segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 3

23/09/14

Antes de qualquer coisa, uma retificação histórica: os EUA não pediram desculpas por terem participado da Guerra das Coreias, mas, sim, por espionagem à Coreia do Norte, já na Guerra Fria, mesmo contexto em que o navio norte-americano Pueblo foi apreendido, junto com 83 reféns. E um acréscimo de informação/curiosidade: a guia, no Museu da Guerra, nunca chamava Seul pelo nome, mas sempre como “a capital do inimigo”. Pesado, né?

Dito isso, voltemos aos relatos. Cheguei por volta de meio-dia em Pyongyang, depois do passeio ao Monte Paektu. Pyongyang, bem mais quentinha que lá no norte; Pyongyang, onde não falta luz à noite. Mentira; falta, sim. E não só à noite. Não falta aqui no hotel, mas há apagões por toda a cidade, o tempo todo. Prova disso são as guardinhas de trânsito que ficam mesmo onde já tem semáforo. Como há constantes quedas de energia, esses semáforos invariavelmente se apagam. Seja como for, Pyongyang é uma cidade-vitrine. Todo elogio feito à Coreia do Norte deve se ater ao fato de que Pyongyang tem em torno de apenas 10% da população norte-coreana e de que é no interior ondese estima a existência de crianças subnutridas e prisões com trabalhos forçados. Avanços são feitos, porém, especialmente quanto a este último item. A Coreia do Norte, pela primeira vez, admitiu que tem problemas com Direitos Humanos e apresentou um relatório do tema à ONU. (Acho engraçado como os mesmos ocidentais que ficam maldizendo os Direitos Humanos se escandalizam com o stalinismo...) O governo norte-coreano se dispôs, inclusive, a colaborar na solução desses problemas. Se vai mesmo, não sei, mas achei muito digna a iniciativa.
A mulher da lavanderia ainda não pegou minhas roupas que, desde antes da ida ao Monte, eu havia separado. Fui à recepção reclamar, mas cheio de dedos. Sei lá o que podia acontecer com a mulherzinha. Vai que ela fosse executada por não recolher as roupas sujas do estrangeiro. E não é que menos de meia hora depois a mocinha já estava batendo na minha porta?

Já posso ver alguns enfeites de natal no hotel. Mas o que é o natal em um país ateu? Nada. Os enfeites são para o ano novo. As pessoas não comemoram o natal aqui.

O rio de Pyongyang, um dos principais pontos de entretenimento ao ar livre, fica repleto de casais de namoradinhos ao entardecer. Mas namoradinhos ao estilo asiático: um bem distante do outro. (Em vez de aproveitarem a escuridão das noites daqui...)

Eu não sou desses que acham todas as crianças do mundo bonitas. Ao contrário, acho que a maioria delas é feia. Mas as crianças coreanas são um capítulo à parte nesse grande universo de feiura infantil. Elas são tão fofas quanto um bichinho de estimação. Se eu tivesse um filho coreano, acho que o apertaria até fazê-lo sangrar, pobrezinho. São mesmo muito bonitinhos.


24/09/14

As roupas já estão lavadas e passadas! Fico de brincadeira, falando que as meninas estavam com medo de serem executadas pelo regime, mas vejam que bizarro: tem um norte-coreano na embaixada brasileira que me parece ser o chefe dos funcionários locais (mais velho, fala um português melhor etc). Ele disse que ia prestar uma queixa formal contra o motorista, porque este nos deixou esperando num dia desses. Eu nem me lembrava de ter ficado esperando e, ainda que tenha acontecido, não foi por mais do que alguns minutos. Mas ele falou que isso não importava, que era a imagem da Coreia do Norte perante as embaixadas que estava em jogo. Achei cruel demais. Aliás, esse motorista, que era o que estava ouvindo Bon Jovi, hoje, estava escutando Marisa Monte e The Cure.

Fui ao festival de cinema ver o filme do Pelé (Chaves me invejaria). Aquela mesma coisa do filme do Ronaldo: era um documentário brasileiro e, portanto, não pude dizer “não”. Esse filme estava mais cheio, inclusive com vários coreanos presentes (já no fim, quando mostrou a passagem do Pelé pelos EUA, desfilando com a bandeira norte-americana e tudo, ouvi um certo burburinho, mas pode ter sido só impressão minha). O pior é que, coitados dos coreanos, em algumas partes, a legenda simplesmente sumia. Acho que o carinha responsável por legendar o filme era partidário da filosofia do Romário: o Pelé, calado, é um poeta.

À tarde, depois de almoçar uma gostosa pizza no Friendship (restaurante no bairro diplomático, onde as garçonetes têm um inglês bem acima da média), fui à cerimônia de encerramento do festival. O filme vencedor foi um alemão (“My beautiful country”), que, coincidentemente ou não, falava sobre a Guerra do Kosovo e fazia uma crítica à OTAN. Aliás, nenhum filme que vi (que não foram muitos, é verdade) apresentava grandes riscos ao sistema. A única cena mais controversa a que assisti foi a de uma mulher mostrando a bunda para o túmulo do marido, o que gerou um tsc, tsc, tsc de alguém atrás da gente. Fora isso, todos os filmes muito seguros para a soberania do Kim jong-un, que, dizem uns boatos nascidos no Ocidente, têm aparecido pouco em público porque está extremamente obeso, após ter se viciado em queijos suíços. Isso deve ser invenção, mas a história é tão engraçada que eu repito: ele mandou norte-coreanos à Suíça, para aprenderem a fazer queijo (o próprio Kim jong-un já estudou na Suíça), mas os suíços se recusaram a colaborar e o pobre Kim, além de não ter conseguido o know how dos queijos, ainda ficou gordão. Logo ele, que tem um regime para sustentar, não consegue fazer um regime para emagrecer.

Ok, depois desse misto de fofoca e calúnia quanto à obesidade do líder supremo, voltemos à cerimônia de encerramento do festival. Os cineastas da Alemanha redigiram uma carta de agradecimento ao Kim jong-un, que, gordo ou não, vai gostar de lê-la. Era uma carta bem constrangedora, exaltando todas as maravilhas do regime norte-coreano, dizendo que o Kim jong-un está prosseguindo o grandioso legado deixado por Kim il-sung e Kim jong-il, filhos da Ideologia Juche. Pareciam norte-coreanos falando, cheios de chavões locais. Não sei por que escreveram isso... Fato é que o filme Brasil/Vietnã não ganhou prêmio nenhum.

A faixa de pedestre em Pyongyang é uma coisa muito estranha, especialmente para quem mora em Brasília. Aqui, o pedestre só pode atravessar nela (ou nas passagens subterrâneas e passarelas), mas isso não significa que, uma vez na faixa, a prioridade será dele. O carro até reduz a velocidade quando está próximo de uma demarcação, mas rola uma negociação entre o motorista e o transeunte, não estando o primeiro obrigado a parar nem o segundo liberado para atravessar. É normal ver pedestre parado no meio da faixa, esperando sua vez de continuar a travessia. Isso, à noite, sem nenhuma iluminação pública, é um problema.


25/09/14

Hoje, fomos visitar o Palácio do Sol, onde estão embalsamos os corpos do Kim il-sung e do Kim jong-il, depois de termos sido devidamente autorizados pelo governo, como tem que acontecer com todos os passeios aqui. No nosso caso, o Che, funcionário da embaixada, intermedia esse processo, mas um turista normal já tem que chegar aqui com seu respectivo guia norte-coreano, para os pedidos de autorização etc. Até para ter a internet (aquela caríssima, de mais de mil reais), você tem que, antes, pedir autorização ao governo norte-coreano.

O palácio é bem grandioso, como são todos os museus daqui. Porquanto são novos, dão de dez a zero naqueles castelos italianos. O tamanho monumental do palácio contrasta com os pequenos corpos embalsamos do Kim il-sung e do Kim jong-il, mas isso não pode nem ser pensado alto, porque é altamente ofensiva a menção às baixas estaturas dos líderes. Nunca, em hipótese nenhuma, faça piadinha com isso. Ao longo do trajeto, vimos, além dos corpos embalsamados, os trens e os navios por onde os líderes viajavam. O Kim jong-il morreu em um desses trens, que estava lá, com alguns de seus pertences no dia de sua morte, incluindo um Mac Book. Havia ainda medalhas oferecidas a ambos por várias autoridades do mundo (nenhuma do Brasil). Ao fim do passeio, tínhamos que escrever, em um livro, o que achamos do lugar. Felizmente, falamos coisas boas, porque, depois, o guia traduzia aquelas palavras para o coreano e um outro funcionário vinha ler se estava tudo nos conformes...

Mudando de cenário, um coreano veio me dizer que eu devo ser muito orgulhoso da minha esposa porque ela é muito bonita, enquanto todas as outras esposas que estavam no recinto eram feias. Eu ri e perguntei se ele era casado ou tinha namorada. Ele falou que não, que era muito novo para isso (25 anos). Ainda rindo, eu disse que, no Brasil, ele já estaria passando do ponto, que, no meu país, ele seria considerado novo se tivesse menos de doze anos de idade. Ele se surpreendeu, porque a idade média para os homens começarem a namorar é 28 anos e, para as mulheres, 25.Mas, logo depois, veio o apogeu: ele falou que queria uma namorada de peitos grandes (“big breasts”). “Ah, cabra esperto, sabe o que é bom nessa vida, né?”, “No, no, just kidding”, “Que estava brincando o quê! Mas me diz aí, onde vocês conseguem mulher por aqui?”, “Ah, é difícil, aqui não tem bar, a gente conhece na universidade e, uma vez que você já está graduado, perde acesso a elas, e no Brasil?”. “Bares, balada, ruas, internet, muitas opções!”, “Oh!”, “É...”

Coitado do coreano... Eu estava querendo realmente incitar um pouco a curiosidade dele. Mas pô, temos aqui uma dupla dificuldade, eu pensei: 1) Se, na universidade, você é muito novo e, depois, perde acesso a elas, como faz?;2) Cacete, mulher peituda, na Coreia? Com todo respeito às coreanas, que creio serem as mais bonitas desse extremo asiático, acho que a gente vai ter que viajar um pouquinho para conseguir esses big breasts, viu? Bora lá no Brasil!

(É, teoricamente, aqui não tem nem bar nem balada, como ele vai conseguir uma peituda? Aquela balada que eu disse que ia rolar aqui é de gringo, me enganei. Coreano não pode ir, uma pena. Mas, apesar de as únicas festas permitidas serem para o partido e para os líderes, especula-se que rolem umas festinhas privadas proibidas.)

Mas vejam só, depois caiu a ficha: mulher peituda, na Coreia? Como assim? Aqui as mulheres não são peitudas e, ainda que a genética tenha inexplicavelmente favorecido uma coreana, elas não usam nada sequer próximo de um decote... O que esse cara sabe sobre mulheres peitudas? O que ele anda vendo? Esse imaginário de mulher de peitos grandes não pode ter vindo só do que ele vê ao vivo... Hum...

Esse cara é um hedonista! Ele disse ainda que gosta muito de boas comidas e boas músicas. “Tenho que aproveitar a vida, porque ela é curta”. Ele falou seguidos “enjoy” numa frase só. Isso me alegrou: o norte-coreano não é um E.T., como os ocidentais pensam. Ele é um ser humano que, independentemente de qualquer coisa, quer o mesmo que todos nós: música, comida e seios.


26/09/14


Não resisti e fui à baladinha norte-coreana. Eu teria gostado mais se fosse um lugar de norte-coreanos, em vez de uma balada de gringos, mas pô, é uma balada em Pyongyang, isso não perde seu caráter antropológico. Para tal, peguei o carro da embaixada, já que voltaríamos de madrugada para o hotel. Era um carro automático, a primeira vez que dirijo um. E vejam que ironia: minha primeira vez com alguma coisa tecnológica, qualquer que seja ela, ser logo na Coreia do Norte, o país antítese da tecnologia.

É bem tranquilo dirigir aqui, com exceção dos pedestres atravessando nas ruas completamente escuras. Eu, agora como motorista, confirmei que simplesmente não dá para ver as pessoas no breu da noite norte-coreana. A propósito, não deem créditos para as notícias de que há toque de recolher em Pyongyang. Mesmo às 2 e pouco da manhã, quando eu voltava para o hotel, tinha gente na rua e, mais cedo, quando eu estava indo para a balada, vi várias pessoas posicionadas embaixo dos poucos postes da cidade, lendo, aproveitando aquela rara luz. Provavelmente, são pessoas que não têm eletricidade em casa.

A balada era qualquer coisa de esquisita: uns estrangeiros dançando, alguns mais velhos, nenhum norte-coreano, com exceção das meninas que trabalhavam como garçonetes e que davam um evidente mole para os gringos. Uma das coreanas só faltou agarrar o alemão na marra, eu pensei, mas engano o meu. Já me disseram que elas, pertencentes à elite, filhas de militares, são apenas treinadas para conseguir alguma coisa (não entendi se dinheiro ou informações) dos gringos, que elas dão mole dentro de um limite seguro. Quando um outro estrangeiro puxou a norte-coreana para perto de seu corpo, ela correu de volta para trás do balcão e o deixou na vontade.

“Elas não podem sair desse estabelecimento nunca”, me disse outro estrangeiro. “Uma delas um dia me confessou que nunca tinha tomado um cappuccino, que tinha muita vontade. Eu a convidei, então.‘Venha, vamos tomar um cappuccino’. Ela pediu permissão ao chefe, que negou. Eu mesmo fui falar com ele, expliquei que só queria tomar um cappuccino com a menina, na hora de folga dela. Ele falou que não. Perceba que essas meninas moram aqui. Elas servem bebida, limpam o chão, fazem faxina e moram nesse lugar.E olha que são da elite! O privilégio delas é poder falar com estrangeiro. Portanto, ela nem poderia fugir comigo para tomar o cappuccino.” “E você nunca conseguiu levá-la para tomar o cappuccino?”, eu perguntei. “Consegui”, ele respondeu, “mas foram necessários dois anos até o chefe liberar. Fomos só ela e eu no meu carro. Nunca vi alguém tão agitado como ela estava.” “Agitada como? Ela estava com medo ou empolgada por estar saindo a sós com um estrangeiro?” “Os dois. Ela estava muito agitada mesmo! Tomamos o cappuccino, trouxe ela de volta e nada mais.”

Nessa hora, tinha uma galera querendo jogar um verdade ou consequência extremo, com consequências bem bizarras. “Nós estamos em Pyongyang, a capital do tédio, a gente tem que se divertir!” Mas eu estava mais entretido na conversa. Outro estrangeiro me falou que havia convidado uns norte-coreanos amigos dele para um jantar. Eram todos casados e, assim como acontece no Ocidente, era de se imaginar que levassem suas esposas. Não, não podiam. Elas não estavam autorizadas a conversar com estrangeiros, somente os maridos.

“Japanese are shit!”Aqui, já era um professor de inglês na Universidade de Pyongyang quem falava. Ele disse que já deu aulas de inglês no Japão e na Coreia do Norte e, para a minha extrema surpresa, ele falou que os coreanos são mil vezes melhores que os japoneses. Aliás, as crianças começaram a ter aulas de inglês já na escola. De vez em quando, vê-se uma criancinha na rua, ainda sem medo de ter contato com estrangeiro, falando “hellooooooooo”, com suas bochechonas grandes e seus olhos pequenininhos. Essas crianças norte-coreanas são mesmo muito bonitinhas! Em algum tempo, creio que acabará esse mutirão de pessoas que não sabem falar nem “thank you”. Essas aulas de inglês para crianças fazem parte de uma recente reforma educacional no país, que inseriu ainda aulas de informática e de educação social (o que quer que isso signifique). Aliás, por falar em educação, vale ressaltar que há tempos o analfabetismo foi praticamente erradicado na Coreia do Norte.

Por fim, os britânicos deram calote na balada, saíram sem pagar (“Fucking British!”, disse o escocês), minha conta e a da Luiza deram só 10 euros (pouco, embora eu não tenha bebido, já que tinha que dirigir) e viemos de volta para o hotel. 


27/09/14

Para decepção da Luiza, não há manicures em Pyongyang!

Pouco antes de viajarmos à Coreia do Norte, chegou uma ordem para todas as embaixadas, ordenando-lhes que diminuíssem o sinal do wi-fi, porque havia norte-coreanos que se posicionavam proximamente às representações, para conseguirem o sinal. A embaixada russa desobedeceu e teve que pagar uma multa bem grande (e olha que a Rússia é amiguinha histórica!). Não sei se foi por isso, mas vi uns coreanos andando na calçada da embaixada e um policial ordenou que atravessassem para o outro lado. Há uns tempos, isso não seria problema, porque ninguém tinha celular que pudesse receber sinal de wi-fi, mas, hoje, muitas pessoas têm um.

Almocei ontem tartaruga (em um restaurante que tinha carne de cachorro no seu menu).

Tem coreano tatuado, olhem só! Já ouvi falar também de coreana andando nas ruas com cabelo pintado de vermelho. Raros, mas radicais!

Estava passando, anteontem, no telão da praça perto do hotel, a cerimônia de encerramento do festival de cinema. Não sei se eu apareci lá, mas sei que fui filmado. Será que já sou uma celebridade norte-coreana?

Hoje, pela primeira vez, a imprensa da Coreia do Norte admitiu um problema de saúde com algum líder. Como Kim il-sung e Kim jong-il eram vistos como deuses, não se podia cogitar que adoecessem. Hoje, porém, a emissora oficial do governo noticiou que Kim jong-un está sumido desde o dia 3 de setembro por causa de “problemas físicos”, sem mencionar o que pode ser. Talvez, aqueles boatos sobre os queijos suíços tenham um fundo de verdade. A imprensa em Seul está dizendo que ele está com gota, que supostamente é um problema genético que também afetou seus ancestrais, mas não podemos dar muito crédito às informações vindas da capital do inimigo.

Hoje, fui à piscina do clube diplomático. Muito boa. Parece que há alguns anos estrangeiro só podia entrar depois das 7 da noite, para não se misturarem com coreanos, mas agora, não. Tinha uns coreanos lá. Luiza, aliás, ficou muito surpresa, porque, no vestiário feminino, as mulheres estavam todas nuas, de boa, conversando, andando para lá e para cá. Para um povo tão retraído, essa nudez descompromissada foi uma surpresa.

Por fim, uma aula sobre a economia norte-coreana: fiz uma compra de 13 dólares, acrescentei 5 yuan (moeda chinesa) para facilitar o troco e recebi o troco em euro.


28/09/14


Hoje, no café da manhã, conheci uns portugueses. Um deles tem uma agência de turismo chamada Pinto Lopes, que pretende iniciar pacotes turísticos para a Coreia do Norte. Poderá ser muito útil para os brasileiros que querem vir para cá (uma agência em português!). Tinha ainda no grupo um escritor, José Luis Peixoto, que lançou um livro sobre a Coreia do Norte e que estava aqui a convite do dono da agência. Pelo que entendi, esse dono convidava escritores que já tenham escrito sobre um país para visitar esse lugar. Invejinha branca, hein!

Terminado o café, pé na estrada para irmos ao Monte Myohyang, se é que escrevi corretamente. Fomos com o Che. Duas horas de viagem, durante as quais pudemos ver um pouquinho da vida mais para o interior. As estradas já ficam bem mais acidentadas, mas nada muito fora dos padrões brasileiros. Trabalhos braçais pesados (mesmo num domingo) ao longo de belíssimos campos compunham a paisagem. Muita gente tomava banho e lavava as roupas nos rios, talvez por não terem banheiro em casa. Conheci um rapaz que me disse que, fora de Pyongyang, a maioria das residências não tem banheiro! Nem imagino como eles fazem, especialmente em apartamentos. No inverno, principalmente, deve ser duro.

Visitamos o Palácio dos Presentes, um lugar magnífico onde se encontram os presentes recebidos pelos três presidentes: os dois antigos e o atual. Fiquei impressionado, porque nunca tinha visto um lugar assim em nenhuma parte do mundo. Na verdade, eu nem sabia o que presidentes ganhavam. Tem todo tipo de presente: pratos, móveis, trens, carros, bugigangas, tapetes, animais, quadros e até um avião (que sabe-se lá como fizeram para colocar ali dentro). Tinha muita coisa mesmo! A guia falou que, se gastássemos um minuto com cada presente, levaríamos um ano para completarmos a visita. Tinha até presentes recentes de EUA e Japão, nações inimigas. Do Brasil, vi um prato com uma imagem panorâmica do Rio e parece que tinha uma bola de futebol do Pelé, mas esta estava em outro prédio e não vi. Depois, fiquei pensando: o que os presidentes dos outros países fazem com os presentes que ganham? Devem jogar fora, não é possível. Só aqui vi um museu desses.

Ainda no Palácio dos Presentes, tinha uma estátua de cera do Kim il-sung e outra do Kim jong-il que achei mais impressionantes do que seus corpos embalsamados no Palácio do Sol. Eram estátuas em tamanho real, muito realistas, com a pintura em movimento do Monte Paektu ao fundo. Ao contrário do Palácio do Sol, eles aqui estavam de pé (afinal, eram estátuas, não os corpos reais embalsamados), dando uma estranha sensação de estarem vivos.

Sempre que você está diante da representação de um líder, você tem que se abaixar e saudá-lo, mostrando respeito. Trata-se de lugares sagrados para os coreanos, que, em vez de terem uma religião, seguem seus presidentes, como se estes fossem deuses. Não os julguem. Tem tanta gente no mundo idolatrando Jesus Cristo, que também foi um homem como todos nós, por que os coreanos não podem idolatrar Kim il-sung ou Kim jong-il?

Durante a visita, a guia nos perguntou o seguinte: “Fiquei sabendo que na internet tem os grandes feitos do presidente Kim jong-un. Vocês já assistiram à internet?”. Ok, me pareceu uma pergunta de alguém que não sabe mesmo o que é internet. Tadinha, era uma guia muito boazinha, mas essa pergunta me deixou sem saber como responder.

Almoçamos e fomos a um templo budista, onde tinha um controverso sacerdote que falava demais nos líderes norte-coreanos. Já li por aí que se tratava de um ator se passando por budista, mas, como ocidental adora inventar que tudo na Coreia do Norte é fingimento, não dá para dizer nada. A despeito disso, o templo era bonito. O país é ateu e religiões aqui são proibidas, mas o templo está lá, reconstruído após os bombardeios japoneses.

A diferença entre o que ouvi falar e o que realmente vi na Coreia do Norte me levou à óbvia conclusão de que a imprensa ocidental age de má fé com o país. E age mesmo, é claro, mas parece que muita coisa mudou de cinco anos para cá, ou seja, nem tudo é mentira descarada. A iluminação pública, que é hoje é rara, antes era inexistente. O povo nas ruas, que hoje, com uma ou outra exceção, te responde quando você pergunta como chegar a determinado lugar, antigamente nem te olhava e saía correndo quando um estrangeiro se aproximava. Os próprios estrangeiros, que hoje têm ficado no Koryo Hotel, localizado numa área mais central de Pyongyang, antes iam para o Yanggakdo, isolado numa ilha. O número de mercados, de carro, de semáforos, tudo é novidade numa cidade que está mudando o tempo todo. Ou seja, os relatos mais antigos que vi talvez não sejam oriundos de pura má fé, mas apenas anteriores a todas essas mudanças.

Porém, às vezes, acho que rola má fé, sim. Por exemplo: um grupo de estrangeiros tirando foto de um ônibus quebrado. Ah, vá lá, de qual planeta você vem em que ônibus não quebram? Se você, senhor estrangeiro de um país perfeito, se escandaliza com um ônibus quebrado, recomendo não ir a Brasília. Outra coisa que me chateia é a exploração da miséria norte-coreana. É claro que ela existe, mas vejo gente de país emergente, inclusive brasileiros, se escandalizando com isso, como se no Brasil não houvesse miséria nenhuma. É claro que não é para aplaudir, mas peraí, né?Um embaixador europeu (alemão ou britânico, não lembro) foi, há um tempo, capa em revistas na Coreia do Sul, falando que, na Coreia do Norte, há violações de Direitos Humanos. Obviamente isso gerou estresse quando ele voltou. É o tipo de declaração, porquanto óbvia, desnecessária.

