segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 3

23/09/14

Antes de qualquer coisa, uma retificação histórica: os EUA não pediram desculpas por terem participado da Guerra das Coreias, mas, sim, por espionagem à Coreia do Norte, já na Guerra Fria, mesmo contexto em que o navio norte-americano Pueblo foi apreendido, junto com 83 reféns. E um acréscimo de informação/curiosidade: a guia, no Museu da Guerra, nunca chamava Seul pelo nome, mas sempre como “a capital do inimigo”. Pesado, né?

Dito isso, voltemos aos relatos. Cheguei por volta de meio-dia em Pyongyang, depois do passeio ao Monte Paektu. Pyongyang, bem mais quentinha que lá no norte; Pyongyang, onde não falta luz à noite. Mentira; falta, sim. E não só à noite. Não falta aqui no hotel, mas há apagões por toda a cidade, o tempo todo. Prova disso são as guardinhas de trânsito que ficam mesmo onde já tem semáforo. Como há constantes quedas de energia, esses semáforos invariavelmente se apagam. Seja como for, Pyongyang é uma cidade-vitrine. Todo elogio feito à Coreia do Norte deve se ater ao fato de que Pyongyang tem em torno de apenas 10% da população norte-coreana e de que é no interior ondese estima a existência de crianças subnutridas e prisões com trabalhos forçados. Avanços são feitos, porém, especialmente quanto a este último item. A Coreia do Norte, pela primeira vez, admitiu que tem problemas com Direitos Humanos e apresentou um relatório do tema à ONU. (Acho engraçado como os mesmos ocidentais que ficam maldizendo os Direitos Humanos se escandalizam com o stalinismo...) O governo norte-coreano se dispôs, inclusive, a colaborar na solução desses problemas. Se vai mesmo, não sei, mas achei muito digna a iniciativa.
A mulher da lavanderia ainda não pegou minhas roupas que, desde antes da ida ao Monte, eu havia separado. Fui à recepção reclamar, mas cheio de dedos. Sei lá o que podia acontecer com a mulherzinha. Vai que ela fosse executada por não recolher as roupas sujas do estrangeiro. E não é que menos de meia hora depois a mocinha já estava batendo na minha porta?

Já posso ver alguns enfeites de natal no hotel. Mas o que é o natal em um país ateu? Nada. Os enfeites são para o ano novo. As pessoas não comemoram o natal aqui.

O rio de Pyongyang, um dos principais pontos de entretenimento ao ar livre, fica repleto de casais de namoradinhos ao entardecer. Mas namoradinhos ao estilo asiático: um bem distante do outro. (Em vez de aproveitarem a escuridão das noites daqui...)

Eu não sou desses que acham todas as crianças do mundo bonitas. Ao contrário, acho que a maioria delas é feia. Mas as crianças coreanas são um capítulo à parte nesse grande universo de feiura infantil. Elas são tão fofas quanto um bichinho de estimação. Se eu tivesse um filho coreano, acho que o apertaria até fazê-lo sangrar, pobrezinho. São mesmo muito bonitinhos.


24/09/14

As roupas já estão lavadas e passadas! Fico de brincadeira, falando que as meninas estavam com medo de serem executadas pelo regime, mas vejam que bizarro: tem um norte-coreano na embaixada brasileira que me parece ser o chefe dos funcionários locais (mais velho, fala um português melhor etc). Ele disse que ia prestar uma queixa formal contra o motorista, porque este nos deixou esperando num dia desses. Eu nem me lembrava de ter ficado esperando e, ainda que tenha acontecido, não foi por mais do que alguns minutos. Mas ele falou que isso não importava, que era a imagem da Coreia do Norte perante as embaixadas que estava em jogo. Achei cruel demais. Aliás, esse motorista, que era o que estava ouvindo Bon Jovi, hoje, estava escutando Marisa Monte e The Cure.

Fui ao festival de cinema ver o filme do Pelé (Chaves me invejaria). Aquela mesma coisa do filme do Ronaldo: era um documentário brasileiro e, portanto, não pude dizer “não”. Esse filme estava mais cheio, inclusive com vários coreanos presentes (já no fim, quando mostrou a passagem do Pelé pelos EUA, desfilando com a bandeira norte-americana e tudo, ouvi um certo burburinho, mas pode ter sido só impressão minha). O pior é que, coitados dos coreanos, em algumas partes, a legenda simplesmente sumia. Acho que o carinha responsável por legendar o filme era partidário da filosofia do Romário: o Pelé, calado, é um poeta.

À tarde, depois de almoçar uma gostosa pizza no Friendship (restaurante no bairro diplomático, onde as garçonetes têm um inglês bem acima da média), fui à cerimônia de encerramento do festival. O filme vencedor foi um alemão (“My beautiful country”), que, coincidentemente ou não, falava sobre a Guerra do Kosovo e fazia uma crítica à OTAN. Aliás, nenhum filme que vi (que não foram muitos, é verdade) apresentava grandes riscos ao sistema. A única cena mais controversa a que assisti foi a de uma mulher mostrando a bunda para o túmulo do marido, o que gerou um tsc, tsc, tsc de alguém atrás da gente. Fora isso, todos os filmes muito seguros para a soberania do Kim jong-un, que, dizem uns boatos nascidos no Ocidente, têm aparecido pouco em público porque está extremamente obeso, após ter se viciado em queijos suíços. Isso deve ser invenção, mas a história é tão engraçada que eu repito: ele mandou norte-coreanos à Suíça, para aprenderem a fazer queijo (o próprio Kim jong-un já estudou na Suíça), mas os suíços se recusaram a colaborar e o pobre Kim, além de não ter conseguido o know how dos queijos, ainda ficou gordão. Logo ele, que tem um regime para sustentar, não consegue fazer um regime para emagrecer.

Ok, depois desse misto de fofoca e calúnia quanto à obesidade do líder supremo, voltemos à cerimônia de encerramento do festival. Os cineastas da Alemanha redigiram uma carta de agradecimento ao Kim jong-un, que, gordo ou não, vai gostar de lê-la. Era uma carta bem constrangedora, exaltando todas as maravilhas do regime norte-coreano, dizendo que o Kim jong-un está prosseguindo o grandioso legado deixado por Kim il-sung e Kim jong-il, filhos da Ideologia Juche. Pareciam norte-coreanos falando, cheios de chavões locais. Não sei por que escreveram isso... Fato é que o filme Brasil/Vietnã não ganhou prêmio nenhum.

A faixa de pedestre em Pyongyang é uma coisa muito estranha, especialmente para quem mora em Brasília. Aqui, o pedestre só pode atravessar nela (ou nas passagens subterrâneas e passarelas), mas isso não significa que, uma vez na faixa, a prioridade será dele. O carro até reduz a velocidade quando está próximo de uma demarcação, mas rola uma negociação entre o motorista e o transeunte, não estando o primeiro obrigado a parar nem o segundo liberado para atravessar. É normal ver pedestre parado no meio da faixa, esperando sua vez de continuar a travessia. Isso, à noite, sem nenhuma iluminação pública, é um problema.


25/09/14

Hoje, fomos visitar o Palácio do Sol, onde estão embalsamos os corpos do Kim il-sung e do Kim jong-il, depois de termos sido devidamente autorizados pelo governo, como tem que acontecer com todos os passeios aqui. No nosso caso, o Che, funcionário da embaixada, intermedia esse processo, mas um turista normal já tem que chegar aqui com seu respectivo guia norte-coreano, para os pedidos de autorização etc. Até para ter a internet (aquela caríssima, de mais de mil reais), você tem que, antes, pedir autorização ao governo norte-coreano.

O palácio é bem grandioso, como são todos os museus daqui. Porquanto são novos, dão de dez a zero naqueles castelos italianos. O tamanho monumental do palácio contrasta com os pequenos corpos embalsamos do Kim il-sung e do Kim jong-il, mas isso não pode nem ser pensado alto, porque é altamente ofensiva a menção às baixas estaturas dos líderes. Nunca, em hipótese nenhuma, faça piadinha com isso. Ao longo do trajeto, vimos, além dos corpos embalsamados, os trens e os navios por onde os líderes viajavam. O Kim jong-il morreu em um desses trens, que estava lá, com alguns de seus pertences no dia de sua morte, incluindo um Mac Book. Havia ainda medalhas oferecidas a ambos por várias autoridades do mundo (nenhuma do Brasil). Ao fim do passeio, tínhamos que escrever, em um livro, o que achamos do lugar. Felizmente, falamos coisas boas, porque, depois, o guia traduzia aquelas palavras para o coreano e um outro funcionário vinha ler se estava tudo nos conformes...

Mudando de cenário, um coreano veio me dizer que eu devo ser muito orgulhoso da minha esposa porque ela é muito bonita, enquanto todas as outras esposas que estavam no recinto eram feias. Eu ri e perguntei se ele era casado ou tinha namorada. Ele falou que não, que era muito novo para isso (25 anos). Ainda rindo, eu disse que, no Brasil, ele já estaria passando do ponto, que, no meu país, ele seria considerado novo se tivesse menos de doze anos de idade. Ele se surpreendeu, porque a idade média para os homens começarem a namorar é 28 anos e, para as mulheres, 25.Mas, logo depois, veio o apogeu: ele falou que queria uma namorada de peitos grandes (“big breasts”). “Ah, cabra esperto, sabe o que é bom nessa vida, né?”, “No, no, just kidding”, “Que estava brincando o quê! Mas me diz aí, onde vocês conseguem mulher por aqui?”, “Ah, é difícil, aqui não tem bar, a gente conhece na universidade e, uma vez que você já está graduado, perde acesso a elas, e no Brasil?”. “Bares, balada, ruas, internet, muitas opções!”, “Oh!”, “É...”

Coitado do coreano... Eu estava querendo realmente incitar um pouco a curiosidade dele. Mas pô, temos aqui uma dupla dificuldade, eu pensei: 1) Se, na universidade, você é muito novo e, depois, perde acesso a elas, como faz?;2) Cacete, mulher peituda, na Coreia? Com todo respeito às coreanas, que creio serem as mais bonitas desse extremo asiático, acho que a gente vai ter que viajar um pouquinho para conseguir esses big breasts, viu? Bora lá no Brasil!

(É, teoricamente, aqui não tem nem bar nem balada, como ele vai conseguir uma peituda? Aquela balada que eu disse que ia rolar aqui é de gringo, me enganei. Coreano não pode ir, uma pena. Mas, apesar de as únicas festas permitidas serem para o partido e para os líderes, especula-se que rolem umas festinhas privadas proibidas.)

Mas vejam só, depois caiu a ficha: mulher peituda, na Coreia? Como assim? Aqui as mulheres não são peitudas e, ainda que a genética tenha inexplicavelmente favorecido uma coreana, elas não usam nada sequer próximo de um decote... O que esse cara sabe sobre mulheres peitudas? O que ele anda vendo? Esse imaginário de mulher de peitos grandes não pode ter vindo só do que ele vê ao vivo... Hum...

Esse cara é um hedonista! Ele disse ainda que gosta muito de boas comidas e boas músicas. “Tenho que aproveitar a vida, porque ela é curta”. Ele falou seguidos “enjoy” numa frase só. Isso me alegrou: o norte-coreano não é um E.T., como os ocidentais pensam. Ele é um ser humano que, independentemente de qualquer coisa, quer o mesmo que todos nós: música, comida e seios.


26/09/14


Não resisti e fui à baladinha norte-coreana. Eu teria gostado mais se fosse um lugar de norte-coreanos, em vez de uma balada de gringos, mas pô, é uma balada em Pyongyang, isso não perde seu caráter antropológico. Para tal, peguei o carro da embaixada, já que voltaríamos de madrugada para o hotel. Era um carro automático, a primeira vez que dirijo um. E vejam que ironia: minha primeira vez com alguma coisa tecnológica, qualquer que seja ela, ser logo na Coreia do Norte, o país antítese da tecnologia.

É bem tranquilo dirigir aqui, com exceção dos pedestres atravessando nas ruas completamente escuras. Eu, agora como motorista, confirmei que simplesmente não dá para ver as pessoas no breu da noite norte-coreana. A propósito, não deem créditos para as notícias de que há toque de recolher em Pyongyang. Mesmo às 2 e pouco da manhã, quando eu voltava para o hotel, tinha gente na rua e, mais cedo, quando eu estava indo para a balada, vi várias pessoas posicionadas embaixo dos poucos postes da cidade, lendo, aproveitando aquela rara luz. Provavelmente, são pessoas que não têm eletricidade em casa.

A balada era qualquer coisa de esquisita: uns estrangeiros dançando, alguns mais velhos, nenhum norte-coreano, com exceção das meninas que trabalhavam como garçonetes e que davam um evidente mole para os gringos. Uma das coreanas só faltou agarrar o alemão na marra, eu pensei, mas engano o meu. Já me disseram que elas, pertencentes à elite, filhas de militares, são apenas treinadas para conseguir alguma coisa (não entendi se dinheiro ou informações) dos gringos, que elas dão mole dentro de um limite seguro. Quando um outro estrangeiro puxou a norte-coreana para perto de seu corpo, ela correu de volta para trás do balcão e o deixou na vontade.

“Elas não podem sair desse estabelecimento nunca”, me disse outro estrangeiro. “Uma delas um dia me confessou que nunca tinha tomado um cappuccino, que tinha muita vontade. Eu a convidei, então.‘Venha, vamos tomar um cappuccino’. Ela pediu permissão ao chefe, que negou. Eu mesmo fui falar com ele, expliquei que só queria tomar um cappuccino com a menina, na hora de folga dela. Ele falou que não. Perceba que essas meninas moram aqui. Elas servem bebida, limpam o chão, fazem faxina e moram nesse lugar.E olha que são da elite! O privilégio delas é poder falar com estrangeiro. Portanto, ela nem poderia fugir comigo para tomar o cappuccino.” “E você nunca conseguiu levá-la para tomar o cappuccino?”, eu perguntei. “Consegui”, ele respondeu, “mas foram necessários dois anos até o chefe liberar. Fomos só ela e eu no meu carro. Nunca vi alguém tão agitado como ela estava.” “Agitada como? Ela estava com medo ou empolgada por estar saindo a sós com um estrangeiro?” “Os dois. Ela estava muito agitada mesmo! Tomamos o cappuccino, trouxe ela de volta e nada mais.”

Nessa hora, tinha uma galera querendo jogar um verdade ou consequência extremo, com consequências bem bizarras. “Nós estamos em Pyongyang, a capital do tédio, a gente tem que se divertir!” Mas eu estava mais entretido na conversa. Outro estrangeiro me falou que havia convidado uns norte-coreanos amigos dele para um jantar. Eram todos casados e, assim como acontece no Ocidente, era de se imaginar que levassem suas esposas. Não, não podiam. Elas não estavam autorizadas a conversar com estrangeiros, somente os maridos.

“Japanese are shit!”Aqui, já era um professor de inglês na Universidade de Pyongyang quem falava. Ele disse que já deu aulas de inglês no Japão e na Coreia do Norte e, para a minha extrema surpresa, ele falou que os coreanos são mil vezes melhores que os japoneses. Aliás, as crianças começaram a ter aulas de inglês já na escola. De vez em quando, vê-se uma criancinha na rua, ainda sem medo de ter contato com estrangeiro, falando “hellooooooooo”, com suas bochechonas grandes e seus olhos pequenininhos. Essas crianças norte-coreanas são mesmo muito bonitinhas! Em algum tempo, creio que acabará esse mutirão de pessoas que não sabem falar nem “thank you”. Essas aulas de inglês para crianças fazem parte de uma recente reforma educacional no país, que inseriu ainda aulas de informática e de educação social (o que quer que isso signifique). Aliás, por falar em educação, vale ressaltar que há tempos o analfabetismo foi praticamente erradicado na Coreia do Norte.

Por fim, os britânicos deram calote na balada, saíram sem pagar (“Fucking British!”, disse o escocês), minha conta e a da Luiza deram só 10 euros (pouco, embora eu não tenha bebido, já que tinha que dirigir) e viemos de volta para o hotel. 


27/09/14

Para decepção da Luiza, não há manicures em Pyongyang!

Pouco antes de viajarmos à Coreia do Norte, chegou uma ordem para todas as embaixadas, ordenando-lhes que diminuíssem o sinal do wi-fi, porque havia norte-coreanos que se posicionavam proximamente às representações, para conseguirem o sinal. A embaixada russa desobedeceu e teve que pagar uma multa bem grande (e olha que a Rússia é amiguinha histórica!). Não sei se foi por isso, mas vi uns coreanos andando na calçada da embaixada e um policial ordenou que atravessassem para o outro lado. Há uns tempos, isso não seria problema, porque ninguém tinha celular que pudesse receber sinal de wi-fi, mas, hoje, muitas pessoas têm um.

Almocei ontem tartaruga (em um restaurante que tinha carne de cachorro no seu menu).

Tem coreano tatuado, olhem só! Já ouvi falar também de coreana andando nas ruas com cabelo pintado de vermelho. Raros, mas radicais!

Estava passando, anteontem, no telão da praça perto do hotel, a cerimônia de encerramento do festival de cinema. Não sei se eu apareci lá, mas sei que fui filmado. Será que já sou uma celebridade norte-coreana?

Hoje, pela primeira vez, a imprensa da Coreia do Norte admitiu um problema de saúde com algum líder. Como Kim il-sung e Kim jong-il eram vistos como deuses, não se podia cogitar que adoecessem. Hoje, porém, a emissora oficial do governo noticiou que Kim jong-un está sumido desde o dia 3 de setembro por causa de “problemas físicos”, sem mencionar o que pode ser. Talvez, aqueles boatos sobre os queijos suíços tenham um fundo de verdade. A imprensa em Seul está dizendo que ele está com gota, que supostamente é um problema genético que também afetou seus ancestrais, mas não podemos dar muito crédito às informações vindas da capital do inimigo.

Hoje, fui à piscina do clube diplomático. Muito boa. Parece que há alguns anos estrangeiro só podia entrar depois das 7 da noite, para não se misturarem com coreanos, mas agora, não. Tinha uns coreanos lá. Luiza, aliás, ficou muito surpresa, porque, no vestiário feminino, as mulheres estavam todas nuas, de boa, conversando, andando para lá e para cá. Para um povo tão retraído, essa nudez descompromissada foi uma surpresa.

Por fim, uma aula sobre a economia norte-coreana: fiz uma compra de 13 dólares, acrescentei 5 yuan (moeda chinesa) para facilitar o troco e recebi o troco em euro.


28/09/14


Hoje, no café da manhã, conheci uns portugueses. Um deles tem uma agência de turismo chamada Pinto Lopes, que pretende iniciar pacotes turísticos para a Coreia do Norte. Poderá ser muito útil para os brasileiros que querem vir para cá (uma agência em português!). Tinha ainda no grupo um escritor, José Luis Peixoto, que lançou um livro sobre a Coreia do Norte e que estava aqui a convite do dono da agência. Pelo que entendi, esse dono convidava escritores que já tenham escrito sobre um país para visitar esse lugar. Invejinha branca, hein!

Terminado o café, pé na estrada para irmos ao Monte Myohyang, se é que escrevi corretamente. Fomos com o Che. Duas horas de viagem, durante as quais pudemos ver um pouquinho da vida mais para o interior. As estradas já ficam bem mais acidentadas, mas nada muito fora dos padrões brasileiros. Trabalhos braçais pesados (mesmo num domingo) ao longo de belíssimos campos compunham a paisagem. Muita gente tomava banho e lavava as roupas nos rios, talvez por não terem banheiro em casa. Conheci um rapaz que me disse que, fora de Pyongyang, a maioria das residências não tem banheiro! Nem imagino como eles fazem, especialmente em apartamentos. No inverno, principalmente, deve ser duro.

Visitamos o Palácio dos Presentes, um lugar magnífico onde se encontram os presentes recebidos pelos três presidentes: os dois antigos e o atual. Fiquei impressionado, porque nunca tinha visto um lugar assim em nenhuma parte do mundo. Na verdade, eu nem sabia o que presidentes ganhavam. Tem todo tipo de presente: pratos, móveis, trens, carros, bugigangas, tapetes, animais, quadros e até um avião (que sabe-se lá como fizeram para colocar ali dentro). Tinha muita coisa mesmo! A guia falou que, se gastássemos um minuto com cada presente, levaríamos um ano para completarmos a visita. Tinha até presentes recentes de EUA e Japão, nações inimigas. Do Brasil, vi um prato com uma imagem panorâmica do Rio e parece que tinha uma bola de futebol do Pelé, mas esta estava em outro prédio e não vi. Depois, fiquei pensando: o que os presidentes dos outros países fazem com os presentes que ganham? Devem jogar fora, não é possível. Só aqui vi um museu desses.

Ainda no Palácio dos Presentes, tinha uma estátua de cera do Kim il-sung e outra do Kim jong-il que achei mais impressionantes do que seus corpos embalsamados no Palácio do Sol. Eram estátuas em tamanho real, muito realistas, com a pintura em movimento do Monte Paektu ao fundo. Ao contrário do Palácio do Sol, eles aqui estavam de pé (afinal, eram estátuas, não os corpos reais embalsamados), dando uma estranha sensação de estarem vivos.

Sempre que você está diante da representação de um líder, você tem que se abaixar e saudá-lo, mostrando respeito. Trata-se de lugares sagrados para os coreanos, que, em vez de terem uma religião, seguem seus presidentes, como se estes fossem deuses. Não os julguem. Tem tanta gente no mundo idolatrando Jesus Cristo, que também foi um homem como todos nós, por que os coreanos não podem idolatrar Kim il-sung ou Kim jong-il?

Durante a visita, a guia nos perguntou o seguinte: “Fiquei sabendo que na internet tem os grandes feitos do presidente Kim jong-un. Vocês já assistiram à internet?”. Ok, me pareceu uma pergunta de alguém que não sabe mesmo o que é internet. Tadinha, era uma guia muito boazinha, mas essa pergunta me deixou sem saber como responder.

Almoçamos e fomos a um templo budista, onde tinha um controverso sacerdote que falava demais nos líderes norte-coreanos. Já li por aí que se tratava de um ator se passando por budista, mas, como ocidental adora inventar que tudo na Coreia do Norte é fingimento, não dá para dizer nada. A despeito disso, o templo era bonito. O país é ateu e religiões aqui são proibidas, mas o templo está lá, reconstruído após os bombardeios japoneses.

A diferença entre o que ouvi falar e o que realmente vi na Coreia do Norte me levou à óbvia conclusão de que a imprensa ocidental age de má fé com o país. E age mesmo, é claro, mas parece que muita coisa mudou de cinco anos para cá, ou seja, nem tudo é mentira descarada. A iluminação pública, que é hoje é rara, antes era inexistente. O povo nas ruas, que hoje, com uma ou outra exceção, te responde quando você pergunta como chegar a determinado lugar, antigamente nem te olhava e saía correndo quando um estrangeiro se aproximava. Os próprios estrangeiros, que hoje têm ficado no Koryo Hotel, localizado numa área mais central de Pyongyang, antes iam para o Yanggakdo, isolado numa ilha. O número de mercados, de carro, de semáforos, tudo é novidade numa cidade que está mudando o tempo todo. Ou seja, os relatos mais antigos que vi talvez não sejam oriundos de pura má fé, mas apenas anteriores a todas essas mudanças.

Porém, às vezes, acho que rola má fé, sim. Por exemplo: um grupo de estrangeiros tirando foto de um ônibus quebrado. Ah, vá lá, de qual planeta você vem em que ônibus não quebram? Se você, senhor estrangeiro de um país perfeito, se escandaliza com um ônibus quebrado, recomendo não ir a Brasília. Outra coisa que me chateia é a exploração da miséria norte-coreana. É claro que ela existe, mas vejo gente de país emergente, inclusive brasileiros, se escandalizando com isso, como se no Brasil não houvesse miséria nenhuma. É claro que não é para aplaudir, mas peraí, né?Um embaixador europeu (alemão ou britânico, não lembro) foi, há um tempo, capa em revistas na Coreia do Sul, falando que, na Coreia do Norte, há violações de Direitos Humanos. Obviamente isso gerou estresse quando ele voltou. É o tipo de declaração, porquanto óbvia, desnecessária.

Pelo menos, esse é o tipo de bobajada que o embaixador brasileiro não faria. Aliás, o embaixador do Brasil é simpático, coisa rara. Na verdade, todo o corpo diplomático daqui é legal, no nível de o embaixador da Palestina ficar brincando de bolinha de neve no topo do Monte Paektu. São todos bem mais agradáveis do que a média que conheço da diplomacia brasileira. Com exceção dos amigos mais próximos da Luiza, a maioria dos diplomatas brasileiros é um pé no saco; sou muito mais os daqui, de Pyongyang.


29/09/14


O norte-coreano entra no serviço militar obrigatório com 17 anos, sendo este vedado para estudantes de tecnologia (não entendi direito o que isso significa) e de línguas. Neste último caso, justifica-se pelo fato de que, uma vez passado o tempo no serviço militar (que, em média, é de 13 anos, ou seja, você sai de lá com 30 anos de idade), o coreano já terá perdido a prática e a fluidez do idioma que estava aprendendo. O Che, por exemplo, falou que queria ter se alistado, mas não pôde justamente porque estava aprendendo português.

O Che, aliás, é um cara muito engraçado. Eu gosto dele. Ele vive com um caderninho, anotando as palavras que aprende (a última foi “palito”, que ele gostou de saber que serve tanto para o de dentes como para o de fósforo). Ele estava ouvindo uma música da Marisa Monte que diz que o coração estava aposentado. Ele, surpreso, perguntou: “Ué, o amor acabou?”. Acho que os coreanos têm dificuldade de lidar com essa noção de fim de amor ou fim de relacionamento. O Leonel, oficial de chancelaria que também está no Koryo Hotel, já havia me contado que os coreanos não o compreendem muito quando ele diz que é divorciado. Aliás, também gosto do Leonel. Estou falando que gosto de todo mundo, deve ser porque ainda estou enamorado com a Coreia. O português do café da manhã me perguntou o que estou achando de Pyongyang e eu disse que, como as expectativas eram absurdamente baixas, estou gostando, sim. Pô, um prato de lula é menos de dois dólares, olha que coisa mágica! Vamos ver até quando dura esse sentimento positivo. Ontem à noite, a propósito, tive um jantar muito gostoso no restaurante do Pothongang Hotel. Tinha até meu amado suco de tomate, que só eu aprecio.

Entrada e prato principal são conceitos muito relativos aqui. Eles trazem o que ficar pronto na frente, ainda que isso signifique comer a carne antes da guarnição, a entrada depois do prato principal, uma pessoa ficar na mesa esperando sua comida chegar, enquanto a outra já está comendo... O bom disso é que raramente você fica esperando muito na mesa. O primeiro prato, seja ele qual for, costuma chegar rapidamente.

Estive reparando que os militares e os guardas de trânsito batem continência quando o nosso carro passa. Depois, entendi: eles veem a placa azul diplomática e homenageiam os estrangeiros. Eles batem continência para diplomatas e para autoridades do partido. O mais simpático é responder com um gesto de volta. Vou passar a fazer isso.

O “Profissão Repórter”, da Globo, veio gravar um programa aqui. Acho que vai ao ar em dezembro.

Como não tenho medo de ser repetitivo, digo de novo que estou apaixonado pelas crianças coreanas. Mesmo depois que crescem um pouco, elas continuam muito bonitinhas. Pensem numa criança ocidental bonita, com oito ou nove anos. Difícil. Geralmente, são melequentas e pegajosas. Mas as coreanas são adoráveis, desde muito novinhas até maiores. Quando imagino uma guerra na Coreia, penso nessas crianças. Coisa clichê global: “Oh, pensem nas crianças, que estão chorando enquanto as bombas caem, blablabla”. Mas não posso negar que me cortaria o coração ver uma criancinha coreana sofrendo. (Só porque são bonitinhas, como se as melequentas e pegajosas do Brasil não merecessem minha compaixão... É, eu sei que sou terrível.)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 2

(Vi que a primeira parte do meu relato teve um grande número de acessos. Talvez, algumas pessoas não saibam o que vim fazer na Coreia do Norte. Então, explicando em poucas palavras: minha mulher veio trabalhar na embaixada brasileira de Pyongyang e eu vim com ela. Ficaremos aqui por um mês.)


17/09/14

 Hoje, começou o 14º Festival Internacional de Cinema de Pyongyang, uma das principais janelas de comunicação entre a Coreia do Norte e o mundo. O lema desse ano foi “Independência, amizade e paz” e o logo eram três mãos, de diferentes cores, uma em cima da outra. Fomos convidados pelo embaixador para ir à cerimônia de abertura. Detalhe que eu pensei que só a Luiza iria e, portanto, estava vestido de forma bem maltrapilha, enquanto todos na festa estavam com roupas de gala. Mas, bem, além de eu não saber que eu também iria, eu fui a pé do hotel até a embaixada (uma hora e meia de caminhada, o que, em hipótese nenhuma, eu faria de terno e gravata).

 O festival foi bem grandioso, parecia a entrega de um Oscar. O negócio era tão monumental que pensei que o próprio Kim jong-un fosse estar lá. Reza a lenda, porém, que ele passa o dia a caminhar pelo interior do país, para ver se está tudo bem com seus queridos conterrâneos...

 Antes de a cerimônia se iniciar, sentei-me ao lado de um paquistanês falador, que disse que nunca nos tinha visto em Pyongyang. Eu falei que havíamos chegado semana passada, ao que ele respondeu: “Ah, então é por isso!”.

 Havia um filme brasileiro, que, uma pena, foi anunciado como sendo do Vietnã (o diretor e a produção são brasileiros, mas os atores e o cenário são vietnamitas). O cineasta brasileiro estava lá (mais um brasileiro provisoriamente em Pyongyang!). Vários filmes pareciam bem interessantes, com exceção dos ingleses, que davam ares de ser um porre. Para o meu azar, foi justamente um desses filmes britânicos o escolhido para abrir o festival. Era um longa chamado “Fast girls”, um filme inteiramente boçal.

 Hoje, meu almoço foi em um restaurante na embaixada da Indonésia. Pedi uma carne crua com uma gema de ovo misturada. Tinha um aspecto nojento, parecia comida de cachorro, mas o sabor era magnífico! Pena que fiquei com o hálito do forte tempero o dia todo e, além de estar vestido toscamente para o festival, ainda carreguei comigo meu bafo de alho.

 Aqui, todos os norte-coreanos são obrigados a usar um broche com o retrato de um líder (que, reparei, varia: pode ser de uma ou outra autoridade, ou até mesmo de duas juntas, no mesmo broche). Se você sair de casa sem um desses, dizem que você está em maus lençóis (não sei se é verdade). O curioso é que os garçons não usam esses broches. Não sei se é porque já estão uniformizados... Mas não há garçom, em nenhum estabelecimento, que use esses adereços. Ah, estrangeiro não pode usá-los. Tem que ser fiel ao líder. Está pensando que é assim, você vem de longe e já chega sendo fiel, da noite para o dia? Nada disso.


18/09/14

 Tem uns africanos hospedados no hotel. Imagino esses caras andando pelas ruas, o quanto de atenção não devem chamar. Mas é verdade que só poderão circular livremente pela cidade se forem diplomatas. Turista normal só anda sozinho se estiver acompanhado de um guia coreano (isso, na teoria, porque nunca me perguntaram quem eu sou quando saio do hotel).

 Depois do garçom curioso com o iphone, outro deles ficou meu amigo hoje. Será que é porque não saio do restaurante do hotel? Esse era um que falava espanhol. Ele perguntou se eu falava o idioma, ao que respondi que, comparado com o coreano, o espanhol é minha língua nativa!

 Ele falou várias coisas de que já nem me lembro. Perguntou se a Luiza era minha esposa, eu disse que sim e ele falou que eu sou bom (acho que ele quis dizer que ela é bonita e que, por isso, eu sou bom, mas sei lá). Disse que aprendeu espanhol aqui mesmo, em uma escola de idiomas (a mesma onde o Che, aquele funcionário da embaixada brasileira, aprendeu português). Falou que o Brasil era o país da Copa, com o que concordei, sem mencionar os 7 a 1. Ele perguntou qualquer coisa sobre a distância do Brasil e eu disse que era muy lejos... Nessa hora, pensei: Nossa, realmente estou muy lejos de casa... O Flamengo está jogando agora e são 9 da manhã, que coisa esquisita.

 Antes de ele falar onde aprendeu espanhol, eu tinha associado seu aprendizado a alguma experiência que ele tivesse tido fora da Coreia. Pensei em Cuba (ah, nossos preconceitos!). Aliás, Cuba é o único país latino-americano, além do nosso, a ter representação aqui, mas eles não estão em Seul. Logo, na América Latina, só o Brasil dialoga com as duas Coreias.

 O garçom me trouxe um café a mais de brinde, ficou perguntando o tempo todo se estava tudo certo com a comida e disse que me esperava para o almoço. Ok...

 Nas horas redondas, toca uma música simplesmente medonha no alto falante da cidade. Provavelmente, é possível ouvi-la de qualquer ponto de Pyongyang, embora as janelas acústicas do hotel me protejam. Já a tinha escutado no Youtube. Parece música de filme de terror japonês.

 Por falar em música, vez ou outra passam umas crianças pelas ruas, em grupo, cantando em uníssono sei lá o quê, empolgadamente, a plenos pulmões. Futuros militares? Eu não sei o que cantam, mas associo logo à famosa canção norte-coreana que as crianças entoam na escola (que repito: não sei se é essa mesma), que diz que elas não têm nada a invejar do mundo.

 O garçom que fala espanhol me perguntou se estou gostando da Coreia do Norte, pergunta que todo local faz a um turista, mas que, por razões óbvias, ainda não me tinham feito em Pyongyang. Respondi sinceramente que sim. A cidade tem todos os problemas de um regime centralizador, mas, não fosse por isso, eu diria até que seria um lugar agradável.

 Descobri nos fundos do armário do hotel uma plaquinha de “não entre” para pendurar na porta. É minha maneira de evitar que as faxineiras saiam adentrando o quarto. O curioso é que basta eu tirar essa plaquinha por alguns minutos (para ir tomar café ou almoçar, por exemplo) que, quando eu volto, o quarto já está todo arrumado. Parece que elas ficam à espreita, esperando pelos poucos minutos de autorização que lhes dou para entrarem. Eficientes...


19/09/14

 Tem aqui um grupo musical chamado Moranbong, formado só por meninas. Parece que a mulher do atual, ou do antigo líder, não sei, era desse grupo. As meninas, além de bonitas, são talentosas, tocam vários instrumentos, cantam e ainda têm uma dancinha, um tipo de coreografia. Mas todas as músicas são voltadas para a exaltação do sistema. Aliás, acho que não há nenhuma forma de arte que não seja de glorificação do regime (a não ser que seja de louvor à natureza). Numa praça perto do hotel, tem um telão em frente ao qual há sempre algumas pessoas reunidas assistindo a um filme, sempre de guerra. É claro que, mesmo sem falar coreano, dá para imaginar a versão das guerras que eles contam. Mas, bem, até aí, os EUA não fantasiam muito menos com Pearl Harbor e ninguém fala nada.

 Pelas ruas, há vários kitsch socialistas em forma de outdoors (ou, às vezes, de placas menores) que retratam sempre um soldado ou um operário com as mãos na diagonal (sempre na diagonal: para cima e para frente), em movimento de progressiva vitória. Contrastam com essas imagens as roupas e os penteados das norte-coreanas da vida real. Eu não entendo nada de moda, mas estou certo de que se trata de um padrão de vestimenta e de corte de cabelo dos anos 60. Não tem como olhar uma norte-coreana e não pensar que estou em um filme de 50 anos atrás. Os homens, por suas vezes, usam quase todos umas roupas beges, verdes, sei lá que cor é aquela (algo entre o verde escuro e o marrom), tonalidade parecida com a do uniforme militar. Já li que um refugiado norte-coreano é facilmente identificado na Coreia do Sul só pela maneira como se veste.

 Os motoristas norte-coreanos dão seta! Podiam ensinar aos brasileiros. Ainda não vi nenhum carro fazer qualquer conversão sem sinalizar com antecedência. Por falar em motoristas, o da embaixada brasileira estava ouvindo Bon Jovi no carro. Acesso privilegiado de quem trabalha com estrangeiro... A propósito, ainda não vi nenhuma mulher dirigindo.

 Enveredando-se por esse assunto de gêneros, ouvi a seguinte opinião de um estrangeiro, que repetirei como um papagaio acrítico, porque não faço ideia se é verdade: há um machismo generalizado na Ásia, que todos nós já conhecemos, mas a Coreia do Norte, por incrível que pareça, está um passo à frente de Coreia do Sul, China e Japão. Aqui, os pais não interferem no parceiro da filha. O que há, sim, como em qualquer outro lugar, é um certo preconceito de classes (não acredite que não há classes na Coreia do Norte). Um filho de um funcionário prestigiado dificilmente se relacionará com a filha de um camponês, por exemplo.

 Ainda quanto a esse tema, veem-se pelas ruas várias mulheres fazendo trabalhos braçais pesados, como carregando pacotes de arroz nas costas. Homens, não. Pessoas que moram aqui há algum tempo confirmaram que, na Coreia do Norte, trabalho pesado é coisa de mulher (vi um filme em que tinha um casal num barco: a mulher remava, enquanto o homem lia um livro). Cogitam ser um hábito importado da Rússia, onde há um problema nacional de alcoolismo e, enquanto as mulheres pegam no batente, os homens caem bêbados pelas esquinas.

 Diziam-me que os coreanos são proibidos de acessar o bairro diplomático. Pelo menos nas redondezas da embaixada brasileira, há vários coreanos, que, mesmo cercado por representações estrangeiras, mantêm a surpresa ao verem um gringo.

 Enquanto esperava a Luiza correr, à beira do rio, fiquei sentado ao lado de umas velhinhas dançando. Tinha um rádio tocando música e as velhinhas (tinha alguns homens também) se esbaldando na atividade. Ao contrário do que normalmente acontece, elas nem se importaram com a minha presença. Só me levantei quando o lugar começou a ser infestado por ratos. Prefiro não conviver com eles. Essa foi a dança zen ao ar livre, mas já sei que vai rolar balada, às 23 horas, afinal hoje é sexta-feira. Mesmo sábado sendo dia de trabalho, tem uma discoteca em Pyongyang aonde as pessoas vão dançar e beber, como em qualquer parte do mundo. Meu senso antropológico não foi forte o suficiente para me levar a esse lugar, mas fica registrado que existe noite em Pyongyang. Noite, aliás, que é muito escura. Há pouquíssima iluminação pública (já me disseram que há poucos anos era muito pior), de modo que caminhar depois do anoitecer vira um desafio para não cair em buracos nem esbarrar em outras pessoas (isso porque, apesar da escuridão, há muita gente nas ruas). Não há riscos de segurança pública, porém. Acredito que é mais seguro andar no breu de Pyongyang do que ao meio-dia, no centro do Rio. Se há algum risco, é na hora de atravessar a rua. Duvido muito que os motoristas tenham a visibilidade necessária para não atropelar nenhum transeunte.


20/09/14

 De manhã, fomos ao Museu Nacional da Guerra, que começou a ser construído em 2012 e ficou pronto em dez meses. É um lugar realmente impressionante, muito grande e bonito, com armamentos e um navio (chamado Pueblo) apreendidos dos americanos, na Guerra das Coreias. Além disso, tinha uns vídeos doutrinadores, explicando quem provocou a guerra, qual o papel libertador dos norte-coreanos na ocasião e comemorando o pedido de desculpas dos norte-americanos por terem de envolvido na Guerra das Coreias. Dizem eles que: 1) foi o único pedido de desculpas da história dos EUA; 2) o norte tinha conquistado 90% do território do sul quando os EUA chegaram para se aliarem a Seul. A guia falava um bom inglês (talvez porque já tivesse o texto decorado). Além da grandiosidade do museu, o local era todo bem tecnológico, com recursos interativos e tudo mais. O preço também era grandioso: 20 euros por pessoa.

 No almoço, comi sapo. O nome é mais exótico do que o gosto. O sabor se assemelhava mais ao de um frango. O restaurante ficava ao lado de um supermercado todo chique, onde tinha umas peruas norte-coreanas, que nada tinham a ver com aquelas mulheres que eu disse que usavam roupas e penteados dos anos 60. Essas estavam vestidas como qualquer ocidental, com uns cabelos de madame e salto alto. E você achando que não tinha perua por aqui, que todos os norte-coreanos são uma só classe...

 De barriga cheia, fui ao Grande Palácio de Estudos do Povo, uma megabiblioteca, onde, além de alugar livros, os norte-coreanos podem aprender outros idiomas (russo, chinês, alemão, inglês e japonês), ouvir músicas de fora da Coreia (a guia nos mostrou o CD de “uma banda inglesa chamada Beatles”), acessar a internet... Claro, não a internet como a conhecemos. Na verdade, nem sequer é uma internet bloqueada, como a chinesa. Não é internet. É intratec e nada mais. Mas eles chamam de internet e as fotos dos estudantes na frente de um computador rodam o mundo como se eles realmente estivessem conectados à grande rede. Mas há boas coisas nesse lugar. Por exemplo: em vez de ficar procurando o livro desejado em papeizinhos numa estante enferrujada, como acontece no Brasil, aqui, você pede à bibliotecária a obra que você quer, ela faz qualquer coisa no computador e o livro vem até você numa esteira. Um ótimo sistema. Como fator curiosidade, a guia disse que nós não tínhamos caras de brasileiros, que a Luiza parecia uma árabe e eu, um europeu.

 Saindo de lá, visitamos as únicas duas únicas estações de metrô a que o governo permite que o estrangeiro tenha acesso. São 16 ao todo. Suponho que as outras 14 sejam mais feias que essas, portanto. Essas duas, porém, são mesmo muito bonitas, além de extremamente profundas. Estão a mais de cem metros do solo. O metrô passa o tempo todo, mesmo fora da hora de pico, e funciona entre 6:00 e 21:30. No interior do vagão, as fotos de sempre do Kim il-sung e do Kim jong-il.

Após entrar numa estação e descer na seguinte, fomos ao Arco do Triunfo, uma construção magnânima, que é maior até mesmo que seu xará parisiense. Tinha uma guia vestida de princesa lá, que falava um bom inglês. Não que precisasse de guia, afinal é só um arco no meio da cidade, mas tudo bem. É uma obra, de fato, muito bonita. Ao lado do Arco, tinha uma loja onde comprei uma camisa da seleção norte-coreana de futebol, só pelo exotismo do produto (ainda veio um calção junto). Essa loja tinha três andares e vendia muitas coisas. Gastar dinheiro em um país socialista não é tão difícil quanto parece. Aliás, repito: há lojas, de diferentes portes, espalhadas por toda a Pyongyang.

À noite, fomos ver o documentário brasileiro “Ronaldo”, sobre a partida de despedida dele pela seleção, contra a Romênia. Era mais um representante brasileiro no festival internacional de cinema (esse nem apareceu na cerimônia de abertura, talvez por não ser inédito). Não nos julguem. Não fomos por opção própria, mas, como somos representantes do governo brasileiro (ao menos, a Luiza é), nós não tivemos outra escolha a não ser assistir ao Ronaldo e ao Galvão Bueno com legenda em coreano. Antes de “Ronaldo”, ainda assistimos a um filme da Mongólia, que, apesar disso, era bem menos mongol que o brasileiro.


21/09/14

O governo norte-coreano convidou todo o corpo diplomático de Pyongyang para uma visita ao Monte Paektu, um lugar mítico onde creem ter se originado o povo coreano. Com base nessa crença, dizem que perto dali nasceu o Kim jong-il, embora haja evidências de que seu local de nascimento seja outro e de que apenas se apropriaram do misticismo do monte para popularizarem essa história. De toda forma, é um lugar muito interessante e de difícil acesso: além de ser caro, não há voos regulares para o monte, devido à baixa procura pelo turismo norte-coreano. Ou seja, um ótimo negócio para nós: pagamos um valor bem baixo para termos acesso ao voo de Pyongyang para o monte, estadia de duas noites, refeições e banquetes oferecidos pelo governo, guias turísticos que falam inglês, traslado, enfim, todo o aparato necessário. Muita sorte terem feito esse convite justamente durante esses nossos 30 dias de Coreia do Norte (a última vez que rolou esse passeio com tudo pago foi há sete anos)!

Portanto, às 10:30, pegamos um voo da Air Koryo, junto com vários diplomatas de diferentes países. Nunca tinha entrado num avião tão apertado na minha vida; felizmente foi só uma hora de viagem! Aterrissando, um ônibus já nos esperava para nos levar ao hotel, onde almoçamos uma comida razoável. Eu fiquei numa mesa com um monte de árabes, dentre as quais estava a esposa do embaixador da Palestina, que é brasileira. Depois, visitamos alguns lugares extremamente bonitos, com árvores que pareciam trabalhos de paisagismo. Com a chegada do outono, as folhas vão ficando vermelhas e proporcionam um espetáculo (as estações do ano aqui são bem marcadas, ao contrário de no Brasil). Em frente a um lago bonitaço, tinha uma estátua do Kim il-sung, aos pés da qual os estrangeiros depositaram flores. Nós não levamos flor nenhuma, uma pequena gafe brasileira. Estávamos todos com frio. Aqui, estamos mais ao norte em relação a Pyongyang, junto da fronteira com a China, portanto o clima é bem mais gelado do que na capital.

O jantar foi melhor que o almoço, com uma grande fartura de comida. Dada hora, faltou energia elétrica, o que é normal na Coreia do Norte (com algumas exceções em Pyongyang, como o Koryo Hotel). Amanhã, vamos subir ao monte. Enquanto isso, vou contar alguns fatos curiosos.

Pornografia é proibida na Coreia. É claro que não estou falando dos redtubes, afinal nem sequer há internet aqui, mas de simples revistas de nudez. Embora seja um país ateu (toda religião aqui é expressamente proibida) e, presume-se, livre de velhos conservadorismos religiosos, a Coreia do Norte é muito retraída em assuntos sexuais. Apesar dos pesares, um estrangeiro me disse que, quando ele chegou para trabalhar na embaixada de seu país, o autocompletar das pesquisas do Google continham exacerbada pornografia, com foco para "asian girls". Não dá para dizer que foram os funcionários norte-coreanos que fizeram tais buscas, mas fica um quê de dúvida.

Um outro estrangeiro é gay e veio trabalhar em Pyongyang. Se a pornografia hetero é proibida, imagine a aberração que é o homossexualismo por aqui. Esse cara e o namorado contrataram os serviços de um famoso retratista norte-coreano que, inclusive, já pintou alguns quadros dos líderes locais. O casal foi, portanto, pintado por esse artista, um ao lado do outro, semiabraçados. O pintor, até aí, não se recusou a fazer o serviço, mas, quando o estrangeiro pediu que, abaixo da pintura, viesse escrito "juntos para sempre", o retratista falou que isso ele não podia fazer, que isso não existia aqui.

Os meses se passaram e não sei se o namorado voltou para o seu país ou se eles se separaram ("juntos para sempre", hein?), mas fato é que o estrangeiro gay se tornou muito amigo de um funcionário norte-coreano local. Decorrido um tempo, o estrangeiro, na extrema privação sexual em que se encontrava, confidenciou para seu amigo coreano: "Eu preciso ver um homem nu. Não consigo mais aguentar". Era de se esperar que o norte-coreano o denunciasse e que ele fosse preso numa solitária com vaginas flutuantes, mas, não. Em vez disso, o norte-coreano o levou à sauna masculina de um hotel de Pyongyang, embora ele mesmo não tenha entrado. O estrangeiro, porém, se decepcionou, porque além dos maus dotes asiáticos, todo mundo saiu quando ele entrou, afinal ele não era coreano. Essa é uma história tão engraçada quanto surpreendente. A reação do amigo coreano foi liberal não só para os padrões da Coreia do Norte, mas de qualquer parte do mundo. O ser humano é sempre uma incógnita.


22/09/14

Depois do café da manhã no hotel, partimos rumo ao Monte Paektu. Após descermos do ônibus, ainda subimos uma hora de um caminho íngreme, com ar rarefeito, porque o teleférico estava quebrado. Raramente essas caminhadas cansativas valem muito a pena, mas essa valeu. Quando eu conseguir uma internet decente, posto fotos no Facebook, mas foi um dos cenários mais bonitos que já vi na vida. Descemos pelo outro lado da montanha, para vermos o lago de perto e, depois, subimos novamente (dessa vez, num bondinho, que me fez ter muito mais medo do que andando: imagine o nível de manutenção norte-coreano daquele treco!). Por fim, descemos, caminhando, pelo mesmo caminho pelo qual subimos, entramos no ônibus, visitamos a suposta casa do nascimento do Kim jong-il à qual me referi ontem (durante a fala do guia turístico sobre os grandes feitos do kim jong-il, uma chinesa soltou um riso de escárnio, provocando olhares furiosos dos militares coreanos), fomos a uma cachoeira, vimos umas plantas que dão blueberry (uma frutinha azul que não existe no Brasil) e almoçamos ao céu aberto, num tipo de piquenique. A janta, já no hotel, foi boa, precedida por batatas assadas numa fogueira no chão. À noite, faltou luz de novo. Aliás, aqui, que não é Pyongyang, tem hora certa para água quente no chuveiro. Fora desse horário, nem adianta abrir a torneira vermelha que não vai sair nada. E, aqui, água quente é realmente necessária! Lá no monte, segundo um norte-coreano, a temperatura era de três graus negativos. Acho que ele exagerou, mas estava mesmo muito frio, já com neve em vários lugares, embora ainda seja outono.

As vistas são fantásticas, uma pena que seja uma beleza tão inacessível. Comentei com um francês sobre o potencial turístico desse lugar e ele ficou rindo, dizendo: "Que potencial? Quem vai vir para cá?". É claro: essa é a parte triste; ninguém vai vir para cá, enquanto que, na Europa, vários lugares meia-boca que se dizem bonitos estão repletos de gente. Bem, se um dia isso aqui se abrir, quem sabe…

A propósito, um holandês me contava que já veio para a Coreia do Norte em outras ocasiões. Segundo ele, muitas coisas já estão mudando. Ele disse que, em 2004, era normal ver produtos nos supermercados com a data de validade vencida em 1996 (o que são oito anos de validade expirada, né?). Contei-lhe que fiquei surpreendido com o número de carros em Pyongyang e ele falou que isso é uma coisa muito nova: até 2009, ou seja, há pouco tempo, por várias vezes, só tinha ele dirigindo nas ruas. Aos poucos, acredite ou não, o país está se abrindo. Um dia, ainda espero ver mais gente no Monte Paektu que nos Alpes Suíços.

Ao fim, dormimos para, no dia seguinte, voltarmos a Pyongyang.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Diário da Coreia do Norte - parte 1

10/09/14 a 12/09/14: Reflexões de uma viagem de 36 horas

(Esse texto tenta dar algumas informações sobre a minha viagem para a Coreia do Norte, que, por ser um lugar tão inusitado, acho que merece um tipo de diário. Trata-se de um dos meus poucos textos não ficcionais desse blog. A introdução abaixo consiste em meras divagações sem sentido. Se você quiser ler sobre minha experiência norte-coreana, desça diretamente para o subtítulo “12/09/14: Chegando à Coreia do Norte”.)

Tem razão a velha máxima de que tudo na vida é relativo. A primeira vez em que viajei de avião foi em um voo de 45 minutos entre Rio e São Paulo. Em terras paulistas, me senti tão longe de casa, ainda que estivesse ao lado dela. Para telefonar para a minha casa, eu até teria que fazer DDD! Já a primeira vez que saí do país foi para ir à Argentina. O mero fato de ouvir nas ruas um idioma diferente do meu já me fazia me sentir um cosmopolita. Mesmo que os próprios argentinos se referissem a Bariloche como “Brasiloche”, eu via neve, conversava com estrangeiros e respondia que eu era do Brasil, quando me perguntavam de onde eu vinha, sendo que, na verdade, todo mundo sabia que eu era do Brasil, o que eles queriam saber era minha cidade. Acredito que viam meu natural crachá de brasileiro, primeiramente, por causa do portunhol, que não engana ninguém, e, em segundo, devido ao enorme número de brasileiros por lá. Eu devia, portanto, dar uma resposta ao estilo norte-americana (o que, aliás, sempre achei muito estranho: nenhum estadunidense se diz “dos EUA”, mas de Seatle, Chicago, Miami...).

Por falar em EUA, o primeiro voo mais longo que fiz foi para lá. Mais longo, em termos, porque, antes, quando visitei o Chile, novamente me bateu a velha sensação de “nossa, como estou longe de casa”. Para os EUA, porém, o enorme tempo no avião deixou minhas pernas tão doloridas quanto a minha coluna e, passadas duas horas de voo, eu já não aguentava mais, estava desesperado com o mero fato de saber que ainda faltava tanto para a aterrissagem. Chegando lá, tive mais uma vez o entusiasmado sentimento de falar e ouvir outro idioma: agora, não mais o espanhol, idioma latino tão parecido com o nosso, mas o bom e velho inglês, o que me possibilitaria pôr em prática meu frágil aprendizado de cursinho.

Viajar sempre teve um caráter duplo, para mim. Significava tanto encontrar coisas novas quanto deixar outras para trás. Será que minha casa no Brasil estaria bem? E se, durante o período de seca brasiliense, ela pegasse fogo? E se, sei lá, ela fosse roubada? Esses sentimentos me acompanharam, mais uma vez, quando, ineditamente, cruzei o Atlântico. Minha primeira vez além-oceano não foi, como seria de se imaginar, indo para a Europa, mas para a África. Dessa vez, a sensação de deixar algo para trás era ainda maior, não só pelo fator psicológico de cruzar os mares, mas, principalmente, porque eu ficaria dois meses fora, quando o máximo de tempo em que tinha ficado longe de casa havia sido por três semanas. Assim, viajei para a África do Sul e Moçambique com a resolução de não pensar em Brasília. Era como uma meditação: se eu ponderasse qualquer coisa a respeito da minha casa, teria que desviar o pensamento e, de imediato, esvaziar a mente. Mas, ao voltar para meu saudoso domicílio, não pude conter o alívio ao perceber que os móveis não criaram pernas e foram embora sozinhos, que os tetos não desabaram, que as paredes ainda eram paredes e o chão ainda era chão, que tudo estava exatamente como eu havia deixado.

Quando cruzei o oceano para, aí, sim, visitar a Europa, foi para ir à Itália. Já estava um pouco mais experiente com o lance da meditação, de não pensar naminha casa. O maior desafio nessa viagem foi mesmo o tempo de voo. Meu corpo doeu no voo para a Argentina, doeu um pouco mais para o Chile, doeu muito mais para os EUA, doeu enormemente para a África do Sul e, agora, meu Deus! Só o trecho Brasília – Paris já era maior do que tudo por que eu já tinha passado. Novo exercício mental: eu vou conseguir, não vou ter trombose, não vou morrer, não vou ficar tetraplégico, ainda serei capaz de andar depois de tanto tempo no avião! Acho que foi nesse voo que percebi algo tão óbvio quanto fundamental: está cansado de ficar sentado? Levante-se, cara pálida! Fique em pé no avião, ué! Assim, enquanto todos dormiam, eu estava em pé no avião, andava pelo corredor, ia ao banheiro sem vontade, ia até os fundos para beber água, mesmo sem sede. Um corpo de um metro e noventa não pode se dar ao luxo de ficar sentado durante toda uma viagem dessas.

No final de julho, surgiu a oportunidade de vir para a Coreia do Norte. Quando mais eu viria para esse lugar e, ainda por cima, com algum grau de liberdade (ou, ao menos, com maior liberdade do que os escassos turistas)? Talvez, eu até pudesse vir para cá futuramente, mas a Coreia do Norte ainda seria a mesma? Ela já não teria se aberto? Ela ainda será esse lugar tão bizarro quanto, ao menos no nosso imaginário, ela é hoje? Sim, eu quis vir. Mas esse seria o maior teste para o meu eterno provincianismo. Eu não cruzaria o país nem o continente nem o oceano. Eu cruzaria o mundo. Não seriam dez ou doze horas de viagem, o que, até então, era meu ápice do inferno. Seriam trinta e seis. Seriam três escalas: Brasília – São Paulo – Abu Dhabi – Pequim – Pyongyang (vale lembrar que praticamente todos os voos que chegam a Pyongyang partem de Pequim). Só um desses trechos (São Paulo – Abu Dhabi) já seria maior que o insuportável Brasília – Paris que eu havia feito. Tive mais de um mês para me preparar psicologicamente, baixar programas para assistir no laptop, separar o livro que leria etc., até porque raramente gosto desses filmes de avião e, além disso, a maioria deles não tem legenda e sou completamente incapaz de entender um filme somente com áudio em inglês. Tem que ter legenda. Ela não precisa estar em português, pode ser em inglês, mas alguma legenda, tem que ter.

Bem, fato é que eu vim. Como dizia uma agência de turismo chinesa especializada na Coreia do Norte: venha visitá-la, enquanto ela ainda existe.


12/09/14: Chegando à Coreia do Norte

Depois da aterrissagem em solo norte-coreano, enquanto a aeronave ainda percorria, em solo, o aeroporto de Pyongyang, percebi que havia pouquíssimos aviões parados e só o nosso em movimento. Esses poucos aviões eram todos da Air Koryo, embora o nosso fosse da Air China. É natural que haja poucos aviões em Pyongyang, pensei, afinal quem mais seria louco o suficiente para vir para cá? Apesar disso, havia bastantes pessoas em nosso voo, sendo mais ou menos metade composta por chineses (normal) e a outra metade, por ocidentais (o que me surpreendeu. Depois, percebi que quase todos esses ocidentais eram diplomatas). Pensei ainda: pelo menos, com tão poucos aviões, não precisaremos pegar ônibus; a aeronave, provavelmente, vai parar em frente ao portão. Não. Pegamos ônibus. Depois, entendi por quê: havia várias obras no aeroporto e, perto do portão, a aeronave nem sequer conseguiria pousar. Não haveria espaço suficiente para ela, tampouco o solo me pareceu propício para um avião.

A pouca burocracia no aeroporto fez com que eu me admirasse. Pensei que fossem investigar nossas malas, olhar nossos livros, ver as fotos que trazíamos em nossas câmeras... Parece que há até pouco tempo, era normal o estrangeiro ter que deixar seus celulares no aeroporto e só pegá-los quando saísse do país. Mas, comigo, tudo correu normalmente e o procedimento de desembarque foi todo bem rápido (também por causa do pequeno tamanho do aeroporto). As fotos dos líderes norte-coreanos plainavam acima do portão de saída. Perguntei para o guardinha se podia tirar foto, ao que ele respondeu: “No picture, no picture”. Ok!

Um funcionário norte-coreano da embaixada brasileira nos recebeu. Chamava-se Che (não é irônico?) e falava um bom português. Levou-nos à embaixada, onde fomos recebidos pelo embaixador e de onde mandei um e-mail para meus pais, para dizer que cheguei bem. Internet, na Coreia do Norte, só ali na embaixada e, mesmo assim, era uma internet chinesa horrorosa. Para o estrangeiro ter internet em sua própria casa ou em seu quarto de hotel, tem que pedir autorização antecipadamente e pagar uma boa quantia de uns mil reais, dependendo do pacote ao qual vai aderir (todos muito ruins) e se será internet chinesa ou coreana (a coreana é mais rápida e sem bloqueios ao Google e ao Facebook, provavelmente porque, ao contrário do que acontece na China, o cidadão local nunca a utilizará, de forma nenhuma). A princípio, preferimos ficar sem internet mesmo e, de vez em quando, utilizar a parca conexão da embaixada.

Depois do encontro com o embaixador, viemos ao Koryo Hotel, que divide com o Yanggakdo a preferência dos turistas. Pesa a favor do Koryo o fato de ele estar em uma área mais ou menos central de Pyongyang, enquanto o Yanggakdo fica numa ilha, da qual não se sai a pé. O Koryo é um hotel grandioso, constituído por duas torres enormes e que oferece inúmeros serviços, como piscina, sauna, salão de cabelereiro, restaurantes (vários deles, incluindo um giratório), academia, secador de cabelos (para as mulheres), telefone com direito a ligações internacionais, massagem... Por falar em massagem, nos demos ao luxo de fazê-la, depois do infindável voo que tinha me destruído fisicamente. Uma massagem muito bem feita, de uma hora. O engraçado é que eu estava meio sem jeito com a massagista norte-coreana e só tirei a blusa. Ela fez um gesto brusco para eu tirar também a bermuda e ficar só de cueca. Ok, ok.

Após a massagem, fomos jantar em um desses vários restaurantes do hotel. Chegando lá, uma mulher com um vestido rosa de princesa veio nos receber, perguntando em que quarto estávamos hospedados etc. A roupa era ridícula, é óbvio (afinal, repito: era um vestido rosa de princesa), e a garota falava naquele tom fofinho-irritante. Mas ok, para quem temia ser cuspido pelos norte-coreanos, uma princesa fofinha não é algo a se reclamar. Ademais, a comida estava excelente. Pedimos três porções (um porco no molho vermelho agridoce, frango salteado com champignon e uma batata frita à moda coreana), o que, já somadas às bebidas, deu inacreditáveis5 euros (um paraíso!).

O quarto é bem agradável: tem televisão (com direito a alguns canais internacionais, como BBC), frigobar, banho com água quente, ar condicionado, um janelão para quando você quiser que o ar circule... Às nove e meia, eu já estava dormindo.


13/09/14

Acordamos às seis e meia (sem sono, depois de termos ido dormir tão cedo), descemos, às sete, para o café da manhã e, novamente, não tive o que reclamar da comida. Três pães, dois ovos, salsicha, iogurte (de que não gosto, mas a Luiza tomou), café, chá... Nada luxuoso, mas, ainda assim, melhor que alguns cafés da manhã que já tomei em Estados Unidos e Itália.

De volta ao quarto, tomei banho, me arrumei e saímos para o nosso primeiro passeio em Pyongyang. Antes de entrar no elevador, acabei por voltar ao quarto, para trocar meu habitual par de chinelos por um tênis All Star (o que sei lá se foi uma boa opção). Mantive minha bermuda e minha camisa de Paraty. Nas ruas, percebi que todos os homens vestiam calça, mas tanto fazia, já que todos me olhavam, de qualquer forma. Minha mulher e eu éramos encarados por todo mundo, praticamente sem exceção, como animais exóticos em Pyongyang. Já nos haviam dito que eles sairiam da frente, abririam espaço para nós, se afastariam o quanto pudessem... Não é verdade. Olhavam-nos, sim, mas sempre discretamente, com algum respeito.

Planejávamos ir para um restaurante que supostamente ficava dentro de um hotel. O restaurante chamava-se Arirang, mesmo nome do famoso festival de massa que ocorre todo mês de setembro, mas que, para o meu azar, esse ano não acontecerá. Dada hora, já não sabíamos mais onde estávamos. Triste vida sem o GPS do Google Mapas! Chegou a fatídica hora: teríamos que pedir informação. Falaríamos com os locais. Assim fizemos, não apenas dessa vez, mas ainda em mais uns cinco outros momentos. Para a nossa surpresa, todos foram muito solícitos conosco, com exceção de um guardinha com uma escopeta (talvez não devamos pedir informações a gente com escopeta na mão). Eles não falavam inglês, é claro, mas, em coreano, tentavam nos dar informações, nos explicar como chegar aos locais, olhavam o mapa que tínhamos imprimido etc. A comunicação sempre falhava, é claro, mas eles tentavam.

Desistimos de achar o tal restaurante e voltamos para o nosso hotel. Na verdade, estávamos tão perdidos que nem o nosso hotel nós sabíamos onde estava, mas, graças ao seu monumental tamanho, que nos permitia vê-lo ao longe, conseguíamos nos localizar minimamente. Dada hora, sentimo-nos como n’O Castelo, de Kafka, em que víamos o destino, mas nunca o alcançávamos. Mas chegamos. E tivemos outra refeição excelente, em um restaurante diferente de onde jantamos no dia anterior. Comemos língua, filé mignon, panqueca de feijão, arroz frito, uma sopa, umas folhas, cebola, três águas (dessas gasosas, mas com gás fraquinho, bem gostosas), tudo dando 17 euros. Mais caro do que o sensacional jantar de 5 euros da véspera, mas, ainda assim, um preço que considero justíssimo.

Apesar de não termos alcançado nosso objetivo, nossa caminhada passou longe de ter sido inútil. Sentir um pouco a vida norte-coreana nas ruas, sem guias, sem fiscais, poder se comunicar com as pessoas locais, ver as crianças saindo da escola (elas também estudam no sábado. Na Coreia, o único dia não útil é domingo), tudo isso foi bem legal. Algumas coisas me chamaram particular atenção: 1) as crianças andam sozinhas na rua desde muito novinhas. Tinha garotinhos de três ou quatro anos caminhando livres pelas ruas. Fruto, talvez, de uma cidade em que provavelmente não há nenhuma criminalidade, mas, ainda assim, surpreendente. Sei lá: ainda que não haja violência urbana, essas crianças têm que atravessar rua, saber os caminhos etc., sendo realmente muito novas; 2) os asiáticos (creio que não é uma coisa só dos norte-coreanos) têm um estranho hábito de ficar agachados no chão, apoiados em seus próprios pés, com os braços pendendo sobre os joelhos, o que é simplesmente bizarro para olhos ocidentais. São vários, no meio da rua, que estão nessa posição esquisita, aparentemente não fazendo nada; 3) você só pode atravessar a rua nas faixas de pedestre ou em passagens subterrâneas e passarelas. Se você desobedecer, vai ouvir um apito da guardinha de trânsito (geralmente, são mulheres). Nós fomos obedientes, mas vimos alguns próprios norte-coreanos tomar apitada e ter que voltar para atravessar no lugar correto.

O clima está muito quente. Esperava uma temperatura mais amena, agora que, em setembro, o verão já vai se encerrando. Queríamos comprar uma água ou algum sorvete na rua. Para um país comunista, há mais da chamada livre iniciativa do que eu esperava (ou será que as iniciativas não são assim tão livres?). Tem várias barraquinhas vendendo comilanças, mas como entrar em contato com eles, que nem sequer falam “hi” ou “thankyou”? Pior: como comprar algo se nós não podemos usar a moeda local (é crime um estrangeiro portar moeda norte-coreana)? Como pagaríamos uma garrafa de água com euro? Ainda que aceitassem (o que não aceitariam), e se eu precisasse de troco? Gringo só compra em loja de gringo, só come em restaurante para gringo. Por razões análogas, você não pode usar o transporte público local. Nem táxi. Em Pyongyang, para se locomover, o turista só tem as suas pernas.

Aliás, esse lance do troco é significativo, mesmo em estabelecimentos para estrangeiros. Se um dia você vier à Coreia do Norte, traga seu dinheiro o mais trocado possível. É muito normal eles não terem troco.

À tarde, depois do magnífico almoço, dormimos. À noite, fomos a uma cervejaria, a convite do embaixador, com quem estariam, ainda, três brasileiros do Itamaraty, que trabalham em Minsk, Pequim e Berlim e que vieram turistar em terras exóticas. Provavelmente, nunca houve tantos brasileiros ao mesmo tempo em solo norte-coreano. A cerveja estava boa e a comida, mais uma vez, muito gostosa. Até agora, não tenho do que reclamar da culinária local.

Saindo da cervejaria, atravessamos a rua, caminhamos um pouquinho e visitamos a Torre da Ideologia Juche, um monumento fantasticamente iluminado, muito bonito. Aliás, de lá, tínhamos uma bela vista de Pyongyang, com prédios muito luminosos, que resplandeciam na escura noite norte-coreana. Aquilo poderia ser Dubai, mas era a Coreia do Norte. É, de certa forma, até desolador pensar que tanta energia está sendo empregada naqueles prédios, enquanto, na maior parte da cidade, há cortes de eletricidade e, no interior do país, ela nem sequer existe. Independentemente disso, aquela vista era um espetáculo.

Voltamos ao hotel e dormimos. O bom de Pyongyang é isso: restam poucas coisas para fazer, além de comer e dormir.


14/09/14

Hoje, tive minha primeira experiência com a ditadura norte-coreana. Estávamos andando, felizes e contentes, quando fomos parados por dois militares ofegantes. Falaram qualquer coisa em coreano que não entendemos. Puxei logo os passaportes diplomáticos. Olharam na câmera algumas fotos que tiramos e nos liberaram.

Tirando esse momento tenso, o restante do dia foi tranquilo. Andamos bastante, nos perdemos de novo, visitamos as estátuas de bronze dos líderes, almoçamos kimchi e bibimbap (não sei se escrevi certo), típicos pratos coreanos, muito bons. Teve ainda panquecas arirang(umas panquecas daqui) e camarões (queeles chamam de “lobster”, mas que não são lagostas). Isso, no Restaurante Arirang, que estávamos buscando ontem e que, enfim, encontramos. Tudo, 15 euros.

Hoje, domingo, único dia de folga dos coreanos, tinha muita gente praticando esportes nas ruas, principalmente vôlei. O engraçado é que, no Brasil, eu li textos que diziam que, em Pyongyang, eu encontraria pessoas se exercitando, mas que duvidaríamos de sua felicidade: seriam pessoas contratadas pelo governo para fingirem ser felizes. Um absurdo. É claro que as pessoas estavam sendo naturais. Outro mito era esse de que as pessoas são proibidas de falar contigo. Com exceção de uma mulher, que virou as costas quando nos aproximamos para falar com ela (como que com medo de animais estranhos que se aproximavam), todo mundo nos respondeu, tranquilamente. É claro que há o enorme empecilho da língua, mas, se eu falasse coreano, poderia conversar com eles, normalmente. Terceira lenda urbana: em Pyongyang, quase não há carros e as guardas de trânsito ficam rodopiando em torno de si mesmas, sem função. Não é verdade. O número de carros me surpreendeu. Não chega a haver congestionamento, é claro, mas há, sim, um bom número de carros. E as guardinhas do Detran coreano talvez sejam um pouco inúteis, mas não são essas figuras esquizofrênicas que as pessoas pintam.

Pyongyang é uma cidade-vitrine. Todos sabemos que, no interior do país, a situação é muito pior. Mesmo aqui, há bairros a que jamais chegaremos. Isso, porém, não faz da cidade uma farsa. Pyongyang é uma cidade real, com pessoas reais. Não é verdade todo o papo de pessoas contratadas para ficarem lendo nos parques (para pensarmos que são intelectuais), para serem felizes ou para serem bonitas. Vamos combinar: mal há turistas em Pyongyang. Para quem esses supostos atores encenariam?

Hoje, ainda fiz uma rápida ligação para o Brasil, diretamente do hotel. Senti-me como o ET, tentando falar com sua casa, pois nunca conseguia completar o telefonema. Parece, entretanto, que a culpa era minha, pois não esperava dar sinal antes de começar o DDI. Uma vez que obtive êxito, a ligação estava muito boa. 2,4 dólares por minuto, portanto só dei oi e tchau. 


15/09/14

Tive outras belas e baratas refeições hoje, mas vou parar de falar nisso. Tenham apenas em mente que, em Pyongyang, come-se bem e paga-se pouco (sempre do ponto de vista de um estrangeiro, é claro). Decepcionou-me apenas o fato de os pratos norte-coreanos serem menos apimentados do que dizem que acontece com sua vizinha do sul. Mas isso é porque eu gosto de pimenta. Para a maioria dos ocidentais, isso pode ser um alívio.

O almoço foi em um restaurante na embaixada da Índia e ao lado do Pyongyang Shop, um supermercado no bairro diplomático com diversos produtos importados (pães, queijos, chocolates). Já vi à venda por aqui, não só nesse mercado, umas garrafas de bebida alcoólica com uns bichos dentro, inclusive cobras. É uma coisa muito bizarra. Um bom presente para um inimigo oculto ou algo assim. Quero ver é beber isso no gargalo, com o bicho atravessando todo o interior da garrafa, quase alcançando a tampa.

Eu já disse que me surpreendi com o número de carros de Pyongyang. Causou-me espanto também o fato de eles buzinarema todo momento. Buzinam como em qualquer grande cidade do mundo. Pensei que fossem mais recatados no trânsito.

Enquanto esperava pela hora de saída da Luiza, lendo, em uma sala, passou por mim uma norte-coreana, carregando vassoura, pá, uma enorme caixa de papelão e alguns produtos de limpeza. Somado isso ao fato de ela ter que abrir e fechar as portas, ela estava bastante enrolada. Ofereci-me para ajudá-la, para carregar algo para ela. Ela implorou para eu não fazer nada. Eu tinha chegado a pegar algumas coisas, mas ela pediu tão aflitivamente para eu não auxiliá-la que devolvi a ela os produtos e apenas abri a porta para ela passar. Que coisa, não?

De noite, a Luiza quis correr. Ela corre em Brasília e não quis interromper sua prática na Coreia do Norte. O problema é justamente esse: aqui, é a Coreia do Norte. Se já nos olham com curiosidade enquanto caminhamos, imagina correndo. Temia pelo momento em que algum militar se atiraria sobre nós, pensando que estivéssemos correndo da polícia ou algo assim. Digo “nós” porque eu também corri. Não ia deixá-la ser presa sozinha. A corrida foi nas margens do rio, local bom para exercícios. O chato não foi no rio, propriamente dito, mas no acesso a ele. Isso porque tinha muita gente pelas ruas e, para atravessá-las, tinha o esquema das passagens subterrâneas, que atrapalhava um pouco a corrida. É melhor correr só no rio mesmo. Lá, inclusive, tinha um velhinho se alongando da seguinte maneira: apoiado em um galho de uma árvore, ele erguia todo o seu corpo e colocava as pernas em noventa graus, permanecendo nessa esdrúxula posição por alguns segundos. Retornava ao chão e voltava a fazer o exercício. Eu ficava cogitando a hipótese de o galho quebrar. Esses orientais são mesmo estranhos. E repito: era um velhinho já.

Hoje, ainda, fomos ver um apartamento público, no bairro diplomático, para compará-lo ao hotel. Preferimos o hotel mesmo. O apartamento tem a enorme conveniência de ser do outro lado da rua, em relação à embaixada, mas uma vez que o motorista vem buscar a Luiza no hotel, essa vantagem é minimizada. Haveria também a vantagem de podermos almoçar juntos, mas nada que uma “pequena” caminhada de 7 ou 8 km, a distância entre o hotel e a embaixada, não resolva. Afinal, o conforto do hotel venceu. Por falar no hotel, muita atenção com seus elevadores! Eles são assassinos e se fecham quase imediatamente depois de se abrirem. Aliás, outra estranha característica daqui é o hábito das faxineiras de tocarem a campainha e já saírem entrando no quarto. Temo pelo dia em que me encontrarão nu.


16/09/14

Como já disse anteriormente, em Pyongyang, você come e dorme. Em outras viagens, já tomei cafés da manhã muito rapidamente, quase os engolindo, porque tinha hora marcada para ir a museus, parques, passeios etc. Já, aqui, eu tenho pressa para quê? Tomei um café tranquilo, lento, gastando um longo tempo apenas para beber o gostoso chá que puseram à mesa. Comer devagar é outra coisa: tudo parece mais saboroso.

O garçom me rodeou por alguns segundos e, tomando coragem, perguntou o que era aquilo, referindo-se ao iphone. Eu disse que era um celular que tinha também outras funções. Ele pediu para ver e eu assenti. Ele perguntou o que era um aplicativo que a Luiza usa para correr (não sei por que ele encasquetou só com esse aplicativo) e eu expliquei, mas duvido que ele tenha entendido. Ele ficou comparando o iphone com o seu próprio celular e soltando risinhos. Eu adoraria ter lhe mostrado o Facebook, WhatsApp, Google, as maravilhas da internet, mas, sem conexão, não dá. Falei-lhe que a maioria das funções do aparelho não funciona na Coreia do Norte, ao que ele riu, não sei se como quem diz “é, eu sei que não, aqui é um outro planeta” ou se ele apenas não me entendeu.

Esses poucos norte-coreanos que lidam com estrangeiros, que nem esse garçom, devem ter uma visão muito diferente da do cidadão médio. Tenho a curiosidade de saber o que ele acha que são o mundo e a Coreia do Norte. Ele pode não saber o quê, mas deve entender que há algo de muito diferente com seu país.

Eu, antes, era da opinião de que a abertura da Coreia do Norte seria questão de tempo. Encontrei, porém,estrangeiros um pouco mais pessimistas por aqui, que dizem que simplesmente não há sociedade civil no país. O que tornaria a Coreia do Norte tão singular seria justamente o fato de nunca ter havido uma voz dissonante. De acordo com essa mesma linha de raciocínio, a reunificação das Coreias já teve o seu tempo, passou do ponto. O ódio recíproco se cristalizou de tal forma que elas nem sequer conseguem se sentar numa mesma mesa de negociação. Conforme o tempo vai passando, os antepassados que viveram na época de uma só Coreia vão morrendo e ficando cada vez mais distantes das gerações atuais, o que diminui a sensação de serem um só povo. A reunificação, assim, acaba por não interessar a ninguém: o sul não quer quase 30 milhões de norte-coreanos que não sabem fazer nada entrando em sua parte sulista desenvolvida e o norte, mais frágil, teme acabar sendo engolido por Seul.

É meio triste isso, porque as Coreias têm claramente um mesmo povo. A fronteira é completamente arbitrária e, se você olhar o mapa, até geograficamente faria mais sentido serem um só país. Soma-se a isso o fato de serem os únicos países do mundo a falarem coreano (apesar de, dizem, o coreano da parte do sul ter se desenvolvido muito mais e incorporado gírias e termos em inglês, enquanto o coreano do norte parou no tempo). Não é o mesmo que aconteceu com as Alemanhas, por exemplo. O mapa da Europa é tão confuso que as Alemanhas serem dois países diferentes faz tanto sentido quanto a Áustria ser independente. Há ainda quem use a reunificação das Alemanhas como esperança para as Coreias. Acontece que o abismo que separava as Alemanhas era bem menor do que o daqui, até mesmo porque, nos anos 80, o poderio tecnológico da Alemanha Ocidental era bem menor do que é o sul-coreano hoje.

Enfim, se o regime norte-coreano vai cair, se as Coreias se juntarão de novo, tudo isso só o tempo irá dizer. O que eu sei é que estou indo comer de novo.




terça-feira, 9 de setembro de 2014

A inexistência de Sérgio

1

O pior momento do dia era levantar da cama. Não porque ele quisesse dormir mais; já tinha perdido o sono havia tempos. O problema não era acordar, era viver. Pior do que viver: era abrir os olhos.

Sabia exatamente o que lhe esperava: um teto de um branco sujo enegrecido de umidade em alguns cantos. Quase sempre era essa a sua primeira visão do dia. Às vezes, porém, o corpo estava de lado e encarava logo pela manhã um armário verde musgo envelhecido. Quando amanhecia com a cabeça virada para o outro lado, a visão não era muito melhor do que o teto ou o armário: era sua esposa.

Levantava-se e, com cuidado para não acordar a mulher (menos por cuidado do que para não ter que ouvi-la), ia ao banheiro. Abria o chuveiro na temperatura mais quente e deixava a água caindo enquanto saía do recinto, caminhava até a porta de casa, pegava o jornal do dia  geralmente arremessado em cima do tapete de entrada , voltava ao banheiro, escovava os dentes, barbeava-se, despia-se, sentava no vaso e abria o jornal. Durante esse ritual, o banheiro já havia se enevoado com a fumaça da água quente que ele desperdiçava. Lia o jornal à espera de um grande fato, uma notícia explosiva, algo que o tirasse da mesmice, mas não era o que encontrava. Em vez disso, via as manchetes de sempre: economia de algum país em crise, tiroteio numa favela, expectativa do comércio para as vendas de natal ou páscoa ou dia das mães ou dia dos pais ou dia dos namorados ou dia de qualquer coisa. Todo mundo tem um dia. Ele, não. Não se considerava namorado de sua esposa, não ganhava chocolates na páscoa nem esperava pelo Papai Noel no fim do ano. As profissões têm seus dias: tem o dia do médico, do advogado, do professor. Mas ele era secretário administrativo: o que quer que isso signifique, era a nomenclatura que constava em sua carteira de trabalho. Já pesquisou se existia o dia do secretário administrativo. Não encontrou.

Continuava folheando o jornal. Passou pela seção denominada “ambiente”, mas não se preocupou em fechar a torneira, que continuava a despejar água. A previsão do tempo não trazia novidades: uma diferença de uns vinte graus entre a mínima e a máxima que nada lhe dizia; céu aberto com pancadas de chuva isoladas no fim da tarde. No caderno de esportes, o de sempre, variando apenas conforme o período do ano. Se antes da temporada, especulava-se a contratação desse ou daquele jogador pelo time A ou B; com os campeonatos em andamento, era crise em um time, demissão do técnico no outro, mudança de escalação, resultados da rodada...

Fechava o jornal e entrava no box para dar, enfim, utilidade à água que jorrava em vão. Durante o banho se masturbava cotidianamente como tentativa de compensar o pouco afeto que dava e que recebia de sua esposa. Vestia-se (blusa e calças sociais com sapato, nunca mudava), botava a carteira em um bolso, celular no outro, não se despedia da mulher, mas passava no quarto da filha de sete anos para ver se ela dormia bem e eventualmente a cobria se notasse que ela estava com frio. Pegava o elevador, cumprimentava o porteiro, entrava na garagem, dava partida no carro e dirigia por uma hora o que poderia percorrer em vinte minutos se não houvesse trânsito.

“Bom dia” aqui, “bom dia” ali, mais um dia de trabalho, planilhas, e-mails, telefone, mais planilhas, tudo interrompido apenas pela hora do almoço, quando comia um self service intragável, porém barato, na praça de alimentação do prédio comercial onde trabalhava. Durante quinze minutos pela manhã e quinze pela tarde, pausava o serviço para o cafezinho com os colegas. Costumavam ser os poucos momentos de descontração do dia.

Saía do trabalho às 6 da tarde e, de novo, dirigia uma hora o que, sem trânsito, faria em vinte minutos. Um “boa noite” ao porteiro, a espera pelo elevador, o giro da chave na porta de casa e o cumprimento à esposa em forma de um gélido beijo-estalinho. A filha geralmente estava no quarto estudando ou vendo TV e ele preferia não incomodá-la. Banhava-se (agora sem todo o ritual antes de entrar debaixo do chuveiro), vestia seu pijama e ia jantar a mesma comida que a mulher almoçara, agora requentada. Era só aí, quase às 8 da noite, quando falava com a esposa e com a filha pela primeira vez no dia, na mesa do jantar. Eram conversas curtas, frias, desinteressantes para todos os lados. Dormia por volta das 10 um sono que, embora profundo, não o fazia acordar descansado no dia seguinte.

Numa dessas manhãs como outra qualquer, no momento de cumprimentar o porteiro, este lhe deu mais que um “bom dia”, acrescentando um “tudo bem com o senhor?”. Pergunta retórica, resposta de praxe: “Tudo, e contigo?”. Para o porteiro, porém, não era um curto diálogo de frases automáticas, uma vez que ele respondeu: “Não estou muito bem não, seu Sergio. Ainda estou muito chocado com a morte do Pedro.”

Pedro? Que Pedro? Sergio não conhecia Pedro nenhum e nem sabia se era esse o nome que ele realmente ouvira.

 O Pedro vai fazer muita falta  disse o porteiro.
 Quem é Pedro?  perguntou Sergio, secamente.
 O zelador, seu Sergio! O Pedro!  respondeu o porteiro, um pouco ofendido pelo esquecimento de Sergio. Este só agora começava a se lembrar de alguém que poderia ser o tal Pedro:
 Um careca baixinho?
 É claro, pô! O Pedro! Morreu ontem! O Pedro!

Sergio notou que o porteiro estava se irritando, disse algo como “é, vai fazer muita falta o Pedro” e foi embora rumo ao trabalho. Provavelmente trocou um ou dois cumprimentos somente com o zelador, é óbvio que não lembraria com riqueza de detalhes quem era o sujeito. Ocorreu-lhe, porém, que talvez tenha sido um pouco rude com o porteiro, um pouco sem tato ao expor tão friamente sua ignorância sobre quem era Pedro. Poderia ainda ter perguntado sobre como ele morreu, mas nem isso fez. E o ocorrido não lhe saiu da cabeça durante todo o dia. “É, vai fazer muita falta o Pedro”, que modo de falar, especialmente depois de dizer textualmente que não se lembrava do defunto. E ainda por cima sair correndo depois, como se fugisse do assunto! Mas essa é a questão. Talvez tenha sido exatamente isso o que aconteceu. Fugira do assunto. E agora, no decorrer do dia, o que realmente o incomodava não era sua reação frente à notícia, mas o episódio em si. O Pedro morreu. Isso é terrível. Não importa que ele não soubesse quem era o Pedro ou que só o conhecesse de vista. O fato, nu e cru, é que ele morreu. Alguém, na face da Terra, deve estar chorando pela morte desse baixinho careca. Ou ainda que não esteja, o Pedro morreu, sendo que até o dia anterior ele estava vivo, com seus desejos, suas ações, seus pensamentos e emoções! Quer dizer, talvez tenha morrido de alguma doença, estivesse já vegetando, todos já esperassem sua morte, mas, caso tenha ocorrido um acidente ou algo completamente inesperado, aí é muito pior! Vivo, com planos e anseios em um minuto e morto no outro.

Pensar na morte do Pedro era pensar que ele, Sergio, também iria morrer um dia. E se fosse no dia seguinte? E se fosse dali a algumas horas, a alguns minutos? “Para morrer, basta estar vivo”, diz o velho dito popular, mas isso é terrível, essa máxima é extremamente cruel. Será que deveria planejar alguma coisa, uma vez que sua vida podia acabar em qualquer momento?

Começou a forçar a memória o máximo que pôde para lembrar o maior número possível de detalhes do zelador. Como era fisicamente? Era um baixinho careca, disso já sabia. Mas era magro? Era gordo? Sua memória traía-lhe, viu-o muito poucas vezes. Nem gordo nem magro, concluiu. Era careca mesmo, mas não totalmente, havia ainda alguma penugem nas laterais da cabeça. Tinha uma voz meio fanha, lembrava-se agora. Veio-lhe à memória uma vez que o ouvira falar com uma vizinha: “É o encanamento, senhora”. Não sabe qual era o contexto da conversa, mas a frase fora dita com uma voz um pouco nasalada. Mais o que podia se lembrar do defunto? Teve uma troca de cumprimentos no elevador uma vez, um “bom dia” na portaria do prédio em outra... E só. Não deve ter voltado a falar com Pedro em outra ocasião. Mas se lembrava ainda que um dia o zelador estava mais para jardineiro, mexendo nas plantinhas do condomínio.

Essa questão o atormentou por dias. Chegou a tocar no assunto com a esposa, mas a reinante falta de diálogo entre ambos venceu mais uma vez:

 Aquele zelador morreu...
 Que zelador?
 Pedro.
 Não sei quem é.
 Aquele baixinho careca.
 Ah...
 O porteiro é que me falou.
 Entendi.
 Não acha estranho que nós também possamos morrer de repente?
 Prefiro não pensar nisso.
 Eu também não pensava. Mas olha: se o Pedro morreu, amanhã pode ser ou você.
 É. Mas prefiro não pensar nisso.
 Não acha isso inquietante?
 Prefiro não pensar nisso, Sergio.

O que a mulher realmente preferia era não ter que conversar com o marido.

O curioso é que Sergio já tinha perdido entes queridos, amigos, pessoas muito mais próximas do que o zelador de quem ele nem se lembrava, mas nenhum deles havia trazido à sua mente a inquietação de agora. Foi justamente esse distante Pedro que afligiu Sergio quanto ao drama da finitude da vida.

E se pudesse ser imortal? Sergio quereria? Por certo que não. A imortalidade é tão angustiante quanto a mortalidade. Viver para sempre é tão horripilante quanto saber que vai morrer. Talvez o problema não seja exatamente a morte, mas deixar de existir. Ou pior: deixar de executar planos que, enquanto vivo, habitavam sua mente. Não, não era nada disso, ele pensou. O que realmente lhe causava aflição era essa mudança entre o andar, falar e pensar e o estar deitado dentro de um caixão, mudança esta que pode ocorrer em um mês, um dia, um segundo, um minuto.

Passada uma semana da morte do zelador, Sergio adquirira o hábito de caminhar pela rua, depois de sair do trabalho, em vez de afoitamente pegar o carro e tomar seu tradicional caminho de volta, como sempre fizera. Descobriu diversas vantagens nessa prática. Duas dentre as mais relevantes eram a fuga do trânsito na hora de pico e o adiamento em voltar para casa. "Respirar o ar livre, sozinho, só eu! Por que ainda não tinha feito isso? Nunca quis voltar para casa, nunca quis ver Stella, nem sei por que me casei com ela. Quer dizer: eu a amava, por isso me casei. Acima de tudo, ela é a mãe da minha filha. Mas hoje ela é uma estranha. Não sei mais nada dela... Então, se nunca quis voltar para casa, por que ia ao carro assim que saía do trabalho, por que dirigia tão apressadamente, por que odiava o trânsito, quando na verdade ele era meu aliado? Eu tinha pressa para quê?"

Esses passeios sem rumo cada vez lhe tomavam mais tempo. O mais curioso é que chegava em casa cada dia mais tarde e Stella jamais lhe perguntou o motivo, nunca estranhou nada, era como se ele retornasse em seu habitual horário de todos os dias. Para Sergio, era um alívio e, se sentia saudade de alguém, era da filha. 

Num desses passeios, já decorrido quase um mês desde que iniciara sua nova prática, passou por uma moça que despretensiosamente lhe entregou um panfleto. Ele, sem nem olhá-la, pegou o pedaço de papel e continuou andando, só se decidindo por lê-lo alguns metros a frente. Viu em letras brancas num fundo preto, sem nenhuma imagem ou chamativo em especial, um número de telefone e a seguinte frase: “Descubra quando você vai morrer com Mãe Soraya”.

Sentiu uma fisgada no peito e a lembrança do zelador Pedro voltou-lhe à mente com a intensidade de um soco no queixo. Precisou se sentar em um banco da praça, pois viu em poucos segundos tudo girar e o chão se mover. Que era aquilo? Que lhe afligia? Já tinha quase parado de pensar em Pedro, aquela já era uma lembrança que, embora nunca tivesse saído de sua mente, ocupava algum espaço de fundo, secundário e, se não tinha sumido, ao menos não mais preenchia o escalão principal de seus pensamentos. Mas agora toda a angústia voltava. Recuperou forças, levantou-se, voltou à mocinha que lhe entregara o panfleto. Ela ainda estava lá, distribuindo a outros transeuntes.

 É você a vidente?  perguntou Sergio, sem nenhuma introdução.
 Minha mãe  respondeu a mulher.
 O que é isso? Como ela pode saber quando alguém vai morrer?
 Ela te olha e sabe.
 Me olha e sabe? Que palhaçada é essa? Quem vocês são para enganar as pessoas desse jeito?
 O senhor não precisa se alterar. Se o senhor não acredita, tudo bem.
 Eu não acredito, mas me ofendo pelas pessoas que são enganadas por essa estupidez! Como alguém pode olhar outra pessoa e saber quando ela vai morrer? O que é isso, hein? Que golpe!
 Ela olha e sabe. Isso é tudo. Previu a morte de meu pai, de amigos, familiares... Ela olhava bem nos olhos das pessoas, bem fundo, e sabia exatamente o dia de suas mortes. Não sei explicar. Não é científico, não é religioso...
 Não é científico, não é religioso, não é nada! É um golpe, é o que é isso! Vou dar parte dessa mulher!

Sergio saiu transtornado na direção de uma delegacia. Tudo teatro, ele sabia. Tinha a plena consciência de que de nada adiantaria importunar a polícia com esse caso sem a menor relevância. Mais do que isso: tinha a total convicção de que não apenas não daria parte coisa nenhuma como no dia seguinte ligaria para Mãe Soraya para descobrir o dia em que ele próprio morreria.


2

Sergio marcou uma consulta com a Mãe Soraya para a data seguinte. Não sabia por quê, mas se viu num grau de ansiedade tão grande que mal conseguiu trabalhar naquele dia. Disperso, errou vários procedimentos, produziu pouco e, se fez algo mais do que o habitual, foi falar. Conversou com muitas pessoas, assuntos sem relevância, entrecortados. Estava visivelmente afoito. Era sexta-feira e todos atribuíram essa ansiedade incomum de Sergio ao fim de semana que se aproximava. Naquela noite, não dormiu e, chegado o sábado, nem precisou inventar uma desculpa para ir à vidente, já que ninguém lhe perguntou aonde ia.

O endereço era de uma casa com um jardim frontal mal cuidado, tomado por ervas-daninhas e resquícios de lixo. Viam-se ainda restos de materiais de construção, latões vazios de tintas, escadas enferrujadas, tudo espalhado pelo quintal que tomava as partes laterais da residência. Sergio respirou três vezes antes de tocar a campainha e descobrir que ela não funcionava. Decidiu por bater palmas. Trinta segundos depois apareceu a mesma menina que lhe entregara o panfleto. Sergio não esperava por isso. Envergonhou-se por ter aparecido ali, mesmo depois de todo o discurso que fizera. A garota notou esse constrangimento, conteve o riso e só comentou, em um tom cuja ironia Sergio não percebeu:

 Que bom que você resolveu vir.

A mulher abriu o pesado portão, preso por grossas correntes com cadeados. Depois de levar quase um minuto para liberar a passagem, ela apontou com a cabeça para a porta que dava para o interior da casa e disse:

 Vou demorar fechando tudo isso novamente. Pode entrar. Você não precisa me esperar; minha mãe já te aguarda.

Por um lado, Sergio preferia esperar, para não ter que entrar sozinho naquela casa de péssimo aspecto, mas, por outro, sentiu-se aliviado por poder livrar-se da presença constrangedora da mulher, que certamente estava comprovando a fraqueza de espírito daquele que havia dois dias tinha ameaçado denunciar a vidente para a polícia.

Sergio acabou por entrar sozinho. Um novo momento de vergonha e irritação lhe tomou por completo quando se deparou com Mãe Soraya. Tratava-se de uma senhora que beirava seus sessenta anos, com pesada maquiagem, saia longa, um cabelo bagunçado para trás, todo um visual forçado e montado para recebê-lo. Ela estava sentada no tapete do centro da sala, em posição de lótus, com olhos fechados e as palmas das mãos viradas para cima. Para ele, estava comprovado que tudo aquilo não passava de um teatro barato, uma tentativa de representar uma série de estereótipos horrorosos. Sentiu vontade de dar meia volta e ir embora, mas não podia. Pigarreou e disse, com voz grave:

 Bom dia.

Ela abriu os olhos e mostrou-se admirada por receber visita, uma surpresa fingida, mal disfarçada. Perguntou-lhe seu nome, ele respondeu, embaraçado, torcendo para que ninguém nunca viesse a ter conhecimento daquele momento constrangedor.

 Ah, acho que minha filha falou de você... Sente-se, por favor. Como tem passado?  ela perguntou.
 Desculpa, mas não vim bater papo – ele respondeu, rudemente.  Só vim para saber o dia da minha morte.
 Claro  ela soltou um sorrisinho de canto de boca.  Eu já deveria supor. Aproxime-se mais, por gentileza.

Nesse momento, a garota, que tinha acabado de fechar o portão, trazia-lhes dois copos de água.

 Mais. Aproxime-se mais  disse a vidente.
 Está bom aqui? Ora, mas por que tenho que estar tão perto?
 Aproxime-se mais. Preciso enxergar bem dentro dos seus olhos.

Sergio obedeceu e ela disse, como quem fala qualquer coisa sem particular importância:

– Não mais que duas semanas.

Se é verdade que ela tinha que enxergar dentro da pupila de Sergio, sua tarefa teria ficado mais fácil depois da anunciada estimativa, uma vez que ele esbugalhou os olhos e pediu confirmação:

 Duas semanas?

Ela deu de ombros e respondeu:

 No máximo.

Sergio pegou o copo de água recém-trazido, tomou metade dele e pediu detalhes de sua morte. Ele se sentia saudável, não tinha nenhuma doença, não tomava remédios, não tinha uma vida desregrada... Por que morreria em duas semanas? 

 Te digo quando você vai morrer; a causa não é o meu forte  ela respondeu.  Mas sinto que será um acidente de carro.

Ele ficou estático, levando aquela notícia muito a sério, como se havia pouco não estivesse desconfiado de Mãe Soraya.

 Sim, meu filho, posso sentir...  E ela começou a tremer, de novo teatralmente, mas dessa vez Sergio não desconfiava de nada.  Um acidente de carro, realmente. Um acidente de que você não terá culpa. Posso ver agora com riqueza de detalhes. Um Peugeot preto te fechará numa curva, você perderá a direção e se colidirá com um poste. Você não resistirá aos ferimentos e morrerá ainda na ambulância.

Sergio ficou mudo, consternado com a notícia. Pediu mais detalhes do acidente, mas Mãe Soraya disse que não sabia dizer mais, que isso era tudo. Ele se levantou, em estado de choque, perguntou quanto custou a consulta e foi só a mulher lhe dizer o preço para ele voltar a si, se irritar com aquele valor e tornar a pensar que aquilo tudo era, afinal, uma grande armação, que não tinha razão para se preocupar com aquela previsão, que não deveria nem sequer ter ido lá. Jogou o dinheiro furiosamente em cima da velha e saiu da sala com passos apressados, o que pouco adiantou, porque teve que parar em frente ao portão trancado e esperar a garota voltar para abri-lo.

O processo de abrir o portão durou quase cinco minutos, após os quais a garota se despediu, com um leve sorriso irônico, e falou:

 Duas semanas, hein! Não mais que isso. Minha mãe nunca falha.


3

No domingo, Sergio se manteve mais taciturno que o normal. Os domingos eram sempre os piores dias para ele: ficava em casa sem fazer nada e raramente trocava mais de três frases com Stella. O dia só valia porque era o único momento da semana em que conversava com a filha, sabia como ela estava, como ia no colégio, fazia alguns deveres de casa com ela e passavam algum tempo juntos. A menina se chamava Beatriz e nunca escondera que sentia falta do pai, que gostava de conversar com ele, mas, apesar disso, quando ambos estavam juntos, embora ela aproveitasse a companhia paterna, havia uma nítida falta de intimidade entre os dois.

Aquele domingo, porém, Sergio passou o dia inteiro recolhido em sua cama. Não bateu na porta do quarto de Beatriz como sempre fazia, quando se sentia sufocado pela presença de Stella, pelo ócio, pelo cheiro da casa. Beatriz notou essa mudança de comportamento, perguntou à mãe o que se passava com Sergio, mas Stella não deu importância. Ele permanecia deitado na cama, como se estivesse doente. Encarava o antigo armário verde musgo e se lembrava da velha do dia anterior, aquela horrível Mãe Soraya que previra sua morte de forma tão casual, tão displicente. Foi só à noite, antes de Beatriz se deitar, que ela foi falar com o pai. Em todos os domingos, ele era quem a procurava, mas dessa vez, não. Partiu da garota a aproximação. Ela perguntou como ele estava, ele respondeu que bem, mas sua fisionomia tensa não a enganou. Beatriz perguntou de novo e, dessa vez, ele falou, impacientemente, que tinha mesmo um problema, mas que era coisa do trabalho, que não era nada que ela entenderia nem com o que ela deveria se preocupar.

Meio sentida, a garota baixou os olhos e saiu do quarto. Passaram-se dez minutos e ele a seguiu, indo encontrá-la já em seu quarto, enrolada na coberta, só com a luz do abajur acesa. Ele pediu permissão para entrar, como teria pedido a qualquer adulto, e sentou-se na beira da cama, acariciando as mechas de cabelo da menina que caíam-lhe no rosto. Pediu desculpas se havia sido grosseiro e perguntou:

 Se eu morresse, você sentiria minha falta?

A garota não respondeu, mas começou a chorar. Sergio, então, percebeu que fizera burrada, soltara uma pergunta completamente estúpida. A menina já estava triste e preocupada com o distanciamento dominical do pai e ele ainda faz um questionamento absurdo desses! Ele aumentou a intensidade das carícias, abraçou o pequeno corpo de sete anos de Beatriz e disse que não era para ela chorar, aquilo era só uma suposição, que ela deveria esquecer que ele lhe havia feito aquela pergunta, que esquecesse, por favor, que esquecesse!

Mas ela não esqueceu:

 Você vai morrer! Você vai morrer? Vai morrer!

Sergio não entendeu se era uma afirmativa ou uma interrogação, mas negou. Disse que não ia morrer, repetiu que Beatriz deveria esquecer aquilo e começou a falar de desenhos de que ela gostava, da escola, de gibis, assuntos que desviassem o foco do pensamento da menina. Pareceu funcionar, porque ela parou de chorar e passou a falar de toda a sua semana no colégio, como havia sido, o que tinha aprendido. Ela nunca falara tanto nos outros domingos. Na verdade, ambos jamais estiveram tão próximos. Ele não costumava tocar na menina, mas agora não parava de acariciar seus cabelos e ela nunca falara tão entusiasticamente. Foram interrompidos por Stella, que disse para Sergio parar de atrapalhar o sono de Beatriz, que estava na hora de ela dormir e ordenou à menina que assim fizesse.

Ambos obedeceram. Beatriz apagou o abajur e fechou os olhos (embora Sergio estivesse convicto de que ela não adormeceria tão cedo) e ele, que realmente não queria atrapalhar o sono da filha, saiu do quarto em passos lentos, passando ao lado de Stella, que estava parada ao lado da porta, sem nenhuma vontade de olhá-la. Voltou para a cama, irritado por se ter permitido abater tão facilmente pela tal Mãe Soraya, por ter permitido que aquela velha louca fizesse com que ele pronunciasse uma pergunta idiota e atrapalhasse o sono da filha.

A face da velha apareceu de novo no armário verde musgo e os pontos negros de umidade no teto formavam a careta zombeteira que a garota panfleteira lhe fizera, certamente se divertindo com sua fraqueza de espírito. E aquela despedida ("Duas semanas, hein! Não mais que isso. Minha mãe nunca falha"), aquilo era uma afronta, um claro deboche. Mas o que mais ele merecia? Era o mínimo por se ter deixado impressionar.

Stella desligou a TV na sala e deitou-se ao lado do marido, o mais distante que pôde na cama. Stella sempre dormia tarde, o que significava que os pensamento em Mãe Soraya tinham ocupado a mente de Sergio por mais tempo do que ele supunha. Olhou o relógio: duas da manhã. Tinha saído do quarto de Beatriz às nove. Cinco horas pensando naquela vidente de araque! Levantou-se, foi à cozinha, pegou um dos remédios que Stella tomava para dormir e ele mesmo o ingeriu. Tinha que pegar no sono! Adormeceu, enfim, já quase na hora de acordar.

Levantou-se e todo o seu rotineiro procedimento matinal foi mantido, desde a leitura do jornal até a água desperdiçada no chuveiro do banheiro. Tudo, porém, com muito menos atenção que o habitual. Seu corpo era uma máquina autônoma da mente. O pensamento estava longe: na morte. Sofreria muito com o acidente? Quando batesse o carro, sentiria dores? Iria para a ambulância em coma? No meio do banho, acendeu-se uma ponta de felicidade: se ele não dirigisse por duas semanas, não morreria! A solução era óbvia: deveria usar o transporte público durante aquele tempo. Mas a morte é invencível, pensou. "Não vou conseguir ludibriá-la por muito tempo". Nada impediria que o maldito Peugeot preto entrasse na frente do ônibus em que ele estivesse, matando-o, de qualquer jeito. "Para isso, devo usar exclusivamente o metrô". Acontece que morava longe da estação. E tampouco havia estações próximas de seu trabalho. Para usar o metrô, teria que andar muito todos os dias. "Só por duas semanas, eu aguento". Mas e as explicações que teria que dar às pessoas Certamente lhe perguntariam por que não estava de carro. Poderia dizer que seu veículo enguiçou, que está na oficina mecânica, mas, nesse caso, questionariam por que estava de metrô, em vez de ônibus. Por que estava andando tantos quilômetros para chegar ao metrô, em vez de pegar um ônibus em frente a sua casa e descer na rua paralela à do trabalho? Não poderia contar a verdade, seria ridículo. Mas esse é o xis da questão: é ridículo! Por que, então, estava dando tanto importância àquela previsão? Não se cansava de fazer essa pergunta. Se tinha vergonha de contar sobre Mãe Soraya, se seria risível para as outras pessoas o fato de Sergio pegar metrô porque uma velha doida previra sua morte, então por que estava cogitando essa ideia? Era tudo absurdo!

Durante esses devaneios, seu corpo, que continuava desvencilhado da mente, já havia se banhando, se enxugado, se vestido e Sergio estava agora com a chave do carro na mão. Iria dirigir! Não cederia ao terror daquela velha grotesca!

Quando saiu do elevador, cumprimentou o porteiro. Foi tomado por uma intensa raiva desse indivíduo. Tudo começou quando ele lhe falara sobre a morte do desconhecido zelador! Tudo culpa daquele sujeito!

Quando entrou no carro e ligou a ignição, percebeu que estava tremendo. Não poderia dirigir nesse estado de nervos. Olhou-se no retrovisor e conversou consigo próprio, em voz alta mesmo, sem vergonha, firmemente:

 Ok, já te perguntei várias vezes por que você está dando tanto valor àquela bruxa. Você não me respondeu. Você só abaixa a cabeça. Você sabe que é ridículo, racionalmente você sabe, mas não consegue escapar. É mais forte que você. Você sabe que não vai morrer, você sabe que a velha era uma charlatã, mas, se dirigir tremendo dessa maneira, aí, sim, você vai morrer. Aí, você vai bater e não necessariamente vai ser num Peugeot preto, mas na primeira lata velha que cruzar sua frente. Agora, escute. Se aquela velha mexeu contigo mais do que você esperava, se você enlouqueceu, se desde a morte do zelador você está dando mostras de loucura, tudo bem. Você está louco e não podemos fazer nada quanto a isso. Vamos, então, entrar no seu mundo de faz-de-conta. Você vai morrer mesmo em duas semanas, no máximo. A velha estava certa e o fim está próximo. Mas ainda faltam duas semanas. No máximo, ela disse, ou seja: pode ser hoje, amanhã, em uma semana, uma semana e meia. Mas não necessariamente será hoje. Então, dirija, vá ao trabalho, cumpra com suas obrigações, não tem por que sofrer antes da hora. Você ainda tem algum tempo de vida. Gastá-lo com tremores nas mãos não é a melhor alternativa. Vai, dirija!

Tomou coragem, engatou a marcha e foi embora.

Apesar da tensão, Sergio, após a conversa que teve consigo mesmo em voz alta, conseguiu dirigir adequadamente até o trabalho, missão contribuída pelo fato de não ter cruzado com nenhum Peugeot preto no trânsito. O dia arrastou-se, teve vontade de contar sua angústia a alguém, mas não teve coragem: envergonhava-se só em se imaginar narrando a visita que fizera a Mãe Soraya.

Quando acabou o expediente e livrou-se da asfixia do escritório, Sergio saiu para seu passeio sem rumo pela cidade. Andou por três horas, passando pelo mesmo local onde pegara o panfleto de Mãe Soraya, mas a garota não estava lá. Quando a lua já se fazia notar no céu, voltou ao seu carro e notou, mais uma vez, as mãos trêmulas. Precisou de mais um tempo de preparação para poder dirigir de volta para casa, outra conversa consigo mesmo, novos exercícios de respiração e controle sobre seu corpo. Dirigiu, por fim, de novo sem maiores problemas, chegando aliviado ao seu prédio, não por estar de voltar ao lar (o que de forma nenhuma era motivo para comemorar), mas por ter estacionado o carro são e salvo.

Assim que entrou em casa, algo inédito aconteceu: Stella veio à porta recebê-lo. Não houve tempo para Sergio decifrar se seu sentimento era de simples surpresa ou mesmo de alegria, pois, em poucos segundos, Stella perguntou, com voz alta e irritada:

 Que história é essa de que você vai morrer?

Sergio se viu sem reação. Perguntou, com voz vacilante, onde Stella havia ouvido aquilo.

 Beatriz veio me perguntar por que o pai dela ia morrer! Perguntei que bobagem era aquela! Ela disse que você mesmo lhe falou que ia morrer! Que história é essa? Por que está colocando bobagem na cabeça da garota?
 É que eu temo que talvez eu esteja para morrer, mesmo...  Sergio respondeu, ainda vacilante, sentindo o sangue subir-lhe ao rosto, cobrindo-o de vergonha.
 Vai morrer de quê?  Stella perguntou, não com tom de preocupação, mas de cobrança, não contendo sua irritação, o que inibiu ainda mais a já pouca disposição de Sergio de contar a verdade.
 Tenho me sentido mal  ele respondeu, de forma pouco convicta.
 Mal como?
 Dores no peito  mentiu.
 Que dores no peito?
 Bem aqui. Nada sério.
 Se não é sério, por que você vai morrer?
 Não quero falar sobre isso.
 Mas com a nossa filha, você quis falar! Sabia que ela não conseguiu fazer os deveres de casa porque não tirava essa bobagem da cabeça?
 Vou conversar com ela.
 Ela já está dormindo, você sabe muito bem!
 Domingo eu falo com ela.
 Hoje ainda é segunda!
 E o que você sugere que eu faça, Stella? Por Deus, me deixe em paz! O que você quer que eu faça?
 Que cumpra sua promessa e morra de vez! – E virou as costas e foi-se embora, sem dar-lhe tempo de resposta.


4

A infância de Sergio fora o oposto de sua vida adulta. Em criança, era bagunceiro, falador, extrovertido. Não parecia o apático e cansado adulto que se tornara. Era já quinta-feira, passaram-se cinco dias desde a maldita previsão e Sergio, em sua caminhada após o expediente, pensava com melancolia em seus anos de infância, pensamento fruto da brevidade da vida, da certeza que tinha de que morreria em tão pouco tempo.

Quando se tornara esse ser vagante e desprezível, incapaz de ser amado por qualquer pessoa? Não sabia responder. Fato é que iria morrer em pouco mais de uma semana, no máximo, e ninguém sentiria sua falta. Talvez a filha. Talvez. No fundo, não tinha certeza da importância que tinha na vida de Beatriz, sabia que era um pai extremamente ausente e pensava o quanto de culpa tinha por isso. Quando chegava do trabalho, antes de adotar esse hábito de caminhada, a menina ainda estava acordada, estudando ou vendo TV, e ele não ia falar com ela... Durante os jantares, tampouco conversava com a filha. Agora, que resolveu andar sem rumo após o expediente e chegava mais tarde em casa, nem esse pouco contato com Beatriz ele tinha mais. Ela já estava dormindo quando ele chegava. Talvez devesse cancelar essa resolução de andar pela cidade quando saía do trabalho, mas isso lhe fazia tão bem... Era o momento em que punha os pensamentos em ordem, em que relaxava a mente... Mas a custo de quê? A custo de um maior contato com a filha? Se, ao menos, os domingos fossem suficientes para compensar toda a ausência dos outros dias da semana... Temia, porém, a constatação de que não tinha o menor interesse na vida da menina. Provavelmente, só falava com ela aos domingos porque era a única opção que tinha naquele que era o pior dia da semana. Conversar com a filha era, dos males, o menor.

Pensava na sua própria infância porque pensava na infância de Beatriz. Ela era feliz? Não sabia! Era inconcebível, mas não tinha a menor ideia da resposta a esse pequeno enigma que era a felicidade da própria filha. Quando ele era criança, era feliz. Sua mãe morrera quando ele ainda tinha três anos de idade e o pai não era muito próximo dele. Passava o dia na escola e, à noite, conversava tão pouco com o pai que era como se fossem completos estranhos. Mas era feliz. Era feliz na escola, era feliz com os amigos, era feliz em casa (não graças ao pai, mas vendo TV, jogando videogame etc.). Isso o aliviava. Talvez Beatriz, afinal, também fosse feliz, apesar do pouco contato que tinha com a filha. E ela, ao contrário do pequeno Sergio, ainda tinha Stella para lhe dar toda a atenção que Sergio não recebera de ninguém em criança. E nada disso o impediu de ser feliz.

Sergio teve bons amigos na escola, assim como na adolescência, na universidade... Quando os perdeu? Quando se tornou tão solitário? Quantos anos tinha quando deixou para trás todos os seus bons amigos para se tornar um nada, um louco que visitava videntes? Aliás, qual era a sua idade nesse momento, a idade em que morreria? Teve que fazer as contas, diminuir o ano atual do ano de nascimento e relembrar que tinha 46 anos. Mas a idade que dividira a felicidade da insignificância, essa ele não lembrava. Casara-se quando tinha 27. Antes disso já era um ser tão ignóbil? Poderia colocar a responsabilidade de se ter tornado um nada nas costas de Stella? Por certo que não. No início, seu casamento era bom. Não era infeliz. Ambos trabalhavam, tinham boas condições financeiras e, quando um chegava em casa à noite antes do outro, ficava ansioso à espera do cônjuge, afoito na porta até ele chegar. Quando o esperado momento acontecia, beijavam-se calorosamente ainda do lado de fora, entravam e faziam sexo na sala mesmo, todos os dias. Amavam-se, sem dúvida. Nessa época, Sergio não era infeliz, ao contrário. Mas essa alegria, esse júbilo excessivo fez com que ele se afastasse dos amigos. Vivia somente para Stella e verdade seja dita: ela também só vivia para ele, também se afastara de seus colegas. “Hoje, Stella também é solitária”, pensou. “Tanto quanto eu...” Afastaram-se dos seus melhores amigos porque um só tinha olhos para o outro. No momento em que se perderam, quando um passou a ser estranho para o outro, não tinham mais nem os antigos amigos nem um relacionamento conjugal satisfatório. 

