segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 2

(Vi que a primeira parte do meu relato teve um grande número de acessos. Talvez, algumas pessoas não saibam o que vim fazer na Coreia do Norte. Então, explicando em poucas palavras: minha mulher veio trabalhar na embaixada brasileira de Pyongyang e eu vim com ela. Ficaremos aqui por um mês.)


17/09/14

 Hoje, começou o 14º Festival Internacional de Cinema de Pyongyang, uma das principais janelas de comunicação entre a Coreia do Norte e o mundo. O lema desse ano foi “Independência, amizade e paz” e o logo eram três mãos, de diferentes cores, uma em cima da outra. Fomos convidados pelo embaixador para ir à cerimônia de abertura. Detalhe que eu pensei que só a Luiza iria e, portanto, estava vestido de forma bem maltrapilha, enquanto todos na festa estavam com roupas de gala. Mas, bem, além de eu não saber que eu também iria, eu fui a pé do hotel até a embaixada (uma hora e meia de caminhada, o que, em hipótese nenhuma, eu faria de terno e gravata).

 O festival foi bem grandioso, parecia a entrega de um Oscar. O negócio era tão monumental que pensei que o próprio Kim jong-un fosse estar lá. Reza a lenda, porém, que ele passa o dia a caminhar pelo interior do país, para ver se está tudo bem com seus queridos conterrâneos...

 Antes de a cerimônia se iniciar, sentei-me ao lado de um paquistanês falador, que disse que nunca nos tinha visto em Pyongyang. Eu falei que havíamos chegado semana passada, ao que ele respondeu: “Ah, então é por isso!”.

 Havia um filme brasileiro, que, uma pena, foi anunciado como sendo do Vietnã (o diretor e a produção são brasileiros, mas os atores e o cenário são vietnamitas). O cineasta brasileiro estava lá (mais um brasileiro provisoriamente em Pyongyang!). Vários filmes pareciam bem interessantes, com exceção dos ingleses, que davam ares de ser um porre. Para o meu azar, foi justamente um desses filmes britânicos o escolhido para abrir o festival. Era um longa chamado “Fast girls”, um filme inteiramente boçal.

 Hoje, meu almoço foi em um restaurante na embaixada da Indonésia. Pedi uma carne crua com uma gema de ovo misturada. Tinha um aspecto nojento, parecia comida de cachorro, mas o sabor era magnífico! Pena que fiquei com o hálito do forte tempero o dia todo e, além de estar vestido toscamente para o festival, ainda carreguei comigo meu bafo de alho.

 Aqui, todos os norte-coreanos são obrigados a usar um broche com o retrato de um líder (que, reparei, varia: pode ser de uma ou outra autoridade, ou até mesmo de duas juntas, no mesmo broche). Se você sair de casa sem um desses, dizem que você está em maus lençóis (não sei se é verdade). O curioso é que os garçons não usam esses broches. Não sei se é porque já estão uniformizados... Mas não há garçom, em nenhum estabelecimento, que use esses adereços. Ah, estrangeiro não pode usá-los. Tem que ser fiel ao líder. Está pensando que é assim, você vem de longe e já chega sendo fiel, da noite para o dia? Nada disso.


18/09/14

 Tem uns africanos hospedados no hotel. Imagino esses caras andando pelas ruas, o quanto de atenção não devem chamar. Mas é verdade que só poderão circular livremente pela cidade se forem diplomatas. Turista normal só anda sozinho se estiver acompanhado de um guia coreano (isso, na teoria, porque nunca me perguntaram quem eu sou quando saio do hotel).

 Depois do garçom curioso com o iphone, outro deles ficou meu amigo hoje. Será que é porque não saio do restaurante do hotel? Esse era um que falava espanhol. Ele perguntou se eu falava o idioma, ao que respondi que, comparado com o coreano, o espanhol é minha língua nativa!

 Ele falou várias coisas de que já nem me lembro. Perguntou se a Luiza era minha esposa, eu disse que sim e ele falou que eu sou bom (acho que ele quis dizer que ela é bonita e que, por isso, eu sou bom, mas sei lá). Disse que aprendeu espanhol aqui mesmo, em uma escola de idiomas (a mesma onde o Che, aquele funcionário da embaixada brasileira, aprendeu português). Falou que o Brasil era o país da Copa, com o que concordei, sem mencionar os 7 a 1. Ele perguntou qualquer coisa sobre a distância do Brasil e eu disse que era muy lejos... Nessa hora, pensei: Nossa, realmente estou muy lejos de casa... O Flamengo está jogando agora e são 9 da manhã, que coisa esquisita.

 Antes de ele falar onde aprendeu espanhol, eu tinha associado seu aprendizado a alguma experiência que ele tivesse tido fora da Coreia. Pensei em Cuba (ah, nossos preconceitos!). Aliás, Cuba é o único país latino-americano, além do nosso, a ter representação aqui, mas eles não estão em Seul. Logo, na América Latina, só o Brasil dialoga com as duas Coreias.

 O garçom me trouxe um café a mais de brinde, ficou perguntando o tempo todo se estava tudo certo com a comida e disse que me esperava para o almoço. Ok...

 Nas horas redondas, toca uma música simplesmente medonha no alto falante da cidade. Provavelmente, é possível ouvi-la de qualquer ponto de Pyongyang, embora as janelas acústicas do hotel me protejam. Já a tinha escutado no Youtube. Parece música de filme de terror japonês.

 Por falar em música, vez ou outra passam umas crianças pelas ruas, em grupo, cantando em uníssono sei lá o quê, empolgadamente, a plenos pulmões. Futuros militares? Eu não sei o que cantam, mas associo logo à famosa canção norte-coreana que as crianças entoam na escola (que repito: não sei se é essa mesma), que diz que elas não têm nada a invejar do mundo.

 O garçom que fala espanhol me perguntou se estou gostando da Coreia do Norte, pergunta que todo local faz a um turista, mas que, por razões óbvias, ainda não me tinham feito em Pyongyang. Respondi sinceramente que sim. A cidade tem todos os problemas de um regime centralizador, mas, não fosse por isso, eu diria até que seria um lugar agradável.

 Descobri nos fundos do armário do hotel uma plaquinha de “não entre” para pendurar na porta. É minha maneira de evitar que as faxineiras saiam adentrando o quarto. O curioso é que basta eu tirar essa plaquinha por alguns minutos (para ir tomar café ou almoçar, por exemplo) que, quando eu volto, o quarto já está todo arrumado. Parece que elas ficam à espreita, esperando pelos poucos minutos de autorização que lhes dou para entrarem. Eficientes...


19/09/14

 Tem aqui um grupo musical chamado Moranbong, formado só por meninas. Parece que a mulher do atual, ou do antigo líder, não sei, era desse grupo. As meninas, além de bonitas, são talentosas, tocam vários instrumentos, cantam e ainda têm uma dancinha, um tipo de coreografia. Mas todas as músicas são voltadas para a exaltação do sistema. Aliás, acho que não há nenhuma forma de arte que não seja de glorificação do regime (a não ser que seja de louvor à natureza). Numa praça perto do hotel, tem um telão em frente ao qual há sempre algumas pessoas reunidas assistindo a um filme, sempre de guerra. É claro que, mesmo sem falar coreano, dá para imaginar a versão das guerras que eles contam. Mas, bem, até aí, os EUA não fantasiam muito menos com Pearl Harbor e ninguém fala nada.

 Pelas ruas, há vários kitsch socialistas em forma de outdoors (ou, às vezes, de placas menores) que retratam sempre um soldado ou um operário com as mãos na diagonal (sempre na diagonal: para cima e para frente), em movimento de progressiva vitória. Contrastam com essas imagens as roupas e os penteados das norte-coreanas da vida real. Eu não entendo nada de moda, mas estou certo de que se trata de um padrão de vestimenta e de corte de cabelo dos anos 60. Não tem como olhar uma norte-coreana e não pensar que estou em um filme de 50 anos atrás. Os homens, por suas vezes, usam quase todos umas roupas beges, verdes, sei lá que cor é aquela (algo entre o verde escuro e o marrom), tonalidade parecida com a do uniforme militar. Já li que um refugiado norte-coreano é facilmente identificado na Coreia do Sul só pela maneira como se veste.

