terça-feira, 14 de outubro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 4 (final)

30/09/14

Hoje, no clube diplomático, recebi uma massagem muito boa, que durou uma hora e quarenta e cinco minutos. Nunca recebi uma massagem tão longa. 13 euros, quero voltar lá. Massagem é coisa boa demais e os coreanos têm tradição de serem talentosos nisso (e são mesmo). Mais tarde, fui almoçar no Girassol, o segundo melhor restaurante ao qual fui aqui, atrás apenas daquele no Potogang Hotel. Talvez, até o fim da viagem, esse ranking se altere. Em ambos os restaurantes, que não são tão baratos se comparados com outros, veem-se não só estrangeiros como também coreanos, uns, inclusive, fumando. Aqui, é permitido fumar em ambientes fechados, o que às vezes dá no saco, especialmente em restaurantes. Outro curioso hábito vem dos garçons: eles te entregam o cardápio e ficam parados ao seu lado, em vez de irem dar uma voltinha enquanto você escolhe os pratos. Rola uma pressão psicológica para você escolher logo!

Esse restaurante tem um monte de opções esquisitas, sendo uma delas sopa de pombo. Só depois de ler esse prato fui me dar conta de que tem pombos em Pyongyang. É engraçado isso, mas ainda não os tinha percebido, enquanto que, em qualquer cidade do mundo, eles se mostram notáveis logo à primeira olhada. Essas curiosas aves urbanas, que provavelmente morreriam se soltas numa floresta, estão até em Pyongyang, embora menos abundantemente. Acho que, se um dia as Coreias ou quaisquer outros países se destruírem com armamento nuclear, não são as baratas, ao contrário do que preza o imaginário popular, que se salvarão, mas esses onipresentes pombos.

Após o almoço, Luiza passou numa loja de cosméticos. Ela disse que tem vários produtos de luxo lá, desses que são encontrados em lojas caras de Nova Iorque, Paris... Não me perguntem os nomes, porque só recentemente fui descobrir que Seda é considerada uma marca ruim, mas são produtos que só a elite brasileira compra, não sendo para o bico nem da nossa classe média. E não pensem que era loja de gringo, não. Tinha muitos norte-coreanos por lá.


01/10/14

Muitas das notícias sobre a Coreia do Norte vêm da Coreia do Sul. E a Coreia do Sul é meio sem noção. Exemplo: lembram-se de que falei que o wi-fi havia sido quase que proibido nas embaixadas, porque alguns norte-coreanos estavam se posicionando ao lado dos prédios para pegarem o sinal? Pois bem, baseada nessa informação, a imprensa sul-coreana está a noticiar que os preços de aluguel dos imóveis que cercam as embaixadas estão em contínua ascensão. Mas todos aqueles prédios são disponibilizados pelo governo para estrangeiros, que, de qualquer forma, já têm acesso à internet; não há nenhum norte-coreano morando lá. E, ainda que tivesse, norte-coreano não paga aluguel. Depois que ele se casa e sai da casa dos pais, ele pede ao governo uma casa para morar, que lhe é cedida gratuitamente, embora ele pague uma pequena taxa de luz, coleta de lixo etc. Onde será essa residência é da escolha do partido, mas o empregador pode, por exemplo, pedir ao governo para que seu empregado more perto do local de trabalho.

Hoje, foi à embaixada brasileira um “técnico em ondas”, dizendo que haviam detectado sinal de wi-fi vindo do nosso prédio. Acho que tinha um notebook ligado, que, após a repreensão, foi devidamente desativado. O wi-fi, mesmo com senha, tem que ser bem fraquinho, restrito à residência do embaixador.

As guardinhas de trânsito estão com uniforme de inverno! Mudaram hoje. Agora, é uma roupinha azul. Continuam elegantes, porém. Vi vendendo, no Monte Myohyang, uma bonequinha de guarda de trânsito. Deveria ter comprado. É uma das coisas mais características de Pyongyang.

