quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Compreensão

Nélio tinha a senha 545 na fila para atendimento para renegociar suas dívidas junto a um serviço de proteção ao crédito. O painel que mostrava o número a ser atendido, no momento, ainda não tinha chegado ao 500. Com seus trinta anos recém-completados, Nélio estava sentado em uma cadeira levemente desconfortável, em um grande salão com centenas de pessoas a segurar envelopes pardos e a esperar suas vezes. Pensava nas coisas triviais que todos de sua idade e perfil social costumam pensar. Ao seu lado, sentou uma mulher, mais velha, de um loiro desbotado, aspecto doentio e pesadas olheiras. Ela já veio logo puxando aqueles papos típicos de gente entediada em filas burocráticas:

 Muito poucos guichês de atendimento, né?
 É verdade…
 Cinco atendentes para esse mundaréu de gente!
 Pois é.
 E a gente com tanto o que fazer e tem que perder uma tarde inteira aqui!
 É mesmo.

A mulher suspirou, olhou sua senha, notou que era a número 585, quarenta a mais que Nélio.

 Você ainda vai sair antes de mim…
 É, estou esperando  disse ele, pateticamente. Era claro que estava esperando.
 Nem me apresentei. Me chamo Icleia.
 Nélio.
 Trabalha em quê?
 Lojas Americanas.
 Ah, qual unidade?
 Essa aqui ao lado.
 Tenho uma amiga que trabalha lá… Não sei se você a conhece…

Nessa hora, Nélio notou que, no prédio vizinho, uma mulher dançava para o que ele supunha ser seu namorado ou marido.

 Eu trabalhei por muitos anos no Ponto Frio, mas…  Icleia continuou falando, mas agora Nélio só tinha olhos para o apartamento ao lado. A mulher estava vestindo uma máscara preta carnavalesca, roupas curtas de látex, meias sete-oitavos, cinta-liga e começava a rebolar lentamente em cima da cama, de onde o homem, deitado, pachorrentamente, olhava a namorada, com olhos de profundo orgulho. Nélio, por instantes, considerou a possibilidade de ela ser a amante ou uma prostituta, mas, não se sabe por quê, ele tinha a convicção de que se tratava de um relacionamento que ele chamaria de "correto", não determinando apenas se eram casados ou namorados. Logo, porém, concluiu, pela tenra idade dos dois, que eram apenas namorados  no máximo, noivos.

A garota  agora, era óbvio: ela não tinha mais de vinte e cinco anos  acabara de tirar as meias e jogá-las em cima do parceiro. Tinha um belo corpo moreno, nádegas redondas, coxas firmes, cabelos pretos pela cintura, seios volumosos. Ao lado da cama, em um criado mudo, estava um notebook aberto, provavelmente de onde saía a música, que Nélio adoraria saber qual era. A menina rebolava e se abaixava até o travesseiro, roçando de leve sua virilha no rosto do felizardo namorado, enquanto se tremia no ritmo sensual da melodia. "Que desinibição não fecharem a cortina!", ele pensou, torcendo para que não se lembrassem de que estavam rodeados de prédios comerciais e residenciais, igualmente altos.

 E eu não sei como isso pode ter acontecido…  Icleia falou, trazendo, de súbito, Nélio de volta à realidade.
 Isso o quê? Em que número está?
 Essa desgraça! Não sei como isso pôde acontecer comigo!  Icleia não respondeu à segunda pergunta, mas Nélio viu no painel que ainda estava na senha 520.
 Uma desgraça, realmente  disse Nélio, sem ter noção de que rumo tinha tomado o monólogo de Icleia.
 Não é um horror? Ainda bem que você concorda comigo!  E Icleia desabou a chorar. Nélio ficou aturdido, até porque as pessoas começaram a olhar.
 Calma. Vou pegar um copo de água para a senhora.
 Ah, muito obrigada, mas não me chame de senhora, por favor.

Nélio levantou-se, esticou o corpo, deu uma última espiada para a janela vizinha e viu que a garota agora segurava uma corda, amarrada sob a nuca do namorado, forçando-o a se levantar sempre que ela puxasse o artefato. Nélio tropeçou num carrinho de bebê, pediu desculpas à mãe (que respondeu com um grunhido mal humorado) e caminhou até o galão de água. Encheu um copo de plástico e retornou para junto de Icleia.

 Aqui, senhora. Beba um pouco para se acalmar.
 Não me chame de senhora, já te pedi. Você é meu amigo e amigos se tratam por "você".

Nélio perguntou para si mesmo, sem verbalizar: Amigo?

 Só sei que a vida é uma roda gigante  Icleia continuou  e, se antes eu estava naquela situação que te contei, três meses depois estou aqui, sozinha e tendo que renegociar dívidas.
 Comigo aconteceu algo parecido… Desculpe, qual seu nome mesmo?
 Icleia. O que aconteceu contigo? Ah, como é bom poder ouvir histórias semelhantes às nossas!
 Ah… Não sei se é semelhante à sua…
 Mas me conta, me conta!  Agora, ela tinha parado de chorar, mas ainda tremia muito. Seus olhos doentios, pesados, vermelhos, encaravam afoitamente Nélio.
 Eu…  A garota tinha acabado de tirar o sutiã.  Eu… Eu tinha um emprego bom e fui demitido.
 Ah, não diga! Trabalhava em quê?
 Muito mais, ganhava muito mais.
 Não, eu perguntei que em você trabalhava. Bem, de toda forma, há de convir que minha situação é pior. 

A garota tinha uma pele estonteantemente bronzeada, marcada de biquíni, curvas apaixonantes, batom fortemente vermelho. Vestia apenas a calcinha, agora. 

