terça-feira, 9 de setembro de 2014

A inexistência de Sérgio

1

O pior momento do dia era levantar da cama. Não porque ele quisesse dormir mais; já tinha perdido o sono havia tempos. O problema não era acordar, era viver. Pior do que viver: era abrir os olhos.

Sabia exatamente o que lhe esperava: um teto de um branco sujo enegrecido de umidade em alguns cantos. Quase sempre era essa a sua primeira visão do dia. Às vezes, porém, o corpo estava de lado e encarava logo pela manhã um armário verde musgo envelhecido. Quando amanhecia com a cabeça virada para o outro lado, a visão não era muito melhor do que o teto ou o armário: era sua esposa.

Levantava-se e, com cuidado para não acordar a mulher (menos por cuidado do que para não ter que ouvi-la), ia ao banheiro. Abria o chuveiro na temperatura mais quente e deixava a água caindo enquanto saía do recinto, caminhava até a porta de casa, pegava o jornal do dia  geralmente arremessado em cima do tapete de entrada , voltava ao banheiro, escovava os dentes, barbeava-se, despia-se, sentava no vaso e abria o jornal. Durante esse ritual, o banheiro já havia se enevoado com a fumaça da água quente que ele desperdiçava. Lia o jornal à espera de um grande fato, uma notícia explosiva, algo que o tirasse da mesmice, mas não era o que encontrava. Em vez disso, via as manchetes de sempre: economia de algum país em crise, tiroteio numa favela, expectativa do comércio para as vendas de natal ou páscoa ou dia das mães ou dia dos pais ou dia dos namorados ou dia de qualquer coisa. Todo mundo tem um dia. Ele, não. Não se considerava namorado de sua esposa, não ganhava chocolates na páscoa nem esperava pelo Papai Noel no fim do ano. As profissões têm seus dias: tem o dia do médico, do advogado, do professor. Mas ele era secretário administrativo: o que quer que isso signifique, era a nomenclatura que constava em sua carteira de trabalho. Já pesquisou se existia o dia do secretário administrativo. Não encontrou.

Continuava folheando o jornal. Passou pela seção denominada “ambiente”, mas não se preocupou em fechar a torneira, que continuava a despejar água. A previsão do tempo não trazia novidades: uma diferença de uns vinte graus entre a mínima e a máxima que nada lhe dizia; céu aberto com pancadas de chuva isoladas no fim da tarde. No caderno de esportes, o de sempre, variando apenas conforme o período do ano. Se antes da temporada, especulava-se a contratação desse ou daquele jogador pelo time A ou B; com os campeonatos em andamento, era crise em um time, demissão do técnico no outro, mudança de escalação, resultados da rodada...

Fechava o jornal e entrava no box para dar, enfim, utilidade à água que jorrava em vão. Durante o banho se masturbava cotidianamente como tentativa de compensar o pouco afeto que dava e que recebia de sua esposa. Vestia-se (blusa e calças sociais com sapato, nunca mudava), botava a carteira em um bolso, celular no outro, não se despedia da mulher, mas passava no quarto da filha de sete anos para ver se ela dormia bem e eventualmente a cobria se notasse que ela estava com frio. Pegava o elevador, cumprimentava o porteiro, entrava na garagem, dava partida no carro e dirigia por uma hora o que poderia percorrer em vinte minutos se não houvesse trânsito.

“Bom dia” aqui, “bom dia” ali, mais um dia de trabalho, planilhas, e-mails, telefone, mais planilhas, tudo interrompido apenas pela hora do almoço, quando comia um self service intragável, porém barato, na praça de alimentação do prédio comercial onde trabalhava. Durante quinze minutos pela manhã e quinze pela tarde, pausava o serviço para o cafezinho com os colegas. Costumavam ser os poucos momentos de descontração do dia.

Saía do trabalho às 6 da tarde e, de novo, dirigia uma hora o que, sem trânsito, faria em vinte minutos. Um “boa noite” ao porteiro, a espera pelo elevador, o giro da chave na porta de casa e o cumprimento à esposa em forma de um gélido beijo-estalinho. A filha geralmente estava no quarto estudando ou vendo TV e ele preferia não incomodá-la. Banhava-se (agora sem todo o ritual antes de entrar debaixo do chuveiro), vestia seu pijama e ia jantar a mesma comida que a mulher almoçara, agora requentada. Era só aí, quase às 8 da noite, quando falava com a esposa e com a filha pela primeira vez no dia, na mesa do jantar. Eram conversas curtas, frias, desinteressantes para todos os lados. Dormia por volta das 10 um sono que, embora profundo, não o fazia acordar descansado no dia seguinte.

Numa dessas manhãs como outra qualquer, no momento de cumprimentar o porteiro, este lhe deu mais que um “bom dia”, acrescentando um “tudo bem com o senhor?”. Pergunta retórica, resposta de praxe: “Tudo, e contigo?”. Para o porteiro, porém, não era um curto diálogo de frases automáticas, uma vez que ele respondeu: “Não estou muito bem não, seu Sergio. Ainda estou muito chocado com a morte do Pedro.”

Pedro? Que Pedro? Sergio não conhecia Pedro nenhum e nem sabia se era esse o nome que ele realmente ouvira.

 O Pedro vai fazer muita falta  disse o porteiro.
 Quem é Pedro?  perguntou Sergio, secamente.
 O zelador, seu Sergio! O Pedro!  respondeu o porteiro, um pouco ofendido pelo esquecimento de Sergio. Este só agora começava a se lembrar de alguém que poderia ser o tal Pedro:
 Um careca baixinho?
 É claro, pô! O Pedro! Morreu ontem! O Pedro!

Sergio notou que o porteiro estava se irritando, disse algo como “é, vai fazer muita falta o Pedro” e foi embora rumo ao trabalho. Provavelmente trocou um ou dois cumprimentos somente com o zelador, é óbvio que não lembraria com riqueza de detalhes quem era o sujeito. Ocorreu-lhe, porém, que talvez tenha sido um pouco rude com o porteiro, um pouco sem tato ao expor tão friamente sua ignorância sobre quem era Pedro. Poderia ainda ter perguntado sobre como ele morreu, mas nem isso fez. E o ocorrido não lhe saiu da cabeça durante todo o dia. “É, vai fazer muita falta o Pedro”, que modo de falar, especialmente depois de dizer textualmente que não se lembrava do defunto. E ainda por cima sair correndo depois, como se fugisse do assunto! Mas essa é a questão. Talvez tenha sido exatamente isso o que aconteceu. Fugira do assunto. E agora, no decorrer do dia, o que realmente o incomodava não era sua reação frente à notícia, mas o episódio em si. O Pedro morreu. Isso é terrível. Não importa que ele não soubesse quem era o Pedro ou que só o conhecesse de vista. O fato, nu e cru, é que ele morreu. Alguém, na face da Terra, deve estar chorando pela morte desse baixinho careca. Ou ainda que não esteja, o Pedro morreu, sendo que até o dia anterior ele estava vivo, com seus desejos, suas ações, seus pensamentos e emoções! Quer dizer, talvez tenha morrido de alguma doença, estivesse já vegetando, todos já esperassem sua morte, mas, caso tenha ocorrido um acidente ou algo completamente inesperado, aí é muito pior! Vivo, com planos e anseios em um minuto e morto no outro.

Pensar na morte do Pedro era pensar que ele, Sergio, também iria morrer um dia. E se fosse no dia seguinte? E se fosse dali a algumas horas, a alguns minutos? “Para morrer, basta estar vivo”, diz o velho dito popular, mas isso é terrível, essa máxima é extremamente cruel. Será que deveria planejar alguma coisa, uma vez que sua vida podia acabar em qualquer momento?

Começou a forçar a memória o máximo que pôde para lembrar o maior número possível de detalhes do zelador. Como era fisicamente? Era um baixinho careca, disso já sabia. Mas era magro? Era gordo? Sua memória traía-lhe, viu-o muito poucas vezes. Nem gordo nem magro, concluiu. Era careca mesmo, mas não totalmente, havia ainda alguma penugem nas laterais da cabeça. Tinha uma voz meio fanha, lembrava-se agora. Veio-lhe à memória uma vez que o ouvira falar com uma vizinha: “É o encanamento, senhora”. Não sabe qual era o contexto da conversa, mas a frase fora dita com uma voz um pouco nasalada. Mais o que podia se lembrar do defunto? Teve uma troca de cumprimentos no elevador uma vez, um “bom dia” na portaria do prédio em outra... E só. Não deve ter voltado a falar com Pedro em outra ocasião. Mas se lembrava ainda que um dia o zelador estava mais para jardineiro, mexendo nas plantinhas do condomínio.

Essa questão o atormentou por dias. Chegou a tocar no assunto com a esposa, mas a reinante falta de diálogo entre ambos venceu mais uma vez:

 Aquele zelador morreu...
 Que zelador?
 Pedro.
 Não sei quem é.
 Aquele baixinho careca.
 Ah...
 O porteiro é que me falou.
 Entendi.
 Não acha estranho que nós também possamos morrer de repente?
 Prefiro não pensar nisso.
 Eu também não pensava. Mas olha: se o Pedro morreu, amanhã pode ser ou você.
 É. Mas prefiro não pensar nisso.
 Não acha isso inquietante?
 Prefiro não pensar nisso, Sergio.

O que a mulher realmente preferia era não ter que conversar com o marido.

O curioso é que Sergio já tinha perdido entes queridos, amigos, pessoas muito mais próximas do que o zelador de quem ele nem se lembrava, mas nenhum deles havia trazido à sua mente a inquietação de agora. Foi justamente esse distante Pedro que afligiu Sergio quanto ao drama da finitude da vida.

E se pudesse ser imortal? Sergio quereria? Por certo que não. A imortalidade é tão angustiante quanto a mortalidade. Viver para sempre é tão horripilante quanto saber que vai morrer. Talvez o problema não seja exatamente a morte, mas deixar de existir. Ou pior: deixar de executar planos que, enquanto vivo, habitavam sua mente. Não, não era nada disso, ele pensou. O que realmente lhe causava aflição era essa mudança entre o andar, falar e pensar e o estar deitado dentro de um caixão, mudança esta que pode ocorrer em um mês, um dia, um segundo, um minuto.

Passada uma semana da morte do zelador, Sergio adquirira o hábito de caminhar pela rua, depois de sair do trabalho, em vez de afoitamente pegar o carro e tomar seu tradicional caminho de volta, como sempre fizera. Descobriu diversas vantagens nessa prática. Duas dentre as mais relevantes eram a fuga do trânsito na hora de pico e o adiamento em voltar para casa. "Respirar o ar livre, sozinho, só eu! Por que ainda não tinha feito isso? Nunca quis voltar para casa, nunca quis ver Stella, nem sei por que me casei com ela. Quer dizer: eu a amava, por isso me casei. Acima de tudo, ela é a mãe da minha filha. Mas hoje ela é uma estranha. Não sei mais nada dela... Então, se nunca quis voltar para casa, por que ia ao carro assim que saía do trabalho, por que dirigia tão apressadamente, por que odiava o trânsito, quando na verdade ele era meu aliado? Eu tinha pressa para quê?"

Esses passeios sem rumo cada vez lhe tomavam mais tempo. O mais curioso é que chegava em casa cada dia mais tarde e Stella jamais lhe perguntou o motivo, nunca estranhou nada, era como se ele retornasse em seu habitual horário de todos os dias. Para Sergio, era um alívio e, se sentia saudade de alguém, era da filha. 

Num desses passeios, já decorrido quase um mês desde que iniciara sua nova prática, passou por uma moça que despretensiosamente lhe entregou um panfleto. Ele, sem nem olhá-la, pegou o pedaço de papel e continuou andando, só se decidindo por lê-lo alguns metros a frente. Viu em letras brancas num fundo preto, sem nenhuma imagem ou chamativo em especial, um número de telefone e a seguinte frase: “Descubra quando você vai morrer com Mãe Soraya”.

Sentiu uma fisgada no peito e a lembrança do zelador Pedro voltou-lhe à mente com a intensidade de um soco no queixo. Precisou se sentar em um banco da praça, pois viu em poucos segundos tudo girar e o chão se mover. Que era aquilo? Que lhe afligia? Já tinha quase parado de pensar em Pedro, aquela já era uma lembrança que, embora nunca tivesse saído de sua mente, ocupava algum espaço de fundo, secundário e, se não tinha sumido, ao menos não mais preenchia o escalão principal de seus pensamentos. Mas agora toda a angústia voltava. Recuperou forças, levantou-se, voltou à mocinha que lhe entregara o panfleto. Ela ainda estava lá, distribuindo a outros transeuntes.

 É você a vidente?  perguntou Sergio, sem nenhuma introdução.
 Minha mãe  respondeu a mulher.
 O que é isso? Como ela pode saber quando alguém vai morrer?
 Ela te olha e sabe.
 Me olha e sabe? Que palhaçada é essa? Quem vocês são para enganar as pessoas desse jeito?
 O senhor não precisa se alterar. Se o senhor não acredita, tudo bem.
 Eu não acredito, mas me ofendo pelas pessoas que são enganadas por essa estupidez! Como alguém pode olhar outra pessoa e saber quando ela vai morrer? O que é isso, hein? Que golpe!
 Ela olha e sabe. Isso é tudo. Previu a morte de meu pai, de amigos, familiares... Ela olhava bem nos olhos das pessoas, bem fundo, e sabia exatamente o dia de suas mortes. Não sei explicar. Não é científico, não é religioso...
 Não é científico, não é religioso, não é nada! É um golpe, é o que é isso! Vou dar parte dessa mulher!

Sergio saiu transtornado na direção de uma delegacia. Tudo teatro, ele sabia. Tinha a plena consciência de que de nada adiantaria importunar a polícia com esse caso sem a menor relevância. Mais do que isso: tinha a total convicção de que não apenas não daria parte coisa nenhuma como no dia seguinte ligaria para Mãe Soraya para descobrir o dia em que ele próprio morreria.


2

Sergio marcou uma consulta com a Mãe Soraya para a data seguinte. Não sabia por quê, mas se viu num grau de ansiedade tão grande que mal conseguiu trabalhar naquele dia. Disperso, errou vários procedimentos, produziu pouco e, se fez algo mais do que o habitual, foi falar. Conversou com muitas pessoas, assuntos sem relevância, entrecortados. Estava visivelmente afoito. Era sexta-feira e todos atribuíram essa ansiedade incomum de Sergio ao fim de semana que se aproximava. Naquela noite, não dormiu e, chegado o sábado, nem precisou inventar uma desculpa para ir à vidente, já que ninguém lhe perguntou aonde ia.

O endereço era de uma casa com um jardim frontal mal cuidado, tomado por ervas-daninhas e resquícios de lixo. Viam-se ainda restos de materiais de construção, latões vazios de tintas, escadas enferrujadas, tudo espalhado pelo quintal que tomava as partes laterais da residência. Sergio respirou três vezes antes de tocar a campainha e descobrir que ela não funcionava. Decidiu por bater palmas. Trinta segundos depois apareceu a mesma menina que lhe entregara o panfleto. Sergio não esperava por isso. Envergonhou-se por ter aparecido ali, mesmo depois de todo o discurso que fizera. A garota notou esse constrangimento, conteve o riso e só comentou, em um tom cuja ironia Sergio não percebeu:

 Que bom que você resolveu vir.

A mulher abriu o pesado portão, preso por grossas correntes com cadeados. Depois de levar quase um minuto para liberar a passagem, ela apontou com a cabeça para a porta que dava para o interior da casa e disse:

 Vou demorar fechando tudo isso novamente. Pode entrar. Você não precisa me esperar; minha mãe já te aguarda.

Por um lado, Sergio preferia esperar, para não ter que entrar sozinho naquela casa de péssimo aspecto, mas, por outro, sentiu-se aliviado por poder livrar-se da presença constrangedora da mulher, que certamente estava comprovando a fraqueza de espírito daquele que havia dois dias tinha ameaçado denunciar a vidente para a polícia.

Sergio acabou por entrar sozinho. Um novo momento de vergonha e irritação lhe tomou por completo quando se deparou com Mãe Soraya. Tratava-se de uma senhora que beirava seus sessenta anos, com pesada maquiagem, saia longa, um cabelo bagunçado para trás, todo um visual forçado e montado para recebê-lo. Ela estava sentada no tapete do centro da sala, em posição de lótus, com olhos fechados e as palmas das mãos viradas para cima. Para ele, estava comprovado que tudo aquilo não passava de um teatro barato, uma tentativa de representar uma série de estereótipos horrorosos. Sentiu vontade de dar meia volta e ir embora, mas não podia. Pigarreou e disse, com voz grave:

 Bom dia.

Ela abriu os olhos e mostrou-se admirada por receber visita, uma surpresa fingida, mal disfarçada. Perguntou-lhe seu nome, ele respondeu, embaraçado, torcendo para que ninguém nunca viesse a ter conhecimento daquele momento constrangedor.

 Ah, acho que minha filha falou de você... Sente-se, por favor. Como tem passado?  ela perguntou.
 Desculpa, mas não vim bater papo – ele respondeu, rudemente.  Só vim para saber o dia da minha morte.
 Claro  ela soltou um sorrisinho de canto de boca.  Eu já deveria supor. Aproxime-se mais, por gentileza.

Nesse momento, a garota, que tinha acabado de fechar o portão, trazia-lhes dois copos de água.

 Mais. Aproxime-se mais  disse a vidente.
 Está bom aqui? Ora, mas por que tenho que estar tão perto?
 Aproxime-se mais. Preciso enxergar bem dentro dos seus olhos.

Sergio obedeceu e ela disse, como quem fala qualquer coisa sem particular importância:

– Não mais que duas semanas.

Se é verdade que ela tinha que enxergar dentro da pupila de Sergio, sua tarefa teria ficado mais fácil depois da anunciada estimativa, uma vez que ele esbugalhou os olhos e pediu confirmação:

 Duas semanas?

Ela deu de ombros e respondeu:

 No máximo.

Sergio pegou o copo de água recém-trazido, tomou metade dele e pediu detalhes de sua morte. Ele se sentia saudável, não tinha nenhuma doença, não tomava remédios, não tinha uma vida desregrada... Por que morreria em duas semanas? 

 Te digo quando você vai morrer; a causa não é o meu forte  ela respondeu.  Mas sinto que será um acidente de carro.

Ele ficou estático, levando aquela notícia muito a sério, como se havia pouco não estivesse desconfiado de Mãe Soraya.

 Sim, meu filho, posso sentir...  E ela começou a tremer, de novo teatralmente, mas dessa vez Sergio não desconfiava de nada.  Um acidente de carro, realmente. Um acidente de que você não terá culpa. Posso ver agora com riqueza de detalhes. Um Peugeot preto te fechará numa curva, você perderá a direção e se colidirá com um poste. Você não resistirá aos ferimentos e morrerá ainda na ambulância.

Sergio ficou mudo, consternado com a notícia. Pediu mais detalhes do acidente, mas Mãe Soraya disse que não sabia dizer mais, que isso era tudo. Ele se levantou, em estado de choque, perguntou quanto custou a consulta e foi só a mulher lhe dizer o preço para ele voltar a si, se irritar com aquele valor e tornar a pensar que aquilo tudo era, afinal, uma grande armação, que não tinha razão para se preocupar com aquela previsão, que não deveria nem sequer ter ido lá. Jogou o dinheiro furiosamente em cima da velha e saiu da sala com passos apressados, o que pouco adiantou, porque teve que parar em frente ao portão trancado e esperar a garota voltar para abri-lo.

O processo de abrir o portão durou quase cinco minutos, após os quais a garota se despediu, com um leve sorriso irônico, e falou:

 Duas semanas, hein! Não mais que isso. Minha mãe nunca falha.


3

No domingo, Sergio se manteve mais taciturno que o normal. Os domingos eram sempre os piores dias para ele: ficava em casa sem fazer nada e raramente trocava mais de três frases com Stella. O dia só valia porque era o único momento da semana em que conversava com a filha, sabia como ela estava, como ia no colégio, fazia alguns deveres de casa com ela e passavam algum tempo juntos. A menina se chamava Beatriz e nunca escondera que sentia falta do pai, que gostava de conversar com ele, mas, apesar disso, quando ambos estavam juntos, embora ela aproveitasse a companhia paterna, havia uma nítida falta de intimidade entre os dois.

Aquele domingo, porém, Sergio passou o dia inteiro recolhido em sua cama. Não bateu na porta do quarto de Beatriz como sempre fazia, quando se sentia sufocado pela presença de Stella, pelo ócio, pelo cheiro da casa. Beatriz notou essa mudança de comportamento, perguntou à mãe o que se passava com Sergio, mas Stella não deu importância. Ele permanecia deitado na cama, como se estivesse doente. Encarava o antigo armário verde musgo e se lembrava da velha do dia anterior, aquela horrível Mãe Soraya que previra sua morte de forma tão casual, tão displicente. Foi só à noite, antes de Beatriz se deitar, que ela foi falar com o pai. Em todos os domingos, ele era quem a procurava, mas dessa vez, não. Partiu da garota a aproximação. Ela perguntou como ele estava, ele respondeu que bem, mas sua fisionomia tensa não a enganou. Beatriz perguntou de novo e, dessa vez, ele falou, impacientemente, que tinha mesmo um problema, mas que era coisa do trabalho, que não era nada que ela entenderia nem com o que ela deveria se preocupar.

Meio sentida, a garota baixou os olhos e saiu do quarto. Passaram-se dez minutos e ele a seguiu, indo encontrá-la já em seu quarto, enrolada na coberta, só com a luz do abajur acesa. Ele pediu permissão para entrar, como teria pedido a qualquer adulto, e sentou-se na beira da cama, acariciando as mechas de cabelo da menina que caíam-lhe no rosto. Pediu desculpas se havia sido grosseiro e perguntou:

 Se eu morresse, você sentiria minha falta?

A garota não respondeu, mas começou a chorar. Sergio, então, percebeu que fizera burrada, soltara uma pergunta completamente estúpida. A menina já estava triste e preocupada com o distanciamento dominical do pai e ele ainda faz um questionamento absurdo desses! Ele aumentou a intensidade das carícias, abraçou o pequeno corpo de sete anos de Beatriz e disse que não era para ela chorar, aquilo era só uma suposição, que ela deveria esquecer que ele lhe havia feito aquela pergunta, que esquecesse, por favor, que esquecesse!

Mas ela não esqueceu:

 Você vai morrer! Você vai morrer? Vai morrer!

Sergio não entendeu se era uma afirmativa ou uma interrogação, mas negou. Disse que não ia morrer, repetiu que Beatriz deveria esquecer aquilo e começou a falar de desenhos de que ela gostava, da escola, de gibis, assuntos que desviassem o foco do pensamento da menina. Pareceu funcionar, porque ela parou de chorar e passou a falar de toda a sua semana no colégio, como havia sido, o que tinha aprendido. Ela nunca falara tanto nos outros domingos. Na verdade, ambos jamais estiveram tão próximos. Ele não costumava tocar na menina, mas agora não parava de acariciar seus cabelos e ela nunca falara tão entusiasticamente. Foram interrompidos por Stella, que disse para Sergio parar de atrapalhar o sono de Beatriz, que estava na hora de ela dormir e ordenou à menina que assim fizesse.

Ambos obedeceram. Beatriz apagou o abajur e fechou os olhos (embora Sergio estivesse convicto de que ela não adormeceria tão cedo) e ele, que realmente não queria atrapalhar o sono da filha, saiu do quarto em passos lentos, passando ao lado de Stella, que estava parada ao lado da porta, sem nenhuma vontade de olhá-la. Voltou para a cama, irritado por se ter permitido abater tão facilmente pela tal Mãe Soraya, por ter permitido que aquela velha louca fizesse com que ele pronunciasse uma pergunta idiota e atrapalhasse o sono da filha.

A face da velha apareceu de novo no armário verde musgo e os pontos negros de umidade no teto formavam a careta zombeteira que a garota panfleteira lhe fizera, certamente se divertindo com sua fraqueza de espírito. E aquela despedida ("Duas semanas, hein! Não mais que isso. Minha mãe nunca falha"), aquilo era uma afronta, um claro deboche. Mas o que mais ele merecia? Era o mínimo por se ter deixado impressionar.

