terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O Corcunda

Corcunda era o apelido autoexplicativo do excêntrico morador da Rua A, número 22. A vizinhança mais antiga já conhecia de muito tempo a história daquele homem, mas os novatos sempre o tomavam por um mendigo ou vagabundo. O número 22 era, na realidade, uma pequena, mas famosa sorveteria, em frente à qual Corcunda sentava-se todos os dias em um banquinho branco por ele próprio trazido.

 Esse rapaz deve ter ficado curvado desse jeito de tanto carregar esse banquinho para cima e para baixo, todo dia  dizia um transeunte.
 É verdade  concordou o amigo.  A prefeitura deveria construir uma cadeira permanente aqui para ele.

Pois bem, era isso. A sorveteria abria às 8 da manhã e, às 7:50, já era possível avistar Corcunda carregando seu banquinho e se sentando ali em frente, na calçada, mas bem encostado à parede, sem atrapalhar o fluxo de pedestres. Às 19:10, dez minutos depois do encerramento das atividades do estabelecimento, Corcunda pegava outra vez o seu banquinho e voltava para a sua casa.

A ideia de instalar permanentemente um banco ali não fora isolada. A associação de moradores chegou mesmo a enviar uma carta à prefeitura, requisitando, formalmente, que tal medida fosse tomada, mas a subsecretaria de obras públicas respondeu, sucintamente, que negaria o pedido, a fim de evitar o incentivo à vagabundagem e à mendicância nas vias públicas da cidade, argumento que revoltou parte da população e ajudou a impedir a reeleição do prefeito.

Como se pode ver, Corcunda era um sujeito querido pela população antiga. Mas os mais novos, assim como, provavelmente, também os leitores dessa história, perguntavam-se o que diabos Corcunda fazia naquele lugar, todo dia, o dia todo. Foram poucos os curiosos que tiveram coragem suficiente para perguntar a ele próprio sobre o mistério (a maioria preferia questionar outros moradores, já conhecedores do caso). Cabe transcrever uma dessas ocasiões, para os leitores entenderem o que prendia Corcunda àquela sorveteria no número 22.

 Senhor, posso te perguntar uma coisa?  Tratava-se de uma moça de seus trinta anos, com umas bochechas redondas e cabelos castanhos claros curtinhos, seguindo o rosto, o que lhe dava um aspecto de bondosa mãe e dona de casa. Corcunda, ao contrário, tinha uns quarenta e cinco anos, rosto comprido e bem branco, queixo pontiagudo, bochechas chupadas e cabelos pretos e oleosos, embora sempre muito bem penteados. Aliás, apesar do aspecto doentio, Corcunda não pecava por falta de vaidade. Estava sempre bem arrumado, perfumado, com os sapatos lustrosos e a barba bem feita. Dizia que tinha que estar sempre preparado, pois, quando o dia, enfim, chegasse, não se anunciaria com antecedência.
 Que dia é esse pelo qual o senhor espera?  perguntou a senhora, depois de Corcunda tê-la autorizado a fazer a pergunta.
 A senhora não é a primeira pessoa curiosa a meu respeito. Acontece que há cerca de 15 anos mantenho essa rotina. Levanto-me às 6:30 da manhã, arrumo-me e venho para a sorveteria, com meu amigo que me acompanhou durante todo esse tempo (a mulher demorou a perceber que o amigo era o banco). Estou aqui todos esses anos esperando por uma pessoa. Não sei quando ela virá. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a cinco ou dez anos, mas, um dia, ela virá. 
 Que pessoa? Desculpe se estou sendo indiscreta.
 Indiscreta, a senhora está sendo, é claro. Mas não me ofende, não se preocupe. Trata-se de uma namorada que eu tive. Perdi essa pessoa sem dizer muitas coisas que deveria ter falado. Nunca disse que a amava, nunca disse que queria me casar com ela, ter filhos com ela e ela se foi. Ela se foi sem ouvir nada disso. Não de mim. Deve ter ouvido de outro ou outros, mas nunca de mim. E estou certo de que os meus sentimentos são muito mais intensos do que os desses outros rapazes que já devem ter se declarado para ela.
 Muito bonita a sua história. Mas o que não compreendo é… Por que o senhor a espera aqui, na Rua A? Ela mora por aqui?
 Não faço a mais mínima ideia de onde ela mora. Perdemos completamente o contato e esse é o problema. Ah, se eu soubesse onde ela mora, seu telefone, qualquer indício! Mas não, minha senhora, não sei. Tudo o que tenho dela é uma fotografia, para a qual olho todos os dias, a fim de não me esquecer de sua fisionomia, que era tão bonita! Na verdade, até gosto quando me perguntam sobre minha história, pois posso reviver meu amor, através de palavras. Ah, claro, não te respondi. Por que a Rua A? Ela me dizia que, independentemente do que acontecesse com ela, de onde ela morasse, da profissão que ela exercesse, ela só tinha uma certeza na vida: viria a essa sorveteria.
 Oh! Mas logo a essa sorveteria, numa cidade tão pequena? Digo… Presumo que vocês moravam na capital, não?
 De fato, morávamos. Mas veja, minha senhora, a cidade pode ser pequena, mas a sorveteria é muito famosa, já foi premiada por várias revistas de culinária e é, sem dúvida, um nome de referência não só no estado, mas em todo o país. Veja a senhora quantas pessoas vêm para essa cidade só para experimentar os sabores desse sorvete. E minha amada, como uma autêntica fã de sorvetes, sonhava em vir para cá.

