terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poesia ridícula

Escrever poesia é um exercício
contra o incansável vício
de lutar em combate ao ridículo.
É como fazer teatro:
"Respire: um, dois, três, quatro".
O que pode ser mais vexatório
que o resultado final do somatório
de arte e revelação da subjetividade?
Escrever já é ridículo -
seja lá o que for -;
falar de umbigo, alegria e amor,
falar de amigo, nostalgia e dor,
mas poesia é algo ainda mais ridículo,
por ser a expressão exata do ventrículo
que leva todas as emoções ao coração -
e cá estou eu falando de coração:
o que há pior que isso?
Se a metáfora é gasta, é clichê;
o sentimento sempre é demodê.
E se o poeta ainda ousa recitar,
aí o ridículo já vira absurdo
e eu, se sou plateia, aturdo
meu ouvido que, infelizmente, não é surdo
e tem que ouvir as baboseiras de nem sei quem.
Poesia é uma coisa ridícula:
pior que uma carta de amor!
Que se importem os pobres bobalhões,
que não têm suficientes colhões
para mandar tudo isso ao inferno!

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