Essa apatia de Sergio era novidade. Nunca fora assim. Se, hoje, o domingo tinha se tornado o pior dia da semana, era o oposto no passado. Enquanto solteiro, passava os domingos organizando churrascos, frequentando clubes, jogando futebol... Depois de casado, também esperava ansiosamente pelo fim de semana, mas agora para passá-lo com Stella, distantes do mundo, longe dos olhos dos outros. Inicialmente, não cessaram os convites para eventos sociais, mas eles negaram tantas vezes que, um dia, caíram no esquecimento, ninguém mais se lembrava dos dois quando ia organizar uma festa ou um evento qualquer.

Sergio pensava se não fora Beatriz o divisor de águas de sua vida. Tampouco era verdade, porém. Stella tinha dificuldades de engravidar e, quando a menina nasceu, o casal comemorou tanto que, contrariando as expectativas, passavam ainda mais tempo juntos do que antes. Sergio diria até que nunca foram tão unidos quanto nos dois anos após o nascimento da menina. Aquele foi o melhor momento de sua existência, sem dúvida. O gráfico de sua vida não fora, portanto, uma linha em constante declínio, mas uma parábola, em que esses dois anos que sucederam o ganho de uma filha foram justamente o ápice.

Havia por volta de cinco anos que sua vida despencava. Stella e ele afastaram-se naturalmente: essa constatação era o que mais o incomodava. Não teve um marco, um fato que determinara essa ruptura. Simplesmente não se suportavam mais. Um fazia mal para o outro. Não mais se tocavam, não se viam, não se falavam. Voltar para antigos amigos já era impossível; não eram mais lembrados por ninguém. Para fazer novas amizades, faltava vontade, ânimo, disposição. Não queriam mais viver. E, no fundo, não viviam. Se, por anos, só existiram um para o outro, agora, quando se ignoravam mutuamente, não eram considerados por ninguém.

Beatriz, talvez. “Para Beatriz, talvez eu ainda exista”. Os pensamentos se tornavam cíclicos e, de novo, cogitava a importância que tinha na vida da filha. E aquele zelador? Será que ele, pelo menos, tinha sido importante para alguém? Será que tinha sido mais importante que ele, Sergio?Sabia que, quando morresse em pouco mais de uma semana, ninguém, com exceção – talvez – de Beatriz, choraria sua morte. E o finado Pedro? Alguém lamentou seu desaparecimento desse planeta? Quando se deu conta, já era tarde da noite. Nunca tinha ficado tanto tempo na rua. Temeu que o estacionamento já estivesse fechado, mas um vigia ainda permanecia no local, seu carro era o último. Seus pensamentos ainda estavam na repentina insignificância de sua vida, elucubrações que, embora tristes, afastaram-no da tensão de cruzar com um Peugeot preto.

Dirigiu tranquilamente até sua residência. Não estava nervoso, as mãos não tremiam. Estava apenas triste, melancólico. Encontrou um apartamento com luzes apagadas em todos os cômodos. Stella já dormia; Beatriz, é claro, também. Olhou a mulher em sono profundo, seus seios movendo-se em uma pesada respiração. Sergio nunca tinha chegado tão tarde em casa: alguém percebera? Pelo visto, não. Sentiu uma umidade nos olhos, encarando a mulher que, se durante os últimos anos fora uma estranha para ele, agora lhe parecia alguém levemente familiar, como um velho amigo dos tempos de universidade com quem nos encontramos anos depois, que está completamente mudado, mas que ainda conserva uma ou outra característica dos velhos tempos. Muito pouco, tratando-se da mulher com quem convivia por quase vinte anos. E que característica era essa que ainda lembrava a Stella de anos atrás? Tampouco saberia responder. Provavelmente, foi só um sentimento passageiro, um devaneio qualquer; vai ver ela não tinha mesmo mais nada da mulher com quem se casara.

Dormiu bem como não acontecia havia muito tempo. Um sono profundo, tranquilo. Não porque estava feliz, mas, ao contrário, por estar tão triste. A melancolia tem essa estranha capacidade de vencer a raiva, a ansiedade, a inquietação. Não poucas vezes estamos agitados por algum motivo e, não podendo almejar a felicidade, ao menos temos a tristeza que nos preenche e nos aquieta. Foi essa tristeza, por mais paradoxal que possa parecer, que fez Sergio ficar em paz consigo mesmo.

Quando acordou, Sergio estava descansado, sentiu que havia tido uma boa noite de sono. Praticou todo o seu ritual matutino e mais uma vez dirigiu sem maiores afobações. Como sempre ocorria, chegou ao trabalho sem ser notado por ninguém, foi para a sua mesa, distribuiu em ordem de urgência algumas planilhas sobre as prateleiras e trabalhou sem ser incomodado por nenhum outro funcionário. Quando terminou o expediente, manteve seu recente hábito de caminhar pela cidade, retornando tarde para casa e encarando a mulher com aquela emoção de quem perdera algo precioso, mas sem saber precisar quando nem por quê.

Esse marasmo, essa melancólica tranquilidade, durou uma semana inteira. Segundo as previsões de Mãe Soraya, tinha apenas mais dois dias de vida, mas nem pensava mais nisso. Já se considerava morto. Não era relevante para ninguém, não fazia nada de útil, ninguém tinha qualquer tipo de apreço por ele. Quando o Peugeot preto aparecesse, apenas oficializaria algo de que todos já sabiam: estava morto para o mundo.

Na sexta-feira, lembrou-se de que morreria naquele ou no próximo dia. De toda forma, não tornaria a ver seus companheiros de trabalho. Ao fim do expediente, tomou uma atitude inédita: foi se despedir de seus colegas um por um. Todos estranharam aquilo imensamente e o próprio Sergio se sentiu ridículo depois. Mas não deixou a iminente morte impedir sua última caminhada pela cidade, até tarde. Já saudoso, avistou os bares cheios, as filas para o cinema, os casais a passear, tudo o que caracteriza as comemorativas noites de sexta-feira.

Dirigiu até em casa procurando por um Peugeot preto, que não apareceu. Sobreviveu mais um dia, mais uma noite. Sabia que era a última. Entrou em casa, não acendeu nenhuma luz e apenas esperou seus olhos se habituarem à escuridão. Tomou banho, vestiu seu pijama e se deitou. Abraçou Stella na cama. Havia tempos que não fazia isso! Sentiu-a mais uma vez, a última. Ela não percebeu nada, continuou dormindo - se tivesse notado, por certo o teria repelido. Dormiu o que tinha certeza ser a última noite de sua vida.

Acordou às dez da manhã, muito mais tarde do que costumava se levantar, mesmo se tratando de um fim de semana. Olhou pela janela um céu muito azul, radiando o amarelo do sol no verde das árvores. Bela manhã de sábado. Quando pôs os pés para fora do quarto, veio a voz mal humorada de Stella:

 Até que enfim, está acordado! Vai ao mercado que o arroz acabou!

Ele sorriu. Não costumava dirigir aos sábados, mas a previsão de Mãe Soraya não podia estar errada. Dirigiria naquela manhã de sábado para morrer. Se bem se lembrava, tinha ido à casa da vidente às onze e meia de dois sábados atrás. Portanto, morreria em duas semanas exatas, sem tirar nem pôr. Uma previsão certeira. Voltou-lhe à mente a ideia de ir andando ou de ônibus até o mercado, mas a primeira opção, dada a distância, era inviável e a segunda não excluía a possibilidade de acidente com o Peugeot. Metrô, não tinha como: não existia estação perto do mercado. Poderia se negar a ir, mas nem cogitou essa alternativa. Era Stella quem o mandava para a morte, ela, que falou textualmente que queria que ele morresse. Acudiu, disse que tudo bem, que compraria o arroz, que só queria comer um pão com manteiga (seu último em vida) e se despedir de Beatriz. Stella falou para ele não interromper a filha, que estava estudando. Quanto a isso, Sergio não obedeceu. Entrou no quarto da filha, sob protestos de Stella, abraçou-a apertadamente, aplicou-lhe um duradouro beijo na bochecha e, sem dizer mais uma palavra, pegou a chave do carro e se encaminhou para o elevador.

Já no primeiro quilômetro dirigido, avistou um Peugeot preto à frente, a dois carros do seu. Permitiu que uma lágrima escorresse por seu rosto e resmungou, baixinho:

 Puta que pariu... Então, vou morrer mesmo...


5

O Peugeot preto dirigia a dois carros de distância de Sergio. Era uma reta, com várias casas e lojas ao lado. O primeiro carro que separava Sergio do Peugeot deu seta para a direita e virou, diminuindo a distância entre eles para apenas um veículo. Dirigiram mais cinco quilômetros nessa reta, até que esse outro carro convertesse à esquerda.

O Peugeot estava agora na frente de Sergio. Nada mais os separava. Sergio olhou para o relógio do carro: onze e dez. Tinha, no máximo, mais vinte minutos de vida, para a matemática ser exata. Sergio poderia virar para um dos lados ou tentar ultrapassar o Peugeot ou deixar que outro carro se enfiasse entre eles, mas já não mais cogitava driblar a morte. Tinha certeza de que morreria e nada mais podia fazer a respeito. Não se sabe se essa falta de ideias para sobreviver acontecia porque estava resignado com a inexistência ou porque o nervosismo de tempos atrás voltou a enuviar sua mente.

A tranquilidade, a calma e a melancolia que tinham se apoderado de Sergio nos últimos dias não mais existiam agora que ele estava diante da morte. Suas mãos estavam novamente trêmulas. Os pés mal tocavam os pedais de tanto que tremiam. A marcha não vibrava só com o tremor natural do carro, mas também com as mãos de Sergio que não conseguiam ficar quietas. Não chorava mais, não conseguia. Via-se repentinamente em um completo estado de nervos, que só piorou quando a reta do caminho se transformou numa rua cheia de curvas. Eram onze e vinte e cinco. O Peugeot deu seta, aparentemente viraria para a direita, embora Sergio só visse mato naquela direção. Para onde o Peugeot queria virar? Era um senhor dirigindo. Que ele queria fazer? Para onde desejava ir? À frente, uma ribanceira com muitas árvores. Sergio não estava a mais de dois quilômetros do mercado, mas sabia que não chegaria. Encarou o barranco, que ainda estava um pouco distante. O Peugeot continuava com a seta ligada, seta que dava justamente para o pequeno precipício de árvores que se faziam cada vez mais visíveis. Quando os dois carros chegaram à curva da ribanceira, Sergio se viu hipnotizado pela seta do Peugeot, virou o volante para onde essa seta apontava, para a direita, para o barranco, para a morte. O Peugeot continuou seu caminho. O carro de Sergio deslizou barranco abaixo, ficando preso entre duas árvores mais distantes. O barulho foi terrível. O cinto de segurança evitou que Sergio fosse arremessado violentamente contra o para-brisa, mas não impediu uma forte pancada de sua cabeça no vidro. O corte rasgou-lhe o couro cabeludo bem no meio e o sangue escorreu por sobre seus olhos, ofuscando-lhe a visão. Conseguiu ainda se soltar do cinto de segurança, abrir a porta e engatinhar para fora do carro. Fechou os olhos e o que seguiu foi escuridão.


6

As luzes e os sons das sirenes se faziam notar na rua repleta de ziguezagues. Era como a geografia de uma serra no meio da cidade, de modo que, de longe, podiam-se notar as ambulâncias fazendo as curvas e se aproximando da ribanceira. Quando Sergio começou a retomar a consciência, estava já dentro de um desses carros, com a sirene ligada, fazendo um barulho infernal. “Ainda estou vivo?”, ele se perguntou. Lembrou-se, porém, que, de acordo com Mãe Soraya, morreria dentro da ambulância, no caminho para o hospital. Resignou-se e adormeceu de novo.

Foi aí que viu Pedro, o zelador. Pedro gargalhava, sentado no pilotis do prédio, no chão, encostado em uma pilastra. Ria com gosto e falava:

 Me disseram que te deixei doido! Eu! Eu te deixei doido!

Sergio, que tinha a visão em primeira pessoa, não conseguia se mover. Parecia que estava de pé, porém preso a algum ímã que lhe impedia de dar um passo para mais próximo de Pedro. Tampouco conseguia falar. Fazia um enorme esforço para abrir a boca, mas não pronunciava uma palavra. Pedro continuava a gargalhar, aparentemente se divertindo por ter enlouquecido Sergio. Não parecia haver maldade em seu riso, não tripudiava sobre Sergio, apenas achava engraçado que ele, um simples zelador, tivesse sido o responsável pela loucura de outra pessoa, especialmente por ser alguém quase desconhecido.

Nisso, o porteiro apareceu, aproximou-se de Pedro e disse:

 Não ache que os méritos são todos seus! Fui eu quem deu a notícia de sua morte. Na verdade, se fôssemos partilhar a responsabilidade pela loucura desse sujeito, eu ficaria com uns 90% disso. Você só morreu. Todo o resto do trabalho foi meu!
 Na verdade, acho que nem eu nem você. Os maiores méritos são daquela esposa simpática dele! – respondeu Pedro, sem deixar de rir, dando irônica ênfase à palavra “simpática”. E ambos caíram na gargalhada.

Sergio, enfurecido, continuava sem conseguir falar. Agora, esforçava-se mais que nunca, mas o grito não saía, permanecia emudecido. Encheu-se, então, do máximo de ar que conseguiu e soltou com força os pulmões. Tudo o que saiu foi um gemido incompleto e lá estava ele, no saguão de um grande hospital da cidade, conseguindo falar e se mexer normalmente. Pedro e o porteiro não estavam mais ali, mas tinha muita gente indo e vindo, vários rostos desconhecidos passando por ele.

Onde estavam o zelador e o porteiro? Por que Sergio não estava mais no pilotis de seu prédio? Aos poucos, lembrou-se que tinha adormecido, devia ter sonhado. Mas e agora, onde estava? Era um hospital, sabia. Mas como parara ali? O acidente, é claro. Sua memória se fazia menos cinzenta, lembrava-se agora que adormecera numa ambulância. Mas por que acordara em pé, no meio de um lugar tão movimentado? Essa parte já não fazia sentido. Quem dorme o faz deitado ou, pelo menos, sentado. Como chegara ao saguão daquele hospital? Será que a ambulância o largara ali sem permitir que fosse examinado por um médico? Não fazia sentido.

Andou um pouco mais, sem rumo, e pensou: “Eu morri! Que médico o quê? Eu estou morto!”. Aquela cena com Pedro e o zelador provavelmente foi um rito de passagem ou algo que o valha. Uma sensação de extrema angústia dominou Sergio. Reparou agora que estavam todos rindo dele. Todas aquelas pessoas que passavam pelo ambiente e que, havia um minuto o ignoravam, agora riam e apontavam para Sergio. Deviam ser fantasmas, mortos como ele, e riam porque eles também já passaram por esse sentimento de terror e perplexidade pós-vida.

Sua natural reação foi de encolhimento, constrangimento. De olhos baixos, não encarava as pessoas, mas percebeu que uma altiva senhora se aproximava dele. Quando já bem próxima, ela falou, quase sussurrando, só para ele ouvir:

 Calma que está tudo bem. Venha comigo.

Sergio a seguiu, ainda constrangido, mas relativamente confortado por aquela senhora, que mostrava visível irritação com as outras pessoas que debochavam de Sergio.

 Não tem por que rirem de mim se elas também já passaram por isso!  ele falou, incentivado pela empatia da senhora. Estava certo de que esse também era o pensamento da velha, que cada vez mais mostrava sinais de censura à atitude daquela multidão.  Ao contrário!  Sergio prosseguiu.  Justamente por isso deveriam mostrar compaixão comigo, por saberem como me sinto, por já terem se sentido da mesma maneira!
 Que te faz crer que elas já passaram por isso?  a velha perguntou, demonstrando, pela primeira vez, impaciência com Sergio. Ele não conseguiu formular uma resposta. Estavam agora numa sala interna do hospital, um local mais reservado.
 Descanse um pouco  ela falou.  Em breve alguém virá te atender. 

Sergio consentiu.

Gostaria de ver seu próprio corpo ainda mais uma vez. Não sabe se estaria muito desfigurado, talvez nem se reconhecesse, mas, mesmo assim, queria dar uma última olhada na carne que por tempo habitara.

No momento em que esses pensamentos lhe vieram à mente, conscientizou-se, agora mais claramente, de que estava de fato morto. Não é que desacreditasse em vida eterna, mas nunca simplesmente pensara nisso. Não sabia o que esperar da morte. Mesmo durante seus últimos ansiosos dias de vida, quando pensava que ia morrer, pensava apenas no processo até o fim, na morte em si: se seria indolor, rápido, agonizante... Quando imaginava os momentos que sucediam o fim de sua existência, elucubrava apenas se alguém choraria por ele, sentiria sua falta, mas nunca nele próprio. Acreditava que deixaria de viver e pronto. Nem cogitava que existia uma vida posterior, muito menos na qual os outros espíritos ririam dele.

Pensava agora em diversos clichês que vira em filmes, livros, novelas e que habitavam razoavelmente o inconsciente coletivo. Enquanto esperava nessa salinha, por exemplo, perguntava-se quem era esse sujeito que viria atendê-lo. Um anjo de passagem, alguém que tinha por incumbência mostrar-lhe seu novo mundo? Pensou já ter lido em algum lugar que essa delegação seria atribuída a alguém próximo do morto, um espírito que, mais evoluído, tivesse convivido com o falecido durante a vida terrena e que, agora, deveria apresentar-lhe as características de sua nova existência.

Mas quem seria essa pessoa? Sergio pensou em sua mãe... Mas ela havia morrido quando ele ainda era criança, não tinham chegado a criar um vínculo. Cogitou alguns amigos, pensou no pai... Mas todos já tinham partido havia tanto tempo. Parecia-lhe improvável uma visita dessas pessoas. Já deveriam ter reencarnado, pensou, embora não fizesse a mínima ideia do tempo que um espírito levava para reencarnar.

