sábado, 1 de novembro de 2014

O conto do esquecimento do riso

Esse blog sofreu um baque de realidade, com meu diário sobre a Coreia do Norte. Para retomar o seguro campo da literatura, vou contar a história do garçom Alencar. Quando foi chamado na sala do gerente do restaurante, ele pensava que lhe seria oferecida uma promoção. Trabalhava naquele estabelecimento já havia algum tempo e nenhuma razão lhe fazia crer que seria repreendido pelo chefe. Entretanto, ao entrar, notou um mau semblante nos olhos do empregador.

 Bom dia, senhor.
 Bom dia, Alencar. Por favor, sente-se.

Hesitante, Alencar se sentou numa cadeira desconfortável, embora bonita, em frente ao gerente, dele separado por uma mesa entulhada de planilhas e papéis.

 Alencar, te chamo aqui porque tenho recebido algumas reclamações quanto ao seu tratamento para com os clientes.

Alencar olhou o outro como se não acreditasse no que estava ouvindo, arregalando levemente os olhos.

 Você sabe, Alencar, que você é um dos funcionários mais pontuais e assíduos desse estabelecimento, mas esses não são os únicos fatores envolvidos numa avaliação. É, portanto, com pesar que te comunico que não poderemos mais contar com os seus serviços.

Alencar sentiu um forte bater do coração e tentou, com a voz desequilibrada, responder:

 Mas, senhor... Deve haver algum engano. Sempre trato os clientes com a máxima cordialidade, com o maior respeito possível...
 Não são as informações que tenho, infelizmente.
 Senhor, insisto que deve haver algum engano!
 Alencar, veja bem: reclamações isoladas, todos os outros funcionários têm. O problema é que, com relação a você, o número de queixas foi muito alto. Foram vários os clientes que reclamaram da mesma coisa.
 Mas como isso é possível? Estou sempre a sorrir para os fregueses!
 Ah, sim, isso eles disseram. Todos falaram que você já chega em suas mesas sorrindo, antes mesmo de perguntar qual pedido eles desejam.
 Pois e então?
 Como “e então”? O problema é justamente esse, Alencar. Por que razão vocês lhes chega sorrindo?
 Para ser simpático, para ser agradável! Quem não gosta de sorrisos?
 Quem gosta deles?

Alencar abriu a boca, maquinalmente, para responder ao gerente, mas não pôde. Não sabia o que dizer. Conseguiu apenas balbuciar:

 Que pessoas são essas que não gostam de sorrisos?
 Alencar, meu caro, essas pessoas não desgostam de sorrisos. O que lhes aborrece são os sorrisos falsos. Por que você chega à mesa sorrindo? Para ser agradável, você responde. Mas isso em nada é agradável. O sorriso pelo sorriso, sem vontade de sorrir, não apenas é desagradável como é ofensivo. Se você visse graça em alguma coisa, se algo lhe despertasse o riso ou se – essas ocasiões são raras, mas existem – você estivesse tão feliz que não conseguisse conter o riso, tudo bem, esse sorriso é aceitável e, mais do que isso, é elogiável. É contagiante, até! Mas sabemos que não é o caso. Você não chega numa mesa sorrindo porque está imensamente feliz – ao menos, não todos os dias. E tampouco há coisas engraçadas que te façam rir tanto. Se, ao menos, você olhasse para o cliente e risse da orelha de abano, do nariz avantajado ou da cara feia daquele que está sentado, da mulher horrorosa que acompanha o homem ou vice-versa, estou certo de que ninguém se sentiria insultado. Você pode rir diretamente de alguém, mas rir com gosto, com sinceridade. Já esse sorriso forçado, quase condescendente, irrita e ofende. É como abrir uma revista e ver falsos sorrisos estampados em modelos, pessoas em festas, gente que está apenas posando para aquele clique. Por que elas riem? Todos sabemos que, logo após o flash da câmera estourar, o sorriso desaparece. Da mesma forma, qualquer cliente tem a certeza de que, assim que você dá as costas com os pedidos anotados, seu sorriso também some. Então, por que rir? Para ser agradável? Não, você ri para forçar uma simpatia que não é natural. Você ofende os clientes.

Alencar ficou estupefato com aquele longo discurso. Levantou-se da cadeira e emitiu um breve sorriso para o chefe.

 Não ria, Alencar! – esbravejou o gerente. – Você não ouviu nada do que eu falei? Você não está feliz. Ao contrário, você está triste porque acabou de perder o emprego! Você não está vendo nada engraçado. Então, para que rir?
 Para mostrar que não estou chateado com o senhor...
 Alencar, você vai mostrar melhor isso se seguir meus conselhos. Em futuros empregos e na vida. Não ria sem vontade, Alencar. O riso não serve para mostrar nada. O riso não é o meio, ele é o fim.

Encucado com essa última frase, Alencar foi-se embora, sem mais proferir nenhuma palavra nem olhar para o gerente. Despediu-se rapidamente dos colegas com quem encontrou pelo caminho e seguiu para casa. Mas não iria diretamente. Não tinha coragem de contar a notícia para a esposa. Preferiu perambular por algum tempo pela cidade.