 Os motoristas norte-coreanos dão seta! Podiam ensinar aos brasileiros. Ainda não vi nenhum carro fazer qualquer conversão sem sinalizar com antecedência. Por falar em motoristas, o da embaixada brasileira estava ouvindo Bon Jovi no carro. Acesso privilegiado de quem trabalha com estrangeiro... A propósito, ainda não vi nenhuma mulher dirigindo.

 Enveredando-se por esse assunto de gêneros, ouvi a seguinte opinião de um estrangeiro, que repetirei como um papagaio acrítico, porque não faço ideia se é verdade: há um machismo generalizado na Ásia, que todos nós já conhecemos, mas a Coreia do Norte, por incrível que pareça, está um passo à frente de Coreia do Sul, China e Japão. Aqui, os pais não interferem no parceiro da filha. O que há, sim, como em qualquer outro lugar, é um certo preconceito de classes (não acredite que não há classes na Coreia do Norte). Um filho de um funcionário prestigiado dificilmente se relacionará com a filha de um camponês, por exemplo.

 Ainda quanto a esse tema, veem-se pelas ruas várias mulheres fazendo trabalhos braçais pesados, como carregando pacotes de arroz nas costas. Homens, não. Pessoas que moram aqui há algum tempo confirmaram que, na Coreia do Norte, trabalho pesado é coisa de mulher (vi um filme em que tinha um casal num barco: a mulher remava, enquanto o homem lia um livro). Cogitam ser um hábito importado da Rússia, onde há um problema nacional de alcoolismo e, enquanto as mulheres pegam no batente, os homens caem bêbados pelas esquinas.

 Diziam-me que os coreanos são proibidos de acessar o bairro diplomático. Pelo menos nas redondezas da embaixada brasileira, há vários coreanos, que, mesmo cercado por representações estrangeiras, mantêm a surpresa ao verem um gringo.

 Enquanto esperava a Luiza correr, à beira do rio, fiquei sentado ao lado de umas velhinhas dançando. Tinha um rádio tocando música e as velhinhas (tinha alguns homens também) se esbaldando na atividade. Ao contrário do que normalmente acontece, elas nem se importaram com a minha presença. Só me levantei quando o lugar começou a ser infestado por ratos. Prefiro não conviver com eles. Essa foi a dança zen ao ar livre, mas já sei que vai rolar balada, às 23 horas, afinal hoje é sexta-feira. Mesmo sábado sendo dia de trabalho, tem uma discoteca em Pyongyang aonde as pessoas vão dançar e beber, como em qualquer parte do mundo. Meu senso antropológico não foi forte o suficiente para me levar a esse lugar, mas fica registrado que existe noite em Pyongyang. Noite, aliás, que é muito escura. Há pouquíssima iluminação pública (já me disseram que há poucos anos era muito pior), de modo que caminhar depois do anoitecer vira um desafio para não cair em buracos nem esbarrar em outras pessoas (isso porque, apesar da escuridão, há muita gente nas ruas). Não há riscos de segurança pública, porém. Acredito que é mais seguro andar no breu de Pyongyang do que ao meio-dia, no centro do Rio. Se há algum risco, é na hora de atravessar a rua. Duvido muito que os motoristas tenham a visibilidade necessária para não atropelar nenhum transeunte.