Stella desligou a TV na sala e deitou-se ao lado do marido, o mais distante que pôde na cama. Stella sempre dormia tarde, o que significava que os pensamento em Mãe Soraya tinham ocupado a mente de Sergio por mais tempo do que ele supunha. Olhou o relógio: duas da manhã. Tinha saído do quarto de Beatriz às nove. Cinco horas pensando naquela vidente de araque! Levantou-se, foi à cozinha, pegou um dos remédios que Stella tomava para dormir e ele mesmo o ingeriu. Tinha que pegar no sono! Adormeceu, enfim, já quase na hora de acordar.

Levantou-se e todo o seu rotineiro procedimento matinal foi mantido, desde a leitura do jornal até a água desperdiçada no chuveiro do banheiro. Tudo, porém, com muito menos atenção que o habitual. Seu corpo era uma máquina autônoma da mente. O pensamento estava longe: na morte. Sofreria muito com o acidente? Quando batesse o carro, sentiria dores? Iria para a ambulância em coma? No meio do banho, acendeu-se uma ponta de felicidade: se ele não dirigisse por duas semanas, não morreria! A solução era óbvia: deveria usar o transporte público durante aquele tempo. Mas a morte é invencível, pensou. "Não vou conseguir ludibriá-la por muito tempo". Nada impediria que o maldito Peugeot preto entrasse na frente do ônibus em que ele estivesse, matando-o, de qualquer jeito. "Para isso, devo usar exclusivamente o metrô". Acontece que morava longe da estação. E tampouco havia estações próximas de seu trabalho. Para usar o metrô, teria que andar muito todos os dias. "Só por duas semanas, eu aguento". Mas e as explicações que teria que dar às pessoas Certamente lhe perguntariam por que não estava de carro. Poderia dizer que seu veículo enguiçou, que está na oficina mecânica, mas, nesse caso, questionariam por que estava de metrô, em vez de ônibus. Por que estava andando tantos quilômetros para chegar ao metrô, em vez de pegar um ônibus em frente a sua casa e descer na rua paralela à do trabalho? Não poderia contar a verdade, seria ridículo. Mas esse é o xis da questão: é ridículo! Por que, então, estava dando tanto importância àquela previsão? Não se cansava de fazer essa pergunta. Se tinha vergonha de contar sobre Mãe Soraya, se seria risível para as outras pessoas o fato de Sergio pegar metrô porque uma velha doida previra sua morte, então por que estava cogitando essa ideia? Era tudo absurdo!

Durante esses devaneios, seu corpo, que continuava desvencilhado da mente, já havia se banhando, se enxugado, se vestido e Sergio estava agora com a chave do carro na mão. Iria dirigir! Não cederia ao terror daquela velha grotesca!

Quando saiu do elevador, cumprimentou o porteiro. Foi tomado por uma intensa raiva desse indivíduo. Tudo começou quando ele lhe falara sobre a morte do desconhecido zelador! Tudo culpa daquele sujeito!

Quando entrou no carro e ligou a ignição, percebeu que estava tremendo. Não poderia dirigir nesse estado de nervos. Olhou-se no retrovisor e conversou consigo próprio, em voz alta mesmo, sem vergonha, firmemente:

 Ok, já te perguntei várias vezes por que você está dando tanto valor àquela bruxa. Você não me respondeu. Você só abaixa a cabeça. Você sabe que é ridículo, racionalmente você sabe, mas não consegue escapar. É mais forte que você. Você sabe que não vai morrer, você sabe que a velha era uma charlatã, mas, se dirigir tremendo dessa maneira, aí, sim, você vai morrer. Aí, você vai bater e não necessariamente vai ser num Peugeot preto, mas na primeira lata velha que cruzar sua frente. Agora, escute. Se aquela velha mexeu contigo mais do que você esperava, se você enlouqueceu, se desde a morte do zelador você está dando mostras de loucura, tudo bem. Você está louco e não podemos fazer nada quanto a isso. Vamos, então, entrar no seu mundo de faz-de-conta. Você vai morrer mesmo em duas semanas, no máximo. A velha estava certa e o fim está próximo. Mas ainda faltam duas semanas. No máximo, ela disse, ou seja: pode ser hoje, amanhã, em uma semana, uma semana e meia. Mas não necessariamente será hoje. Então, dirija, vá ao trabalho, cumpra com suas obrigações, não tem por que sofrer antes da hora. Você ainda tem algum tempo de vida. Gastá-lo com tremores nas mãos não é a melhor alternativa. Vai, dirija!

Tomou coragem, engatou a marcha e foi embora.

Apesar da tensão, Sergio, após a conversa que teve consigo mesmo em voz alta, conseguiu dirigir adequadamente até o trabalho, missão contribuída pelo fato de não ter cruzado com nenhum Peugeot preto no trânsito. O dia arrastou-se, teve vontade de contar sua angústia a alguém, mas não teve coragem: envergonhava-se só em se imaginar narrando a visita que fizera a Mãe Soraya.

Quando acabou o expediente e livrou-se da asfixia do escritório, Sergio saiu para seu passeio sem rumo pela cidade. Andou por três horas, passando pelo mesmo local onde pegara o panfleto de Mãe Soraya, mas a garota não estava lá. Quando a lua já se fazia notar no céu, voltou ao seu carro e notou, mais uma vez, as mãos trêmulas. Precisou de mais um tempo de preparação para poder dirigir de volta para casa, outra conversa consigo mesmo, novos exercícios de respiração e controle sobre seu corpo. Dirigiu, por fim, de novo sem maiores problemas, chegando aliviado ao seu prédio, não por estar de voltar ao lar (o que de forma nenhuma era motivo para comemorar), mas por ter estacionado o carro são e salvo.

Assim que entrou em casa, algo inédito aconteceu: Stella veio à porta recebê-lo. Não houve tempo para Sergio decifrar se seu sentimento era de simples surpresa ou mesmo de alegria, pois, em poucos segundos, Stella perguntou, com voz alta e irritada:

 Que história é essa de que você vai morrer?

Sergio se viu sem reação. Perguntou, com voz vacilante, onde Stella havia ouvido aquilo.

 Beatriz veio me perguntar por que o pai dela ia morrer! Perguntei que bobagem era aquela! Ela disse que você mesmo lhe falou que ia morrer! Que história é essa? Por que está colocando bobagem na cabeça da garota?
 É que eu temo que talvez eu esteja para morrer, mesmo...  Sergio respondeu, ainda vacilante, sentindo o sangue subir-lhe ao rosto, cobrindo-o de vergonha.
 Vai morrer de quê?  Stella perguntou, não com tom de preocupação, mas de cobrança, não contendo sua irritação, o que inibiu ainda mais a já pouca disposição de Sergio de contar a verdade.
 Tenho me sentido mal  ele respondeu, de forma pouco convicta.
 Mal como?
 Dores no peito  mentiu.
 Que dores no peito?
 Bem aqui. Nada sério.
 Se não é sério, por que você vai morrer?
 Não quero falar sobre isso.
 Mas com a nossa filha, você quis falar! Sabia que ela não conseguiu fazer os deveres de casa porque não tirava essa bobagem da cabeça?
 Vou conversar com ela.
 Ela já está dormindo, você sabe muito bem!
 Domingo eu falo com ela.
 Hoje ainda é segunda!
 E o que você sugere que eu faça, Stella? Por Deus, me deixe em paz! O que você quer que eu faça?
 Que cumpra sua promessa e morra de vez! – E virou as costas e foi-se embora, sem dar-lhe tempo de resposta.


4

A infância de Sergio fora o oposto de sua vida adulta. Em criança, era bagunceiro, falador, extrovertido. Não parecia o apático e cansado adulto que se tornara. Era já quinta-feira, passaram-se cinco dias desde a maldita previsão e Sergio, em sua caminhada após o expediente, pensava com melancolia em seus anos de infância, pensamento fruto da brevidade da vida, da certeza que tinha de que morreria em tão pouco tempo.

Quando se tornara esse ser vagante e desprezível, incapaz de ser amado por qualquer pessoa? Não sabia responder. Fato é que iria morrer em pouco mais de uma semana, no máximo, e ninguém sentiria sua falta. Talvez a filha. Talvez. No fundo, não tinha certeza da importância que tinha na vida de Beatriz, sabia que era um pai extremamente ausente e pensava o quanto de culpa tinha por isso. Quando chegava do trabalho, antes de adotar esse hábito de caminhada, a menina ainda estava acordada, estudando ou vendo TV, e ele não ia falar com ela... Durante os jantares, tampouco conversava com a filha. Agora, que resolveu andar sem rumo após o expediente e chegava mais tarde em casa, nem esse pouco contato com Beatriz ele tinha mais. Ela já estava dormindo quando ele chegava. Talvez devesse cancelar essa resolução de andar pela cidade quando saía do trabalho, mas isso lhe fazia tão bem... Era o momento em que punha os pensamentos em ordem, em que relaxava a mente... Mas a custo de quê? A custo de um maior contato com a filha? Se, ao menos, os domingos fossem suficientes para compensar toda a ausência dos outros dias da semana... Temia, porém, a constatação de que não tinha o menor interesse na vida da menina. Provavelmente, só falava com ela aos domingos porque era a única opção que tinha naquele que era o pior dia da semana. Conversar com a filha era, dos males, o menor.

Pensava na sua própria infância porque pensava na infância de Beatriz. Ela era feliz? Não sabia! Era inconcebível, mas não tinha a menor ideia da resposta a esse pequeno enigma que era a felicidade da própria filha. Quando ele era criança, era feliz. Sua mãe morrera quando ele ainda tinha três anos de idade e o pai não era muito próximo dele. Passava o dia na escola e, à noite, conversava tão pouco com o pai que era como se fossem completos estranhos. Mas era feliz. Era feliz na escola, era feliz com os amigos, era feliz em casa (não graças ao pai, mas vendo TV, jogando videogame etc.). Isso o aliviava. Talvez Beatriz, afinal, também fosse feliz, apesar do pouco contato que tinha com a filha. E ela, ao contrário do pequeno Sergio, ainda tinha Stella para lhe dar toda a atenção que Sergio não recebera de ninguém em criança. E nada disso o impediu de ser feliz.

Sergio teve bons amigos na escola, assim como na adolescência, na universidade... Quando os perdeu? Quando se tornou tão solitário? Quantos anos tinha quando deixou para trás todos os seus bons amigos para se tornar um nada, um louco que visitava videntes? Aliás, qual era a sua idade nesse momento, a idade em que morreria? Teve que fazer as contas, diminuir o ano atual do ano de nascimento e relembrar que tinha 46 anos. Mas a idade que dividira a felicidade da insignificância, essa ele não lembrava. Casara-se quando tinha 27. Antes disso já era um ser tão ignóbil? Poderia colocar a responsabilidade de se ter tornado um nada nas costas de Stella? Por certo que não. No início, seu casamento era bom. Não era infeliz. Ambos trabalhavam, tinham boas condições financeiras e, quando um chegava em casa à noite antes do outro, ficava ansioso à espera do cônjuge, afoito na porta até ele chegar. Quando o esperado momento acontecia, beijavam-se calorosamente ainda do lado de fora, entravam e faziam sexo na sala mesmo, todos os dias. Amavam-se, sem dúvida. Nessa época, Sergio não era infeliz, ao contrário. Mas essa alegria, esse júbilo excessivo fez com que ele se afastasse dos amigos. Vivia somente para Stella e verdade seja dita: ela também só vivia para ele, também se afastara de seus colegas. “Hoje, Stella também é solitária”, pensou. “Tanto quanto eu...” Afastaram-se dos seus melhores amigos porque um só tinha olhos para o outro. No momento em que se perderam, quando um passou a ser estranho para o outro, não tinham mais nem os antigos amigos nem um relacionamento conjugal satisfatório. 

Essa apatia de Sergio era novidade. Nunca fora assim. Se, hoje, o domingo tinha se tornado o pior dia da semana, era o oposto no passado. Enquanto solteiro, passava os domingos organizando churrascos, frequentando clubes, jogando futebol... Depois de casado, também esperava ansiosamente pelo fim de semana, mas agora para passá-lo com Stella, distantes do mundo, longe dos olhos dos outros. Inicialmente, não cessaram os convites para eventos sociais, mas eles negaram tantas vezes que, um dia, caíram no esquecimento, ninguém mais se lembrava dos dois quando ia organizar uma festa ou um evento qualquer.