Logo de cara, viu um palhaço na praça do centro do bairro, fazendo malabarismos e, posteriormente, passando um chapéu para recolher dinheiro. Teve vontade de pagar algo àquele pobre infeliz, mas, como estava agora desempregado, preferiu não. Logo após a primeira rodada de malabarismos e a passada de chapéu, o palhaço voltou a fazer novas graças. Chamou uma menininha que estava por perto para o meio da praça e ficou a fazer caretas para ela. A cada reação da criança, a plateia em volta gargalhava. Alencar olhou estupefato para aquilo. No fundo, não havia graça nenhuma. Que havia de risível numa criança que se espanta com as caretas de um palhaço? Em outros tempos, riria, para mostrar ao palhaço que entendia o trabalho dele e que sabia que aquilo, supostamente, era ou deveria ser engraçado. Mas não era. E não podia tratar o riso como um meio. O riso é o fim.

Lutando contra o tumulto, virou-se de costas para o espetáculo circense e caminhou um pouco mais. Por onde passava, via risos, mas sabia que ninguém estava feliz de estar lá, no sol do meio da tarde, em um dos bairros mais agitados, quentes e poluídos da cidade. Então, por que riam? Numa loja, a imagem de uma modelo sorridente anunciava a marca de um sapato; na porta da loja em frente, um vendedor sorria e chamava os clientes para adentrarem; na outra calçada, uma mulher, com uniforme de um banco, ria e perguntava quem desejava contrair um empréstimo pelos menores juros do mercado; o camelô ria; o vendedor de bala gritava “dez por um real”, também com um sorriso, e, por fim, o caso mais trágico: uma senhora havia posto algumas mercadorias de artesanato numa toalha e as expunha no chão da rua, que, por ser muito estreita, era parcialmente bloqueada pelos produtos da vendedora. Com isso, transeuntes mais apressados cortavam as pessoas à sua frente passando por cima da toalha e, ocasionalmente, chutando alguma mercadoria. Mas Alencar não podia crer: a vendedora ria!

Nem todos esses risos eram tão explícitos – tampouco contínuos –, mas eram suficientemente denunciadores da farsa que era tudo aquilo. Não havia por que rirem nem por um segundo, no meio daquele caos devastador. Alencar se sentia exatamente como os fregueses que o denunciaram: ofendido com sorrisos tão forçados, tão falsos, os quais ele nunca havia reparado. Mas nem todos sorriam: as crianças não riam, os mendigos não riam, os senhores aposentados não riam. Só não sorriam aqueles que não precisavam, a princípio, agradar a ninguém. Por outro lado, quase todos os que riam trabalhavam com o comércio.

O que eram esses risos, então, senão frutos da necessidade de lucro? Alencar não podia conceber que o sorriso fosse uma mera invenção capitalista e, mais atordoado do que nunca, resolveu, enfim, voltar para casa. No caminho, seu celular tocou e, no outro lado da linha, estava uma atendente de telemarketing, anunciando algum produto telefônico. Ele não podia vê-la, mas sentiu o sorriso falso pelo mero tom de sua voz. Seu simples “bom dia” denunciava um sorriso inconsistente e forçado. Alencar não apenas não comprou o produto como desligou o celular atonitamente.

Chegou em casa e seu filho, de uns sete anos de idade, veio recebê-lo. O garoto sorria e abraçava o pai, mas Alencar, que sempre esteve certo de que o filho ficava efetivamente feliz quando ele voltava do trabalho, agora já não tinha mais certeza. Até que ponto o menino tinha sido treinado para isso? Logo atrás, veio a esposa, com o mesmo sorriso, o mesmo abraço, o mesmo gesto. Alencar pensou ter desvendado o segredo: a mãe treinara o garoto para ser mais um portador do falso sorriso. No caso deles, era tudo pior, pois não trabalhavam com comércio, não visavam ao lucro, mas usavam o falso sorriso como meio para demonstrarem um afeto inexistente. Não duvidava do amor dos dois nem nada disso. Sabia que ambos o amavam, mas quem fica tão feliz – a ponto de rir! – quando o pai ou o esposo volta do trabalho? Um dia ou outro, vá lá – mas sempre? O sorriso havia sido transformado num triste ritual familiar do qual o próprio Alencar fizera parte por anos. Mas, dessa vez, não. Dessa vez, não retribuiu o gesto. Quando os dois indagaram por que Alencar respondia com taciturnidade àqueles sorrisos, ele usou a demissão do emprego como desculpa para a sua infelicidade e, portanto, para a ausência de riso. Mas não estava exatamente infeliz. Estava descontente, é claro, mas o sentimento prevalecente não era esse, mas, sim, o de descoberta. É verdade que esta revelação ocorreu de forma dolorosa, mas, pelo menos, agora, Alencar é consciente da farsa do sorriso. E repetia para si mesmo que o riso não deve ser um meio, mas o fim.
       
Alencar nunca mais sorriu de novo.

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