terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O Corcunda

Corcunda era o apelido autoexplicativo do excêntrico morador da Rua A, número 22. A vizinhança mais antiga já conhecia de muito tempo a história daquele homem, mas os novatos sempre o tomavam por um mendigo ou vagabundo. O número 22 era, na realidade, uma pequena, mas famosa sorveteria, em frente à qual Corcunda sentava-se todos os dias em um banquinho branco por ele próprio trazido.

 Esse rapaz deve ter ficado curvado desse jeito de tanto carregar esse banquinho para cima e para baixo, todo dia  dizia um transeunte.
 É verdade  concordou o amigo.  A prefeitura deveria construir uma cadeira permanente aqui para ele.

Pois bem, era isso. A sorveteria abria às 8 da manhã e, às 7:50, já era possível avistar Corcunda carregando seu banquinho e se sentando ali em frente, na calçada, mas bem encostado à parede, sem atrapalhar o fluxo de pedestres. Às 19:10, dez minutos depois do encerramento das atividades do estabelecimento, Corcunda pegava outra vez o seu banquinho e voltava para a sua casa.

A ideia de instalar permanentemente um banco ali não fora isolada. A associação de moradores chegou mesmo a enviar uma carta à prefeitura, requisitando, formalmente, que tal medida fosse tomada, mas a subsecretaria de obras públicas respondeu, sucintamente, que negaria o pedido, a fim de evitar o incentivo à vagabundagem e à mendicância nas vias públicas da cidade, argumento que revoltou parte da população e ajudou a impedir a reeleição do prefeito.

Como se pode ver, Corcunda era um sujeito querido pela população antiga. Mas os mais novos, assim como, provavelmente, também os leitores dessa história, perguntavam-se o que diabos Corcunda fazia naquele lugar, todo dia, o dia todo. Foram poucos os curiosos que tiveram coragem suficiente para perguntar a ele próprio sobre o mistério (a maioria preferia questionar outros moradores, já conhecedores do caso). Cabe transcrever uma dessas ocasiões, para os leitores entenderem o que prendia Corcunda àquela sorveteria no número 22.

 Senhor, posso te perguntar uma coisa?  Tratava-se de uma moça de seus trinta anos, com umas bochechas redondas e cabelos castanhos claros curtinhos, seguindo o rosto, o que lhe dava um aspecto de bondosa mãe e dona de casa. Corcunda, ao contrário, tinha uns quarenta e cinco anos, rosto comprido e bem branco, queixo pontiagudo, bochechas chupadas e cabelos pretos e oleosos, embora sempre muito bem penteados. Aliás, apesar do aspecto doentio, Corcunda não pecava por falta de vaidade. Estava sempre bem arrumado, perfumado, com os sapatos lustrosos e a barba bem feita. Dizia que tinha que estar sempre preparado, pois, quando o dia, enfim, chegasse, não se anunciaria com antecedência.
 Que dia é esse pelo qual o senhor espera?  perguntou a senhora, depois de Corcunda tê-la autorizado a fazer a pergunta.
 A senhora não é a primeira pessoa curiosa a meu respeito. Acontece que há cerca de 15 anos mantenho essa rotina. Levanto-me às 6:30 da manhã, arrumo-me e venho para a sorveteria, com meu amigo que me acompanhou durante todo esse tempo (a mulher demorou a perceber que o amigo era o banco). Estou aqui todos esses anos esperando por uma pessoa. Não sei quando ela virá. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a cinco ou dez anos, mas, um dia, ela virá. 
 Que pessoa? Desculpe se estou sendo indiscreta.
 Indiscreta, a senhora está sendo, é claro. Mas não me ofende, não se preocupe. Trata-se de uma namorada que eu tive. Perdi essa pessoa sem dizer muitas coisas que deveria ter falado. Nunca disse que a amava, nunca disse que queria me casar com ela, ter filhos com ela e ela se foi. Ela se foi sem ouvir nada disso. Não de mim. Deve ter ouvido de outro ou outros, mas nunca de mim. E estou certo de que os meus sentimentos são muito mais intensos do que os desses outros rapazes que já devem ter se declarado para ela.
 Muito bonita a sua história. Mas o que não compreendo é… Por que o senhor a espera aqui, na Rua A? Ela mora por aqui?
 Não faço a mais mínima ideia de onde ela mora. Perdemos completamente o contato e esse é o problema. Ah, se eu soubesse onde ela mora, seu telefone, qualquer indício! Mas não, minha senhora, não sei. Tudo o que tenho dela é uma fotografia, para a qual olho todos os dias, a fim de não me esquecer de sua fisionomia, que era tão bonita! Na verdade, até gosto quando me perguntam sobre minha história, pois posso reviver meu amor, através de palavras. Ah, claro, não te respondi. Por que a Rua A? Ela me dizia que, independentemente do que acontecesse com ela, de onde ela morasse, da profissão que ela exercesse, ela só tinha uma certeza na vida: viria a essa sorveteria.
 Oh! Mas logo a essa sorveteria, numa cidade tão pequena? Digo… Presumo que vocês moravam na capital, não?
 De fato, morávamos. Mas veja, minha senhora, a cidade pode ser pequena, mas a sorveteria é muito famosa, já foi premiada por várias revistas de culinária e é, sem dúvida, um nome de referência não só no estado, mas em todo o país. Veja a senhora quantas pessoas vêm para essa cidade só para experimentar os sabores desse sorvete. E minha amada, como uma autêntica fã de sorvetes, sonhava em vir para cá.

