu dizia? Ah, claro! O que ia falar era o seguinte: os teístas querem me fazer acreditar que Deus existe porque, do contrário, quem teria feito esse belo mundo em que vivemos? Ninguém, lhes respondo. E essa é a graça! Eles querem dar um sentido ao pôr-do-sol em um lindo horizonte multicolorido do qual falei! Não, não tem sentido, essa é a beleza! “E por que você vive, então?” Por nada! Não é lindo viver por nada? E daqui a pouco tempo vou morrer, também por nada! "Venha cá", eu digo a meus amigos religiosos, "o universo tem um zilhão de anos. As estrelas, a galáxia, o sol, o planeta, os primeiros animais... Pensa em quanto tempo isso está aí. E haveria de existir um plano para a NOSSA vida? Que importamos? Nada, absolutamente nada, não somos nada!" Não somos nada, doutor... E isso é mesmo bonito. É tão bonito quanto o corpo da minha antiga amada... Sim, eu a amava, dane-se, vou confessar! Para que levar segredos para o meu túmulo? Estou pagando é para colocar tudo isso para fora, não é mesmo? Nunca disse nem mesmo para ela que a amava, mas a amava, sim! Não era lá muito recíproco – lembre-se das probabilidades matemáticas –, mas eu, da minha parte, a amava loucamente!

Sabe o que acho engraçado? É que a minha morte é essencial na minha vida. É por isso que estou aqui, porque vou morrer em breve. Doutor, não faça essa cara, já sou um sessentão, é claro que vou morrer. Eu sei que ainda posso ser considerado jovem, que a expectativa de vida de alguém da minha classe social é muito mais longa, mas veja o senhor que, como eu já disse, todos os meus amigos morreram, por que comigo há de ser diferente? Em que sou melhor que eles? Eu diria até mesmo que sou pior do que eles... Sempre me tratei menos, fumei mais, me exercitei menos, bebi mais... Não tem por que eu durar muito tempo. Mas veja, não era isso o que eu ia falar. O que eu estava dizendo é que acho engraçado o fato de a minha morte ser essencial na minha vida. Eu não sou nada para o universo – e não me queixo disso, ao contrário, vejo beleza nessa minha insignificância, já te disse –, mas, apesar de o universo estar pouco se lixando se vou morrer ou não, a morte é tudo para mim, percebe? É o que me guia, é meu norte, é o que preenche meus pensamentos dia e noite. E, para a galáxia, que importa eu morrer? Agora mesmo, pense o senhor, quantas pessoas estão morrendo? Respire um pouco. Pronto. Aquelas já morreram e outras estão morrendo agora. E que importam? Eu continuo aqui, o senhor continua aí, as estrelas, os planetas, os oceanos, os desertos e as florestas continuam todos em seus respectivos lugares. O mesmo ocorrerá quando eu morrer. E, para mim, somente para mim, a morte é tudo.

Um colega meu, que também morreu, me dizia que, além da fase da morte dos pais dos amigos (e, consequentemente, dos próprios pais) e da fase da morte dos amigos (e, consequentemente, da minha própria), há uma outra fase de mortes que não experimentei: a morte dos filhos. Nesse caso, não se trata de uma morte no sentido literal, afinal prediz o universo que os filhos morrerão depois dos pais, mas ele se referia ao momento em que os filhos saem de casa. Para esse meu colega, é um tipo de morte. Posso entendê-lo. Senti-me assim quando aquela minha namorada saiu de casa e fiquei sozinho naquele apartamento imenso... (Mentira, não era imenso. Tinha 50 metros quadrados, mas, para mim, sozinho, era imenso.)

Não, doutor, não... Eu sabia que o senhor ia falar isso... Não me sinto sozinho. Hoje, não. Vivo sozinho, mas não sou sozinho. Ou melhor: sou, sim, solitário, mas isso não me causa sofrimento nenhum. Até prefiro assim, para ser sincero. É bom, porque, quando eu morrer, a ninguém causarei dor.

Eu devia escrever isso tudo... Devia mesmo... Mas me falta concentração. Falar é muito mais fácil; não precisamos nos concentrar para falar, mas, para escrever, sim. Para escrever, é necessário o combo solidão mais concentração e eu só tenho o primeiro elemento. Não consigo me focar em nada, doutor, desde que essa ideia de morrer me veio à mente. Isso me atormenta dia e noite. Acho que vou morrer simplesmente por pensar que vou morrer... Não me tome por supersticioso, não! Não digo com isso que pensamentos atraem fatos, nada disso. É que, de tanto pensar que vou morrer, estou ansioso e vou acabar ficando doente... E, bem, vou acabar morrendo, em decorrência dessa ansiedade.

Que inferno, doutor! Não quero morrer!

Por falar em inferno, será para lá que eu vou?

Que estupidez! Estou te falando que esse meu ateísmo anda meio fajuto...

Chega, doutor, acho que já falei demais! Meu Deus, olha a hora! Já estou aqui há muito mais tempo do que dura a sessão! (Olha eu falando "meu Deus!"...) Por que o senhor não me interrompeu? Que horror! Quanto te devo, doutor? Aqui está. Não, toma mais isso também. E tome também esse cheque. Não tenho mesmo para quem deixar minha herança e o senhor é um homem de bem. Até mais, doutor. Não sei se volto na próxima semana, porque... O senhor sabe... Minha hora está por chegar... Desculpe essas lágrimas, não sei o que estou fazendo. É que realmente não queria morrer! Até mais, doutor. Tchau, tchau, tchau, tchau! Tenho que ir! Tchau!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A despedida

Vínhamos tristes no carro. Ela, um pouco embriagada pelo vinho; eu dirigia sóbrio, mas nem por isso menos distante. Voltávamos do jantar de despedida que nos tinham preparado. No dia seguinte, entregaríamos o carro, que já estava vendido, e, em menos de 48 horas, estaríamos no avião, embarcando para um país desses que estavam em guerra nos anos 90, que têm um idioma que só eles falam, que pouco sabem de inglês, que parecem pouco receptivos a estrangeiros, embora, no fundo, eu nada saiba do meu destino. Era bom viajar: isso, era. Não nos arrependíamos. O que nos pesava era o fato de ser a última vez que fazíamos aquelas coisas. Era a última vez que passávamos por aquela rua, por aquela ponte, dobrávamos aquela esquina e guiávamos aquele carro, tudo o que tinha feito parte da nossa história por tantos anos.

No banco do carona, ela adormecia, a boca entreaberta, a cabeça descaída para a esquerda. Ao volante, eu me despedia de cada pedaço de asfalto deixado para trás, reduzindo a velocidade para prolongar o adeus, como um casal de namorados que se abraça demoradamente no terminal de embarque de um aeroporto. Já passava das duas da madrugada, só tinha eu na rua, uma sensação ainda pior de ser um ponto no meio do nada. Desejei imediatamente estar preso em um engarrafamento, com faróis altos e buzinas a alardearem a minha presença e legitimarem minha existência. No entanto, só tinha eu, a 40 por hora numa via de 80, olhando cada árvore como quem sabe que nunca mais as verá de novo.

Ela balbuciou algo, perguntando se já tínhamos chegado em casa. Estamos longe, eu respondi, graças à minha velocidade reduzida. Estamos longe, a um oceano de distância. Agora, casa é lá, não mais aqui. Ou casa não é nem lá nem aqui. Não há casa. Ela, sonolenta, sorriu, não sei de quê, fazendo-me pensar que minha casa é ela. Ela é tudo o que tenho que levar na mala. No país esquisito de língua esquisita, é ela que vou montar e nela que vou morar. É ela que vou erguer e nela que vou viver.

De repente, começou a chover, o que foi estranho, pois havia minutos o céu estava todo estrelado. A cidade também se despedia de mim, romantizei, infantilmente. A cidade está pouco se lixando para mim. Os lugares não se importam com as pessoas, estão lá a despeito delas, ainda que por causa delas se transformem. Os lugares são imortais, mesmo se mudarem de nome, de cenário, de relevância. O espaço é o que há. As pessoas habitam esses espaços, modificando-os, iludindo-se arrogantemente ao acharem que os destroem, mas elas se vão, ao contrário dos lugares. As pessoas morrem. Olhar cada pedaço da cidade com os olhos de quem não mais voltará é, acima de tudo, encarar a morte. Um dia, cientes ou não, olharemos nossas próprias mãos também pela última vez.

domingo, 29 de março de 2015

Poesia urbana

Acredito que há poucas cenas tão poéticas quanto um grupo de carros, de noite, com faróis acesos, seguindo numa estrada, numa avenida, numa rua, numa via qualquer, desde que em linha reta. Não me refiro a congestionamentos: para haver poesia, os carros têm que estar em movimento, mas não um ou outro e, sim, todos  e repito: em linha reta e à noite. O mesmo fluxo de veículos de dia não teria a menor graça.

 Você é louco!  disse-me um amigo, quando lhe falei essa minha opinião.  Vá para o campo ou para a montanha e verá poesia. Ou, então, vá para Ipanema e encare a praia por alguns minutos. Olhe para ela, ouça o quebrar de suas ondas. Mas, por favor, não me fale de poesia aqui! Aqui, não!

Estávamos no alto de uma passarela que dá uma bela vista da Avenida Presidente Vargas, uma das mais movimentadas do Rio. Bela, para mim. Para meu amigo, era o horror. Para ele, dificilmente haverá poesia em alguma criação humana. Ele pensa que a poesia consiste exatamente no natural. O que é criado, forjado por mãos humanas, não pode ser poético.

 A Muralha da China é poética?
 Nem pensar.
 A Torre Eiffel?
 Pelo amor de Deus!
 O Corcovado?
 O Corcovado, sim. O Cristo, não.
Por aí, já se vê que, para ele, carros e poesia estão em extremos tão opostos quanto água e fogo. E não discordo. O que penso, porém, é que aqueles automóveis nada mais são do que uma continuação dos corpos de seus motoristas (e, aí, está a naturalidade). Quando eles pisam nos pedais de seus veículos, seus pés se prolongam até a base dos pneus que tocam o chão. Imaginar quem são essas pessoas, todas juntas, em um só sentido, na mesma via, escondidas atrás de seus volantes, aí reside a poesia. Por que a necessidade poética dos faróis acesos? Talvez, seja uma questão meramente estética; quiçá, porque o brilho das luzes ofusque as faces dos motoristas.

Aqueles carros não sabem para onde vão; provavelmente, nem sabem de onde vêm. O mar, o sol, a lua, a montanha e as nuvens também não sabem, mas nem fazem questão de saber, não são dotados de uma consciência que exige uma explicação de suas existências. Já os homens, guiando seus veículos como guiam suas vidas  autômatos sem inteligência ou vontade , esses, que foram concebidos com consciência, não existem se não se conhecem e, como não se conhecem, não existem. Não posso deixar de ver poesia nisso.

sábado, 21 de março de 2015

Contos: por que não lê-los?

Nunca entendi muito bem por que contos não encontraram seu espaço no mercado editorial. Eles têm tantas vantagens.


Os contos, para início de conversa, são pequenos, menores que romances. Depois, não exigem uma continuação. Uma coletânea de contos pode ser abandonada no meio sem o menor peso na consciência: basta você ler uns dois contos e não gostar deles. Exigem, portanto, um fôlego muito menor por parte do leitor. Os contos estão para a literatura como os curtas-metragens estão para o cinema: tinham tudo para ser o produto preferido do chamado homem contemporâneo, mas, por alguma razão que me escapa, veem-se marginalizados. Para não parecer que escrevo em defesa própria (afinal, sou um escritor de contos), vou citar dois contistas que li recentemente e que me agradaram muito.

O primeiro é o sergipano Antônio Carlos Viana, que já tem cinco obras lançadas, das quais li "Aberto está o inferno". Com uma pegada muito boa em seus textos, ele tem um quê de Bukowski tupiniquim. Os contos são tristes, talvez não no sentido que comumente se dê à tristeza (de um final ruim ou uma tragédia inesperada), mas no de algo mau que está ali presente, de forma permanente. Seus contos contêm um pessimismo de fundo, uma sensibilidade aguçada, o que acaba por deixar uma sensação ruim, mas acalentadora.

Depois, li o diplomata paranaense Mário Araújo, com sua coletânea "Restos". Mais poético e menos direto que Antônio Carlos Viana, tem sempre uma metáfora na manga. É o tipo de contista do cotidiano, aquele escritor que você nota que tem uma interessante interpretação dos fatos, das pessoas, de suas características mais singelas. Descreve bem diferentes tipos de brasileiros, cria situações críveis, muito bem narradas, tendo como temas recorrentes viagens e futebol. Por viver em Brasília, partilha conosco da mesma cidade, presente em alguns de seus contos.

Esses foram dois sujeitos que gostei muito de ler, mas há outros. O próprio Machado, para mim, foi melhor contista que romancista. Já ouvi que a situação de mercado dos contos não é mais tão má quanto antes, mas, verdade seja dita (agora, sim, falando em defesa própria, quem eu quero enganar?), eu ainda gostaria que melhorasse um bocado.

………

Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em março de 2015. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A menina adulta

Tinha cinco anos e era uma menina muito estranha. Gostava mais da companhia dos adultos que das outras crianças. Nas festinhas, não se sentava com outras meninas de sua idade, mas se infiltrava nas rodinhas de adultos. Não possuía aquela conduta típica das crianças cercadas por gente mais velha: ouvir e nada falar. Ela, não. Falava, interagia e, quando lhe vinham com assuntos infantis ou falavam com ela como se fala com uma criança, emburrava-se e cruzava os braços.

Com calça jeans, bolsa e salto alto, completou seis anos de idade com um acervo de expressões que ouvira dos mais velhos. Reproduzia-o com enorme desenvoltura, variando de acordo com o quão adulto achava ser o tema, ainda que ignorasse por completo seu sentido. Tentou algumas vezes usar a expressão “cheque sem fundo”, que a remetia a algo importante da vida econômica adulta. Lia efetivamente a seção de economia dos jornais, embora não entendesse boa parte.

Cumprimentava todos os vizinhos com sisudos “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. Ouvia jazz, via telejornais e cruzava as pernas (tudo, ela pensava, marcas da vida adulta). Vinte anos se passaram e ela morreu com noventa de idade.

quarta-feira, 4 de março de 2015

A sobremesa da vida

No período que antecedeu minha morte, decepcionei muita gente.
Estava eu a fazer exames de rotina, quando o médico me descobriu uma doença terminal. Não havia mais o que ser feito, ele dizia, eu pagava o preço por anos sem me ter consultado, sem ter buscado nenhuma informação sobre minha saúde, o preço de uma vida de maus hábitos alimentares, cigarro, bebidas, enfim, motivos não faltavam. Achei insensível por parte do doutor me dar esporro durante a fala em que anunciava minha vindoura morte. Agora, como ele mesmo dizia, nada mais podia ser feito; eu não precisava, portanto, ouvir todo aquele sermão. Cheguei a desconfiar que meu caso nem era dos piores, que o médico só queria me repreender e que minha doença terminal era apenas um meio para a bronca. Fui a outros profissionais, mas nada adiantou. Eram vãs minhas esperanças. Eu ia mesmo morrer.

Minha morte estava marcada para um mês depois. Cheguei ao ridículo de perguntar se, pelo fato de se tratar de fevereiro, que só tem 28 dias, eu viveria um bocado mais. O médico, sempre insensível, caçoou de mim. Sim, viveria mais dois dias, ele disse. Meu prazo era de trinta dias, sem tirar nem pôr. A irônica exatidão daquela matemática me irritou e saí do consultório a bater portas, xingando todas as gerações da família do doutor. Como se pode ver, eu estava mesmo transtornado. Eu não era tão velho, ainda não tinha alcançado meus sessenta anos. Meu fundo previdenciário, que desperdício!