Pelo menos, esse é o tipo de bobajada que o embaixador brasileiro não faria. Aliás, o embaixador do Brasil é simpático, coisa rara. Na verdade, todo o corpo diplomático daqui é legal, no nível de o embaixador da Palestina ficar brincando de bolinha de neve no topo do Monte Paektu. São todos bem mais agradáveis do que a média que conheço da diplomacia brasileira. Com exceção dos amigos mais próximos da Luiza, a maioria dos diplomatas brasileiros é um pé no saco; sou muito mais os daqui, de Pyongyang.


29/09/14


O norte-coreano entra no serviço militar obrigatório com 17 anos, sendo este vedado para estudantes de tecnologia (não entendi direito o que isso significa) e de línguas. Neste último caso, justifica-se pelo fato de que, uma vez passado o tempo no serviço militar (que, em média, é de 13 anos, ou seja, você sai de lá com 30 anos de idade), o coreano já terá perdido a prática e a fluidez do idioma que estava aprendendo. O Che, por exemplo, falou que queria ter se alistado, mas não pôde justamente porque estava aprendendo português.

O Che, aliás, é um cara muito engraçado. Eu gosto dele. Ele vive com um caderninho, anotando as palavras que aprende (a última foi “palito”, que ele gostou de saber que serve tanto para o de dentes como para o de fósforo). Ele estava ouvindo uma música da Marisa Monte que diz que o coração estava aposentado. Ele, surpreso, perguntou: “Ué, o amor acabou?”. Acho que os coreanos têm dificuldade de lidar com essa noção de fim de amor ou fim de relacionamento. O Leonel, oficial de chancelaria que também está no Koryo Hotel, já havia me contado que os coreanos não o compreendem muito quando ele diz que é divorciado. Aliás, também gosto do Leonel. Estou falando que gosto de todo mundo, deve ser porque ainda estou enamorado com a Coreia. O português do café da manhã me perguntou o que estou achando de Pyongyang e eu disse que, como as expectativas eram absurdamente baixas, estou gostando, sim. Pô, um prato de lula é menos de dois dólares, olha que coisa mágica! Vamos ver até quando dura esse sentimento positivo. Ontem à noite, a propósito, tive um jantar muito gostoso no restaurante do Pothongang Hotel. Tinha até meu amado suco de tomate, que só eu aprecio.

Entrada e prato principal são conceitos muito relativos aqui. Eles trazem o que ficar pronto na frente, ainda que isso signifique comer a carne antes da guarnição, a entrada depois do prato principal, uma pessoa ficar na mesa esperando sua comida chegar, enquanto a outra já está comendo... O bom disso é que raramente você fica esperando muito na mesa. O primeiro prato, seja ele qual for, costuma chegar rapidamente.

Estive reparando que os militares e os guardas de trânsito batem continência quando o nosso carro passa. Depois, entendi: eles veem a placa azul diplomática e homenageiam os estrangeiros. Eles batem continência para diplomatas e para autoridades do partido. O mais simpático é responder com um gesto de volta. Vou passar a fazer isso.

O “Profissão Repórter”, da Globo, veio gravar um programa aqui. Acho que vai ao ar em dezembro.

Como não tenho medo de ser repetitivo, digo de novo que estou apaixonado pelas crianças coreanas. Mesmo depois que crescem um pouco, elas continuam muito bonitinhas. Pensem numa criança ocidental bonita, com oito ou nove anos. Difícil. Geralmente, são melequentas e pegajosas. Mas as coreanas são adoráveis, desde muito novinhas até maiores. Quando imagino uma guerra na Coreia, penso nessas crianças. Coisa clichê global: “Oh, pensem nas crianças, que estão chorando enquanto as bombas caem, blablabla”. Mas não posso negar que me cortaria o coração ver uma criancinha coreana sofrendo. (Só porque são bonitinhas, como se as melequentas e pegajosas do Brasil não merecessem minha compaixão... É, eu sei que sou terrível.)

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