Quando eu estava entrando no elevador do hotel, tinha uma funcionária saindo, com um daqueles carrinhos onde se põem várias malas, e outro empregado entrando, com o mesmo equipamento. Eles se enrolaram na manobra, principalmente porque o elevador não tem sensor, portanto abre e fecha na velocidade da luz. Ajudei-os e, quando enfim entrei, o funcionário falou qualquer coisa que nem sei se foi em inglês ou em coreano, mas acho que ficou um pouco encabulado por ter sido ajudado por um estrangeiro. Quando toquei meu andar no painel, ele perguntou se eu era do Brasil. É muito estranho isso: eles conhecem todo mundo de cor no hotel. Quando eu chego ao restaurante daqui, já tem separada uma mesa de três lugares para mim, Luiza e Leonel, os brasileiros. A propósito, logo nos primeiros dias, quando estava indo ao segundo andar desse restaurante, eles me encaminharam para o terceiro. No segundo, eu não posso entrar porque sou brasileiro e brasileiro fica no terceiro, mesmo andar onde encontrei os portugueses, alguns africanos, muitos chineses... Aí, pronto: fiquei curioso para saber quem vai para o segundo andar e por que essa divisão é feita. Será que para o segundo vão os russos? Ainda não vi ninguém da Rússia no hotel (ao menos, não daqueles com um crachá: “oi, sou russo”) e deve ter muitos russos por aqui... Ou será que para lá vão os próprios norte-coreanos? É possível também que para o segundo andar vão os americanos e os japoneses, para o caso de, acidentalmente, algumas mesas pegarem fogo ou coisa assim...

Ao longo das paredes do restaurante (estou a falar do restaurante principal, porque tem vários dentro do hotel), há várias portas, quase sempre fechadas. Vez ou outra elas se abrem e entra uma princesinha (cada andar do restaurante tem uma princesa recepcionista), além de garçons com várias bandejas de comida. O que estará rolando lá dentro? Uma reunião do partido? Estará ali o grande líder? Pô, antes de voltar ao Brasil, eu ainda quero ver o Kim Jong-Un (sei lá por que estava escrevendo os nomes dos líderes em minúsculo, colocando só o “Kim” em maiúsculo. Que falta de respeito!). Tomara que Deus, digo, Stalin, digo, sei lá quem, ajude o presidente a se recuperar logo de seu problema de saúde!

A graça de ficar na Coreia do Norte é que você levanta várias teorias absurdas. O Koryo Hotel tem muitas salas que estão sempre fechadas, mesmo fora dos restaurantes. Uma delas, em um dos muitos corredores, um dia estava aberta e nela, eu notei uma TV, um computador e um sofá. Pronto, começaram as teorias: eles estão ali a vigiar todos os hóspedes, dia e noite, a receber as imagens das câmeras escondidas atrás dos espelhos que estão em cada quarto do hotel!

Viajar para a Coreia do Norte é viajar na batatinha.


02/10/14

Ontem, a fim de um prato mais ocidental, jantei em um gostoso restaurante italiano (sim, eles existem!). Pedi uma pizza, mas vou voltar lá para comer minha favorita massa à carbonara.

A Coreia do Sul é o país que mais consome pimenta no mundo, ultrapassando até mesmo o México. Eu, que gosto de pimenta, lamentava que, no norte, os pratos fossem menos picantes. Descobri: eles deixam as comidas menos apimentadas porque elas não costumam satisfazer o paladar do estrangeiro. Você tem que especificar para o garçom que quer seu pedido com pimenta. Ele vai te olhar desconfiado. Reitere: sim, com pimenta, como se fosse para vocês. Ele vai continuar sem acreditar. Você enfatiza: com pimenta, não se preocupe com meu cu que disso trato eu, com pimenta! (Ok, não fale isso, mas enfatize seu desejo pelo prato apimentado. Se o inglês dele permitir tal troca de diálogo, é claro.)

A Coreia do Norte venceu o Japão no vôlei feminino dos Jogos Asiáticos, que estão sendo disputados na Coreia do Sul. O avião que levou os atletas do norte para o sul foi o primeiro, em muitos anos, a atravessar a fronteira mais militarizada do mundo, que tem a irônica nomenclatura de Zona Desmilitarizada (queria até fazer um passeio para lá, mas, além de custar 350 euros, tem que pedir autorização com um mês de antecedência). A partida não foi televisionada ao vivo, mas algumas horas depois, afinal a vitória já havia sido consolidada e o povo poderia se orgulhar de seu país. Pobres norte-coreanos: nunca saberão a emocionante experiência de ver ao vivo seu time perder de 7 a 1...

Queria ter assistido a PSG e Barcelona, deve ter sido um jogão. Sinto falta dos jogos de futebol. Nem os gols eu posso ver, porque nem pensar que youtube carrega na internet da embaixada. Apesar disso, a solidão daqui é agradável, isso é quase um retiro espiritual. E olhem que tenho BBC e outros canais estrangeiros no hotel (além da internet, que é ruim, mas está lá); imaginem o isolamento do cidadão local (se bem que não sei se ele entende que está isolado...). Para combater esse cárcere psicológico, a comunidade estrangeira de Pyongyang está o tempo todo a promover eventos.

Repito que gosto dessa solidão, mas isso é só porque sei que não fico aqui por mais do que um mês. A baixa expectativa também contribui para esses sentimentos positivos quanto ao país. Talvez, se eu não soubesse nada da Coreia do Norte, não fosse gostar daqui, mas o que chega para nós é que se trata de algo tão ruim que, depois que você chega com um pé atrás, acaba por perceber que as coisas não são tão sombrias quanto se pinta (ao menos, não hoje em dia).

É sempre bom frisar que as coisas estão mudando. Há cinco anos, ninguém do Brasil vinha para cá. Hoje, visitam a Coreia do Norte, em média, anualmente, entre 20 e 30 brasileiros, um número bem superior às minhas expectativas.

Uma coisa que salta aos olhos em Pyongyang são os muros limpos. Não há nenhuma pichação, algo que eu nunca vi em nenhuma cidade! Nenhum CV, é nóis, fora ditadura, PT traidor, nada!


03/10/14


Hoje fez um daqueles dias de que tanto gosto, que são meus preferidos: frio e céu azul, combinação inimaginável no Rio e que só na seca de Brasília fui descobrir ser possível. Nesse belo dia, fomos ao Estúdio de Arte Mansudae, onde são exibidas pinturas e esculturas de diversos artistas norte-coreanos. Estão trabalhando no estúdio 700 artistas e 4000 empregados. Era possível visitar os ateliês, com exceção de um, em frente de cuja porta estavam alguns militares com armas em punho. Tratava-se do local onde eram pintados os retratos dos líderes. Possivelmente, eles não querem que o visitante infiel veja os erros que os pintores cometem, tipo deixando um presidente mais orelhudo, outro mais narigudo... Deve ser uma responsabilidade enorme pintar os quadros desses caras, além de uma tarefa um tanto quanto ingrata. Isso na minha perspectiva, é claro, mas, para eles, deve ser o reconhecimento máximo de seus talentos, uma vez que só os melhores são selecionados para esse nobre dever cívico.

O trânsito de Pyongyang hoje estava ao estilo metrópole brasileira, tudo parado. Tinha algo a ver com a vitória do vôlei feminino sobre o Japão. Acho que estavam recepcionando as meninas, que tinham voltado para casa. Já no futebol masculino, eles não tiveram a mesma sorte. A Coreia do Norte perdeu para a Coreia do Sul (que jogo, hein!) por 1 a 0. E verdade seja dita: a derrota foi, sim, noticiada.

Tem um garçom aqui no hotel que tem toda, mas a toda a pinta de ser gay! Coitado, nunca vai poder sair do armário... A propósito, termino o relato do dia com uma informação de relevante utilidade pública: vi uma garçonete com o sugestivo nome de He Un Bok.


04/10/14

Meu prato coreano preferido é bibimbap. Ponham no Google. É mesmo muito bom.

Comentário de um norte-coreano, depois de ver Tropa de Elite: “Como vocês deixam um filme retratar o país de vocês desse jeito?”. 

Por aqui, são comuns arranha-céus sem elevadores. Ouvi sobre uma norte-coreana que tem que subir de escada os 49 andares de seu prédio. Imaginem para carregar compras, que beleza. O país quer se mostrar grande, moderno, com prédios altos, mas às vezes falta a simples eletricidade para manter um elevador.

Ao lado do Koryo Hotel, tem uma loja que vende selos e pinturas socialistas, das que se veem espalhadas pelas ruas. Comprei algumas. É um lugar amplo, bem organizado, com várias opções. Bem diferente das lojinhas, em outras cidades a que já fui, que vendem selos e coisas do tipo.

Esse pessoal não se cansa de ouvir Moranbong? Só toca isso, o tempo todo, que horror!


05/10/14

Fomos almoçar em um restaurante japonês (é, eles também existem!), que estava lotado, como ficam os restaurantes brasileiros nos almoços de domingo. E não era o restaurante mais barato da cidade. A classe média emergente coreana está bombando! (Digo... melhor não falar em nada “bombando” por aqui...)

Entramos na fila de espera e, passado um tempo, uma atendente veio nos conduzir para outro lugar, fora do estabelecimento. Pensei: pô, conseguiram uma mesa para nós em outro prédio, que curioso. Mas, não. Com a maior boa vontade, ela apenas nos levou para outro restaurante, que não tinha nada a ver com aquele onde estávamos. Acho que ela não percebe a lógica da fila de espera: se eu estou aguardando por uma vaga naquele restaurante, é porque não quero qualquer comida, eu quero ir é ali. Tadinha, e ela fez para ajudar mesmo. Surrealidades norte-coreanas.

À noite, fomos jogar boliche no Yanggakdo Hotel, com um pessoal do Nepal, Camboja, Holanda, Austrália... O australiano disse algo interessante: “Quando eu contava para meus amigos que viria para a Coreia do Norte, todos diziam que eu provavelmente receberia muito dinheiro. Mas essa é uma experiência e tanto; eu poderia vir de graça, em um intercâmbio. Tanto é verdade que, para vir, larguei um emprego que me pagava muito bem”. 

Depois, jantamos, no mesmo hotel, em um restaurante chinês. Estava gostosinha a comida. Na TV, passavam notícias do mundo, incluindo um discurso da Dilma e gols do Real Madrid. Depois, mencionaram alguma coisa que tinha a ver com EUA, Facebook e crimes... Em coreano, não entendi nada, mas juntei os pontinhos e concluí que alguém matou alguém nos Estados Unidos, após terem se conhecido pelo Facebook. Fiquei surpreso que tenham mencionado a existência do Facebook, mas é sempre com esse intuito de mostrar o que nele há de ruim, da mesma forma que fazem com EUA, Japão, Coreia do Sul... Numa revista daqui, tinha uma seção: “Notícias do Sul”. Lá, tinha apenas uma matéria, falando sobre manifestações de estudantes em Seul, insatisfeitos com qualquer coisa. Nunca, nunca falam nada de bom dos inimigos. Exatamente como fazem com eles, a propósito. Ou alguém já viu alguma notícia positiva da Coreia do Norte?


06/10/14

Além da música de terror japonês que é ouvida por toda Pyongyang nas horas redondas, às 7 da manhã toca uma sirene medonha. Nem sempre eu ouço, por causa das janelas acústicas do hotel, mas um desavisado, sendo acordado com esse som estrondoso, pode facilmente achar que a guerra começou.

Os postes já estão cheios de bandeiras do país, para os preparativos para o próximo dia 10, feriado nacional, data da criação do partido.

Constatação do dia-a-dia: na Coreia do Norte, faxineira usa salto alto.


07/10/14

A pizzaria onde comi hoje é uma das melhores a que já fui. É perto do rio, não muito longe do Koryo Hotel, não deixa nada a desejar em relação às pizzas que comi na Itália. Digo mais: é melhor.

Tem uma funcionária de um outro restaurante ao qual normalmente vou que às vezes fica anotando alguma coisa, puxa muito papo com os estrangeiros e tal. Hoje, veio a confirmação: ela traça um perfil de cada um e, depois, sabe-se lá para quem ela o repassa. É... Nem toda teoria da conspiração é infundada.

Aliás, uma história boa: um estrangeiro, muito jovem, convidou uma coreana para sair. Ela, que gostava dele, aceitou. Quando ele chegou para buscá-la, ela, chorando, entregou-lhe um ursinho de pelúcia, desculpando-se por não poder mais vê-lo. Provavelmente ela, muito nova, não sabia que era proibido sair com alguém que não fosse coreano e, inocentemente, deu-lhe um ursinho como pedido de desculpas. Uma história de namoro de crianças, só que com adolescentes e adultos.

Outra história. Na verdade, outras, no plural, essas contadas por um raro sujeito que chegou em Pyongyang a negócios. Ele aprendeu que: 1) teria que ensinar aos norte-coreanos para que serve dinheiro. Quando ele dizia que veio para cá para ganhar dinheiro, eles não compreendiam, dizendo que isso não serve para nada (confesso que, quando ele me contou isso, eu até simpatizei com os coreanos); 2) ele não podia usar a palavra “profit” (lucro), termo capitalista, mas “plus”, que tinha um quê mais socialista, embora ele quisesse dizer a mesma coisa; 3) uma tática que ele usou para incentivar os coreanos a fazer um bom serviço era dizer que ele veio para cá para fazer determinada coisa, porque esta não podia ser feita nos EUA, que americano não sabia fazê-la, mas norte-coreano, sim. O resultado saía exatamente como ele esperava.


08/10/14

O governo norte-coreano está promovendo uns jogos esportivos para a comunidade estrangeira de Pyongyang. Ontem, em um time formado por mim e mais quatro norte-coreanos que trabalham em embaixadas e outras representações, tomamos uma lavada da Rússia, no basquete. Hoje, foi a vez do futebol e eu joguei com o uniforme comprado da seleção norte-coreana, causando muita comoção (e risos) dos transeuntes, especialmente as crianças. No nosso time, tinha gente de tudo que é canto do mundo. No primeiro jogo, vencemos uma equipe formada por norte-coreanos que trabalham em organismos internacionais. Depois de um 0 a 0 no tempo normal, vencemos por 4 a 1 nos pênaltis. À tarde, jogamos contra os chineses e ganhamos de 3 a 1. No domingo, faremos a final contra a Rússia.

Aqui, o ano não é medido desde o surgimento de Jesus Cristo, mas, sim, a partir do nascimento de Kim Il-Sung. Chama-se de “ano Juche”, em referência à ideologia criada por ele. Assim, não estamos em 2014, mas no ano 103 Juche.

Esqueci-me de contar (conforme vou me lembrando das coisas, vou falando, ainda que fora de ordem cronológica): durante a viagem ao Monte Paektu, no avião, ficavam passando uns vídeos infantis bizarros, com todo o tipo de esquisitice asiática ao qual já estamos acostumados. O toque norte-coreano da história foi um trecho em que uns menininhos bem pequenos (de 2 anos de idade) brincavam de matar um soldado com um capacete em que se lia: USA.

Outra coisa de que me lembrei agora: na nossa visita ao templo budista do Monte Myohyang, nos mostraram uma torre, em que havia seis colunas com três sininhos cada. O guia falou que aquela torre simbolizava a inteligência de algum presidente antigo, não sei se o Il-Sung ou o Jong-Il. Há alguns anos, as pessoas queriam saber quantos sininhos tinha na torre, então contaram um por um, ao passo que o sábio líder multiplicou o número de colunas pelo número de sininhos, 3x6, 18 sininhos. Claro! Quem mais pensaria nisso? Incontestavelmente, um gênio!


09/10/14

Queria voltar aqui no futuro para ver se as coisas vão seguir mudando, como diria Dilma. Tem muita informação desencontrada e, como já me disseram, em um mês só, nunca vou sair da superfície da sociedade. Por exemplo, lembram-se de quando eu disse que, como um papagaio acrítico, eu ia relatar que me contaram que as mulheres norte-coreanas têm liberdade ao escolherem seus parceiros? Como o mesmo papagaio acrítico, eu já digo que ouvi versões contraditórias, que elas não têm poder de escolha nenhum, que às vezes chegam a ser negociadas entre membros do partido, com corrupção e tudo mais, podendo negar seus pretendentes por, no máximo, três vezes.

Contei a um estrangeiro sobre o coreano que queria peitos grandes e confidenciei que a vida sexual do norte-coreano me enche de curiosidade. “Prostituição, aqui, não há, né?”, eu perguntei. Ele me falou que, em qualquer casa de massagem, você pode conseguir um pouco mais do que massagem. “E os norte-coreanos frequentam?”, “Claro! Tem cassino, tem prostituição, tem tudo isso em Pyongyang. Mas veja que é uma prostituição muito diferente daquilo com o que estamos acostumados.”, “Como assim?”, “Não tem penetração, mas você consegue carícias a mais... É claro que, para isso, a massagista tem que gostar de você... Raramente você consegue na primeira ida...”

Outra conversa, outro estrangeiro, outro contexto: eu perguntei se pornografia era realmente proibida. “Proibida, é, mas olhe: um dia eu me machuquei e tive que ir ao hospital com um coreano. Você não entra num hospital sozinho, sendo estrangeiro. No balcão, tinha uma revista que parecia um kama sutra. Perguntei à balconista o que era aquilo e ela respondeu que era uma revista que ensinava as posições sexuais às mulheres que estavam próximas de se casar!”, “Ela respondeu, sem maiores constrangimentos? Que maravilha! E o que mais você descobriu?”, “Nada, porque fiz uma piada e ela virou as costas, dizendo que eu era feio e mau...”, “O que você falou?”, “Perguntei qual era a posição sexual preferida de seu líder”. Meu Deus, que piada sem noção, que sorte que ela só virou as costas e nada mais! 

Ele disse: “Um dia comprei um vibrador para o meu amigo” (Amigo, né?) “O quê? Tem sex shop na Coreia do Norte?”, eu perguntei. “Sex shop, não. Comprei na farmácia! Mas não foi fácil conseguir. Eu levei uma amiga bem mais nova, a fim de que ela se passasse por minha esposa, e disse para a farmacêutica que eu estava muito velho, que já não conseguia mais satisfazer minha mulher, que eu precisava de um consolo gigante. Tudo isso com gestos, porque ela não falava inglês.” Que fantástico!

Depois de muitas conversas, todos me disseram que realmente é difícil rolar sexo antes do casamento, mesmo entre coreanos. Fiquei meio cético... Essa não é a única sociedade na história da humanidade onde sexo é proibido e ele sempre aconteceu, escondido ou não. As pessoas replicavam que, talvez, até aconteça aqui também, mas que deve ser raro, a vigília é enorme e, além disso, se a mulher engravidar, ela é expulsa de Pyongyang imediatamente e sabe-se lá o que pode acontecer com ela...

Aliás, aborto é permitido, aqui. É uma forma de controle de natalidade, mas não consegui descobrir ao certo como funciona.


10/10/14

Hoje, foi feriado, aniversário da fundação do partido, o único desde a criação da Coreia do Norte. Mais uma data importante em que o Kim Jong-Un não deu as caras, aumentando a especulação internacional de que ele está morto, foi deposto etc. Por aqui, as autoridades permanecem falando no líder normalmente, a TV continua mostrando vídeos antigos dele, a comunidade internacional não parece se importar muito com isso, não levando tanto a sério as especulações da imprensa.

Um dia eu perguntei a um estrangeiro que já mora aqui há um tempo onde estão os gays da Coreia do Norte. Eles têm que existir, né? Ele respondeu que sim, “claro que existem. Em todos os países, há gays, por que aqui, não? Mas eles nunca vão sair do armário. Se saírem, são mortos. Matam mesmo, sem pensar duas vezes.” Pensei em como nossa bancada evangélica tem muito em comum com esse país ateu... Perguntei: “E os deficientes? Não os vejo pelas ruas!”, “Matam também!”, “Matam os deficientes?”, “Matam. Meu amigo trabalhava na Cruz Vermelha daqui. Ele chorava todo dia, ficou com depressão, teve que sair do trabalho. Ele me contou que, se a criança nascesse com alguma doença mental, era assassinada.” 

Sobre isso, existe toda uma história de que, em Pyongyang, só estão as pessoas “perfeitas”, os mais altos, os mais bonitos. Não acredito, não. Para mim, esses boatos estão no mesmo nível daqueles que dizem que há atores fingindo ser felizes na Coreia do Norte... Apesar dos relatos que citei no parágrafo anterior, devo dizer que eu já vi dois cadeirantes e um amputado em Pyongyang. Estará o estrangeiro mentindo, portanto, sobre a Cruz Vermelha? Acho que não... Vai ver, se a criança nasce com algum problema, é assassinada, mas, se o cidadão desenvolve a deficiência já em adulto, permanece onde mora, ainda que seja em Pyongyang. Mas, agora, já sou eu que estou especulando... Não dá para saber a verdade. Talvez, no interior, existam alguns deficientes. “Pyongyang é muito diferente do restante do país”, o estrangeiro prosseguiu, “e, mesmo em Pyongyang, tem muita coisa acontecendo que você nunca saberá”.

Outra pessoa me relatou que, há anos, um amigo dela, também da Cruz Vermelha, encontrou duas crianças perdidas no interior do país. Elas lhe disseram que estavam com fome, que seus pais haviam sido executados após cometer certo crime (furto, eu acho). Elas pediam para sair da Coreia, até porque, além de tudo, filhos de criminosos não costumam ter vida fácil aqui. O estrangeiro as colocou no porta-malas e, junto de outra pessoa, dirigiu até a China e, depois, até o Vietnã. Não adiantava procurar ajuda em Pequim, a capital mais próxima, porque a China manda refugiados norte-coreanos de volta para a Coreia do Norte. Poderiam ter escolhido a Mongólia, país que costuma enviar os norte-coreanos para Seul, com voo pago, mas acharam o Vietnã a melhor escolha. Foram parados numa blitz, na fronteira, acho que já em território vietnamita, e a polícia descobriu as crianças no porta-malas. Os policiais ficaram com os refugiados e disseram que os enviariam para a Coreia do Sul, mas os enviaram para a do Norte. Aqui, a imprensa noticiou que estrangeiros tentavam raptar as crianças, mas que estas já haviam sido resgatadas. Nunca mais se soube o que lhes aconteceu.


11/10/14

Depois de pagar em euro e receber troco em yuan e dólar, hoje, o troco foi completado também por bala, que nem no comercial do “bala de troco, que cosa triste”.

Hoje, fui a um cassino. Não joguei, é claro, mas só quis me certificar de que realmente eles existem em Pyongyang. Tem cassino, tem strip club...

O fato de garçonete que fala com estrangeiro pertencer a uma certa elite norte-coreana é algo muito intrigante. Essas garçonetes, que também limpam o chão e dormem no mesmo lugar em que trabalham, seriam consideradas escravas no Brasil. Elas dormem todas numa mesma cama, comprida, de modo a não terem nenhuma privacidade. Algumas ficam anos sem ver suas famílias, sendo, ocasionalmente, liberadas para visitarem suas casas por alguns dias apenas. Tudo isso é muito perturbador. Fico a pensar em quanto uma abertura econômica do país favoreceria sua elite, que não são só essas meninas, mas ainda várias peruas ao estilo ocidental.

Às vezes, fico a pensar numa frase do Eduardo Siebra, último diplomata a ter vindo para Pyongyang: Só quis vir para cá porque, infelizmente, o Brasil ainda não tem embaixada em Marte. Eu também. Mas é até frustrante ver que, afinal, os norte-coreanos são que nem a gente. Não são verdes, não têm anteninhas, são relativamente civilizados...


12/10/14

Hoje, fizemos a final do futebol contra a Rússia. E pasmem: somos campeões! Por essa, eu não esperava, especialmente porque os russos treinam toda semana e o nosso time foi um pingado de cada lugar, que se conheceu na hora. Empate por 1 a 1 e vitória nos pênaltis. Ganhamos um trofeuzão bem bonito, das mãos do Ministro das Relações Exteriores ou qualquer cargo análogo, além de seis troféus individuais. Deixamos um deles na embaixada do Brasil.

Depois do jogo, rolou uma exibição de pratos típicos dos países com representação em Pyongyang. O nosso embaixador estava reticente de participar, mas Luiza botou pilha e acabou acontecendo. No início, eu achava que ela estava arrumando sarna para se coçar (e estava mesmo), mas, afinal, essa é a minha ingênua visão do que deve, primordialmente, fazer um diplomata: mostrar as melhores coisas de seu país para o estrangeiro. E o que melhor que comida brasileira? Passamos ontem o dia todo cozinhando litros e mais litros de feijoada (uns 30 litros, suponho), farofa, caipirinha, batida de coco... A jarra com a caipirinha quebrou no caminho, mas, tirando isso, deu tudo certo. Comi prato de tudo que é lugar. Fazia questão de preparar um minipratinho de cada barraquinha que estava lá (e tinha muitas). Tudo isso sob um forte sol e céu azul. De vez em quando, o inverno ameaça se aproximar, com um vento mais gelado, mas acho que ele só vai chegar para valer depois da nossa partida.