Sergio pensava se não fora Beatriz o divisor de águas de sua vida. Tampouco era verdade, porém. Stella tinha dificuldades de engravidar e, quando a menina nasceu, o casal comemorou tanto que, contrariando as expectativas, passavam ainda mais tempo juntos do que antes. Sergio diria até que nunca foram tão unidos quanto nos dois anos após o nascimento da menina. Aquele foi o melhor momento de sua existência, sem dúvida. O gráfico de sua vida não fora, portanto, uma linha em constante declínio, mas uma parábola, em que esses dois anos que sucederam o ganho de uma filha foram justamente o ápice.

Havia por volta de cinco anos que sua vida despencava. Stella e ele afastaram-se naturalmente: essa constatação era o que mais o incomodava. Não teve um marco, um fato que determinara essa ruptura. Simplesmente não se suportavam mais. Um fazia mal para o outro. Não mais se tocavam, não se viam, não se falavam. Voltar para antigos amigos já era impossível; não eram mais lembrados por ninguém. Para fazer novas amizades, faltava vontade, ânimo, disposição. Não queriam mais viver. E, no fundo, não viviam. Se, por anos, só existiram um para o outro, agora, quando se ignoravam mutuamente, não eram considerados por ninguém.

Beatriz, talvez. “Para Beatriz, talvez eu ainda exista”. Os pensamentos se tornavam cíclicos e, de novo, cogitava a importância que tinha na vida da filha. E aquele zelador? Será que ele, pelo menos, tinha sido importante para alguém? Será que tinha sido mais importante que ele, Sergio?Sabia que, quando morresse em pouco mais de uma semana, ninguém, com exceção – talvez – de Beatriz, choraria sua morte. E o finado Pedro? Alguém lamentou seu desaparecimento desse planeta? Quando se deu conta, já era tarde da noite. Nunca tinha ficado tanto tempo na rua. Temeu que o estacionamento já estivesse fechado, mas um vigia ainda permanecia no local, seu carro era o último. Seus pensamentos ainda estavam na repentina insignificância de sua vida, elucubrações que, embora tristes, afastaram-no da tensão de cruzar com um Peugeot preto.

Dirigiu tranquilamente até sua residência. Não estava nervoso, as mãos não tremiam. Estava apenas triste, melancólico. Encontrou um apartamento com luzes apagadas em todos os cômodos. Stella já dormia; Beatriz, é claro, também. Olhou a mulher em sono profundo, seus seios movendo-se em uma pesada respiração. Sergio nunca tinha chegado tão tarde em casa: alguém percebera? Pelo visto, não. Sentiu uma umidade nos olhos, encarando a mulher que, se durante os últimos anos fora uma estranha para ele, agora lhe parecia alguém levemente familiar, como um velho amigo dos tempos de universidade com quem nos encontramos anos depois, que está completamente mudado, mas que ainda conserva uma ou outra característica dos velhos tempos. Muito pouco, tratando-se da mulher com quem convivia por quase vinte anos. E que característica era essa que ainda lembrava a Stella de anos atrás? Tampouco saberia responder. Provavelmente, foi só um sentimento passageiro, um devaneio qualquer; vai ver ela não tinha mesmo mais nada da mulher com quem se casara.

Dormiu bem como não acontecia havia muito tempo. Um sono profundo, tranquilo. Não porque estava feliz, mas, ao contrário, por estar tão triste. A melancolia tem essa estranha capacidade de vencer a raiva, a ansiedade, a inquietação. Não poucas vezes estamos agitados por algum motivo e, não podendo almejar a felicidade, ao menos temos a tristeza que nos preenche e nos aquieta. Foi essa tristeza, por mais paradoxal que possa parecer, que fez Sergio ficar em paz consigo mesmo.

Quando acordou, Sergio estava descansado, sentiu que havia tido uma boa noite de sono. Praticou todo o seu ritual matutino e mais uma vez dirigiu sem maiores afobações. Como sempre ocorria, chegou ao trabalho sem ser notado por ninguém, foi para a sua mesa, distribuiu em ordem de urgência algumas planilhas sobre as prateleiras e trabalhou sem ser incomodado por nenhum outro funcionário. Quando terminou o expediente, manteve seu recente hábito de caminhar pela cidade, retornando tarde para casa e encarando a mulher com aquela emoção de quem perdera algo precioso, mas sem saber precisar quando nem por quê.

Esse marasmo, essa melancólica tranquilidade, durou uma semana inteira. Segundo as previsões de Mãe Soraya, tinha apenas mais dois dias de vida, mas nem pensava mais nisso. Já se considerava morto. Não era relevante para ninguém, não fazia nada de útil, ninguém tinha qualquer tipo de apreço por ele. Quando o Peugeot preto aparecesse, apenas oficializaria algo de que todos já sabiam: estava morto para o mundo.

Na sexta-feira, lembrou-se de que morreria naquele ou no próximo dia. De toda forma, não tornaria a ver seus companheiros de trabalho. Ao fim do expediente, tomou uma atitude inédita: foi se despedir de seus colegas um por um. Todos estranharam aquilo imensamente e o próprio Sergio se sentiu ridículo depois. Mas não deixou a iminente morte impedir sua última caminhada pela cidade, até tarde. Já saudoso, avistou os bares cheios, as filas para o cinema, os casais a passear, tudo o que caracteriza as comemorativas noites de sexta-feira.

Dirigiu até em casa procurando por um Peugeot preto, que não apareceu. Sobreviveu mais um dia, mais uma noite. Sabia que era a última. Entrou em casa, não acendeu nenhuma luz e apenas esperou seus olhos se habituarem à escuridão. Tomou banho, vestiu seu pijama e se deitou. Abraçou Stella na cama. Havia tempos que não fazia isso! Sentiu-a mais uma vez, a última. Ela não percebeu nada, continuou dormindo - se tivesse notado, por certo o teria repelido. Dormiu o que tinha certeza ser a última noite de sua vida.

Acordou às dez da manhã, muito mais tarde do que costumava se levantar, mesmo se tratando de um fim de semana. Olhou pela janela um céu muito azul, radiando o amarelo do sol no verde das árvores. Bela manhã de sábado. Quando pôs os pés para fora do quarto, veio a voz mal humorada de Stella:

 Até que enfim, está acordado! Vai ao mercado que o arroz acabou!

Ele sorriu. Não costumava dirigir aos sábados, mas a previsão de Mãe Soraya não podia estar errada. Dirigiria naquela manhã de sábado para morrer. Se bem se lembrava, tinha ido à casa da vidente às onze e meia de dois sábados atrás. Portanto, morreria em duas semanas exatas, sem tirar nem pôr. Uma previsão certeira. Voltou-lhe à mente a ideia de ir andando ou de ônibus até o mercado, mas a primeira opção, dada a distância, era inviável e a segunda não excluía a possibilidade de acidente com o Peugeot. Metrô, não tinha como: não existia estação perto do mercado. Poderia se negar a ir, mas nem cogitou essa alternativa. Era Stella quem o mandava para a morte, ela, que falou textualmente que queria que ele morresse. Acudiu, disse que tudo bem, que compraria o arroz, que só queria comer um pão com manteiga (seu último em vida) e se despedir de Beatriz. Stella falou para ele não interromper a filha, que estava estudando. Quanto a isso, Sergio não obedeceu. Entrou no quarto da filha, sob protestos de Stella, abraçou-a apertadamente, aplicou-lhe um duradouro beijo na bochecha e, sem dizer mais uma palavra, pegou a chave do carro e se encaminhou para o elevador.

Já no primeiro quilômetro dirigido, avistou um Peugeot preto à frente, a dois carros do seu. Permitiu que uma lágrima escorresse por seu rosto e resmungou, baixinho:

 Puta que pariu... Então, vou morrer mesmo...


5

O Peugeot preto dirigia a dois carros de distância de Sergio. Era uma reta, com várias casas e lojas ao lado. O primeiro carro que separava Sergio do Peugeot deu seta para a direita e virou, diminuindo a distância entre eles para apenas um veículo. Dirigiram mais cinco quilômetros nessa reta, até que esse outro carro convertesse à esquerda.

O Peugeot estava agora na frente de Sergio. Nada mais os separava. Sergio olhou para o relógio do carro: onze e dez. Tinha, no máximo, mais vinte minutos de vida, para a matemática ser exata. Sergio poderia virar para um dos lados ou tentar ultrapassar o Peugeot ou deixar que outro carro se enfiasse entre eles, mas já não mais cogitava driblar a morte. Tinha certeza de que morreria e nada mais podia fazer a respeito. Não se sabe se essa falta de ideias para sobreviver acontecia porque estava resignado com a inexistência ou porque o nervosismo de tempos atrás voltou a enuviar sua mente.

A tranquilidade, a calma e a melancolia que tinham se apoderado de Sergio nos últimos dias não mais existiam agora que ele estava diante da morte. Suas mãos estavam novamente trêmulas. Os pés mal tocavam os pedais de tanto que tremiam. A marcha não vibrava só com o tremor natural do carro, mas também com as mãos de Sergio que não conseguiam ficar quietas. Não chorava mais, não conseguia. Via-se repentinamente em um completo estado de nervos, que só piorou quando a reta do caminho se transformou numa rua cheia de curvas. Eram onze e vinte e cinco. O Peugeot deu seta, aparentemente viraria para a direita, embora Sergio só visse mato naquela direção. Para onde o Peugeot queria virar? Era um senhor dirigindo. Que ele queria fazer? Para onde desejava ir? À frente, uma ribanceira com muitas árvores. Sergio não estava a mais de dois quilômetros do mercado, mas sabia que não chegaria. Encarou o barranco, que ainda estava um pouco distante. O Peugeot continuava com a seta ligada, seta que dava justamente para o pequeno precipício de árvores que se faziam cada vez mais visíveis. Quando os dois carros chegaram à curva da ribanceira, Sergio se viu hipnotizado pela seta do Peugeot, virou o volante para onde essa seta apontava, para a direita, para o barranco, para a morte. O Peugeot continuou seu caminho. O carro de Sergio deslizou barranco abaixo, ficando preso entre duas árvores mais distantes. O barulho foi terrível. O cinto de segurança evitou que Sergio fosse arremessado violentamente contra o para-brisa, mas não impediu uma forte pancada de sua cabeça no vidro. O corte rasgou-lhe o couro cabeludo bem no meio e o sangue escorreu por sobre seus olhos, ofuscando-lhe a visão. Conseguiu ainda se soltar do cinto de segurança, abrir a porta e engatinhar para fora do carro. Fechou os olhos e o que seguiu foi escuridão.


6

As luzes e os sons das sirenes se faziam notar na rua repleta de ziguezagues. Era como a geografia de uma serra no meio da cidade, de modo que, de longe, podiam-se notar as ambulâncias fazendo as curvas e se aproximando da ribanceira. Quando Sergio começou a retomar a consciência, estava já dentro de um desses carros, com a sirene ligada, fazendo um barulho infernal. “Ainda estou vivo?”, ele se perguntou. Lembrou-se, porém, que, de acordo com Mãe Soraya, morreria dentro da ambulância, no caminho para o hospital. Resignou-se e adormeceu de novo.

Foi aí que viu Pedro, o zelador. Pedro gargalhava, sentado no pilotis do prédio, no chão, encostado em uma pilastra. Ria com gosto e falava:

 Me disseram que te deixei doido! Eu! Eu te deixei doido!

Sergio, que tinha a visão em primeira pessoa, não conseguia se mover. Parecia que estava de pé, porém preso a algum ímã que lhe impedia de dar um passo para mais próximo de Pedro. Tampouco conseguia falar. Fazia um enorme esforço para abrir a boca, mas não pronunciava uma palavra. Pedro continuava a gargalhar, aparentemente se divertindo por ter enlouquecido Sergio. Não parecia haver maldade em seu riso, não tripudiava sobre Sergio, apenas achava engraçado que ele, um simples zelador, tivesse sido o responsável pela loucura de outra pessoa, especialmente por ser alguém quase desconhecido.

Nisso, o porteiro apareceu, aproximou-se de Pedro e disse:

 Não ache que os méritos são todos seus! Fui eu quem deu a notícia de sua morte. Na verdade, se fôssemos partilhar a responsabilidade pela loucura desse sujeito, eu ficaria com uns 90% disso. Você só morreu. Todo o resto do trabalho foi meu!
 Na verdade, acho que nem eu nem você. Os maiores méritos são daquela esposa simpática dele! – respondeu Pedro, sem deixar de rir, dando irônica ênfase à palavra “simpática”. E ambos caíram na gargalhada.

Sergio, enfurecido, continuava sem conseguir falar. Agora, esforçava-se mais que nunca, mas o grito não saía, permanecia emudecido. Encheu-se, então, do máximo de ar que conseguiu e soltou com força os pulmões. Tudo o que saiu foi um gemido incompleto e lá estava ele, no saguão de um grande hospital da cidade, conseguindo falar e se mexer normalmente. Pedro e o porteiro não estavam mais ali, mas tinha muita gente indo e vindo, vários rostos desconhecidos passando por ele.

Onde estavam o zelador e o porteiro? Por que Sergio não estava mais no pilotis de seu prédio? Aos poucos, lembrou-se que tinha adormecido, devia ter sonhado. Mas e agora, onde estava? Era um hospital, sabia. Mas como parara ali? O acidente, é claro. Sua memória se fazia menos cinzenta, lembrava-se agora que adormecera numa ambulância. Mas por que acordara em pé, no meio de um lugar tão movimentado? Essa parte já não fazia sentido. Quem dorme o faz deitado ou, pelo menos, sentado. Como chegara ao saguão daquele hospital? Será que a ambulância o largara ali sem permitir que fosse examinado por um médico? Não fazia sentido.

Andou um pouco mais, sem rumo, e pensou: “Eu morri! Que médico o quê? Eu estou morto!”. Aquela cena com Pedro e o zelador provavelmente foi um rito de passagem ou algo que o valha. Uma sensação de extrema angústia dominou Sergio. Reparou agora que estavam todos rindo dele. Todas aquelas pessoas que passavam pelo ambiente e que, havia um minuto o ignoravam, agora riam e apontavam para Sergio. Deviam ser fantasmas, mortos como ele, e riam porque eles também já passaram por esse sentimento de terror e perplexidade pós-vida.

Sua natural reação foi de encolhimento, constrangimento. De olhos baixos, não encarava as pessoas, mas percebeu que uma altiva senhora se aproximava dele. Quando já bem próxima, ela falou, quase sussurrando, só para ele ouvir:

 Calma que está tudo bem. Venha comigo.

Sergio a seguiu, ainda constrangido, mas relativamente confortado por aquela senhora, que mostrava visível irritação com as outras pessoas que debochavam de Sergio.

 Não tem por que rirem de mim se elas também já passaram por isso!  ele falou, incentivado pela empatia da senhora. Estava certo de que esse também era o pensamento da velha, que cada vez mais mostrava sinais de censura à atitude daquela multidão.  Ao contrário!  Sergio prosseguiu.  Justamente por isso deveriam mostrar compaixão comigo, por saberem como me sinto, por já terem se sentido da mesma maneira!
 Que te faz crer que elas já passaram por isso?  a velha perguntou, demonstrando, pela primeira vez, impaciência com Sergio. Ele não conseguiu formular uma resposta. Estavam agora numa sala interna do hospital, um local mais reservado.
 Descanse um pouco  ela falou.  Em breve alguém virá te atender. 

Sergio consentiu.

Gostaria de ver seu próprio corpo ainda mais uma vez. Não sabe se estaria muito desfigurado, talvez nem se reconhecesse, mas, mesmo assim, queria dar uma última olhada na carne que por tempo habitara.

No momento em que esses pensamentos lhe vieram à mente, conscientizou-se, agora mais claramente, de que estava de fato morto. Não é que desacreditasse em vida eterna, mas nunca simplesmente pensara nisso. Não sabia o que esperar da morte. Mesmo durante seus últimos ansiosos dias de vida, quando pensava que ia morrer, pensava apenas no processo até o fim, na morte em si: se seria indolor, rápido, agonizante... Quando imaginava os momentos que sucediam o fim de sua existência, elucubrava apenas se alguém choraria por ele, sentiria sua falta, mas nunca nele próprio. Acreditava que deixaria de viver e pronto. Nem cogitava que existia uma vida posterior, muito menos na qual os outros espíritos ririam dele.

Pensava agora em diversos clichês que vira em filmes, livros, novelas e que habitavam razoavelmente o inconsciente coletivo. Enquanto esperava nessa salinha, por exemplo, perguntava-se quem era esse sujeito que viria atendê-lo. Um anjo de passagem, alguém que tinha por incumbência mostrar-lhe seu novo mundo? Pensou já ter lido em algum lugar que essa delegação seria atribuída a alguém próximo do morto, um espírito que, mais evoluído, tivesse convivido com o falecido durante a vida terrena e que, agora, deveria apresentar-lhe as características de sua nova existência.

Mas quem seria essa pessoa? Sergio pensou em sua mãe... Mas ela havia morrido quando ele ainda era criança, não tinham chegado a criar um vínculo. Cogitou alguns amigos, pensou no pai... Mas todos já tinham partido havia tanto tempo. Parecia-lhe improvável uma visita dessas pessoas. Já deveriam ter reencarnado, pensou, embora não fizesse a mínima ideia do tempo que um espírito levava para reencarnar.

“Pedro!”, pensou. Pedro morrera havia pouco tempo e ele já esteve em seu sono recente. Embora o zelador gargalhasse de Sergio, rir dos outros não parecia uma prática incomum entre os espíritos. É verdade que Pedro não era nada próximo de Sergio  muito pelo contrário: mal se conheciam , mas, dada a falta de alternativa melhor e considerando que a morte de Pedro teve profundo impacto na vida de Sergio, parecia ser aquela a melhor opção. Isso explicaria aquele estranho sono. Fora um prelúdio que antecedia a visita que receberia de Pedro, o início dos trabalhos do zelador para receber Sergio e mostrar-lhe essa nova vida. O que estranhava era que o porteiro, que ainda estava vivo, também tivesse aparecido no sonho, mas nunca se sabe como essas coisas funcionam. Quem sabe o porteiro morreu naquele dia? Ou, vai ver, ele estava apenas dormindo e sua alma saíra para visitar o sonho de Sergio (também já tinha lido sobre isso alguma vez: que, quando dormimos, nosso espírito sai do corpo para vaguear).

De toda forma, Sergio não estava disposto a receber visita de Pedro. Sabia que se sentiria constrangido e desconfortável. Levantou-se de seu banquinho e, cuidadosamente, abriu a porta e saiu da salinha, voltando para o saguão do recinto e, posteriormente, para o pátio externo.

Agora, cessaram-se as risadas. Ninguém mais ria de Sergio e ele caminhava tranquilamente pelo local até estar do lado de fora, já na rua. Reconsiderou sua decisão e pensou que talvez devesse ter aguardado a visita de Pedro. Agora, sem um guia espiritual, não sabia para onde ir nem o que fazer. Estava, porém, descartada a possibilidade de voltar à salinha onde esperava sentado; seria por todos ridicularizado. Caminharia, portanto, como fazia em vida após sair do trabalho: sem rumo, sem pressa. Queria conhecer esse lugar que agora acreditava ser o limbo. Não era. Não era o céu nem o limbo nem o inferno. Era a Terra, exatamente como ele a deixara. Aquele lugar do qual saíra era mesmo um hospital e isso agora era a rua, com os mesmos ônibus de sempre, as pessoas, os carros, o comércio, os vendedores ambulantes. Mas o que tinha acontecido com ele? Estaria ainda vivo? Ou teria virado uma alma penada, vagante, involuída? Tocou uma parede e sentiu-a. Sua mão não a atravessou, como via em filmes. Estava vivo, então? Pegou uma pedra, chutou uma lata de refrigerante, sentiu o vento. Sentia frio, seus pelos se levantaram. Estava com fome. Sensações mundanas. Estava vivo? Falou com um camelô:

 Boa tarde.

O camelô não respondeu. Tentou de novo. Silêncio. Estava morto, então. Será?

Somente uma pessoa poderia responder-lhe: Mãe Soraya. Talvez uma pessoa normal não o visse, não o escutasse, mas ela era uma vidente. Seguiu para a casa da mulher. Ainda conhecia a cidade de cor, sabia os atalhos, as ruas, as avenidas. Foi a pé (não lhe parecia haver outra possibilidade). Lá, tocou a campainha por longos minutos, chegando a acreditar que não havia ninguém em casa, mas logo a garota panfleteira se fez notar. Ela apareceu ao fundo de quinquilharias espalhadas pelo quintal, olhou para o portão com curiosidade e voltou para o interior da residência. Pareceu não o ter percebido. Ele tocou de novo, atônito, mas ninguém lhe atendeu. Gritou, mas nada. Ninguém apareceu por uma segunda vez para lhe abrir o portão. Saiu, atordoado, incapaz de lidar com a inexistência. Não conseguia explicar, porém, o fato de, embora morto, conseguir mover tudo de lugar com seu tato. Talvez nem tudo fosse como na TV. Precisava muito falar com Mãe Soraya. Aquela garota logicamente não o notaria, mas a vidente, talvez. 

Precisava voltar para casa, rever a filha. Beatriz estaria bem? Já teria chegado a notícia de sua morte? Não sabia, contudo, como regressar. A pé, era impossível, estava muito longe; seu carro estava destruído em um precipício; ônibus era a única alternativa. Acontece que, assim que chegou ao ponto, vendo que um se aproximava, fez sinal e o veículo passou, ignorando-o. É óbvio: nenhum motorista o veria. Esse fato se repetiu três vezes: ele esticava o braço, solicitando a parada do ônibus, e nada. Foi necessário esperar que alguma outra pessoa desejasse pegar a mesma linha que ele e, então, com o ônibus parado e a porta já aberta, Sergio entrou rapidamente. A coincidência era necessária também na hora de descer. Puxou a cordinha, fez-se o barulho que alerta o condutor que tem passageiro querendo saltar, mas, quando o motorista olhou pelo espelho e não viu ninguém, foi audível o som de seu resmungo, certamente achando que se tratava de uma brincadeira de alguma criança que estava no fundo. Só dois pontos depois, quando mais gente solicitou a parada, Sergio pôde descer, tendo que voltar dois quarteirões à toa. Durante a caminhada, pensava: que lugar era aquele onde ele estava, que pensou ser o limbo? Era um hospital, é claro. Não conhecia muitos estabelecimentos médicos na cidade, mas aquele era um hospital na Terra, não podia duvidar disso. Mas por que lá as pessoas o viam e, agora, não? Elas o enxergavam, é claro, tanto que tantas riram dele! O que mudou que agora era invisível a todos?

Chegou ao seu prédio, passou pelo porteiro que havia pouco estava em seu sonho, mas, dessa vez, ele não notou Sergio. O elevador demorou para chegar e ele se irritou por, mesmo sendo um espírito, continuar dependente desses meios terrenos de locomoção. Sacou a chave de seu bolso e entrou no apartamento. Ninguém na sala. Vozes no quarto de Beatriz, que conversava com a mãe:

 Mas ele morreu?  foi o que perguntou a filha, com voz assustada.

Sergio notou a porta do quarto aberta e esforçou-se para não ser notado. Logo, percebeu que aquilo era uma estupidez, estava morto. Entrou no quarto sem maiores cerimônias:

 O acidente foi muito grave...  Stella respondeu, com voz pesarosa de quem já sabe a resposta, mas evita dizê-la à filha.
 Ele morreu?  perguntou de novo Beatriz, parecendo a Sergio muito mais assustada do que propriamente triste.
 O hospital já me ligou e parece que não encontraram seu corpo...

Beatriz caiu em pranto, cobrindo o rosto.

 Como não encontraram?  Sergio interveio, sem ser ouvido.  Eu fui levado para a ambulância! Meu corpo estava lá! Isso é uma mentira!  E, com seus gritos, ele apenas se cansou, ninguém o escutava.
 A colisão foi muito forte, filha  Stella falou.  Dificilmente ele está vivo.


7

Desorientado com o que acabara de ouvir, Sergio saiu do quarto da filha, rumo à sala, sentando-se no sofá e apoiando-se sobre os cotovelos. Stella fazia comida  sem arroz  e Beatriz chorava baixo. Stella agia como se fosse mais um dia de rotina, mas parecia mais taciturna que o normal. Fungava às vezes, o que Sergio queria associar a um princípio de choro, mas que poderia ser um simples resfriado. De vez em quando, largava a panela e ia ao quarto de Beatriz, para ver como a filha estava, acariciá-la, confortá-la com algumas palavras, mas logo tinha que voltar à cozinha para a comida não queimar.

Dada hora, foi a menina quem saiu do quarto e foi falar com a mãe, na cozinha:

 Não vai ter enterro?  perguntou Beatriz, secamente.
 Não encontraram o corpo do seu pai, minha filha, já te disse.
 O local do acidente era uma área pequena  respondeu Beatriz, seriamente.  Como não encontraram?
 Não sei, filha... Era uma pequena ribanceira.
 Pequena, pois é. Se encontram corpos no fundo do oceano, por que não vão encontrar ali?
 Não sei te responder, filha.
 Você está inventando isso!  esbravejou Sergio.  Fale a verdade! Por que está dizendo que não encontraram meu corpo?

Ninguém lhe respondeu. Sergio gritou mais, contudo não se fez ouvir. Enfurecido, começou a xingar Stella, mas não teve retorno. Furioso, estapeou um jarro de planta, que caiu da mesa onde estava apoiado e se espatifou no chão.

 Cuidado, menina!  gritou Stella, que estava de costas quando o vaso caiu.  Sabe quanto custou isso?
 Não fui eu!  respondeu a filha, confusa. Stella evitou brigar com a filha devido ao momento difícil, mas fechou ainda mais a cara e foi buscar uma vassoura. Beatriz voltou para seu quarto, indignada com a injustiça, mas intrigada com o acontecimento. Sergio, por sua vez, arrependeu-se imediatamente do ato impensado, que, além de ter assustado a filha, rendeu-lhe uma bronca gratuita. Ele pediu desculpas à menina, disse que não faria de novo, mas não obteve resposta.

Nesse momento, Sergio se dispôs a procurar ele mesmo pelo seu corpo. Podia tatear objetos, então traria seu cadáver para casa e o deixaria na cama de Stella, em um momento em que a filha estivesse no colégio, para não assustá-la.

Seguiu, portanto, para o local do acidente, novamente sofrendo para conseguir as necessárias coincidências para subir e descer do ônibus. Queria dar um basta àquela mentira que Stella estava contando para a própria filha, de que seu corpo não tinha sido encontrado. Quando chegou à ribanceira, seu carro ainda estava lá, destruído, e havia marcas de sangue por todo o chão. No interior do veículo, não havia resquícios de seu corpo. Lembrou-se, muito vagamente, que, após a batida, chegou a engatinhar para fora do automóvel, antes de tudo se tornar preto e perder os sentidos. Olhou nos arredores do carro e continuou sem se ver. Desceu um pouco mais a ribanceira e avistou vários bombeiros. A tarde já dava passagem à noite, de modo que os trabalhadores tinham que usar lanterna na busca que realizavam. Sergio não sabia o que procuravam, mas não tinha outra opção: era o seu corpo. Nesse caso, Stella não havia mentido. Seria possível que ele tivesse realmente desaparecido? Chegou a pensar, então, que não morrera. Seu corpo não havia sido encontrado simplesmente porque não estava mais naquele local: tinha ido ao hospital, à Mãe Soraya, à sua casa e agora estava ali, olhando com uma expressão perdida para seu antigo carro.

Desceu mais ainda a ribanceira, com a dor nos calcanhares que os vivos sentem, com a coluna a latejar e as pernas a lhe pesarem. Estava mesmo cansado, não só mental, mas também fisicamente. Estava vivo, afinal! Nenhum morto podia sentir aquela dor! Gritou para o bombeiro mais próximo:

 Estou aqui! Aqui!

Ergueu as mãos, esperneou, mas nada. Os bombeiros continuaram a busca como se nada os tivesse interrompido. Desabou no chão, encostando-se numa árvore. Estava exausto, completamente sem perspectiva, sem saber como agir. Como nunca fizera em vida, clamou por Deus. Olhou para o céu e orou, rezou, pediu para Deus ajudá-lo. Quem é Deus, afinal? Não sabia para qual Deus orava  não sabia nem se para um Deus, no singular , mas mesclava rezas com conversas e pedidos desesperados. Que, ao menos, Deus o auxiliasse a descobrir se estava morto ou vivo. Só queria saber a qual mundo pertencia. Fez promessas exageradas, gritou em voz alta e pensou que, se nenhum humano o ouvia, alguma divindade escutaria.

Agora, a noite já era completa. Os bombeiros se iam, parecendo ter abandonado as buscas por ora. Estava completamente escuro; só a lua brilhava, reinante no céu. Sergio continuou ali, encostado na árvore, esperando pelo sono, se é que o teria, dada sua nova condição. Provavelmente, sim. Sentia frio, fome, cansaço, por que não sono? Fome! Sim, lembrava-se agora que estava com fome. Não ingeria nada desde a manhã, quando comera um pão com manteiga antes de sair de casa.  Gostava muito do singelo sabor de pão com manteiga, por isso fizera questão de, antes de comprar o arroz pedido por Stella, comer aquela que era sua opção preferida de café da manhã. Desejava ter esse gosto pela última vez e, pelo visto, não agira mal. A fome atacava-o ainda mais, agora que cedia a esses pensamentos. Mas como comeria? Não poderia entrar em um restaurante ou em um bar e pedir seu singelo pão com manteiga; ninguém o ouviria. O sono chegou, respondendo à sua dúvida, intenso e repentino, fazendo-lhe tombar sobre o que percebeu ser um formigueiro de gordas formigas, mas não teve tempo de desviar. Simplesmente dormiu.

Sergio teve um único sonho durante toda a noite, mas era um pesadelo intenso e duradouro, daqueles que parecem terminar, nos faz acordar, contudo, dez segundos depois, voltamos a dormir e o sonho recomeça com igual intensidade. Nele, Beatriz sorria amavelmente, em um jardim ensolarado, com outras crianças a brincar ao fundo. Parecia um dia bonito, em que todos se divertiam. Porém, repentinamente, as outras crianças começaram a explodir, uma por uma, fazendo imensa quantidade de sangue jorrar intensamente. Nada abalava a alegria de Beatriz, nem se sabe se ela percebia o que estava acontecendo ao fundo, mas as crianças continuavam morrendo. Não era perceptível a causa dessas explosões  se pisavam em alguma coisa, se alguém lhes atirava , mas os extermínios não cessavam. Assim como no sonho que tivera com Pedro e o porteiro, Sergio tinha uma nítida visão de tudo o que acontecia, mas não conseguia falar nem se mover. Tentava, grunhia, gemia, mas nada lhe fazia capaz de emitir algum som nem dar qualquer passo. A agonia aumentava, porque os pequenos corpos continuavam explodindo cada vez mais perto de Beatriz, que não percebia nada. Era óbvio que ela também morreria em breve se não saísse imediatamente de lá. Sergio tentava avisá-la, mas nada. Quando a última criança atrás de Beatriz explodiu, não havia mais dúvida: a próxima seria a menina. Sergio nem sequer podia olhar para outro canto, teria que encarar a sangrenta destruição de sua própria filha. Acontece que, quando chegou a vez de Beatriz, ela não explodiu, mas, em vez disso, seus olhos começaram a baixar, seus cabelos a embranquecerem, seus músculos a se tornarem flácidos e rugas a aparecerem por toda a sua face. Era uma anciã. O processo de transformação foi súbito e muito rápido. Apesar do rosto de velha, seu corpo continuou pequeno, como o de uma criança, com exceção dos braços, que esticaram em mais de três metros e buscavam algo ou alguém. Sergio só depois percebeu ser ele o alvo. Ele agora conseguia andar, podia fugir, mas só para trás. Começou a retroceder rapidamente, fugindo dos braços gigantes de Beatriz que o perseguiam. Ela agora não era só uma velha: era um monstro. Queria destruir Sergio, vingar-se de sabe-se lá o quê. Ele só fugia. Embora tivesse reconquistado o movimento, ainda que em um único sentido, permanecia sem conseguir falar. Esforçou-se para gritar, para perguntar à Beatriz por que ela o perseguia, que ele lhe fizera, mas só depois de muito esforço, sua tentativa de grito resultou em algo mais que um grunhido. O berro, enfim, saiu e ele estava acordado, encostado na árvore, com o dia clareando.

Acordou ofegante, suando frio, com a camisa lhe colando no que supostamente era seu corpo. Estava havia quase vinte e quatro horas com a mesma roupa: uma camisa polo e uma calça jeans. Não sabia como conseguira dormir por toda uma noite em circunstâncias tão desfavoráveis. E aquele sonho? Que era aquilo? Sentiu imensa vontade de visitar Beatriz, mas tinha que procurar pelo seu próprio corpo. Tinha também que comer e beber algo. A sede foi resolvida quando ingeriu toda uma porção de água que se avolumava no solo, decorrente das chuvas. A fome ainda era um problema. Lembrou-se que estava perto do supermercado onde compraria arroz. Poderia ir andando. Levantou-se. Olhou o formigueiro em cima do qual adormecera noite passada. Havia muitas formigas ali. Ele agora percebia que se tratava de formigas-de-ferrão, espécie que tem uma dolorosa picada. Examinou seu corpo, não tinha nada. Tirou a camisa, olhou os braços que dormiram desnudos, apalpou o pescoço, os ombros, não encontrando nenhuma marca. Como pôde passar incólume? Seria ele invisível não só para humanos como para quaisquer seres vivos?

Ainda pensando em Beatriz, foi até o supermercado. Não podia comprar nenhum alimento, pois não o veriam nem o escutariam, mas nada impedia que pegasse o que quisesse nas prateleiras do mercado. Essa seria a primeira etapa do seu dia. Planejou-se de modo a, depois, voltar para a ribanceira, continuar as buscas pelo seu corpo e, à tarde, visitar a filha, que não tirava da cabeça  o sonho lhe impressionara sobremaneira. 

No mercado, teve o estranho sentimento de ser um ladrão. Pegou vários alimentos já prontos, diversas porcarias, como biscoitos, batatas chips, chocolates... Não tinha como preparar nenhuma refeição mais saudável. Saiu o mais vagarosamente possível, passando de propósito em frente ao segurança, mas ninguém o parou. Como era isso? Nem sequer viam os produtos saindo do mercado, flutuantes, sem ninguém os carregando? Ele estava morto; os biscoitos, não! Fosse como fosse, ninguém o deteve. Comeu tudo isso já na rua, mas nada o satisfazia. Queria um pão com manteiga. Era domingo e Sergio nunca passava um fim de semana sem sua opção preferida de café da manhã. Mas como consegui-la? Teve uma sórdida ideia: o que aconteceria se fosse a um bar ou uma padaria, esperasse alguém pedir um pão com manteiga e simplesmente roubasse dele? É verdade que o segurança do mercado não o percebera levando biscoitos e chocolates, mas, ao fim do dia, dariam falta dos produtos nas prateleiras. Entretanto, se ele pegasse o pão de um consumidor que pagou e que estava com o alimento na sua frente, seria de se esperar que ele notasse repentinamente que seu alimento havia sumido. Ou ainda melhor: talvez ele notasse a presença de Sergio!

Excitado com a ideia, andou, a passos largos, quase correndo, rumo à confeitaria da esquina. Esperou ansiosamente que alguém comprasse o pão com manteiga. Em vez disso, pediram um misto quente. A empolgação com o plano era tamanha que Sergio não esperou pelo pão com manteiga preferido, optando, em vez disso, por roubar o misto. Sentou-se no balcão, ao lado do cliente que fizera o pedido. A atendente não demorou para trazer o pão com queijo e presunto em um pequeno prato. Sergio aguardou que o indivíduo se certificasse de que o misto quente estava ali. Melhor: esperou que ele desse uma mordida no pão. Assim que ele mordeu e repousou o misto de volta no prato, Sergio o pegou. Ainda faminto, mordeu a compra alheia, sem tirar os olhos do homem a quem pertencia o lanche. O comprador estava agora sentado no balcão, em frente a um prato vazio. Ele se levantou, pagou pelo misto quente e foi-se embora, sem parecer ter estranhado nada. Sergio se viu tão atônito com o acontecimento que sua fome cessou inteiramente e ele jogou o pão fora.

Voltou caminhando para a ribanceira, os pensamentos em frenética agitação. Meditava sobre o que tinha acabado de ocorrer. Como pegara o misto quente de outra pessoa e esta não notara nada? Parecia que cada vez mais habitava uma realidade paralela, sem nenhum ponto de interseção com o mundo dos vivos. Além disso, aquele maldito pesadelo não lhe saía da cabeça. Estaria Beatriz bem? Aquele sonho significava algo? Se sim, o quê? E seu corpo: onde estava? Como era possível aquele desaparecimento, em uma área tão pequena como a do acidente, dentro da cidade? As coisas faziam menos sentido do que nunca.