Corcunda contava essa história repetidamente, tanto que se surpreendia sempre que notava que ainda havia pessoas que não a conheciam. As reações dos ouvintes, porém, nem sempre eram as mesmas da bondosa senhora. Alguns o tomavam por louco, outros até o insultavam. Em diversas vezes, diziam-no para procurar outra pessoa.

 Com tanta mulher no mundo!  exclamou uma vez um rapaz.  Por que você tem que se meter logo com uma mulher que sumiu do mapa?
 Porque é ela que eu amo, o que fazer?  respondeu, complacentemente, o Corcunda.
 Mas e se ela nunca aparecer?
 Veja: aparecer, ela vai. Pode estar com outro namorado, casada, com filhos… Pode nem me reconhecer. É possível que ela nem se lembre mais de mim. Sim, eu imagino isso tudo. Eu sei que ela talvez nem se recorde que eu já tenha passado pela vida dela. Mas aparecer, ela vai. Ela disse que viria, ela queria muito vir, portanto tenho certeza de que ela virá.
 Que seja! E se ela, assim como você disse, estiver casada?
 Direi que a amo e falarei sobre todos os anos que passei aqui, esperando por ela. Se ela não me quiser, aí, sim, esqueço-a de vez, como você me sugeriu, e, quem sabe, procuro outra mulher. Mas, até lá, isso é impossível. Preciso dizer tudo o que não disse enquanto namorávamos.

Houve uma situação em que um desses curiosos foi um pouco além no questionamento:

 Ei, me diz: o senhor está esse tempo todo sem transar?

O Corcunda não se intimidou e respondeu tranquilamente:

 Sim, esse tempo todo.

Os anos se passaram e vários falsos alarmes soaram. Por inúmeras vezes, Corcunda pensava ter avistado sua amada entrando na sorveteria, mas, assim que pegava a fotografia para comparar, percebia que não era ela. Ao dono da sorveteria, por sua vez, agradava muito o prolongamento da história, que apenas faziam crescer os boatos acerca do Corcunda e aumentava a fama do estabelecimento. Quando Corcunda completou vinte e cinco anos de espera, o dono resolveu mudar o nome da sorveteria para "O Corcunda", aumentando ainda mais o faturamento.

 Por que o senhor não entra para a nossa igreja?  sugeriu um dia uma freira.  Apenas frequente algumas missas, participe de algumas reuniões. Quem sabe, assim, o senhor não consegue preencher esse vazio da sua existência?
 Até gostaria, para ser sincero. Mas há o inconveniente de a maioria das missas ser aos domingos e a sorveteria só fechar às segundas…
 Então, visite-nos apenas em um domingo e nada mais. Pode ser o suficiente para o senhor conhecer Jesus. E um dia apenas ausente… Seria muita coincidência ela aparecer logo nesse domingo!
 Estou aqui há vinte e cinco anos, sem faltar nenhum dia sequer. Não posso abrir exceções. O grande dia pode ser hoje, amanhã ou no domingo da minha ausência. Não posso.

Um dos temas que mais intrigavam a população era sobre como Corcunda sobrevivia financeiramente. Se fosse um mendigo, tudo bem. Mas ele morava em um apartamento, mantinha gastos mínimos.

 Vai trabalhar e larga de ser vagabundo!  gritavam os mais agressivos.

Corcunda, na verdade, sempre dependeu de favores alheios. No início de sua saga de vigília, atrasou indefinidamente o aluguel, sem ter sido incomodado pelo dono do imóvel, que o tinha por maluco e se compadecia com sua dor. Quando a paciência do locador, por fim, terminou, Corcunda precisou ser recolhido pelo seu vizinho de porta, morando com ele por três anos. Um dia, o vizinho se casou e o espaço passou a ser pequeno demais para os três. Desde então, Corcunda mora em um outro apartamento (tudo no mesmo prédio), bancado pelo dono da sorveteria, que, como já dito, gosta muito da fama que Corcunda proporciona ao local. O empresário, inclusive, banca todas as refeições de Corcunda, em um restaurante próximo, ainda que ele insista em almoçar, no banquinho, a marmita feita com o resto da janta do dia anterior. É para não desgrudar os olhos por nenhum minuto da sorveteria, ele dizia.

Trinta anos se passaram desde o início da saga. Corcunda, agora, tinha já sessenta anos. Alguns moradores resolveram juntar dinheiro e contratar uma prostituta para simular interesse em Corcunda. Era mais uma tentativa de animá-lo a esquecer aquela obstinação. A mulher vestiu-se provocantemente e sentou-se ao lado de Corcunda, perguntando sobre a história de sua vida, como se fosse mais uma curiosa. Dada hora, ela perguntou, maliciosamente, se poderia tentar fazer com que ele se esquecesse de sua antiga amada. Corcunda respondeu que, provavelmente, sim, mas só depois que seu único amor aparecesse, ouvisse todas as suas declarações e dissesse, de forma expressa, que a história dos dois havia terminado. Mesmo com outras investidas, a prostituta falhou.

Agora, trinta e cinco anos se foram e Corcunda somava sessenta e cinco anos de idade. Não dá para dizer que ele parecia jovem e saudável, mas, se considerarmos que, com quarenta anos, ele já possuía um terrível aspecto cadavérico, pode-se afirmar que pouco mudou. O que mais se acentuou, na verdade, foi a curvatura de sua coluna.

 Meu senhor  dizia mais uma moradora da vizinhança , esqueça esse antigo amor. Não se magoe com o que vou dizer, mas e se ela já tiver morrido?
 Sinto que não morreu. Quando ela morrer, eu saberei.
 Mas, Corcunda! O senhor já tem sessenta e tantos anos, logo ela…
 Ela era mais nova do que eu. Está viva, tenho certeza.

Quando Corcunda completou setenta anos, a cidade preparou uma festa de aniversário para ele. Foi coisa grande, até o prefeito compareceu (principalmente por conhecer o fracasso dos mandatários anteriores que demonstraram pouco apreço por Corcunda). A festa, é claro, foi à noite, para Corcunda poder ir. Corcunda, definitivamente, já era um grande ícone da cidade e, agora, quase ninguém ainda tentava demovê-lo da ideia de buscar aquela antiga paixão. Sabiam que, se ele se apaixonasse por outra mulher, o mito teria sua magia quebrada. Melhor seria deixar assim. A exceção, talvez, fosse uma senhora que morava na Rua C, que, diziam, era apaixonada por Corcunda.

 Eu também já tive um grande amor na minha juventude  ela disse, na festa.
 E o que aconteceu?
 Acabou. Mas eu, ao contrário do senhor, não me prendi ao ex-namorado. Toquei minha vida, como deve ser.
 Então, a senhora falou mal: foi paixão. Não amor. Eu não desisto de minha amada.

Em outra ocasião, a senhora da Rua C cochichou no ouvido de Corcunda que o melhor remédio para um amor era outro amor. Corcunda discordou:

 O melhor remédio para um amor, minha senhora, é esse mesmo amor. O resto é anestésico.

Cinquenta anos após o início do cotidiano do banquinho na sorveteria, Corcunda já tinha oitenta de idade. Naquele ano, o inverno havia sido o mais rigoroso da história e Corcunda acabou por se resfriar na rua. A situação logo piorou e evoluiu para uma pneumonia. Ao menos, isso era o que diziam, pois ele nunca foi ao hospital, para não abandonar o posto.

 Vá à noite, então, ao médico, depois do fechamento da sorveteria!  dizia um morador.
 Em hipótese nenhuma. Vai que me internem! Posso acabar perdendo dias inteiros de vigília!

Acontece que a doença piorou e enfraqueceu terrivelmente Corcunda, que começou até mesmo a cochilar no banquinho, fato inédito até então. Teve um dia em que um transeunte se assustou ao ver Corcunda dormindo em serviço  fato inédito  e, temendo por sua morte, foi sacudi-lo.

 Corcunda? Você está bem?
 Estou. Por que não estaria?
 Você estava dormindo, então me preocupei.
 Dormindo, eu? Durante a vigília? Impressão sua! Jamais!

Daí em diante, pode-se presumir a gradativa piora de Corcunda, já velho e enfraquecido. Houve um dia em que, segundo dizem, ele não teve forças nem para voltar para casa, depois que a sorveteria fechou. Dormiu no banquinho, com um péssimo semblante. Teria ainda afirmado que, naquele momento, só tinha energia para um trajeto, casa-sorveteria ou sorveteria-casa, e, pelo bem da vigília, escolheu excluir o segundo e poupar forças para o dia seguinte.

A doença  fosse ela pneumonia ou outra coisa  perdurou por um longo tempo e a vizinhança apenas esperava pela súbita morte de Corcunda. Boatos diziam que o prefeito já havia até encomendado uma estátua do ilustre personagem. Foi quando, um dia, todos acordaram de madrugada com seus gritos. Pensaram ser dor ou algo assim, mas, além de não ser do feitio de Corcunda gritar por dor, eram berros de felicidade. Aos poucos, as pessoas saíam de suas casas e foi-se formando uma pequena multidão em direção ao número 22 da Rua A. 

 O que o Corcunda está fazendo a essa hora na sorveteria?
 São 4 da manhã!
 Aquele louco não voltou para o seu apartamento de novo!
 Ele já não volta há cinco dias!
 Que gritos são esses?

Quando todos chegaram ao local, viram Corcunda ajoelhado, em frente a uma senhora, segurando-lhe fortemente a mão. Ela estava com um aspecto terrivelmente assustado e agora parecia se perguntar por que tanta gente havia aparecido.

 Esperei tanto por você, meu amor!  gritava Corcunda para a velha.  Já posso morrer em paz, agora! Se lembra de mim? Certamente, não!

Corcunda se apresentou, disse de onde conhecia aquela senhora, contou sobre o amor que eles tiveram, citou momentos que passaram juntos, tudo para reavivar a memória daquela senhora, mas esta continuava paralisada de terror.

 Foram anos esperando por você!  gritou Corcunda.  Só queria dizer que te amo, que sempre te amei, só queria dizer o que deveria ter te dito na época, só isso, só isso, nada mais!
 Senhor...  falou, por fim, a velha, vencendo a paralisia.  Desculpe, mas o senhor está me confundindo... Nem mesmo o nome pelo qual o senhor me chamou é o meu.  Ela falava gaguejando e respirando com dificuldades.  Não sei o que dizer, mas nada disso que o senhor narrou condiz com a realidade. Desculpe. Por favor, me solte. Eu não sou a pessoa pela qual você procura.

Corcunda transpareceu o olhar mais triste de toda a história daquela pequena cidade e lágrimas vieram a seus olhos. Por fim, escorreram-lhe pelo rosto. A população ficou atônita. Durante todos esses anos, nenhum morador jamais vira Corcunda chorar. Ao contrário, ele nunca demonstrava ter perdido as esperanças de encontrar sua antiga paixão, sempre evidenciava uma entusiasmada felicidade por ter certeza de que o aguardado dia, sem nenhuma dúvida, chegaria. Apesar de seu aspecto historicamente doentio, sempre pareceu uma pessoa feliz, ainda que agarrada fragilmente a uma única razão para essa felicidade. E nunca chorou, nunca. Mas, agora, lágrimas escorriam com tanta fartura por suas bochechas que alguns moradores choraram também. A senhora, por sua vez, conseguiu se desvencilhar das mãos de Corcunda, agora já frouxas.

Por fim, os joelhos de Corcunda escorregaram e ele caiu. Caiu para nunca mais se levantar.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Compreensão

Nélio tinha a senha 545 na fila para atendimento para renegociar suas dívidas junto a um serviço de proteção ao crédito. O painel que mostrava o número a ser atendido, no momento, ainda não tinha chegado ao 500. Com seus trinta anos recém-completados, Nélio estava sentado em uma cadeira levemente desconfortável, em um grande salão com centenas de pessoas a segurar envelopes pardos e a esperar suas vezes. Pensava nas coisas triviais que todos de sua idade e perfil social costumam pensar. Ao seu lado, sentou uma mulher, mais velha, de um loiro desbotado, aspecto doentio e pesadas olheiras. Ela já veio logo puxando aqueles papos típicos de gente entediada em filas burocráticas:

 Muito poucos guichês de atendimento, né?
 É verdade…
 Cinco atendentes para esse mundaréu de gente!
 Pois é.
 E a gente com tanto o que fazer e tem que perder uma tarde inteira aqui!
 É mesmo.

A mulher suspirou, olhou sua senha, notou que era a número 585, quarenta a mais que Nélio.

 Você ainda vai sair antes de mim…
 É, estou esperando  disse ele, pateticamente. Era claro que estava esperando.
 Nem me apresentei. Me chamo Icleia.
 Nélio.
 Trabalha em quê?
 Lojas Americanas.
 Ah, qual unidade?
 Essa aqui ao lado.
 Tenho uma amiga que trabalha lá… Não sei se você a conhece…

Nessa hora, Nélio notou que, no prédio vizinho, uma mulher dançava para o que ele supunha ser seu namorado ou marido.

 Eu trabalhei por muitos anos no Ponto Frio, mas…  Icleia continuou falando, mas agora Nélio só tinha olhos para o apartamento ao lado. A mulher estava vestindo uma máscara preta carnavalesca, roupas curtas de látex, meias sete-oitavos, cinta-liga e começava a rebolar lentamente em cima da cama, de onde o homem, deitado, pachorrentamente, olhava a namorada, com olhos de profundo orgulho. Nélio, por instantes, considerou a possibilidade de ela ser a amante ou uma prostituta, mas, não se sabe por quê, ele tinha a convicção de que se tratava de um relacionamento que ele chamaria de "correto", não determinando apenas se eram casados ou namorados. Logo, porém, concluiu, pela tenra idade dos dois, que eram apenas namorados  no máximo, noivos.

A garota  agora, era óbvio: ela não tinha mais de vinte e cinco anos  acabara de tirar as meias e jogá-las em cima do parceiro. Tinha um belo corpo moreno, nádegas redondas, coxas firmes, cabelos pretos pela cintura, seios volumosos. Ao lado da cama, em um criado mudo, estava um notebook aberto, provavelmente de onde saía a música, que Nélio adoraria saber qual era. A menina rebolava e se abaixava até o travesseiro, roçando de leve sua virilha no rosto do felizardo namorado, enquanto se tremia no ritmo sensual da melodia. "Que desinibição não fecharem a cortina!", ele pensou, torcendo para que não se lembrassem de que estavam rodeados de prédios comerciais e residenciais, igualmente altos.

 E eu não sei como isso pode ter acontecido…  Icleia falou, trazendo, de súbito, Nélio de volta à realidade.
 Isso o quê? Em que número está?
 Essa desgraça! Não sei como isso pôde acontecer comigo!  Icleia não respondeu à segunda pergunta, mas Nélio viu no painel que ainda estava na senha 520.
 Uma desgraça, realmente  disse Nélio, sem ter noção de que rumo tinha tomado o monólogo de Icleia.
 Não é um horror? Ainda bem que você concorda comigo!  E Icleia desabou a chorar. Nélio ficou aturdido, até porque as pessoas começaram a olhar.
 Calma. Vou pegar um copo de água para a senhora.
 Ah, muito obrigada, mas não me chame de senhora, por favor.