 …e ele se casou e se mudou para Paris.
 Seu filho?
 Não! Meu filho é o que está preso!
 Seu filho está preso?! Ah, entendi… Seu filho é o que está preso; você acabou de falar. Entendi, entendi. Mas se acalme!  Icleia voltava a tremer, no mesmo instante em que a desconhecida do outro lado da rua também tremia: seu ventre, suas coxas, seu abdômen, tudo tremia no ritmo da música ("Que diabo de música será que está tocando?"). Como para adiar sua completa nudez, ela começou a despir seu namorado, com os pés, depois com as mãos, com a boca…
 Eu não sei se vou suportar, Nélio! Não vou!
 Você tem que ser forte.
 Mas como vou ser forte?  E ela voltou a chorar copiosamente, agora ainda mais alto do que da outra vez.
 Espere um pouco.
 Mas estou esperando a minha vida inteira!
 Não. Quis dizer para você esperar um pouco que já já eu pego mais água para você. Só um minutinho!  A garota simulava a retirada da calcinha, mas voltava, adiando o momento máximo.
 Não precisa, ainda tenho água aqui. Você é muito gentil.
 Cinco quatro cinco!  um funcionário gritava. Icleia cutucou o braço de Nélio:
 Hey, não é seu número?
 Err… Meu número é 545. Digo… Sim, é meu número. Pode ir na minha frente.
 Mas o meu é só o 585!
 Não faz mal. Me dá sua senha.
 Ah, muito obrigada! Você é um anjo que Deus botou na minha vida!
 Ok…

E lá foi Icleia ser atendida, enquanto Nelio ficou com a senha 585, podendo assistir, enfim sossegadamente, ao espetáculo no prédio vizinho. A garota já estava nua ("Perdi!"), seu parceiro também. Ela deslizou a boca para o meio de suas pernas e, pouco depois (para Nélio, um minuto; para a vida real, quase uma hora), o painel anunciava: 585.

Nélio renegociou um desconto de 500 reais em uma dívida que passava dos 3 mil. Satisfeito, pegou o elevador rumo ao térreo, saiu do edifício e, por alguns minutos, ficou parado na rua, em frente ao prédio onde provavelmente o espetáculo ainda se desenrolava. Quem diria que, no meio desse concreto, no centro do caos urbano, envolto ao tédio, à poluição e à desesperança, duas pessoas conseguiriam encontrar a plena felicidade? Se não fecharam a cortina, poderiam ter simplesmente se esquecido de que a cidade é habitada por milhões de indivíduos além deles ou, ao contrário, tinham conhecimento de que seriam espiados, mas queriam cuspir na cara das pessoas o quão miseráveis estas são, em contraste ao nirvana do casal.

 Nélio! Voltei para te ver!

Nélio virou o rosto em câmera lenta, deparando-se com Icleia.

 Já estava longe, mas quis voltar.  Ela sorriu com seus dentes amarelados, que combinavam tristemente com seu loiro desbotado.
 Oi…
 Quer vir à minha casa hoje?  Ela riu um riso afetado, atuando estar envergonhada, levando as mãos ao rosto em um gesto imitado.
 Como?
 Você me fez muito bem. Nunca me senti tão bem quanto contigo. Você tem toda razão: eu tenho que ser forte! Guardei essas palavras comigo.
 Que bom que fiz você se sentir melhor, mas tenho compromisso para hoje à noite.
 Então…  Ela se aproximou de Nélio.  Reprograme seu compromisso.  E ela beijou o canto do lábio dele, em um sensualismo mimetizado. Como uma adolescente ansiosa, levou a mão à virilha de Nélio, apertando o que sentiu estar ereto. Pensou ser essa rigidez por causa dela, ignorando que os pensamentos do rapaz estavam em algum lugar entre o vigésimo e o trigésimo andar do prédio em frente. Nélio, por sua vez, ao sentir o toque, deu dois rápidos passos para trás.
 Estamos no centro da cidade, Icleia! Pelo amor de Deus!
 Está com vergonha?  ela prosseguiu com suas frases copiadas, pseudo-sensuais, com seu sorriso que fracassava na tentativa de ser sexy.

Nélio nunca entendeu por que aceitou. Influência da morena dançarina, talvez. É, só pode ter sido isso. Antes do "sim" definitivo, ainda perguntou:

 E seu marido?

Ela gargalhou, como se ele tivesse feito uma piada, mas não explicou por quê. Ele logo percebeu que ela provavelmente lhe dissera qualquer coisa acerca do esposo  ou que morreu, viajou, divorciaram-se, vai saber! , enquanto ele assistia ao show em janelas vizinhas.

Nélio, portanto, foi à casa de Icleia. Não só naquele dia, mas também em outros. No terceiro encontro, pediu para que ela dançasse para ele. Ela dançou, ela fez strip, ela vestiu as roupas de látex que ele lhe comprara, com meias sete-oitavos, cinta-liga e máscara carnavalesca. Ela era desajeitada demais: nunca conseguiu dançar, jamais rebolou o tanto quanto ele imaginava em seus devaneios com a morena desconhecida, mas Icleia se esforçava. Aos poucos, ela até melhorou, com exceção do chicote, que nunca aprendeu a manusear. A distante vizinha sempre esteve presente em Icleia, arredondando suas nádegas, aumentando e firmando seus seios, embelezando seu rosto, dando vida à sua pele. Icleia, por sua vez, largou os medicamentos psiquiátricos, afastou-se da depressão, vivia feliz. Nunca se sentira tão compreendida em toda a sua vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário