terça-feira, 16 de setembro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 1

10/09/14 a 12/09/14: Reflexões de uma viagem de 36 horas

(Esse texto tenta dar algumas informações sobre a minha viagem para a Coreia do Norte, que, por ser um lugar tão inusitado, acho que merece um tipo de diário. Trata-se de um dos meus poucos textos não ficcionais desse blog. A introdução abaixo consiste em meras divagações sem sentido. Se você quiser ler sobre minha experiência norte-coreana, desça diretamente para o subtítulo “12/09/14: Chegando à Coreia do Norte”.)

Tem razão a velha máxima de que tudo na vida é relativo. A primeira vez em que viajei de avião foi em um voo de 45 minutos entre Rio e São Paulo. Em terras paulistas, me senti tão longe de casa, ainda que estivesse ao lado dela. Para telefonar para a minha casa, eu até teria que fazer DDD! Já a primeira vez que saí do país foi para ir à Argentina. O mero fato de ouvir nas ruas um idioma diferente do meu já me fazia me sentir um cosmopolita. Mesmo que os próprios argentinos se referissem a Bariloche como “Brasiloche”, eu via neve, conversava com estrangeiros e respondia que eu era do Brasil, quando me perguntavam de onde eu vinha, sendo que, na verdade, todo mundo sabia que eu era do Brasil, o que eles queriam saber era minha cidade. Acredito que viam meu natural crachá de brasileiro, primeiramente, por causa do portunhol, que não engana ninguém, e, em segundo, devido ao enorme número de brasileiros por lá. Eu devia, portanto, dar uma resposta ao estilo norte-americana (o que, aliás, sempre achei muito estranho: nenhum estadunidense se diz “dos EUA”, mas de Seatle, Chicago, Miami...).

Por falar em EUA, o primeiro voo mais longo que fiz foi para lá. Mais longo, em termos, porque, antes, quando visitei o Chile, novamente me bateu a velha sensação de “nossa, como estou longe de casa”. Para os EUA, porém, o enorme tempo no avião deixou minhas pernas tão doloridas quanto a minha coluna e, passadas duas horas de voo, eu já não aguentava mais, estava desesperado com o mero fato de saber que ainda faltava tanto para a aterrissagem. Chegando lá, tive mais uma vez o entusiasmado sentimento de falar e ouvir outro idioma: agora, não mais o espanhol, idioma latino tão parecido com o nosso, mas o bom e velho inglês, o que me possibilitaria pôr em prática meu frágil aprendizado de cursinho.

Viajar sempre teve um caráter duplo, para mim. Significava tanto encontrar coisas novas quanto deixar outras para trás. Será que minha casa no Brasil estaria bem? E se, durante o período de seca brasiliense, ela pegasse fogo? E se, sei lá, ela fosse roubada? Esses sentimentos me acompanharam, mais uma vez, quando, ineditamente, cruzei o Atlântico. Minha primeira vez além-oceano não foi, como seria de se imaginar, indo para a Europa, mas para a África. Dessa vez, a sensação de deixar algo para trás era ainda maior, não só pelo fator psicológico de cruzar os mares, mas, principalmente, porque eu ficaria dois meses fora, quando o máximo de tempo em que tinha ficado longe de casa havia sido por três semanas. Assim, viajei para a África do Sul e Moçambique com a resolução de não pensar em Brasília. Era como uma meditação: se eu ponderasse qualquer coisa a respeito da minha casa, teria que desviar o pensamento e, de imediato, esvaziar a mente. Mas, ao voltar para meu saudoso domicílio, não pude conter o alívio ao perceber que os móveis não criaram pernas e foram embora sozinhos, que os tetos não desabaram, que as paredes ainda eram paredes e o chão ainda era chão, que tudo estava exatamente como eu havia deixado.

Quando cruzei o oceano para, aí, sim, visitar a Europa, foi para ir à Itália. Já estava um pouco mais experiente com o lance da meditação, de não pensar naminha casa. O maior desafio nessa viagem foi mesmo o tempo de voo. Meu corpo doeu no voo para a Argentina, doeu um pouco mais para o Chile, doeu muito mais para os EUA, doeu enormemente para a África do Sul e, agora, meu Deus! Só o trecho Brasília – Paris já era maior do que tudo por que eu já tinha passado. Novo exercício mental: eu vou conseguir, não vou ter trombose, não vou morrer, não vou ficar tetraplégico, ainda serei capaz de andar depois de tanto tempo no avião! Acho que foi nesse voo que percebi algo tão óbvio quanto fundamental: está cansado de ficar sentado? Levante-se, cara pálida! Fique em pé no avião, ué! Assim, enquanto todos dormiam, eu estava em pé no avião, andava pelo corredor, ia ao banheiro sem vontade, ia até os fundos para beber água, mesmo sem sede. Um corpo de um metro e noventa não pode se dar ao luxo de ficar sentado durante toda uma viagem dessas.

No final de julho, surgiu a oportunidade de vir para a Coreia do Norte. Quando mais eu viria para esse lugar e, ainda por cima, com algum grau de liberdade (ou, ao menos, com maior liberdade do que os escassos turistas)? Talvez, eu até pudesse vir para cá futuramente, mas a Coreia do Norte ainda seria a mesma? Ela já não teria se aberto? Ela ainda será esse lugar tão bizarro quanto, ao menos no nosso imaginário, ela é hoje? Sim, eu quis vir. Mas esse seria o maior teste para o meu eterno provincianismo. Eu não cruzaria o país nem o continente nem o oceano. Eu cruzaria o mundo. Não seriam dez ou doze horas de viagem, o que, até então, era meu ápice do inferno. Seriam trinta e seis. Seriam três escalas: Brasília – São Paulo – Abu Dhabi – Pequim – Pyongyang (vale lembrar que praticamente todos os voos que chegam a Pyongyang partem de Pequim). Só um desses trechos (São Paulo – Abu Dhabi) já seria maior que o insuportável Brasília – Paris que eu havia feito. Tive mais de um mês para me preparar psicologicamente, baixar programas para assistir no laptop, separar o livro que leria etc., até porque raramente gosto desses filmes de avião e, além disso, a maioria deles não tem legenda e sou completamente incapaz de entender um filme somente com áudio em inglês. Tem que ter legenda. Ela não precisa estar em português, pode ser em inglês, mas alguma legenda, tem que ter.

Bem, fato é que eu vim. Como dizia uma agência de turismo chinesa especializada na Coreia do Norte: venha visitá-la, enquanto ela ainda existe.


12/09/14: Chegando à Coreia do Norte

Depois da aterrissagem em solo norte-coreano, enquanto a aeronave ainda percorria, em solo, o aeroporto de Pyongyang, percebi que havia pouquíssimos aviões parados e só o nosso em movimento. Esses poucos aviões eram todos da Air Koryo, embora o nosso fosse da Air China. É natural que haja poucos aviões em Pyongyang, pensei, afinal quem mais seria louco o suficiente para vir para cá? Apesar disso, havia bastantes pessoas em nosso voo, sendo mais ou menos metade composta por chineses (normal) e a outra metade, por ocidentais (o que me surpreendeu. Depois, percebi que quase todos esses ocidentais eram diplomatas). Pensei ainda: pelo menos, com tão poucos aviões, não precisaremos pegar ônibus; a aeronave, provavelmente, vai parar em frente ao portão. Não. Pegamos ônibus. Depois, entendi por quê: havia várias obras no aeroporto e, perto do portão, a aeronave nem sequer conseguiria pousar. Não haveria espaço suficiente para ela, tampouco o solo me pareceu propício para um avião.

A pouca burocracia no aeroporto fez com que eu me admirasse. Pensei que fossem investigar nossas malas, olhar nossos livros, ver as fotos que trazíamos em nossas câmeras... Parece que há até pouco tempo, era normal o estrangeiro ter que deixar seus celulares no aeroporto e só pegá-los quando saísse do país. Mas, comigo, tudo correu normalmente e o procedimento de desembarque foi todo bem rápido (também por causa do pequeno tamanho do aeroporto). As fotos dos líderes norte-coreanos plainavam acima do portão de saída. Perguntei para o guardinha se podia tirar foto, ao que ele respondeu: “No picture, no picture”. Ok!

Um funcionário norte-coreano da embaixada brasileira nos recebeu. Chamava-se Che (não é irônico?) e falava um bom português. Levou-nos à embaixada, onde fomos recebidos pelo embaixador e de onde mandei um e-mail para meus pais, para dizer que cheguei bem. Internet, na Coreia do Norte, só ali na embaixada e, mesmo assim, era uma internet chinesa horrorosa. Para o estrangeiro ter internet em sua própria casa ou em seu quarto de hotel, tem que pedir autorização antecipadamente e pagar uma boa quantia de uns mil reais, dependendo do pacote ao qual vai aderir (todos muito ruins) e se será internet chinesa ou coreana (a coreana é mais rápida e sem bloqueios ao Google e ao Facebook, provavelmente porque, ao contrário do que acontece na China, o cidadão local nunca a utilizará, de forma nenhuma). A princípio, preferimos ficar sem internet mesmo e, de vez em quando, utilizar a parca conexão da embaixada.

Depois do encontro com o embaixador, viemos ao Koryo Hotel, que divide com o Yanggakdo a preferência dos turistas. Pesa a favor do Koryo o fato de ele estar em uma área mais ou menos central de Pyongyang, enquanto o Yanggakdo fica numa ilha, da qual não se sai a pé. O Koryo é um hotel grandioso, constituído por duas torres enormes e que oferece inúmeros serviços, como piscina, sauna, salão de cabelereiro, restaurantes (vários deles, incluindo um giratório), academia, secador de cabelos (para as mulheres), telefone com direito a ligações internacionais, massagem... Por falar em massagem, nos demos ao luxo de fazê-la, depois do infindável voo que tinha me destruído fisicamente. Uma massagem muito bem feita, de uma hora. O engraçado é que eu estava meio sem jeito com a massagista norte-coreana e só tirei a blusa. Ela fez um gesto brusco para eu tirar também a bermuda e ficar só de cueca. Ok, ok.

Após a massagem, fomos jantar em um desses vários restaurantes do hotel. Chegando lá, uma mulher com um vestido rosa de princesa veio nos receber, perguntando em que quarto estávamos hospedados etc. A roupa era ridícula, é óbvio (afinal, repito: era um vestido rosa de princesa), e a garota falava naquele tom fofinho-irritante. Mas ok, para quem temia ser cuspido pelos norte-coreanos, uma princesa fofinha não é algo a se reclamar. Ademais, a comida estava excelente. Pedimos três porções (um porco no molho vermelho agridoce, frango salteado com champignon e uma batata frita à moda coreana), o que, já somadas às bebidas, deu inacreditáveis5 euros (um paraíso!).

O quarto é bem agradável: tem televisão (com direito a alguns canais internacionais, como BBC), frigobar, banho com água quente, ar condicionado, um janelão para quando você quiser que o ar circule... Às nove e meia, eu já estava dormindo.


13/09/14

Acordamos às seis e meia (sem sono, depois de termos ido dormir tão cedo), descemos, às sete, para o café da manhã e, novamente, não tive o que reclamar da comida. Três pães, dois ovos, salsicha, iogurte (de que não gosto, mas a Luiza tomou), café, chá... Nada luxuoso, mas, ainda assim, melhor que alguns cafés da manhã que já tomei em Estados Unidos e Itália.

De volta ao quarto, tomei banho, me arrumei e saímos para o nosso primeiro passeio em Pyongyang. Antes de entrar no elevador, acabei por voltar ao quarto, para trocar meu habitual par de chinelos por um tênis All Star (o que sei lá se foi uma boa opção). Mantive minha bermuda e minha camisa de Paraty. Nas ruas, percebi que todos os homens vestiam calça, mas tanto fazia, já que todos me olhavam, de qualquer forma. Minha mulher e eu éramos encarados por todo mundo, praticamente sem exceção, como animais exóticos em Pyongyang. Já nos haviam dito que eles sairiam da frente, abririam espaço para nós, se afastariam o quanto pudessem... Não é verdade. Olhavam-nos, sim, mas sempre discretamente, com algum respeito.

Planejávamos ir para um restaurante que supostamente ficava dentro de um hotel. O restaurante chamava-se Arirang, mesmo nome do famoso festival de massa que ocorre todo mês de setembro, mas que, para o meu azar, esse ano não acontecerá. Dada hora, já não sabíamos mais onde estávamos. Triste vida sem o GPS do Google Mapas! Chegou a fatídica hora: teríamos que pedir informação. Falaríamos com os locais. Assim fizemos, não apenas dessa vez, mas ainda em mais uns cinco outros momentos. Para a nossa surpresa, todos foram muito solícitos conosco, com exceção de um guardinha com uma escopeta (talvez não devamos pedir informações a gente com escopeta na mão). Eles não falavam inglês, é claro, mas, em coreano, tentavam nos dar informações, nos explicar como chegar aos locais, olhavam o mapa que tínhamos imprimido etc. A comunicação sempre falhava, é claro, mas eles tentavam.

Desistimos de achar o tal restaurante e voltamos para o nosso hotel. Na verdade, estávamos tão perdidos que nem o nosso hotel nós sabíamos onde estava, mas, graças ao seu monumental tamanho, que nos permitia vê-lo ao longe, conseguíamos nos localizar minimamente. Dada hora, sentimo-nos como n’O Castelo, de Kafka, em que víamos o destino, mas nunca o alcançávamos. Mas chegamos. E tivemos outra refeição excelente, em um restaurante diferente de onde jantamos no dia anterior. Comemos língua, filé mignon, panqueca de feijão, arroz frito, uma sopa, umas folhas, cebola, três águas (dessas gasosas, mas com gás fraquinho, bem gostosas), tudo dando 17 euros. Mais caro do que o sensacional jantar de 5 euros da véspera, mas, ainda assim, um preço que considero justíssimo.

Apesar de não termos alcançado nosso objetivo, nossa caminhada passou longe de ter sido inútil. Sentir um pouco a vida norte-coreana nas ruas, sem guias, sem fiscais, poder se comunicar com as pessoas locais, ver as crianças saindo da escola (elas também estudam no sábado. Na Coreia, o único dia não útil é domingo), tudo isso foi bem legal. Algumas coisas me chamaram particular atenção: 1) as crianças andam sozinhas na rua desde muito novinhas. Tinha garotinhos de três ou quatro anos caminhando livres pelas ruas. Fruto, talvez, de uma cidade em que provavelmente não há nenhuma criminalidade, mas, ainda assim, surpreendente. Sei lá: ainda que não haja violência urbana, essas crianças têm que atravessar rua, saber os caminhos etc., sendo realmente muito novas; 2) os asiáticos (creio que não é uma coisa só dos norte-coreanos) têm um estranho hábito de ficar agachados no chão, apoiados em seus próprios pés, com os braços pendendo sobre os joelhos, o que é simplesmente bizarro para olhos ocidentais. São vários, no meio da rua, que estão nessa posição esquisita, aparentemente não fazendo nada; 3) você só pode atravessar a rua nas faixas de pedestre ou em passagens subterrâneas e passarelas. Se você desobedecer, vai ouvir um apito da guardinha de trânsito (geralmente, são mulheres). Nós fomos obedientes, mas vimos alguns próprios norte-coreanos tomar apitada e ter que voltar para atravessar no lugar correto.

O clima está muito quente. Esperava uma temperatura mais amena, agora que, em setembro, o verão já vai se encerrando. Queríamos comprar uma água ou algum sorvete na rua. Para um país comunista, há mais da chamada livre iniciativa do que eu esperava (ou será que as iniciativas não são assim tão livres?). Tem várias barraquinhas vendendo comilanças, mas como entrar em contato com eles, que nem sequer falam “hi” ou “thankyou”? Pior: como comprar algo se nós não podemos usar a moeda local (é crime um estrangeiro portar moeda norte-coreana)? Como pagaríamos uma garrafa de água com euro? Ainda que aceitassem (o que não aceitariam), e se eu precisasse de troco? Gringo só compra em loja de gringo, só come em restaurante para gringo. Por razões análogas, você não pode usar o transporte público local. Nem táxi. Em Pyongyang, para se locomover, o turista só tem as suas pernas.

Aliás, esse lance do troco é significativo, mesmo em estabelecimentos para estrangeiros. Se um dia você vier à Coreia do Norte, traga seu dinheiro o mais trocado possível. É muito normal eles não terem troco.

À tarde, depois do magnífico almoço, dormimos. À noite, fomos a uma cervejaria, a convite do embaixador, com quem estariam, ainda, três brasileiros do Itamaraty, que trabalham em Minsk, Pequim e Berlim e que vieram turistar em terras exóticas. Provavelmente, nunca houve tantos brasileiros ao mesmo tempo em solo norte-coreano. A cerveja estava boa e a comida, mais uma vez, muito gostosa. Até agora, não tenho do que reclamar da culinária local.

Saindo da cervejaria, atravessamos a rua, caminhamos um pouquinho e visitamos a Torre da Ideologia Juche, um monumento fantasticamente iluminado, muito bonito. Aliás, de lá, tínhamos uma bela vista de Pyongyang, com prédios muito luminosos, que resplandeciam na escura noite norte-coreana. Aquilo poderia ser Dubai, mas era a Coreia do Norte. É, de certa forma, até desolador pensar que tanta energia está sendo empregada naqueles prédios, enquanto, na maior parte da cidade, há cortes de eletricidade e, no interior do país, ela nem sequer existe. Independentemente disso, aquela vista era um espetáculo.

Voltamos ao hotel e dormimos. O bom de Pyongyang é isso: restam poucas coisas para fazer, além de comer e dormir.


14/09/14

Hoje, tive minha primeira experiência com a ditadura norte-coreana. Estávamos andando, felizes e contentes, quando fomos parados por dois militares ofegantes. Falaram qualquer coisa em coreano que não entendemos. Puxei logo os passaportes diplomáticos. Olharam na câmera algumas fotos que tiramos e nos liberaram.

Tirando esse momento tenso, o restante do dia foi tranquilo. Andamos bastante, nos perdemos de novo, visitamos as estátuas de bronze dos líderes, almoçamos kimchi e bibimbap (não sei se escrevi certo), típicos pratos coreanos, muito bons. Teve ainda panquecas arirang(umas panquecas daqui) e camarões (queeles chamam de “lobster”, mas que não são lagostas). Isso, no Restaurante Arirang, que estávamos buscando ontem e que, enfim, encontramos. Tudo, 15 euros.

Hoje, domingo, único dia de folga dos coreanos, tinha muita gente praticando esportes nas ruas, principalmente vôlei. O engraçado é que, no Brasil, eu li textos que diziam que, em Pyongyang, eu encontraria pessoas se exercitando, mas que duvidaríamos de sua felicidade: seriam pessoas contratadas pelo governo para fingirem ser felizes. Um absurdo. É claro que as pessoas estavam sendo naturais. Outro mito era esse de que as pessoas são proibidas de falar contigo. Com exceção de uma mulher, que virou as costas quando nos aproximamos para falar com ela (como que com medo de animais estranhos que se aproximavam), todo mundo nos respondeu, tranquilamente. É claro que há o enorme empecilho da língua, mas, se eu falasse coreano, poderia conversar com eles, normalmente. Terceira lenda urbana: em Pyongyang, quase não há carros e as guardas de trânsito ficam rodopiando em torno de si mesmas, sem função. Não é verdade. O número de carros me surpreendeu. Não chega a haver congestionamento, é claro, mas há, sim, um bom número de carros. E as guardinhas do Detran coreano talvez sejam um pouco inúteis, mas não são essas figuras esquizofrênicas que as pessoas pintam.

Pyongyang é uma cidade-vitrine. Todos sabemos que, no interior do país, a situação é muito pior. Mesmo aqui, há bairros a que jamais chegaremos. Isso, porém, não faz da cidade uma farsa. Pyongyang é uma cidade real, com pessoas reais. Não é verdade todo o papo de pessoas contratadas para ficarem lendo nos parques (para pensarmos que são intelectuais), para serem felizes ou para serem bonitas. Vamos combinar: mal há turistas em Pyongyang. Para quem esses supostos atores encenariam?

Hoje, ainda fiz uma rápida ligação para o Brasil, diretamente do hotel. Senti-me como o ET, tentando falar com sua casa, pois nunca conseguia completar o telefonema. Parece, entretanto, que a culpa era minha, pois não esperava dar sinal antes de começar o DDI. Uma vez que obtive êxito, a ligação estava muito boa. 2,4 dólares por minuto, portanto só dei oi e tchau. 


15/09/14

Tive outras belas e baratas refeições hoje, mas vou parar de falar nisso. Tenham apenas em mente que, em Pyongyang, come-se bem e paga-se pouco (sempre do ponto de vista de um estrangeiro, é claro). Decepcionou-me apenas o fato de os pratos norte-coreanos serem menos apimentados do que dizem que acontece com sua vizinha do sul. Mas isso é porque eu gosto de pimenta. Para a maioria dos ocidentais, isso pode ser um alívio.

O almoço foi em um restaurante na embaixada da Índia e ao lado do Pyongyang Shop, um supermercado no bairro diplomático com diversos produtos importados (pães, queijos, chocolates). Já vi à venda por aqui, não só nesse mercado, umas garrafas de bebida alcoólica com uns bichos dentro, inclusive cobras. É uma coisa muito bizarra. Um bom presente para um inimigo oculto ou algo assim. Quero ver é beber isso no gargalo, com o bicho atravessando todo o interior da garrafa, quase alcançando a tampa.

Eu já disse que me surpreendi com o número de carros de Pyongyang. Causou-me espanto também o fato de eles buzinarema todo momento. Buzinam como em qualquer grande cidade do mundo. Pensei que fossem mais recatados no trânsito.

Enquanto esperava pela hora de saída da Luiza, lendo, em uma sala, passou por mim uma norte-coreana, carregando vassoura, pá, uma enorme caixa de papelão e alguns produtos de limpeza. Somado isso ao fato de ela ter que abrir e fechar as portas, ela estava bastante enrolada. Ofereci-me para ajudá-la, para carregar algo para ela. Ela implorou para eu não fazer nada. Eu tinha chegado a pegar algumas coisas, mas ela pediu tão aflitivamente para eu não auxiliá-la que devolvi a ela os produtos e apenas abri a porta para ela passar. Que coisa, não?

De noite, a Luiza quis correr. Ela corre em Brasília e não quis interromper sua prática na Coreia do Norte. O problema é justamente esse: aqui, é a Coreia do Norte. Se já nos olham com curiosidade enquanto caminhamos, imagina correndo. Temia pelo momento em que algum militar se atiraria sobre nós, pensando que estivéssemos correndo da polícia ou algo assim. Digo “nós” porque eu também corri. Não ia deixá-la ser presa sozinha. A corrida foi nas margens do rio, local bom para exercícios. O chato não foi no rio, propriamente dito, mas no acesso a ele. Isso porque tinha muita gente pelas ruas e, para atravessá-las, tinha o esquema das passagens subterrâneas, que atrapalhava um pouco a corrida. É melhor correr só no rio mesmo. Lá, inclusive, tinha um velhinho se alongando da seguinte maneira: apoiado em um galho de uma árvore, ele erguia todo o seu corpo e colocava as pernas em noventa graus, permanecendo nessa esdrúxula posição por alguns segundos. Retornava ao chão e voltava a fazer o exercício. Eu ficava cogitando a hipótese de o galho quebrar. Esses orientais são mesmo estranhos. E repito: era um velhinho já.

Hoje, ainda, fomos ver um apartamento público, no bairro diplomático, para compará-lo ao hotel. Preferimos o hotel mesmo. O apartamento tem a enorme conveniência de ser do outro lado da rua, em relação à embaixada, mas uma vez que o motorista vem buscar a Luiza no hotel, essa vantagem é minimizada. Haveria também a vantagem de podermos almoçar juntos, mas nada que uma “pequena” caminhada de 7 ou 8 km, a distância entre o hotel e a embaixada, não resolva. Afinal, o conforto do hotel venceu. Por falar no hotel, muita atenção com seus elevadores! Eles são assassinos e se fecham quase imediatamente depois de se abrirem. Aliás, outra estranha característica daqui é o hábito das faxineiras de tocarem a campainha e já saírem entrando no quarto. Temo pelo dia em que me encontrarão nu.