Nélio levantou-se, esticou o corpo, deu uma última espiada para a janela vizinha e viu que a garota agora segurava uma corda, amarrada sob a nuca do namorado, forçando-o a se levantar sempre que ela puxasse o artefato. Nélio tropeçou num carrinho de bebê, pediu desculpas à mãe (que respondeu com um grunhido mal humorado) e caminhou até o galão de água. Encheu um copo de plástico e retornou para junto de Icleia.

 Aqui, senhora. Beba um pouco para se acalmar.
 Não me chame de senhora, já te pedi. Você é meu amigo e amigos se tratam por "você".

Nélio perguntou para si mesmo, sem verbalizar: Amigo?

 Só sei que a vida é uma roda gigante  Icleia continuou  e, se antes eu estava naquela situação que te contei, três meses depois estou aqui, sozinha e tendo que renegociar dívidas.
 Comigo aconteceu algo parecido… Desculpe, qual seu nome mesmo?
 Icleia. O que aconteceu contigo? Ah, como é bom poder ouvir histórias semelhantes às nossas!
 Ah… Não sei se é semelhante à sua…
 Mas me conta, me conta!  Agora, ela tinha parado de chorar, mas ainda tremia muito. Seus olhos doentios, pesados, vermelhos, encaravam afoitamente Nélio.
 Eu…  A garota tinha acabado de tirar o sutiã.  Eu… Eu tinha um emprego bom e fui demitido.
 Ah, não diga! Trabalhava em quê?
 Muito mais, ganhava muito mais.
 Não, eu perguntei que em você trabalhava. Bem, de toda forma, há de convir que minha situação é pior. 

A garota tinha uma pele estonteantemente bronzeada, marcada de biquíni, curvas apaixonantes, batom fortemente vermelho. Vestia apenas a calcinha, agora. 

 …e ele se casou e se mudou para Paris.
 Seu filho?
 Não! Meu filho é o que está preso!
 Seu filho está preso?! Ah, entendi… Seu filho é o que está preso; você acabou de falar. Entendi, entendi. Mas se acalme!  Icleia voltava a tremer, no mesmo instante em que a desconhecida do outro lado da rua também tremia: seu ventre, suas coxas, seu abdômen, tudo tremia no ritmo da música ("Que diabo de música será que está tocando?"). Como para adiar sua completa nudez, ela começou a despir seu namorado, com os pés, depois com as mãos, com a boca…
 Eu não sei se vou suportar, Nélio! Não vou!
 Você tem que ser forte.
 Mas como vou ser forte?  E ela voltou a chorar copiosamente, agora ainda mais alto do que da outra vez.
 Espere um pouco.
 Mas estou esperando a minha vida inteira!
 Não. Quis dizer para você esperar um pouco que já já eu pego mais água para você. Só um minutinho!  A garota simulava a retirada da calcinha, mas voltava, adiando o momento máximo.
 Não precisa, ainda tenho água aqui. Você é muito gentil.
 Cinco quatro cinco!  um funcionário gritava. Icleia cutucou o braço de Nélio:
 Hey, não é seu número?
 Err… Meu número é 545. Digo… Sim, é meu número. Pode ir na minha frente.
 Mas o meu é só o 585!
 Não faz mal. Me dá sua senha.
 Ah, muito obrigada! Você é um anjo que Deus botou na minha vida!
 Ok…

E lá foi Icleia ser atendida, enquanto Nelio ficou com a senha 585, podendo assistir, enfim sossegadamente, ao espetáculo no prédio vizinho. A garota já estava nua ("Perdi!"), seu parceiro também. Ela deslizou a boca para o meio de suas pernas e, pouco depois (para Nélio, um minuto; para a vida real, quase uma hora), o painel anunciava: 585.

Nélio renegociou um desconto de 500 reais em uma dívida que passava dos 3 mil. Satisfeito, pegou o elevador rumo ao térreo, saiu do edifício e, por alguns minutos, ficou parado na rua, em frente ao prédio onde provavelmente o espetáculo ainda se desenrolava. Quem diria que, no meio desse concreto, no centro do caos urbano, envolto ao tédio, à poluição e à desesperança, duas pessoas conseguiriam encontrar a plena felicidade? Se não fecharam a cortina, poderiam ter simplesmente se esquecido de que a cidade é habitada por milhões de indivíduos além deles ou, ao contrário, tinham conhecimento de que seriam espiados, mas queriam cuspir na cara das pessoas o quão miseráveis estas são, em contraste ao nirvana do casal.

 Nélio! Voltei para te ver!

Nélio virou o rosto em câmera lenta, deparando-se com Icleia.

 Já estava longe, mas quis voltar.  Ela sorriu com seus dentes amarelados, que combinavam tristemente com seu loiro desbotado.
 Oi…
 Quer vir à minha casa hoje?  Ela riu um riso afetado, atuando estar envergonhada, levando as mãos ao rosto em um gesto imitado.
 Como?
 Você me fez muito bem. Nunca me senti tão bem quanto contigo. Você tem toda razão: eu tenho que ser forte! Guardei essas palavras comigo.
 Que bom que fiz você se sentir melhor, mas tenho compromisso para hoje à noite.
 Então…  Ela se aproximou de Nélio.  Reprograme seu compromisso.  E ela beijou o canto do lábio dele, em um sensualismo mimetizado. Como uma adolescente ansiosa, levou a mão à virilha de Nélio, apertando o que sentiu estar ereto. Pensou ser essa rigidez por causa dela, ignorando que os pensamentos do rapaz estavam em algum lugar entre o vigésimo e o trigésimo andar do prédio em frente. Nélio, por sua vez, ao sentir o toque, deu dois rápidos passos para trás.
 Estamos no centro da cidade, Icleia! Pelo amor de Deus!
 Está com vergonha?  ela prosseguiu com suas frases copiadas, pseudo-sensuais, com seu sorriso que fracassava na tentativa de ser sexy.

Nélio nunca entendeu por que aceitou. Influência da morena dançarina, talvez. É, só pode ter sido isso. Antes do "sim" definitivo, ainda perguntou:

 E seu marido?

Ela gargalhou, como se ele tivesse feito uma piada, mas não explicou por quê. Ele logo percebeu que ela provavelmente lhe dissera qualquer coisa acerca do esposo  ou que morreu, viajou, divorciaram-se, vai saber! , enquanto ele assistia ao show em janelas vizinhas.

Nélio, portanto, foi à casa de Icleia. Não só naquele dia, mas também em outros. No terceiro encontro, pediu para que ela dançasse para ele. Ela dançou, ela fez strip, ela vestiu as roupas de látex que ele lhe comprara, com meias sete-oitavos, cinta-liga e máscara carnavalesca. Ela era desajeitada demais: nunca conseguiu dançar, jamais rebolou o tanto quanto ele imaginava em seus devaneios com a morena desconhecida, mas Icleia se esforçava. Aos poucos, ela até melhorou, com exceção do chicote, que nunca aprendeu a manusear. A distante vizinha sempre esteve presente em Icleia, arredondando suas nádegas, aumentando e firmando seus seios, embelezando seu rosto, dando vida à sua pele. Icleia, por sua vez, largou os medicamentos psiquiátricos, afastou-se da depressão, vivia feliz. Nunca se sentira tão compreendida em toda a sua vida.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O fim do mundo

Eram sete da noite de uma sexta-feira. Os amigos afrouxavam as gravatas e conversavam animadamente em um dos muitos bares repletos de clientes nas redondezas da Cinelândia. Um misto de estresse do acúmulo de serviço dos cinco dias da semana com alívio pelos dois dias de folga que estavam por vir dava o tom do bate-papo.

– O Vagner é foda – disse um deles, referindo-se em altos brados ao supervisor, de forma, aliás, bastante despudorada, uma vez que o tal do Vagner também frequentava aqueles bares. – O filho da puta chega faltando quinze minutos para o fim do expediente e quer tudo para ontem!

– O Vagner é um filho da puta, mas é justo – respondeu outro colega. – Se você trabalha, você consegue subir naquela porra. Agora, e o Breno? – Breno era o outro supervisor. – Chega todo amigão, com toda aquela simpatia do mundo, mas, na hora que o fogo pega, não defende nenhum funcionário dele. É o único supervisor que eu vejo que bota para foder na própria equipe!

– O Breno é um covarde; quanto a isso, você tem razão. Mas sabe o quê que é o negócio? A merda vem de longe, cara! A merda vem desde o RH, que coloca gente incompetente para dentro, até o zezinho da xerox, que leva uma hora para tirar cópia de um processo de meia dúzia de folhas!

– Epa, epa, epa! – manifestou-se um terceiro colega, que trabalhava no RH. – A merda vem do RH é o cacete! Você já viu como o processo seletivo é feito? Você já viu as ferramentas de que dispomos? A gente tem que preencher três tabelas ridículas para cada candidato e escolher totalmente às cegas o melhor! E você sabe que a palavra final é do Gerson. Nós, no fundo, não escolhemos nada!

– Que Gerson?

– O diretor do RH, né? Está há dez anos na empresa e não sabe quem é o Gerson!

– O que eu sei é que o Vagner é um filho da puta... – disse o primeiro, retomando o assunto inicial. – Como pode, cara? Só promoveu a Luana, da equipe inteirinha!

– E, mesmo assim, porque está comendo...

– Está comendo?

– Ah, no mínimo...

– E eu vou te dizer: somos nós que seguramos a contabilidade daquela bosta. Porque, se fôssemos depender do Departamento de Pessoal, ainda estaríamos naquele moquifo no Chile! – O “Chile” é a Avenida República do Chile, antiga sede da empresa. Tratava-se, de fato, de um espaço bem menor.

– Do Departamento de Pessoal, do Pagamento, da Divisão de Carreiras... É a gente que segura aquela bagaça mesmo!

– E reconhecimento zero!

– Se Deus quiser, no próximo ano vou ser nomeado no ministério e saio dessa vida. – Aqui, um dos colegas referia-se a um concurso público em que tinha sido aprovado.

– Sorte a sua! Eu vou morrer nessa bosta!

– Comodismo... Vai ter um AVC aí e não vai fazer nada para sair dessa merda. Vai ficar sendo cuspido pelo Vagner todo dia!

– Garçom, caralho! Faz meia hora já que estou pedindo outra cerveja!

– Não fala assim com o garçom!

– Ah, vai à merda!

– Depois, reclama quando é humilhado pelo Breno e pelo Vagner... Macaco nunca olha seu rabo, né não?

– Mas eu não presto um serviço de merda, que nem esse bar! Esse e todos os outros, né? Nem adianta procurar outro. O serviço no Rio de Janeiro está cada dia pior!

– No Brasil todo... Fui a Floripa nas férias e está a mesma merda.

– Também, né, podem cagar nos nossos pratos que a gente paga os 10%... Povo acomodado!

– Queria mesmo era sair do Brasil, se você quer saber.

– Ah, se Deus permitisse!

– Já chega! – veio a voz de um velho mal encarado na mesa ao lado. – Já é a segunda vez que escuto meu nome nessa conversa horrorosa de vocês!

– Que nome, vovô?

– Deus! Eu sou Deus! Puta que pariu, vocês me fazem até quebrar o sigilo, mas não aguento mais ver meu nome na boca de qualquer um! Vocês se acham muito importantes, né? Muito importantes! E que chatice! Como são chatos! Não tolero que minhas próprias criações tenham se tornado aberrações do tédio!

E essa foi a história de como se deu o fim do mundo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Poesia ridícula

Escrever poesia é um exercício
contra o incansável vício
de lutar em combate ao ridículo.
É como fazer teatro:
"Respire: um, dois, três, quatro".
O que pode ser mais vexatório
que o resultado final do somatório
de arte e revelação da subjetividade?
Escrever já é ridículo -
seja lá o que for -;
falar de umbigo, alegria e amor,
falar de amigo, nostalgia e dor,
mas poesia é algo ainda mais ridículo,
por ser a expressão exata do ventrículo
que leva todas as emoções ao coração -
e cá estou eu falando de coração:
o que há pior que isso?
Se a metáfora é gasta, é clichê;
o sentimento sempre é demodê.
E se o poeta ainda ousa recitar,
aí o ridículo já vira absurdo
e eu, se sou plateia, aturdo
meu ouvido que, infelizmente, não é surdo
e tem que ouvir as baboseiras de nem sei quem.
Poesia é uma coisa ridícula:
pior que uma carta de amor!
Que se importem os pobres bobalhões,
que não têm suficientes colhões
para mandar tudo isso ao inferno!