Chegou de volta ao pequeno precipício e viu que os bombeiros já haviam retomado as buscas. A viatura estava estacionada na rua acima, por onde Sergio passava. O motorista estava no interior do veículo, com as portas abertas. Sergio entrou pelo lado do carona, pegou um papel e uma caneta que estavam no banco de trás e escreveu: “O que estão procurando?”. Posicionou o papel na frente do bombeiro. Ele não lhe respondeu. Jogou o bilhete no rosto do condutor, de modo que ele ao menos sentisse, no tato, o papel. O pequeno objeto, porém, caiu no colo do sujeito e, posteriormente, voou para fora do carro, sem que o indivíduo esboçasse nenhuma reação.

Era desesperador. Isso tudo era uma grave punição por ter fugido do hospital. Deveria ter esperado pelo anjo-guia ou pelo diabo ou por qualquer coisa que lhe explicasse que merda era essa que estava acontecendo! Falava palavrões, chutou a viatura, deu um soco na cara do motorista e nada, ele não sentiu nada! Apertou a buzina, ela fez barulho, mas ninguém estranhou que aquela coisa estivesse emitindo ruído sem ninguém a pressionando! Que agonia! Provavelmente o bosta daquele bombeiro, que sabe-se lá por que não estava junto com os outros na busca, nem ouviu a buzina! Sergio começou a chutar o para-brisa, com toda a força que pôde, até quebrá-lo, fazendo-lhe estilhaçar por completo, e nada! Nada! Nada! Para não dizer que o bombeiro não teve nenhuma reação, ele pegou o celular e foi checar seus e-mails.

Sentia falta agora daquelas pessoas que riam dele no saguão do hospital. Por mais que zombassem de Sergio, ao menos interagiam com ele. Após isso, teve a velha que tentou resgatá-lo e, depois, nada mais. Ninguém tornou a vê-lo ou ouvi-lo. Deixou de existir por completo. Sentia-se enlouquecendo.

Largou o lugar onde a viatura estava e desceu a ribanceira, na esperança, agora já bem remota, de encontrar seu corpo. As dores do cansaço já começavam a atacá-lo, a assim como a necessidade de uma refeição real e de roupas limpas. Sentia-se sujo e mal cheiroso, não sabendo se por falta de banho ou porque sua carne de cadáver putrificava. Caminhou entre árvores, percorreu a parte menos íngreme do precipício, andou por cerca de três horas, tudo inocuamente. Se os profissionais de busca não localizavam seu corpo, que lhe fazia crer que ele encontraria? Na verdade, já estava convencido de que simplesmente desaparecera no acidente, não deixando nenhum vestígio no local. Deixou de existir por completo, sendo inúteis todas aquelas pessoas trabalhando em uma causa perdida.

Quando desistiu de procurar, já suava bastante. Tinha que voltar para casa, rever Beatriz. O sonho. Não se esquecia do sonho. Caminhou de volta até o ponto de ônibus, irritando-se ao ver quatro veículos passarem e ninguém dar sinal. Só no quinto, conseguiu subir. A camisa, imunda, grudava-lhe ainda mais no corpo. A calça jeans estava igualmente suja. Tinha mato por todo o corpo, nas roupas, nos cabelos. Para seu desespero, só puxaram a cordinha de descida três paradas depois da sua e Sergio, que já estava exausto, teve que andar todo esse caminho de volta. 

Subiu o elevador de sempre, mas em uma agitação incomum. Quando entrou no apartamento, foi diretamente ao quarto da filha. Ela estava lá, como sempre, vendo TV e mexendo no computador. Sentiu-se aliviado: fora só um pesadelo. O alívio, porém, não impediu uma pitada de decepção, por a garota ter tão rapidamente retomado seu cotidiano e, ao menos na aparência, não estar sentindo falta do pai. Sergio sentou ao lado da garota, como gostava de fazer aos domingos, pensou em falar-lhe algo, mas, sabendo que seria inútil, saiu de volta à sala. Foi até a cozinha, viu o que tinha na geladeira. Precisava de uma verdadeira refeição, que não tinha havia dois dias. Com a maior naturalidade, pegou o feijão que estava na panela, esquentou, aqueceu também um frango assado e comeu. Não se lembrava que só tinha isso em casa: feijão e frango. Claro, faltava o arroz, que não comprara.

Stella apareceu repentinamente e ele se assustou, como se estivesse fazendo algo proibido, mas logo voltou a comer naturalmente. Deixou a louça suja na mesa, louça que Stella pegou e lavou, como se tivesse sido ela própria a sujar. Sergio abriu o armário, pegou o doce de leite, passou em um biscoito e comeu. Jogou a faca suja na pia, lavada por Stella assim que ela percebeu. “Até que não é uma má vida”, ele pensou, tentando em vão achar graça de si mesmo. Voltou à sala, ligou a TV e assistiu a algum jogo de futebol sem importância. Stella passou pela sala e ignorou a TV ligada em um canal de esporte, coisa que ela nunca faria.

Sergio fez ainda mais algumas experiências a fim de ser notado. Tocou a campainha, mas Stella, assim como a filha de Mãe Soraya, olhou a porta, não viu ninguém e não deu maior importância. Depois, tentou registrar sua voz em um gravador, mas a gravação não teve som. Fez todos os barulhos que pôde, ninguém ouviu. Passou o restante do dia tentando que o percebessem, mas sempre inutilmente. À noite, foi para a cama e dormiu ao lado de Stella, embora ela nada tenha notado. Quanto a isso, ao menos, ele já estava acostumado. “Nada diferente de quando eu era vivo. Estar ou não nessa cama há anos não faz diferença.”

Adormeceu com esse triste pensamento.


8

Sergio acordou antes de todos e, por um momento, esqueceu-se que estava morto. Foi ao banheiro, abriu a torneira de água quente e fez todo o seu processo habitual, como se estivesse vivo. Quando saiu do banho, o dilema: como proceder agora que não tinha mais trabalho aonde ir?

Sergio tomou café, incluindo seu pão com manteiga favorito. Esperou um pouco mais até Stella e Beatriz acordarem, para ver a rotina da casa a qual nunca presenciara. Stella preparou um achocolatado para Beatriz, enquanto esta se banhava. Depois, a menina tomou a bebida, arrumou-se para o colégio e Stella trocou seu pijama por uma roupa simples, rápida, suficientemente adequada para levar a filha ao ônibus escolar. Sergio acompanhou as duas e ficou em dúvida se seguia com Beatriz para a aula ou se voltava com Stella para casa. Irracionalmente achou que seria barrado na escola, ignorando que ninguém o veria, e voltou com a esposa. 

Quando entraram em casa, Sergio logo atrás de Stella, ela seguiu ao aparelho telefônico e fez uma ligação:

 Oi, amor.

Sergio estremeceu.

 Pode vir  disse Stella.

Sergio tentou se enganar, pensou ter ouvido mal, não queria acreditar no que tinha acabado de escutar.

Não se passaram mais do que dez minutos quando, com sua própria chave, adentrou no recinto um homem de meia idade, alto, cabelos castanhos, barba por fazer. Cumprimentou Stella com um beijo na boca e perguntou:

 O que aconteceu com seu marido?
 Acho que morreu.
 Você não me contou praticamente nada!
 Por telefone, é difícil, Beatriz estava aqui. Só pude falar por alto mesmo...
 Sim, mas me conte. Morreu como?
 Acidente de carro. Na verdade, ele sumiu sem deixar rastro. Encontraram o carro dele batido, mas nada do corpo. E o lugar era pequeno, não tinha onde o corpo dele ter sumido.
 O que você está insinuando?
 Não estou insinuando nada, para com essa mania de buscar entrelinhas no que falo.
 Stella, a gente está junto há três anos, é claro que tem entrelinhas aí.

Três anos? Sergio simplesmente começou a chorar. Não de tristeza, mas de raiva. Na verdade, quando esse homem entrou no apartamento, com uma chave que ele próprio possuía, os olhos de Sergio já se encheram de lágrimas e, aí, poderia se dizer que eram de tristeza, mas, depois dessa revelação dos três anos, o choro desabou e, agora, era de raiva. Sem dúvida, era de raiva.

 O que estou te dizendo é que não sei se ele morreu  confessou Stella.

O amante riu:

 Como não sabe? Viu a situação do carro dele? Está nos jornais, deu na TV. O cara está morto, é claro!

Não foram poucas as tentativas de Sergio de golpear o homem, mas todas em vão.

Stella começou a chorar, o que pegou Sergio de surpresa. Não chorava por sua morte, chorava? É claro que não! Por que, então?

 Você está nervosa  disse o homem, acariciando a mão de Stella, que se entregava a ele.  É natural que você esteja assim. Mas venha aqui, se encosta em mim, me abraça.

Stella cedeu a todas as carícias do amante, que beijava-lhe a nuca, o pescoço, a boca. Não levou muito tempo até estar completamente entregue ao homem, desnudando-se aos poucos, respondendo positivamente a todas as investidas do parceiro. Sergio, que já passara pelas fases da tristeza e da raiva, vivia agora um momento de incredulidade. Por que se prestava àquilo, era a pergunta à qual nunca poderia responder, mas permanecia encarando, como que sem reação, a mulher, que havia pouco Sergio cogitava estar chorando por ele, nos braços de outro, ambos já completamente despidos. Ela, que havia tanto tempo sem tocar Sergio, agora se mostrava tão afetuosa nos braços de outro sujeito. A volúpia que o casal demonstrava era inacreditável para Sergio. Era outra Stella, completamente desconhecida para aquele que fora seu marido e que, agora, era um espectador invisível do amor que outrora não recebera.

Sergio precisou de alguns minutos para decidir não mais assistir àquelas cenas. Foi necessário tempo para sair do estado de estupefação em que se encontrava. Enfim liberto da paralisia, saiu do apartamento. Mais uma vez, não sabia aonde ir. Não saber o que fazer, a falta de perspectiva, tudo isso já era hábito para ele. Acontece que essa rotina de incertezas tornava-se cada vez mais sufocante. Considerou retomar as buscas pelo seu corpo  seria em vão , visitar Mãe Soraya  a filha não o veria e não o deixaria entrar , ir ao trabalho como se vivo estivesse  mas para quê?

Sergio optou por ir ao colégio da filha, decisão que deveria ter tomado já pela manhã. Por que escolheu voltar para casa com Stella? Para ver e ouvir a esposa com o amante e sentir toda aquela repulsa e um mudo desespero?

Quando chegou à escola, perdido, desnorteado, abatido, não sabia qual era a turma da filha. Foi a todas as salas até encontrá-la. Entrou na classe onde ela estava, sentou-se ao seu lado e sentiu-se o vigia invisível da filha, condição perfeita para um detetive, papel que, apesar disso, não estava disposto a desempenhar. Não queria monitorar Beatriz na escola, ver com quem ela andava ou quem namorava, queria apenas vê-la. Somente desejava fazer parte da rotina da menina, já que não fizera quando era vivo. Lembrou-se que ela chorara quando ele lhe dissera que ia morrer e sentiu ainda maior afeição pela filha. Ela assistia à aula comportadamente, mas com olhar vago, claramente sem prestar atenção a nada que o professor explanava. “Nem imagina que sua mãe está trepando com outro agora”, Sergio pensou, lutando para que a raiva não o dominasse novamente.

Sergio estava tremendo, sem saber por quê. Viu Beatriz seguindo para o pátio, na hora do intervalo, distante dos amigos, isolando-se no canto oposto à cantina, justamente onde havia menos pessoas. Vez ou outra algum colega tentava conversar com ela, mas Beatriz respondia de forma monossilábica, evasiva. “Ao contrário do que pensei, ela não retomou sua rotina como antes de minha morte. Ela está muito mais introspectiva do que era. Ou será que não? Será que sempre foi assim?” 

Não sabia responder: penalidade pela pouca convivência com a filha.

Não viu Beatriz voltar para a segunda parte da aula. Teve a ideia de voltar ao hospital, procurar pela senhora altiva que o socorrera, a última pessoa a enxergá-lo. Ia pedir desculpas por ter fugido da salinha, dizer que, caso fosse essa a intenção da velha, queria ver o anjo responsável pela sua transição entre os dois mundos; se não fosse esse o seu propósito, esperaria o quanto fosse necessário na maldita salinha por qualquer coisa, mas que alguém o acudisse, rapidamente, imediatamente, que alguém o ajudasse e o enxergasse, não podia mais viver assim – aliás, nem sequer vivia! –, não podia mais tolerar essa situação, havia chegado ao limite da inexistência.

De novo, a chateação com os ônibus. Três se passaram até que alguém desse sinal para ele entrar, quatro pontos se foram até que um passageiro descesse, para ele também saltar. Que inferno! Amaldiçoou sua sorte, xingou Deus e a vida. Chegando ao hospital, passou pelo saguão incólume, despercebido, ninguém ria dele. Que saudade daquelas risadas! Como as desejava agora! Encaminhou-se ao interior do recinto, na busca pela senhora cujo nome não sabia, cuja função ignorava, de quem nada conhecia, a não ser sua expressão facial marcante e o corpo muito ereto, apesar da idade. Não sabia nem a que setor do hospital ela pertencia, se é que realmente trabalhava ali. Uma busca fadada ao fracasso.

Enquanto isso, Beatriz saía do colégio, em passos lentos, rumo ao ônibus escolar. Cabisbaixa, taciturna, evitava perguntas com relação ao seu estado de humor tanto quanto Stella fugia dos questionamentos de seu amante sobre quando se casariam.

 Gustavo, por favor, vai embora!  Stella suplicava.  Depois, conversamos sobre isso.
 Não saio daqui enquanto você não me der uma resposta!  respondeu o amante.
 Que resposta, Gustavo?  ela replicava, chamando-o intencionalmente pelo nome, em vez de usar apelidos carinhosos, como geralmente fazia. Subitamente, parecia-lhe absurda a ideia de se casar com ele, embora já tivesse cogitado várias vezes se divorciar de Sergio para morar com Gustavo.
 Vamos ou não oficializar nossa relação? Não quero mais viver nessa clandestinidade. Acabou, Stella, acabou! Seu marido está morto!
 Eu sou casada! Casada, entendeu bem? Casada!  E Stella sentia um repentino e inexplicável asco de Gustavo.
 Viúva!  ele retificou. Ela virou as costas e ele a puxou violentamente pelos braços. Ela se desequilibrou e o nojo que sentia por aquele homem que usurpava o lugar de seu marido se intensificava.

Beatriz já estava na fila do ônibus, que, para a sorte de Stella, estava atrasado. Ela, que não sabia disso, continuava a pedir, com ódio na voz, para Gustavo ir embora, que sua filha estava chegando, que a menina não podia ver os dois ali, que a pobrezinha já estava muito chocada com a morte do pai, que fosse embora, fosse embora, pelo amor de Deus, que se fosse! Na verdade, o risco de Beatriz ver os dois era causa apenas parcial desse pedido de Stella. O que ela queria, no fundo, era nunca mais olhar Gustavo, nem agora nem nunca. Desejava, em vez disso, rever Sergio, reviver os anos logo após o casamento, a melhor época de sua vida.

Nesse momento, Sergio viu a velha passar ao longe, em um corredor distante que não sabia onde dava. Correu para alcançá-la. A sorte podia estar a lhe sorrir pela primeira vez havia muito tempo. Quando chegou ao corredor, percebeu o vulto da velha virando outra vez. Seguiu-a estabanadamente, afoito, era sua única esperança de salvação.

A melhor amiga de Beatriz, curiosamente uma das poucas que ainda não lhe perguntaram por que estava tão triste, aproximou-se dela, enquanto o ônibus parava para a fila de alunos subir, e quebrou o silêncio:

 Bia, que você tem? Conta para mim.

Beatriz encarou a amiga com olhos molhados e esta continuou:

 Não te perguntei ainda porque quis te dar tempo, te dar espaço. Mas você está mesmo muito estranha hoje.

Era uma garota mais velha, mais madura e, por isso mesmo, Beatriz tinha um especial apreço por ela, sentindo-se confortável para lhe falar o que a ninguém dizia. Sentia-se mais à vontade com ela do que com a própria Stella. Contou-lhe tudo: a morte de Sergio, a desconfiança de que ele estava realmente morto, o clima em sua casa, que, mesmo com o pai vivo, era muito ruim e tudo mais o que pôde desabafar.

 Volte aqui! Volte aqui!  gritava Sergio para a velha, que o ignorava. Para a idade, ela andava muito rapidamente, parecia apressada, entrando e saindo por várias portas, adentrando labirintos internos do hospital.

Gustavo segurava Stella pelos braços com violência, agora não mais exigindo uma resposta da mulher quanto ao casamento, mas apenas externando toda a sua raiva. Ela tentava se desvencilhar e, imersa em asco e pânico, não conseguia deixar de pensar que a filha poderia chegar a qualquer momento.

 Meu pai falou que ia morrer  disse Beatriz à amiga.  Isso é o que mais me intriga. Como ele sabia?
 Será que ele se suicidou?  cogitou a amiga.

Beatriz abriu os olhos como se uma evidente hipótese tivesse acabado de ser posta à sua frente.

 Isso faria sentido  respondeu Beatriz, de forma estranha, quase sussurrante.  Isso faria sentido  repetiu.

Sergio estava a poucos passos da senhora, tocou-lhe no ombro, ela virou-se para trás. “Ela me sentiu! Ela me sentiu!” A empolgação se esvaiu quando a velha volveu a cabeça para frente e voltou a andar. Ele tocou-a de novo, ela olhou novamente. Ficou encarando Sergio durante alguns segundos, mas retomou seu caminho mais uma vez. Sergio leu seu crachá: Vânia. Chamou-a pelo nome. Ela ignorou, mas passou a andar ainda mais apressadamente, como se em fuga. Entrou na próxima sala, encarou um senhor que estava sentado em uma mesa, atrás de alguns papéis e de uma tela de computador. Sem introduzir o assunto, Vânia perguntou-lhe:

 Tem mais alguém aqui?

O coração de Sergio disparou de esperança. O velho não entendeu a pergunta, pediu que Vânia repetisse, ao que ela obedeceu sem se constranger:

 Quero saber se o senhor está vendo mais alguém aqui!
 Além da senhora?  ele perguntou, embaraçado.
 Sim!
 A senhora está bem?
 Vê ou não?
 Não.

Vânia desabou em uma cadeira e falou:

 Sinto alguém tocando meu ombro! Penso até ter visto sua face, mas pode ter sido impressão. Parecia aquele louco que fugiu da sala de espera.
 Que louco, especificamente?  o velho perguntou, encarando Vânia por cima dos óculos, com as sobrancelhas franzidas.
 Não me recordo seu nome... Ele bateu o carro, veio para cá trazido pela ambulância. Lembra-se?
 Sergio? Aquele que eu atendi? 
 O próprio!

Sergio pulava de entusiasmo. Gritava algumas sentenças como: “Estou aqui! Estou aqui!”. Os dois, porém, continuavam a conversa:

 Mas ele não tinha nada  disse o velho, que agora Sergio percebia, pelo crachá, tratar-se de um médico.  Uns ferimentos pequenos, apenas.
 Ferimentos leves, é verdade  Vânia respondeu.  Nada mais que meros arranhões...  balbuciou, mais para si mesmo do que para o médico.

Beatriz repetia, já pela quarta vez, que a teoria da amiga fazia mesmo sentido.

 Meu pai se suicidou! Era a única forma de ele saber que morreria! Ele jogou o carro naquela ribanceira de propósito! Mas e o corpo dele? Por que não o encontram?
 Talvez ele tenha jogado o carro no precipício, mas, percebendo não ter sofrido nada, tenha se atirado em alto mar ou em algum lugar de buscas mais difíceis.

Dessa vez, Beatriz não valorizou muito as conjeturas da amiga, que, apesar disso, continuou:

 Ou vai ver ele jogou o carro lá justamente para dissimular, para acharem que ele morreu no acidente, mas ele pode estar agora boiando no oceano e ninguém o encontrará...

Stella deu agora um tapa na cara de Gustavo e, chorando, gritou:

 Nunca mais me segure com essa violência! Não sou sua puta! E saia da minha casa, não vou falar de novo!

Gustavo, enfurecido, saiu, batendo a porta da sala com tamanha força que rachou parte do vidro da janela lateral à entrada.

 Arranhões leves  repetiu Vânia.
 Exato  disse o médico , uns arranhões do acidente, nada de mais. Que te impressionou tanto naquele sujeito?
 Acho que a loucura dele. Estava completamente desnorteado. Pedi que ele esperasse a fim de chamar um psiquiatra, um psicólogo ou sei lá quem. Mas ele fugiu!
 Ainda bem que fugiu. Ou criaria problemas para nós. Eu vi que se tratava de um maluco, mas isso aqui não é um hospício.
 O senhor diz isso porque não viu todo mundo rindo dele, lá fora!  exaltou-se Vânia, abaixando a voz logo em seguida e usando um tom mais adequado para conversar com um médico:  Dava pena ver a expressão de perdido do coitado. E como as pessoas são más! Riam mesmo, na cara dele! O mínimo que eu podia fazer, doutor, o mínimo era resgatá-lo e encaminhá-lo para um profissional da área. Não acho que eu tenha feito mal. E lamento que ele tenha fugido…
 Ok, Vânia, você fez muito bem  respondeu o médico, em um tom contidamente irônico.  Agora, se me dá licença, preciso trabalhar.
 Desculpe  disse Vânia, meio envergonhada por tudo o que dissera, a começar por perguntar ao doutor se ele via mais alguém no recinto.

Vânia abriu a porta com cuidado e se retirou, seguida por Sergio, que voltou a chamá-la. Ela não ouvia, mas ainda o sentia quando ele a tocava. Ele a seguia, não podia perdê-la de vista. Como Vânia andava apressadamente, ele tinha que se desviar de algumas pessoas pelo caminho. Em uma dessas ocasiões, esbarrou em um homem, que olhou assustado em sua direção, visivelmente sem entender o que o atingira. Sergio percebeu e voltou a tocar no sujeito. Ele se assustou novamente, passou a mão em seu ombro direito, exatamente no ponto em que Sergio encostara. Sergio percebeu que não era só Vânia que o sentia. Outras pessoas também já podiam senti-lo, mas ainda não escutá-lo. Por quê? Que mudou? Enquanto se questionava sobre essa recente novidade, tropeçou em seu cadarço desamarrado. Como já estava cansado  especialmente depois de seguir Vânia em passos tão apressados , sentou-se em um banquinho de pedra, já na parte externa do hospital, a pensar no que acontecia com ele.

 Não posso explicar o desaparecimento do meu pai. Gostaria muito de saber se ele se suicidou  disse Beatriz, que, repentinamente, já não parecia mais tão convicta da tese da amiga. A teoria do suicídio tinha muitos furos, não fazia sentido por completo.  Só sei que sinto muita falta de meu pai. Gostaria muito de ter sido mais próxima dele. Sempre fomos distantes demais, mas sempre senti o amor que ele tinha por mim. E eu também tinha por ele, é claro. Só não demonstrávamos, um para o outro. Mas ele me amava, eu o amava… Aliás, amava, não. Eu o amo. Eu o amo.

Stella, enfim sozinha, chorava no tapete de casa. Olhava a foto de Sergio. Era uma foto de um ano depois do casamento, quanto ainda viviam um para o outro, exclusivamente. Sentiu saudade dessa época, pois percebia ter sido a única vez em que realmente amara e se sentira amada. Quando perderam esse encanto? Todas as perguntas que Sergio um dia se fizera, enquanto vagueava pela cidade após o expediente, Stella se fazia agora. Conversou com a fotografia do esposo, soluçando do choro, com lágrimas a molhar sua blusa:

 Perdoe minha ausência durante tanto tempo. Eu só queria que você vivesse. Eu só queria que nunca tivesse pedido para você comprar arroz. Eu só queria que seu carro nunca tivesse caído naquele maldito precipício. Eu só queria que você estivesse vivo. Eu só queria dizer que te amo. Eu te amo, Sergio.

Sergio descansava em um banquinho, quando ouviu a voz de um transeunte desconhecido que por lá passava:

 Ei, senhor! Seu cadarço está desamarrado!

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