16/09/14

Como já disse anteriormente, em Pyongyang, você come e dorme. Em outras viagens, já tomei cafés da manhã muito rapidamente, quase os engolindo, porque tinha hora marcada para ir a museus, parques, passeios etc. Já, aqui, eu tenho pressa para quê? Tomei um café tranquilo, lento, gastando um longo tempo apenas para beber o gostoso chá que puseram à mesa. Comer devagar é outra coisa: tudo parece mais saboroso.

O garçom me rodeou por alguns segundos e, tomando coragem, perguntou o que era aquilo, referindo-se ao iphone. Eu disse que era um celular que tinha também outras funções. Ele pediu para ver e eu assenti. Ele perguntou o que era um aplicativo que a Luiza usa para correr (não sei por que ele encasquetou só com esse aplicativo) e eu expliquei, mas duvido que ele tenha entendido. Ele ficou comparando o iphone com o seu próprio celular e soltando risinhos. Eu adoraria ter lhe mostrado o Facebook, WhatsApp, Google, as maravilhas da internet, mas, sem conexão, não dá. Falei-lhe que a maioria das funções do aparelho não funciona na Coreia do Norte, ao que ele riu, não sei se como quem diz “é, eu sei que não, aqui é um outro planeta” ou se ele apenas não me entendeu.

Esses poucos norte-coreanos que lidam com estrangeiros, que nem esse garçom, devem ter uma visão muito diferente da do cidadão médio. Tenho a curiosidade de saber o que ele acha que são o mundo e a Coreia do Norte. Ele pode não saber o quê, mas deve entender que há algo de muito diferente com seu país.

Eu, antes, era da opinião de que a abertura da Coreia do Norte seria questão de tempo. Encontrei, porém,estrangeiros um pouco mais pessimistas por aqui, que dizem que simplesmente não há sociedade civil no país. O que tornaria a Coreia do Norte tão singular seria justamente o fato de nunca ter havido uma voz dissonante. De acordo com essa mesma linha de raciocínio, a reunificação das Coreias já teve o seu tempo, passou do ponto. O ódio recíproco se cristalizou de tal forma que elas nem sequer conseguem se sentar numa mesma mesa de negociação. Conforme o tempo vai passando, os antepassados que viveram na época de uma só Coreia vão morrendo e ficando cada vez mais distantes das gerações atuais, o que diminui a sensação de serem um só povo. A reunificação, assim, acaba por não interessar a ninguém: o sul não quer quase 30 milhões de norte-coreanos que não sabem fazer nada entrando em sua parte sulista desenvolvida e o norte, mais frágil, teme acabar sendo engolido por Seul.

É meio triste isso, porque as Coreias têm claramente um mesmo povo. A fronteira é completamente arbitrária e, se você olhar o mapa, até geograficamente faria mais sentido serem um só país. Soma-se a isso o fato de serem os únicos países do mundo a falarem coreano (apesar de, dizem, o coreano da parte do sul ter se desenvolvido muito mais e incorporado gírias e termos em inglês, enquanto o coreano do norte parou no tempo). Não é o mesmo que aconteceu com as Alemanhas, por exemplo. O mapa da Europa é tão confuso que as Alemanhas serem dois países diferentes faz tanto sentido quanto a Áustria ser independente. Há ainda quem use a reunificação das Alemanhas como esperança para as Coreias. Acontece que o abismo que separava as Alemanhas era bem menor do que o daqui, até mesmo porque, nos anos 80, o poderio tecnológico da Alemanha Ocidental era bem menor do que é o sul-coreano hoje.

Enfim, se o regime norte-coreano vai cair, se as Coreias se juntarão de novo, tudo isso só o tempo irá dizer. O que eu sei é que estou indo comer de novo.




3 comentários:

  1. Adorei o texto. Dei risadas em diversos momentos e apesar de não fazer ideia de como é a Coreia do Norte, consegui visualizar muito bem vocês dois nessa aventura, seja no restaurante, correndo a beira do rio com o idoso na árvore ou ouvindo os apitos da guarda de trânsito.

    Espero que a estadia de vocês por aí seja aventureira, mas nem tanto. Fiquem bem e volte para narrar mais coisas além da comida.... hahahahaha

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  2. Hauauhuha, pode deixar que a gente volta, Melissa.

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