Aos poucos, porém, resignei-me. O que me incomodava verdadeiramente era ter de contar a notícia a amigos e parentes. Hoje, daqui do outro mundo, vejo que seria melhor não ter falado nada e ter simplesmente esperado que me encontrassem morto em meu apartamento pequeno, porém bem localizado, de frente para a praia, mirante de um belo pôr-do-sol. Mas, na época, isso nem me ocorreu. Eu tinha que contar que morreria dentro de trinta dias e esse fardo me pesava violentamente.

Decidi começar pelo meu filho, o que seria justamente a pior tarefa. Quando criança, ele já havia perdido a mãe e, agora, estava prestes a descobrir que eu também já estava nas últimas. Ele já tinha seus 25 anos, era casado e estava bem encaminhado na vida, mas supus ser uma notícia dura, de toda forma. E foi. Ele, a princípio, ficou calado. Depois, chorou. Por fim, negou. Disse que tinha que haver algo de errado nesse prognóstico. Não adiantou eu lhe dizer que já havia ido a dois médicos; ele me fez ir a um terceiro, a um quarto, a um quinto... A previsão se mantinha. Conformou-se, então. Sugeriu-me viver meu último mês com entusiasmo, fazer tudo o que eu sempre quis, mas nunca pude, disse que estaria comigo naquele período, que me amava.

Reação parecida tiveram alguns amigos para os quais também contei minha situação. Disseram que eu deveria viver intensamente aquele mês, fazer tudo o que sempre desejei, realizar meus mais profundos sonhos etc. Era a hora de promover loucuras, de cruzar o mundo, nadar pelo Atlântico até a Groenlândia, saltar de paraquedas na Antártida, correr pela Sibéria e gritar aos esquimós, viajar aos cantos mais desconhecidos do planeta. Havia ainda os menos viajantes que me sugeriam não cruzar o mundo em um balão nem nada assim, mas gastar meu dinheiro com as prostitutas mais caras e mais bonitas da cidade (e quem sabe não pagá-las?), participar de orgias, experimentar as drogas mais pesadas, ter as ondas mais delirantes. Eu poderia assaltar um banco, participar de corridas de carro, talvez até capotar. Eu poderia xingar meu patrão, levantar a saia da secretária, pôr fogo no escritório... Eu poderia tudo, nada me deteria. O que nos para é o medo e só há medo onde há futuro. Mas não havia futuro, só havia o presente. Era a hora de me libertar. Aquela era a sobremesa da vida. Passamos nossa vida inteira preocupados com o amanhã e nos esquecemos de viver o hoje. Não que esse chavão seja algo ruim, afinal é realmente necessário pensar no futuro. Passamos nossa infância respondendo o que queremos ser quando crescermos, entramos no colégio pensando na universidade, ingressamos na universidade visando ao mercado de trabalho e trabalhamos buscando uma boa aposentadoria. Mas o que acontecia comigo? Que se passava com alguém como eu, que não tinha futuro? 

Por que eu decepcionei muita gente no período que antecedeu minha morte? Porque não fiz nada disso. Nenhuma loucura. Nem sequer pedi demissão do meu trabalho; contentei-me com uma licença médica. Passei meu último mês de vida em casa, trancafiado, vendo TV, comendo enlatados e bebendo refrigerante. Não, eu não estava deprimido. Estava feliz, à minha maneira. Vez ou outra meu filho ou algum amigo me visitavam, tentando me levar para fora de casa, sugerindo viagens e excentricidades que eu cortesmente negava. Eu estava feliz e concordava com a teoria de que aquela era a sobremesa da vida. Mas cada um tem a sobremesa que mais lhe apetece e meu cardápio de doces era bem diferente do deles.