20/09/14

 De manhã, fomos ao Museu Nacional da Guerra, que começou a ser construído em 2012 e ficou pronto em dez meses. É um lugar realmente impressionante, muito grande e bonito, com armamentos e um navio (chamado Pueblo) apreendidos dos americanos, na Guerra das Coreias. Além disso, tinha uns vídeos doutrinadores, explicando quem provocou a guerra, qual o papel libertador dos norte-coreanos na ocasião e comemorando o pedido de desculpas dos norte-americanos por terem de envolvido na Guerra das Coreias. Dizem eles que: 1) foi o único pedido de desculpas da história dos EUA; 2) o norte tinha conquistado 90% do território do sul quando os EUA chegaram para se aliarem a Seul. A guia falava um bom inglês (talvez porque já tivesse o texto decorado). Além da grandiosidade do museu, o local era todo bem tecnológico, com recursos interativos e tudo mais. O preço também era grandioso: 20 euros por pessoa.

 No almoço, comi sapo. O nome é mais exótico do que o gosto. O sabor se assemelhava mais ao de um frango. O restaurante ficava ao lado de um supermercado todo chique, onde tinha umas peruas norte-coreanas, que nada tinham a ver com aquelas mulheres que eu disse que usavam roupas e penteados dos anos 60. Essas estavam vestidas como qualquer ocidental, com uns cabelos de madame e salto alto. E você achando que não tinha perua por aqui, que todos os norte-coreanos são uma só classe...

 De barriga cheia, fui ao Grande Palácio de Estudos do Povo, uma megabiblioteca, onde, além de alugar livros, os norte-coreanos podem aprender outros idiomas (russo, chinês, alemão, inglês e japonês), ouvir músicas de fora da Coreia (a guia nos mostrou o CD de “uma banda inglesa chamada Beatles”), acessar a internet... Claro, não a internet como a conhecemos. Na verdade, nem sequer é uma internet bloqueada, como a chinesa. Não é internet. É intratec e nada mais. Mas eles chamam de internet e as fotos dos estudantes na frente de um computador rodam o mundo como se eles realmente estivessem conectados à grande rede. Mas há boas coisas nesse lugar. Por exemplo: em vez de ficar procurando o livro desejado em papeizinhos numa estante enferrujada, como acontece no Brasil, aqui, você pede à bibliotecária a obra que você quer, ela faz qualquer coisa no computador e o livro vem até você numa esteira. Um ótimo sistema. Como fator curiosidade, a guia disse que nós não tínhamos caras de brasileiros, que a Luiza parecia uma árabe e eu, um europeu.

 Saindo de lá, visitamos as únicas duas únicas estações de metrô a que o governo permite que o estrangeiro tenha acesso. São 16 ao todo. Suponho que as outras 14 sejam mais feias que essas, portanto. Essas duas, porém, são mesmo muito bonitas, além de extremamente profundas. Estão a mais de cem metros do solo. O metrô passa o tempo todo, mesmo fora da hora de pico, e funciona entre 6:00 e 21:30. No interior do vagão, as fotos de sempre do Kim il-sung e do Kim jong-il.

Após entrar numa estação e descer na seguinte, fomos ao Arco do Triunfo, uma construção magnânima, que é maior até mesmo que seu xará parisiense. Tinha uma guia vestida de princesa lá, que falava um bom inglês. Não que precisasse de guia, afinal é só um arco no meio da cidade, mas tudo bem. É uma obra, de fato, muito bonita. Ao lado do Arco, tinha uma loja onde comprei uma camisa da seleção norte-coreana de futebol, só pelo exotismo do produto (ainda veio um calção junto). Essa loja tinha três andares e vendia muitas coisas. Gastar dinheiro em um país socialista não é tão difícil quanto parece. Aliás, repito: há lojas, de diferentes portes, espalhadas por toda a Pyongyang.

À noite, fomos ver o documentário brasileiro “Ronaldo”, sobre a partida de despedida dele pela seleção, contra a Romênia. Era mais um representante brasileiro no festival internacional de cinema (esse nem apareceu na cerimônia de abertura, talvez por não ser inédito). Não nos julguem. Não fomos por opção própria, mas, como somos representantes do governo brasileiro (ao menos, a Luiza é), nós não tivemos outra escolha a não ser assistir ao Ronaldo e ao Galvão Bueno com legenda em coreano. Antes de “Ronaldo”, ainda assistimos a um filme da Mongólia, que, apesar disso, era bem menos mongol que o brasileiro.


21/09/14

O governo norte-coreano convidou todo o corpo diplomático de Pyongyang para uma visita ao Monte Paektu, um lugar mítico onde creem ter se originado o povo coreano. Com base nessa crença, dizem que perto dali nasceu o Kim jong-il, embora haja evidências de que seu local de nascimento seja outro e de que apenas se apropriaram do misticismo do monte para popularizarem essa história. De toda forma, é um lugar muito interessante e de difícil acesso: além de ser caro, não há voos regulares para o monte, devido à baixa procura pelo turismo norte-coreano. Ou seja, um ótimo negócio para nós: pagamos um valor bem baixo para termos acesso ao voo de Pyongyang para o monte, estadia de duas noites, refeições e banquetes oferecidos pelo governo, guias turísticos que falam inglês, traslado, enfim, todo o aparato necessário. Muita sorte terem feito esse convite justamente durante esses nossos 30 dias de Coreia do Norte (a última vez que rolou esse passeio com tudo pago foi há sete anos)!

Portanto, às 10:30, pegamos um voo da Air Koryo, junto com vários diplomatas de diferentes países. Nunca tinha entrado num avião tão apertado na minha vida; felizmente foi só uma hora de viagem! Aterrissando, um ônibus já nos esperava para nos levar ao hotel, onde almoçamos uma comida razoável. Eu fiquei numa mesa com um monte de árabes, dentre as quais estava a esposa do embaixador da Palestina, que é brasileira. Depois, visitamos alguns lugares extremamente bonitos, com árvores que pareciam trabalhos de paisagismo. Com a chegada do outono, as folhas vão ficando vermelhas e proporcionam um espetáculo (as estações do ano aqui são bem marcadas, ao contrário de no Brasil). Em frente a um lago bonitaço, tinha uma estátua do Kim il-sung, aos pés da qual os estrangeiros depositaram flores. Nós não levamos flor nenhuma, uma pequena gafe brasileira. Estávamos todos com frio. Aqui, estamos mais ao norte em relação a Pyongyang, junto da fronteira com a China, portanto o clima é bem mais gelado do que na capital.

O jantar foi melhor que o almoço, com uma grande fartura de comida. Dada hora, faltou energia elétrica, o que é normal na Coreia do Norte (com algumas exceções em Pyongyang, como o Koryo Hotel). Amanhã, vamos subir ao monte. Enquanto isso, vou contar alguns fatos curiosos.

Pornografia é proibida na Coreia. É claro que não estou falando dos redtubes, afinal nem sequer há internet aqui, mas de simples revistas de nudez. Embora seja um país ateu (toda religião aqui é expressamente proibida) e, presume-se, livre de velhos conservadorismos religiosos, a Coreia do Norte é muito retraída em assuntos sexuais. Apesar dos pesares, um estrangeiro me disse que, quando ele chegou para trabalhar na embaixada de seu país, o autocompletar das pesquisas do Google continham exacerbada pornografia, com foco para "asian girls". Não dá para dizer que foram os funcionários norte-coreanos que fizeram tais buscas, mas fica um quê de dúvida.

Um outro estrangeiro é gay e veio trabalhar em Pyongyang. Se a pornografia hetero é proibida, imagine a aberração que é o homossexualismo por aqui. Esse cara e o namorado contrataram os serviços de um famoso retratista norte-coreano que, inclusive, já pintou alguns quadros dos líderes locais. O casal foi, portanto, pintado por esse artista, um ao lado do outro, semiabraçados. O pintor, até aí, não se recusou a fazer o serviço, mas, quando o estrangeiro pediu que, abaixo da pintura, viesse escrito "juntos para sempre", o retratista falou que isso ele não podia fazer, que isso não existia aqui.

Os meses se passaram e não sei se o namorado voltou para o seu país ou se eles se separaram ("juntos para sempre", hein?), mas fato é que o estrangeiro gay se tornou muito amigo de um funcionário norte-coreano local. Decorrido um tempo, o estrangeiro, na extrema privação sexual em que se encontrava, confidenciou para seu amigo coreano: "Eu preciso ver um homem nu. Não consigo mais aguentar". Era de se esperar que o norte-coreano o denunciasse e que ele fosse preso numa solitária com vaginas flutuantes, mas, não. Em vez disso, o norte-coreano o levou à sauna masculina de um hotel de Pyongyang, embora ele mesmo não tenha entrado. O estrangeiro, porém, se decepcionou, porque além dos maus dotes asiáticos, todo mundo saiu quando ele entrou, afinal ele não era coreano. Essa é uma história tão engraçada quanto surpreendente. A reação do amigo coreano foi liberal não só para os padrões da Coreia do Norte, mas de qualquer parte do mundo. O ser humano é sempre uma incógnita.


22/09/14

Depois do café da manhã no hotel, partimos rumo ao Monte Paektu. Após descermos do ônibus, ainda subimos uma hora de um caminho íngreme, com ar rarefeito, porque o teleférico estava quebrado. Raramente essas caminhadas cansativas valem muito a pena, mas essa valeu. Quando eu conseguir uma internet decente, posto fotos no Facebook, mas foi um dos cenários mais bonitos que já vi na vida. Descemos pelo outro lado da montanha, para vermos o lago de perto e, depois, subimos novamente (dessa vez, num bondinho, que me fez ter muito mais medo do que andando: imagine o nível de manutenção norte-coreano daquele treco!). Por fim, descemos, caminhando, pelo mesmo caminho pelo qual subimos, entramos no ônibus, visitamos a suposta casa do nascimento do Kim jong-il à qual me referi ontem (durante a fala do guia turístico sobre os grandes feitos do kim jong-il, uma chinesa soltou um riso de escárnio, provocando olhares furiosos dos militares coreanos), fomos a uma cachoeira, vimos umas plantas que dão blueberry (uma frutinha azul que não existe no Brasil) e almoçamos ao céu aberto, num tipo de piquenique. A janta, já no hotel, foi boa, precedida por batatas assadas numa fogueira no chão. À noite, faltou luz de novo. Aliás, aqui, que não é Pyongyang, tem hora certa para água quente no chuveiro. Fora desse horário, nem adianta abrir a torneira vermelha que não vai sair nada. E, aqui, água quente é realmente necessária! Lá no monte, segundo um norte-coreano, a temperatura era de três graus negativos. Acho que ele exagerou, mas estava mesmo muito frio, já com neve em vários lugares, embora ainda seja outono.

As vistas são fantásticas, uma pena que seja uma beleza tão inacessível. Comentei com um francês sobre o potencial turístico desse lugar e ele ficou rindo, dizendo: "Que potencial? Quem vai vir para cá?". É claro: essa é a parte triste; ninguém vai vir para cá, enquanto que, na Europa, vários lugares meia-boca que se dizem bonitos estão repletos de gente. Bem, se um dia isso aqui se abrir, quem sabe…

A propósito, um holandês me contava que já veio para a Coreia do Norte em outras ocasiões. Segundo ele, muitas coisas já estão mudando. Ele disse que, em 2004, era normal ver produtos nos supermercados com a data de validade vencida em 1996 (o que são oito anos de validade expirada, né?). Contei-lhe que fiquei surpreendido com o número de carros em Pyongyang e ele falou que isso é uma coisa muito nova: até 2009, ou seja, há pouco tempo, por várias vezes, só tinha ele dirigindo nas ruas. Aos poucos, acredite ou não, o país está se abrindo. Um dia, ainda espero ver mais gente no Monte Paektu que nos Alpes Suíços.

Ao fim, dormimos para, no dia seguinte, voltarmos a Pyongyang.

3 comentários:

  1. Parabéns pelo diário. Repassei o endereço do blog para duas amigas.

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  2. Estou acompanhando seu diário, que me chegou por intermédio de uma amiga querida, e gostando bastante.
    Aguardo ansiosa pela parte 3 e todas as outras.

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  3. Valeu, pessoal! Na semana que vem, posto a parte 3. =)

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