quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Até o dia em que o cão morreu

“Até o dia em que o cão morreu” não está entre os meus livros preferidos, mas está entre aqueles com que mais me identifiquei. Com raras exceções, seu narrador poderia ter sido eu. Qual o sentimento de quando se lê algo tão próximo do que você próprio é?


Você já deve ter passado por isso: cursou uma faculdade, se formou, saiu ou quis sair de casa, morar sozinho, mas, para isso, deveria prosseguir com o fluxo natural das coisas, isto é: trabalhar. Você tinha conhecimentos e habilidades para conseguir um trabalho, mas você não queria. Trabalhar é sempre um esforço que se faz para os outros, raramente é por uma causa que te diga respeito. Você só escolhe trabalhar porque isso é pré-requisito para algo que realmente te importa: morar sozinho, sua liberdade.

Você já deve ter ficado ansioso, agitado, ausente da sua zona de conforto, porque algo te retirou daquele cotidiano em que nada acontecia, da mesmice de todos os dias. Mas essa agitação, ao contrário do que pode acontecer com muitas pessoas, não te faz feliz. O que você mais queria era sua apatia de volta. Do mesmo modo, você já deve ter gostado muito de uma pessoa, mas não queria oficializar nenhum relacionamento, justamente porque esse compromisso seria um eterno adeus àquele estado apático que você tanto amava. Um namoro seria ceder a uma infinita ansiedade, pela qual você não estava preparado e que, definitivamente, você não desejava.

Você já deve ter passado horas na janela do seu apartamento, vendo uma paisagem feia, telhados sujos, carros numa velocidade estúpida. Você já deve ter pensado que isso era solidão, que você precisava de uma companhia, mas que, afinal de contas, era melhor ficar sozinho mesmo. Solitário, apático e inerte: assim, você estava feliz. Do mesmo modo, você andava pela rua sem rumo, somente porque não queria voltar para casa, estando feliz com seus próprios pensamentos e com suas pernas que te guiavam sabe-se lá para onde.

Se você está pensando que não, que nunca passou por isso, que eu sou um doido, talvez não vá gostar de "Até o dia em que o cão morreu" (adaptado para os cinemas com o título "Cão sem dono), romance do brasileiro Daniel Galera, 35 anos, que o publicou quando ainda tinha vinte e poucos, o que, por si só, já salta aos olhos. No meio literário, constituído por velhos e mortos, ler uma obra-prima de um garoto desses é um sopro na alma.

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Esse texto foi publicado no Jornal Lago Notícias em novembro de 2014. Essa e outras colunas podem ser acessadas em seu site.

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