Corcunda contava essa história repetidamente, tanto que se surpreendia sempre que notava que ainda havia pessoas que não a conheciam. As reações dos ouvintes, porém, nem sempre eram as mesmas da bondosa senhora. Alguns o tomavam por louco, outros até o insultavam. Em diversas vezes, diziam-no para procurar outra pessoa.

 Com tanta mulher no mundo!  exclamou uma vez um rapaz.  Por que você tem que se meter logo com uma mulher que sumiu do mapa?
 Porque é ela que eu amo, o que fazer?  respondeu, complacentemente, o Corcunda.
 Mas e se ela nunca aparecer?
 Veja: aparecer, ela vai. Pode estar com outro namorado, casada, com filhos… Pode nem me reconhecer. É possível que ela nem se lembre mais de mim. Sim, eu imagino isso tudo. Eu sei que ela talvez nem se recorde que eu já tenha passado pela vida dela. Mas aparecer, ela vai. Ela disse que viria, ela queria muito vir, portanto tenho certeza de que ela virá.
 Que seja! E se ela, assim como você disse, estiver casada?
 Direi que a amo e falarei sobre todos os anos que passei aqui, esperando por ela. Se ela não me quiser, aí, sim, esqueço-a de vez, como você me sugeriu, e, quem sabe, procuro outra mulher. Mas, até lá, isso é impossível. Preciso dizer tudo o que não disse enquanto namorávamos.

Houve uma situação em que um desses curiosos foi um pouco além no questionamento:

 Ei, me diz: o senhor está esse tempo todo sem transar?

O Corcunda não se intimidou e respondeu tranquilamente:

 Sim, esse tempo todo.

Os anos se passaram e vários falsos alarmes soaram. Por inúmeras vezes, Corcunda pensava ter avistado sua amada entrando na sorveteria, mas, assim que pegava a fotografia para comparar, percebia que não era ela. Ao dono da sorveteria, por sua vez, agradava muito o prolongamento da história, que apenas faziam crescer os boatos acerca do Corcunda e aumentava a fama do estabelecimento. Quando Corcunda completou vinte e cinco anos de espera, o dono resolveu mudar o nome da sorveteria para "O Corcunda", aumentando ainda mais o faturamento.

 Por que o senhor não entra para a nossa igreja?  sugeriu um dia uma freira.  Apenas frequente algumas missas, participe de algumas reuniões. Quem sabe, assim, o senhor não consegue preencher esse vazio da sua existência?
 Até gostaria, para ser sincero. Mas há o inconveniente de a maioria das missas ser aos domingos e a sorveteria só fechar às segundas…
 Então, visite-nos apenas em um domingo e nada mais. Pode ser o suficiente para o senhor conhecer Jesus. E um dia apenas ausente… Seria muita coincidência ela aparecer logo nesse domingo!
 Estou aqui há vinte e cinco anos, sem faltar nenhum dia sequer. Não posso abrir exceções. O grande dia pode ser hoje, amanhã ou no domingo da minha ausência. Não posso.

Um dos temas que mais intrigavam a população era sobre como Corcunda sobrevivia financeiramente. Se fosse um mendigo, tudo bem. Mas ele morava em um apartamento, mantinha gastos mínimos.

 Vai trabalhar e larga de ser vagabundo!  gritavam os mais agressivos.

Corcunda, na verdade, sempre dependeu de favores alheios. No início de sua saga de vigília, atrasou indefinidamente o aluguel, sem ter sido incomodado pelo dono do imóvel, que o tinha por maluco e se compadecia com sua dor. Quando a paciência do locador, por fim, terminou, Corcunda precisou ser recolhido pelo seu vizinho de porta, morando com ele por três anos. Um dia, o vizinho se casou e o espaço passou a ser pequeno demais para os três. Desde então, Corcunda mora em um outro apartamento (tudo no mesmo prédio), bancado pelo dono da sorveteria, que, como já dito, gosta muito da fama que Corcunda proporciona ao local. O empresário, inclusive, banca todas as refeições de Corcunda, em um restaurante próximo, ainda que ele insista em almoçar, no banquinho, a marmita feita com o resto da janta do dia anterior. É para não desgrudar os olhos por nenhum minuto da sorveteria, ele dizia.

Trinta anos se passaram desde o início da saga. Corcunda, agora, tinha já sessenta anos. Alguns moradores resolveram juntar dinheiro e contratar uma prostituta para simular interesse em Corcunda. Era mais uma tentativa de animá-lo a esquecer aquela obstinação. A mulher vestiu-se provocantemente e sentou-se ao lado de Corcunda, perguntando sobre a história de sua vida, como se fosse mais uma curiosa. Dada hora, ela perguntou, maliciosamente, se poderia tentar fazer com que ele se esquecesse de sua antiga amada. Corcunda respondeu que, provavelmente, sim, mas só depois que seu único amor aparecesse, ouvisse todas as suas declarações e dissesse, de forma expressa, que a história dos dois havia terminado. Mesmo com outras investidas, a prostituta falhou.

Agora, trinta e cinco anos se foram e Corcunda somava sessenta e cinco anos de idade. Não dá para dizer que ele parecia jovem e saudável, mas, se considerarmos que, com quarenta anos, ele já possuía um terrível aspecto cadavérico, pode-se afirmar que pouco mudou. O que mais se acentuou, na verdade, foi a curvatura de sua coluna.

 Meu senhor  dizia mais uma moradora da vizinhança , esqueça esse antigo amor. Não se magoe com o que vou dizer, mas e se ela já tiver morrido?
 Sinto que não morreu. Quando ela morrer, eu saberei.
 Mas, Corcunda! O senhor já tem sessenta e tantos anos, logo ela…
 Ela era mais nova do que eu. Está viva, tenho certeza.

Quando Corcunda completou setenta anos, a cidade preparou uma festa de aniversário para ele. Foi coisa grande, até o prefeito compareceu (principalmente por conhecer o fracasso dos mandatários anteriores que demonstraram pouco apreço por Corcunda). A festa, é claro, foi à noite, para Corcunda poder ir. Corcunda, definitivamente, já era um grande ícone da cidade e, agora, quase ninguém ainda tentava demovê-lo da ideia de buscar aquela antiga paixão. Sabiam que, se ele se apaixonasse por outra mulher, o mito teria sua magia quebrada. Melhor seria deixar assim. A exceção, talvez, fosse uma senhora que morava na Rua C, que, diziam, era apaixonada por Corcunda.

 Eu também já tive um grande amor na minha juventude  ela disse, na festa.
 E o que aconteceu?
 Acabou. Mas eu, ao contrário do senhor, não me prendi ao ex-namorado. Toquei minha vida, como deve ser.
 Então, a senhora falou mal: foi paixão. Não amor. Eu não desisto de minha amada.

Em outra ocasião, a senhora da Rua C cochichou no ouvido de Corcunda que o melhor remédio para um amor era outro amor. Corcunda discordou:

 O melhor remédio para um amor, minha senhora, é esse mesmo amor. O resto é anestésico.

Cinquenta anos após o início do cotidiano do banquinho na sorveteria, Corcunda já tinha oitenta de idade. Naquele ano, o inverno havia sido o mais rigoroso da história e Corcunda acabou por se resfriar na rua. A situação logo piorou e evoluiu para uma pneumonia. Ao menos, isso era o que diziam, pois ele nunca foi ao hospital, para não abandonar o posto.

 Vá à noite, então, ao médico, depois do fechamento da sorveteria!  dizia um morador.
 Em hipótese nenhuma. Vai que me internem! Posso acabar perdendo dias inteiros de vigília!

Acontece que a doença piorou e enfraqueceu terrivelmente Corcunda, que começou até mesmo a cochilar no banquinho, fato inédito até então. Teve um dia em que um transeunte se assustou ao ver Corcunda dormindo em serviço  fato inédito  e, temendo por sua morte, foi sacudi-lo.

 Corcunda? Você está bem?
 Estou. Por que não estaria?
 Você estava dormindo, então me preocupei.
 Dormindo, eu? Durante a vigília? Impressão sua! Jamais!

Daí em diante, pode-se presumir a gradativa piora de Corcunda, já velho e enfraquecido. Houve um dia em que, segundo dizem, ele não teve forças nem para voltar para casa, depois que a sorveteria fechou. Dormiu no banquinho, com um péssimo semblante. Teria ainda afirmado que, naquele momento, só tinha energia para um trajeto, casa-sorveteria ou sorveteria-casa, e, pelo bem da vigília, escolheu excluir o segundo e poupar forças para o dia seguinte.

A doença  fosse ela pneumonia ou outra coisa  perdurou por um longo tempo e a vizinhança apenas esperava pela súbita morte de Corcunda. Boatos diziam que o prefeito já havia até encomendado uma estátua do ilustre personagem. Foi quando, um dia, todos acordaram de madrugada com seus gritos. Pensaram ser dor ou algo assim, mas, além de não ser do feitio de Corcunda gritar por dor, eram berros de felicidade. Aos poucos, as pessoas saíam de suas casas e foi-se formando uma pequena multidão em direção ao número 22 da Rua A. 

 O que o Corcunda está fazendo a essa hora na sorveteria?
 São 4 da manhã!
 Aquele louco não voltou para o seu apartamento de novo!
 Ele já não volta há cinco dias!
 Que gritos são esses?

Quando todos chegaram ao local, viram Corcunda ajoelhado, em frente a uma senhora, segurando-lhe fortemente a mão. Ela estava com um aspecto terrivelmente assustado e agora parecia se perguntar por que tanta gente havia aparecido.

 Esperei tanto por você, meu amor!  gritava Corcunda para a velha.  Já posso morrer em paz, agora! Se lembra de mim? Certamente, não!

Corcunda se apresentou, disse de onde conhecia aquela senhora, contou sobre o amor que eles tiveram, citou momentos que passaram juntos, tudo para reavivar a memória daquela senhora, mas esta continuava paralisada de terror.

 Foram anos esperando por você!  gritou Corcunda.  Só queria dizer que te amo, que sempre te amei, só queria dizer o que deveria ter te dito na época, só isso, só isso, nada mais!
 Senhor...  falou, por fim, a velha, vencendo a paralisia.  Desculpe, mas o senhor está me confundindo... Nem mesmo o nome pelo qual o senhor me chamou é o meu.  Ela falava gaguejando e respirando com dificuldades.  Não sei o que dizer, mas nada disso que o senhor narrou condiz com a realidade. Desculpe. Por favor, me solte. Eu não sou a pessoa pela qual você procura.

Corcunda transpareceu o olhar mais triste de toda a história daquela pequena cidade e lágrimas vieram a seus olhos. Por fim, escorreram-lhe pelo rosto. A população ficou atônita. Durante todos esses anos, nenhum morador jamais vira Corcunda chorar. Ao contrário, ele nunca demonstrava ter perdido as esperanças de encontrar sua antiga paixão, sempre evidenciava uma entusiasmada felicidade por ter certeza de que o aguardado dia, sem nenhuma dúvida, chegaria. Apesar de seu aspecto historicamente doentio, sempre pareceu uma pessoa feliz, ainda que agarrada fragilmente a uma única razão para essa felicidade. E nunca chorou, nunca. Mas, agora, lágrimas escorriam com tanta fartura por suas bochechas que alguns moradores choraram também. A senhora, por sua vez, conseguiu se desvencilhar das mãos de Corcunda, agora já frouxas.

Por fim, os joelhos de Corcunda escorregaram e ele caiu. Caiu para nunca mais se levantar.

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