O senso de pertencimento na Coreia do Norte é uma coisa muito engraçada. Você não se sente próximo de alguém porque ele é da sua cidade, do seu estado, do seu país... Basta ser ocidental. As pessoas se conhecem, se cumprimentam pelas ruas, coisa de cidade pequena. Quem, aliás, também acha que mora em cidade pequena são os pedestres norte-coreanos. Como há poucos anos não tinha quase nenhum carro aqui, eles mantêm seus velhos hábitos de atravessar as ruas de qualquer maneira, mesmo na completa escuridão noturna. Há um tempo, um estrangeiro atropelou e matou uma coreana. Um problemão, isso.

Assim como chegam os carros, claramente se forma uma economia paralela. Há duas economias na Coreia do Norte: a estatal, oficial, que sempre existiu, que funciona precariamente, e a de mercado, que faz emergir uma nova classe média, para a qual o Estado fecha os olhos. Há um tempo, era crime o cidadão vender algo e ficar com o dinheiro para ele. Hoje, é mais do que tolerado, embora irregular, ou seja: para ter um negócio, você tem que ser alguém indubitavelmente fiel ao regime. Do contrário, o Estado pode fechá-lo, sem nenhum esforço.


13/10/14

Hoje, foi dia de, no almoço, comer o que sobrou da feijoada e, no jantar, comemorar o título do futebol, no Pyongyang Shop.

Conheci uns indonésios que, quando eu disse que era brasileiro, não falaram de futebol nem de Pelé nem de samba, mas de Sepultura!

Conversa com dois estrangeiros: o primeiro me disse que acredita que os norte-coreanos não se rebelam contra o regime não por causa da repressão estatal, mas porque os asiáticos são naturalmente mais obedientes e subservientes mesmo. Nada inovador, mas acho que passa por isso mesmo. Na União Soviética, disse ele, a toda hora tinha balbúrdia, e Stalin não era exatamente um cara frouxo... O segundo estrangeiro crê que o Japão trabalhe contra a unificação das Coreias, temendo um estado nuclearmente armado e economicamente mais forte que os próprios japoneses. Sei lá se faz sentido, mas fica aí o registro.

A Air China cancelou o voo dela das quartas-feiras, então tivemos que antecipar em um dia nosso adeus a Pyongyang, pegando o voo da Air Koryo, de terça. Essa empresa é proibida de voar para vários lugares, não apenas pelo mero fato de ser norte-coreana, mas também porque descumpre inúmeras normas de segurança. Que seja o que Deus, digo, o líder, quiser.


14/10/14

Acordei cedo para pegar o voo, num frio de fazer sair fumacinha da boca quando falávamos. Agora que estamos indo embora, o inverno parece se aproximar. No aeroporto, encontramos um brasileiro (até na Coreia do Norte!), que veio em um grupo de turista com outras pessoas, dentre as quais um americano muito do chato, que estava atrás de mim na fila do despacho da bagagem, reclamando de tudo. Falou que a China é uma merda, mas, ainda assim, dez vezes melhor que a Coreia do Norte, que é a merda das merdas, que ha-ha-ha, não tem gay em Pyongyang, que comédia, que país ridículo! Como eu me afeiçoo facilmente aos lugares e, com a Coreia não foi diferente, não pude deixar de achar que o ridículo era ele.

O pequeno aeroporto está um imenso canteiro de obras. Aliás, por toda Pyongyang se veem muitas construções. Pegamos o voo sem maiores burocracias. Não olharam as fotos que tiramos, não investigaram nossos computadores nem nada assim. Essas práticas eram comuns até bem pouco tempo, mas não sei se as coisas mudaram ou se não nos importunaram só por causa do passaporte diplomático.

Chegando ao aeroporto de Pequim, o baque: KFC, Buger King, McDonald's, wi-fi, a civilização imperialista estava de volta! Já comi o melhor pato do mundo, já andei bastante, mas, a partir de agora, nada disso mais é importante o suficiente para compor um diário. Pequim, assim como meus próximos destinos (Dubai e Abu Dhabi) são locais repletos de informações, ao contrário da boa e velha Pyongyang que deixei para trás. Quer dizer, velha nem tanto, uma vez que a cidade foi quase totalmente reconstruída depois dos bombardeios japoneses nos anos 40.

É, Coreia, foi bom te conhecer. Volto quando você virar uma democracia. Mal posso esperar por esse dia em que, juntos, vamos rir dos líderes. 

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