terça-feira, 2 de setembro de 2014

A lua molhada

Havia um lago no meio de um povoado pequeno, lago onde sempre se via a lua. Toda noite era certo: a lua estava lá, reluzida naquelas águas, independentemente do tempo, fizesse chuva ou estivesse limpo o céu. E justamente aí residia o mistério daquele povo: como podia, em dias tão cinzentos e chuvosos, haver lua no lago? Como podia, em todas as noites, de todos os meses, de todos os anos, haver lua nas águas se não havia lua no céu? Que reflexo era aquele que não tinha imagem originária?

Por muito tempo, esse foi o assunto em todas as rodas de conversa do povoado. Às vezes, sentavam-se em volta do lago e passavam horas admirando a lua das águas, apesar de olharem para cima e não verem nada. É claro que uma ou outra noite a luz dava o ar de sua graça também no céu, assim como acontece em qualquer cidade, mas sua imagem no lago independia dessas ocasiões. Sempre, sempre, absolutamente sempre, havia lua naquelas águas misteriosas.

Passaram-se muitos anos e até hoje não descobriram a verdade: há uma lua no lago que nada tem a ver com a lua do céu, não é seu reflexo. Trata-se de uma lua com história e característica particulares. Uma lua que, assim como a outra, já esteve no céu, mas caiu. Caiu um dia e para sempre lá ficou. Molhada e adormecida.

Um comentário: