quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Brincadeira de mau gosto

– Que brincadeira de mau gosto! – foi o que Marcio ouviu de seu amigo, ao contar-lhe a peça que planejava pregar em sua esposa naquela noite. Como ele saía mais cedo do que ela do trabalho e, por isso, chegava antes em casa, pretendia sujar-se de ketchup e esperá-la deitado no chão, fingindo-se de morto e ensanguentado.

– É uma brincadeira de mau gosto! – repetiu o amigo. – Imagina o susto que ela vai tomar! Pode até pôr em risco a saúde da coitada!

– Mas é rápido! – respondeu Marcio. – Logo depois do susto, eu me levanto e revelo a pegadinha. Mas o mais importante é que ela pense que eu não estou apenas desacordado, mas efetivamente morto.

– Que estupidez! E como pretende isso?

– Ah, tenho praticado apneia voluntária em minhas aulas de mergulho. Trata-se, você sabe, da técnica de prender a respiração. Já consigo ficar dois minutos sem respirar e acho que ainda posso evoluir. Mas dois minutos já me bastam. São suficientes para o susto que ela vai tomar. Depois, me levanto, abraço ela e vamos rir juntos da situação.

Enquanto Marcio ria, imaginando a cena, seu amigo balançava a cabeça, em gesto de reprovação.

A noite chegou e Marcio já estava em casa, pintando-se de ketchup e estirando-se no chão, bem perto da porta da entrada, à espera de sua esposa, que deveria chegar dentro de dez minutos, aproximadamente. Quando ouviu, por fim, o portão da garagem de casa se abrir, fechou os olhos e, quando o carro da mulher estacionou, tomou fôlego e prendeu a respiração. Nenhum músculo de seu abdômen se movia. Estava completamente imóvel.

Ao abrir a porta de casa, sua esposa não conteve um grito agudo e prolongado. Marcio sentiu vontade de rir, mas se dominou. Continuava perfeitamente inerte.

– Meu Deus! Meu Deus! – exclamou a mulher, histericamente.

Marcio, somente nesse momento, temeu que estivesse passando dos limites naquela brincadeira e lembrou-se das palavras apreensivas de seu amigo. Mas, como já havia iniciado a anedota, pretendia continuar mais um pouco com a farsa. Só mais um pouco. Em alguns segundos, revelaria a simulação, embora ainda aguentasse ficar sem respirar por muito mais tempo.

Marcio, então, ouviu a mulher mexer apressadamente em sua bolsa, deixando cair vários objetos, até alcançar o celular.

– Alô! Alô! – gritou ela. – Amor, amor, você não vai acreditar! O Marcio morreu! É, é, é, amor, é isso mesmo o que você ouviu! O Marcio morreu! Acabou o nosso esconderijo! Eu nem estou acreditando! Vem logo para cá para a gente comemorar!

E Marcio permaneceu imóvel.

Um comentário:

  1. Bom dia Marcelo, ótimo conto! Mantém a atenção do leitor, desde o início até o final que surpreende. Agradecemos, por compartilhar. Abraços, Vanice.

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