sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O fim do mundo

Eram sete da noite de uma sexta-feira. Os amigos afrouxavam as gravatas e conversavam animadamente em um dos muitos bares repletos de clientes nas redondezas da Cinelândia. Um misto de estresse do acúmulo de serviço dos cinco dias da semana com alívio pelos dois dias de folga que estavam por vir dava o tom do bate-papo.

– O Vagner é foda – disse um deles, referindo-se em altos brados ao supervisor, de forma, aliás, bastante despudorada, uma vez que o tal do Vagner também frequentava aqueles bares. – O filho da puta chega faltando quinze minutos para o fim do expediente e quer tudo para ontem!

– O Vagner é um filho da puta, mas é justo – respondeu outro colega. – Se você trabalha, você consegue subir naquela porra. Agora, e o Breno? – Breno era o outro supervisor. – Chega todo amigão, com toda aquela simpatia do mundo, mas, na hora que o fogo pega, não defende nenhum funcionário dele. É o único supervisor que eu vejo que bota para foder na própria equipe!

– O Breno é um covarde; quanto a isso, você tem razão. Mas sabe o quê que é o negócio? A merda vem de longe, cara! A merda vem desde o RH, que coloca gente incompetente para dentro, até o zezinho da xerox, que leva uma hora para tirar cópia de um processo de meia dúzia de folhas!

– Epa, epa, epa! – manifestou-se um terceiro colega, que trabalhava no RH. – A merda vem do RH é o cacete! Você já viu como o processo seletivo é feito? Você já viu as ferramentas de que dispomos? A gente tem que preencher três tabelas ridículas para cada candidato e escolher totalmente às cegas o melhor! E você sabe que a palavra final é do Gerson. Nós, no fundo, não escolhemos nada!

– Que Gerson?

– O diretor do RH, né? Está há dez anos na empresa e não sabe quem é o Gerson!

– O que eu sei é que o Vagner é um filho da puta... – disse o primeiro, retomando o assunto inicial. – Como pode, cara? Só promoveu a Luana, da equipe inteirinha!

– E, mesmo assim, porque está comendo...

– Está comendo?

– Ah, no mínimo...

– E eu vou te dizer: somos nós que seguramos a contabilidade daquela bosta. Porque, se fôssemos depender do Departamento de Pessoal, ainda estaríamos naquele moquifo no Chile! – O “Chile” é a Avenida República do Chile, antiga sede da empresa. Tratava-se, de fato, de um espaço bem menor.

– Do Departamento de Pessoal, do Pagamento, da Divisão de Carreiras... É a gente que segura aquela bagaça mesmo!

– E reconhecimento zero!

– Se Deus quiser, no próximo ano vou ser nomeado no ministério e saio dessa vida. – Aqui, um dos colegas referia-se a um concurso público em que tinha sido aprovado.

– Sorte a sua! Eu vou morrer nessa bosta!

– Comodismo... Vai ter um AVC aí e não vai fazer nada para sair dessa merda. Vai ficar sendo cuspido pelo Vagner todo dia!

– Garçom, caralho! Faz meia hora já que estou pedindo outra cerveja!

– Não fala assim com o garçom!

– Ah, vai à merda!

– Depois, reclama quando é humilhado pelo Breno e pelo Vagner... Macaco nunca olha seu rabo, né não?

– Mas eu não presto um serviço de merda, que nem esse bar! Esse e todos os outros, né? Nem adianta procurar outro. O serviço no Rio de Janeiro está cada dia pior!

– No Brasil todo... Fui a Floripa nas férias e está a mesma merda.

– Também, né, podem cagar nos nossos pratos que a gente paga os 10%... Povo acomodado!

– Queria mesmo era sair do Brasil, se você quer saber.

– Ah, se Deus permitisse!

– Já chega! – veio a voz de um velho mal encarado na mesa ao lado. – Já é a segunda vez que escuto meu nome nessa conversa horrorosa de vocês!

– Que nome, vovô?

– Deus! Eu sou Deus! Puta que pariu, vocês me fazem até quebrar o sigilo, mas não aguento mais ver meu nome na boca de qualquer um! Vocês se acham muito importantes, né? Muito importantes! E que chatice! Como são chatos! Não tolero que minhas próprias criações tenham se tornado aberrações do tédio!

E essa foi a história de como se deu o fim do mundo.

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