“Pedro!”, pensou. Pedro morrera havia pouco tempo e ele já esteve em seu sono recente. Embora o zelador gargalhasse de Sergio, rir dos outros não parecia uma prática incomum entre os espíritos. É verdade que Pedro não era nada próximo de Sergio  muito pelo contrário: mal se conheciam , mas, dada a falta de alternativa melhor e considerando que a morte de Pedro teve profundo impacto na vida de Sergio, parecia ser aquela a melhor opção. Isso explicaria aquele estranho sono. Fora um prelúdio que antecedia a visita que receberia de Pedro, o início dos trabalhos do zelador para receber Sergio e mostrar-lhe essa nova vida. O que estranhava era que o porteiro, que ainda estava vivo, também tivesse aparecido no sonho, mas nunca se sabe como essas coisas funcionam. Quem sabe o porteiro morreu naquele dia? Ou, vai ver, ele estava apenas dormindo e sua alma saíra para visitar o sonho de Sergio (também já tinha lido sobre isso alguma vez: que, quando dormimos, nosso espírito sai do corpo para vaguear).

De toda forma, Sergio não estava disposto a receber visita de Pedro. Sabia que se sentiria constrangido e desconfortável. Levantou-se de seu banquinho e, cuidadosamente, abriu a porta e saiu da salinha, voltando para o saguão do recinto e, posteriormente, para o pátio externo.

Agora, cessaram-se as risadas. Ninguém mais ria de Sergio e ele caminhava tranquilamente pelo local até estar do lado de fora, já na rua. Reconsiderou sua decisão e pensou que talvez devesse ter aguardado a visita de Pedro. Agora, sem um guia espiritual, não sabia para onde ir nem o que fazer. Estava, porém, descartada a possibilidade de voltar à salinha onde esperava sentado; seria por todos ridicularizado. Caminharia, portanto, como fazia em vida após sair do trabalho: sem rumo, sem pressa. Queria conhecer esse lugar que agora acreditava ser o limbo. Não era. Não era o céu nem o limbo nem o inferno. Era a Terra, exatamente como ele a deixara. Aquele lugar do qual saíra era mesmo um hospital e isso agora era a rua, com os mesmos ônibus de sempre, as pessoas, os carros, o comércio, os vendedores ambulantes. Mas o que tinha acontecido com ele? Estaria ainda vivo? Ou teria virado uma alma penada, vagante, involuída? Tocou uma parede e sentiu-a. Sua mão não a atravessou, como via em filmes. Estava vivo, então? Pegou uma pedra, chutou uma lata de refrigerante, sentiu o vento. Sentia frio, seus pelos se levantaram. Estava com fome. Sensações mundanas. Estava vivo? Falou com um camelô:

 Boa tarde.

O camelô não respondeu. Tentou de novo. Silêncio. Estava morto, então. Será?

Somente uma pessoa poderia responder-lhe: Mãe Soraya. Talvez uma pessoa normal não o visse, não o escutasse, mas ela era uma vidente. Seguiu para a casa da mulher. Ainda conhecia a cidade de cor, sabia os atalhos, as ruas, as avenidas. Foi a pé (não lhe parecia haver outra possibilidade). Lá, tocou a campainha por longos minutos, chegando a acreditar que não havia ninguém em casa, mas logo a garota panfleteira se fez notar. Ela apareceu ao fundo de quinquilharias espalhadas pelo quintal, olhou para o portão com curiosidade e voltou para o interior da residência. Pareceu não o ter percebido. Ele tocou de novo, atônito, mas ninguém lhe atendeu. Gritou, mas nada. Ninguém apareceu por uma segunda vez para lhe abrir o portão. Saiu, atordoado, incapaz de lidar com a inexistência. Não conseguia explicar, porém, o fato de, embora morto, conseguir mover tudo de lugar com seu tato. Talvez nem tudo fosse como na TV. Precisava muito falar com Mãe Soraya. Aquela garota logicamente não o notaria, mas a vidente, talvez. 

Precisava voltar para casa, rever a filha. Beatriz estaria bem? Já teria chegado a notícia de sua morte? Não sabia, contudo, como regressar. A pé, era impossível, estava muito longe; seu carro estava destruído em um precipício; ônibus era a única alternativa. Acontece que, assim que chegou ao ponto, vendo que um se aproximava, fez sinal e o veículo passou, ignorando-o. É óbvio: nenhum motorista o veria. Esse fato se repetiu três vezes: ele esticava o braço, solicitando a parada do ônibus, e nada. Foi necessário esperar que alguma outra pessoa desejasse pegar a mesma linha que ele e, então, com o ônibus parado e a porta já aberta, Sergio entrou rapidamente. A coincidência era necessária também na hora de descer. Puxou a cordinha, fez-se o barulho que alerta o condutor que tem passageiro querendo saltar, mas, quando o motorista olhou pelo espelho e não viu ninguém, foi audível o som de seu resmungo, certamente achando que se tratava de uma brincadeira de alguma criança que estava no fundo. Só dois pontos depois, quando mais gente solicitou a parada, Sergio pôde descer, tendo que voltar dois quarteirões à toa. Durante a caminhada, pensava: que lugar era aquele onde ele estava, que pensou ser o limbo? Era um hospital, é claro. Não conhecia muitos estabelecimentos médicos na cidade, mas aquele era um hospital na Terra, não podia duvidar disso. Mas por que lá as pessoas o viam e, agora, não? Elas o enxergavam, é claro, tanto que tantas riram dele! O que mudou que agora era invisível a todos?

Chegou ao seu prédio, passou pelo porteiro que havia pouco estava em seu sonho, mas, dessa vez, ele não notou Sergio. O elevador demorou para chegar e ele se irritou por, mesmo sendo um espírito, continuar dependente desses meios terrenos de locomoção. Sacou a chave de seu bolso e entrou no apartamento. Ninguém na sala. Vozes no quarto de Beatriz, que conversava com a mãe:

 Mas ele morreu?  foi o que perguntou a filha, com voz assustada.

Sergio notou a porta do quarto aberta e esforçou-se para não ser notado. Logo, percebeu que aquilo era uma estupidez, estava morto. Entrou no quarto sem maiores cerimônias:

 O acidente foi muito grave...  Stella respondeu, com voz pesarosa de quem já sabe a resposta, mas evita dizê-la à filha.
 Ele morreu?  perguntou de novo Beatriz, parecendo a Sergio muito mais assustada do que propriamente triste.
 O hospital já me ligou e parece que não encontraram seu corpo...

Beatriz caiu em pranto, cobrindo o rosto.

 Como não encontraram?  Sergio interveio, sem ser ouvido.  Eu fui levado para a ambulância! Meu corpo estava lá! Isso é uma mentira!  E, com seus gritos, ele apenas se cansou, ninguém o escutava.
 A colisão foi muito forte, filha  Stella falou.  Dificilmente ele está vivo.


7

Desorientado com o que acabara de ouvir, Sergio saiu do quarto da filha, rumo à sala, sentando-se no sofá e apoiando-se sobre os cotovelos. Stella fazia comida  sem arroz  e Beatriz chorava baixo. Stella agia como se fosse mais um dia de rotina, mas parecia mais taciturna que o normal. Fungava às vezes, o que Sergio queria associar a um princípio de choro, mas que poderia ser um simples resfriado. De vez em quando, largava a panela e ia ao quarto de Beatriz, para ver como a filha estava, acariciá-la, confortá-la com algumas palavras, mas logo tinha que voltar à cozinha para a comida não queimar.

Dada hora, foi a menina quem saiu do quarto e foi falar com a mãe, na cozinha:

 Não vai ter enterro?  perguntou Beatriz, secamente.
 Não encontraram o corpo do seu pai, minha filha, já te disse.
 O local do acidente era uma área pequena  respondeu Beatriz, seriamente.  Como não encontraram?
 Não sei, filha... Era uma pequena ribanceira.
 Pequena, pois é. Se encontram corpos no fundo do oceano, por que não vão encontrar ali?
 Não sei te responder, filha.
 Você está inventando isso!  esbravejou Sergio.  Fale a verdade! Por que está dizendo que não encontraram meu corpo?

Ninguém lhe respondeu. Sergio gritou mais, contudo não se fez ouvir. Enfurecido, começou a xingar Stella, mas não teve retorno. Furioso, estapeou um jarro de planta, que caiu da mesa onde estava apoiado e se espatifou no chão.

 Cuidado, menina!  gritou Stella, que estava de costas quando o vaso caiu.  Sabe quanto custou isso?
 Não fui eu!  respondeu a filha, confusa. Stella evitou brigar com a filha devido ao momento difícil, mas fechou ainda mais a cara e foi buscar uma vassoura. Beatriz voltou para seu quarto, indignada com a injustiça, mas intrigada com o acontecimento. Sergio, por sua vez, arrependeu-se imediatamente do ato impensado, que, além de ter assustado a filha, rendeu-lhe uma bronca gratuita. Ele pediu desculpas à menina, disse que não faria de novo, mas não obteve resposta.

Nesse momento, Sergio se dispôs a procurar ele mesmo pelo seu corpo. Podia tatear objetos, então traria seu cadáver para casa e o deixaria na cama de Stella, em um momento em que a filha estivesse no colégio, para não assustá-la.

Seguiu, portanto, para o local do acidente, novamente sofrendo para conseguir as necessárias coincidências para subir e descer do ônibus. Queria dar um basta àquela mentira que Stella estava contando para a própria filha, de que seu corpo não tinha sido encontrado. Quando chegou à ribanceira, seu carro ainda estava lá, destruído, e havia marcas de sangue por todo o chão. No interior do veículo, não havia resquícios de seu corpo. Lembrou-se, muito vagamente, que, após a batida, chegou a engatinhar para fora do automóvel, antes de tudo se tornar preto e perder os sentidos. Olhou nos arredores do carro e continuou sem se ver. Desceu um pouco mais a ribanceira e avistou vários bombeiros. A tarde já dava passagem à noite, de modo que os trabalhadores tinham que usar lanterna na busca que realizavam. Sergio não sabia o que procuravam, mas não tinha outra opção: era o seu corpo. Nesse caso, Stella não havia mentido. Seria possível que ele tivesse realmente desaparecido? Chegou a pensar, então, que não morrera. Seu corpo não havia sido encontrado simplesmente porque não estava mais naquele local: tinha ido ao hospital, à Mãe Soraya, à sua casa e agora estava ali, olhando com uma expressão perdida para seu antigo carro.

Desceu mais ainda a ribanceira, com a dor nos calcanhares que os vivos sentem, com a coluna a latejar e as pernas a lhe pesarem. Estava mesmo cansado, não só mental, mas também fisicamente. Estava vivo, afinal! Nenhum morto podia sentir aquela dor! Gritou para o bombeiro mais próximo:

 Estou aqui! Aqui!

Ergueu as mãos, esperneou, mas nada. Os bombeiros continuaram a busca como se nada os tivesse interrompido. Desabou no chão, encostando-se numa árvore. Estava exausto, completamente sem perspectiva, sem saber como agir. Como nunca fizera em vida, clamou por Deus. Olhou para o céu e orou, rezou, pediu para Deus ajudá-lo. Quem é Deus, afinal? Não sabia para qual Deus orava  não sabia nem se para um Deus, no singular , mas mesclava rezas com conversas e pedidos desesperados. Que, ao menos, Deus o auxiliasse a descobrir se estava morto ou vivo. Só queria saber a qual mundo pertencia. Fez promessas exageradas, gritou em voz alta e pensou que, se nenhum humano o ouvia, alguma divindade escutaria.

Agora, a noite já era completa. Os bombeiros se iam, parecendo ter abandonado as buscas por ora. Estava completamente escuro; só a lua brilhava, reinante no céu. Sergio continuou ali, encostado na árvore, esperando pelo sono, se é que o teria, dada sua nova condição. Provavelmente, sim. Sentia frio, fome, cansaço, por que não sono? Fome! Sim, lembrava-se agora que estava com fome. Não ingeria nada desde a manhã, quando comera um pão com manteiga antes de sair de casa.  Gostava muito do singelo sabor de pão com manteiga, por isso fizera questão de, antes de comprar o arroz pedido por Stella, comer aquela que era sua opção preferida de café da manhã. Desejava ter esse gosto pela última vez e, pelo visto, não agira mal. A fome atacava-o ainda mais, agora que cedia a esses pensamentos. Mas como comeria? Não poderia entrar em um restaurante ou em um bar e pedir seu singelo pão com manteiga; ninguém o ouviria. O sono chegou, respondendo à sua dúvida, intenso e repentino, fazendo-lhe tombar sobre o que percebeu ser um formigueiro de gordas formigas, mas não teve tempo de desviar. Simplesmente dormiu.

Sergio teve um único sonho durante toda a noite, mas era um pesadelo intenso e duradouro, daqueles que parecem terminar, nos faz acordar, contudo, dez segundos depois, voltamos a dormir e o sonho recomeça com igual intensidade. Nele, Beatriz sorria amavelmente, em um jardim ensolarado, com outras crianças a brincar ao fundo. Parecia um dia bonito, em que todos se divertiam. Porém, repentinamente, as outras crianças começaram a explodir, uma por uma, fazendo imensa quantidade de sangue jorrar intensamente. Nada abalava a alegria de Beatriz, nem se sabe se ela percebia o que estava acontecendo ao fundo, mas as crianças continuavam morrendo. Não era perceptível a causa dessas explosões  se pisavam em alguma coisa, se alguém lhes atirava , mas os extermínios não cessavam. Assim como no sonho que tivera com Pedro e o porteiro, Sergio tinha uma nítida visão de tudo o que acontecia, mas não conseguia falar nem se mover. Tentava, grunhia, gemia, mas nada lhe fazia capaz de emitir algum som nem dar qualquer passo. A agonia aumentava, porque os pequenos corpos continuavam explodindo cada vez mais perto de Beatriz, que não percebia nada. Era óbvio que ela também morreria em breve se não saísse imediatamente de lá. Sergio tentava avisá-la, mas nada. Quando a última criança atrás de Beatriz explodiu, não havia mais dúvida: a próxima seria a menina. Sergio nem sequer podia olhar para outro canto, teria que encarar a sangrenta destruição de sua própria filha. Acontece que, quando chegou a vez de Beatriz, ela não explodiu, mas, em vez disso, seus olhos começaram a baixar, seus cabelos a embranquecerem, seus músculos a se tornarem flácidos e rugas a aparecerem por toda a sua face. Era uma anciã. O processo de transformação foi súbito e muito rápido. Apesar do rosto de velha, seu corpo continuou pequeno, como o de uma criança, com exceção dos braços, que esticaram em mais de três metros e buscavam algo ou alguém. Sergio só depois percebeu ser ele o alvo. Ele agora conseguia andar, podia fugir, mas só para trás. Começou a retroceder rapidamente, fugindo dos braços gigantes de Beatriz que o perseguiam. Ela agora não era só uma velha: era um monstro. Queria destruir Sergio, vingar-se de sabe-se lá o quê. Ele só fugia. Embora tivesse reconquistado o movimento, ainda que em um único sentido, permanecia sem conseguir falar. Esforçou-se para gritar, para perguntar à Beatriz por que ela o perseguia, que ele lhe fizera, mas só depois de muito esforço, sua tentativa de grito resultou em algo mais que um grunhido. O berro, enfim, saiu e ele estava acordado, encostado na árvore, com o dia clareando.

Acordou ofegante, suando frio, com a camisa lhe colando no que supostamente era seu corpo. Estava havia quase vinte e quatro horas com a mesma roupa: uma camisa polo e uma calça jeans. Não sabia como conseguira dormir por toda uma noite em circunstâncias tão desfavoráveis. E aquele sonho? Que era aquilo? Sentiu imensa vontade de visitar Beatriz, mas tinha que procurar pelo seu próprio corpo. Tinha também que comer e beber algo. A sede foi resolvida quando ingeriu toda uma porção de água que se avolumava no solo, decorrente das chuvas. A fome ainda era um problema. Lembrou-se que estava perto do supermercado onde compraria arroz. Poderia ir andando. Levantou-se. Olhou o formigueiro em cima do qual adormecera noite passada. Havia muitas formigas ali. Ele agora percebia que se tratava de formigas-de-ferrão, espécie que tem uma dolorosa picada. Examinou seu corpo, não tinha nada. Tirou a camisa, olhou os braços que dormiram desnudos, apalpou o pescoço, os ombros, não encontrando nenhuma marca. Como pôde passar incólume? Seria ele invisível não só para humanos como para quaisquer seres vivos?

Ainda pensando em Beatriz, foi até o supermercado. Não podia comprar nenhum alimento, pois não o veriam nem o escutariam, mas nada impedia que pegasse o que quisesse nas prateleiras do mercado. Essa seria a primeira etapa do seu dia. Planejou-se de modo a, depois, voltar para a ribanceira, continuar as buscas pelo seu corpo e, à tarde, visitar a filha, que não tirava da cabeça  o sonho lhe impressionara sobremaneira. 

No mercado, teve o estranho sentimento de ser um ladrão. Pegou vários alimentos já prontos, diversas porcarias, como biscoitos, batatas chips, chocolates... Não tinha como preparar nenhuma refeição mais saudável. Saiu o mais vagarosamente possível, passando de propósito em frente ao segurança, mas ninguém o parou. Como era isso? Nem sequer viam os produtos saindo do mercado, flutuantes, sem ninguém os carregando? Ele estava morto; os biscoitos, não! Fosse como fosse, ninguém o deteve. Comeu tudo isso já na rua, mas nada o satisfazia. Queria um pão com manteiga. Era domingo e Sergio nunca passava um fim de semana sem sua opção preferida de café da manhã. Mas como consegui-la? Teve uma sórdida ideia: o que aconteceria se fosse a um bar ou uma padaria, esperasse alguém pedir um pão com manteiga e simplesmente roubasse dele? É verdade que o segurança do mercado não o percebera levando biscoitos e chocolates, mas, ao fim do dia, dariam falta dos produtos nas prateleiras. Entretanto, se ele pegasse o pão de um consumidor que pagou e que estava com o alimento na sua frente, seria de se esperar que ele notasse repentinamente que seu alimento havia sumido. Ou ainda melhor: talvez ele notasse a presença de Sergio!

Excitado com a ideia, andou, a passos largos, quase correndo, rumo à confeitaria da esquina. Esperou ansiosamente que alguém comprasse o pão com manteiga. Em vez disso, pediram um misto quente. A empolgação com o plano era tamanha que Sergio não esperou pelo pão com manteiga preferido, optando, em vez disso, por roubar o misto. Sentou-se no balcão, ao lado do cliente que fizera o pedido. A atendente não demorou para trazer o pão com queijo e presunto em um pequeno prato. Sergio aguardou que o indivíduo se certificasse de que o misto quente estava ali. Melhor: esperou que ele desse uma mordida no pão. Assim que ele mordeu e repousou o misto de volta no prato, Sergio o pegou. Ainda faminto, mordeu a compra alheia, sem tirar os olhos do homem a quem pertencia o lanche. O comprador estava agora sentado no balcão, em frente a um prato vazio. Ele se levantou, pagou pelo misto quente e foi-se embora, sem parecer ter estranhado nada. Sergio se viu tão atônito com o acontecimento que sua fome cessou inteiramente e ele jogou o pão fora.

Voltou caminhando para a ribanceira, os pensamentos em frenética agitação. Meditava sobre o que tinha acabado de ocorrer. Como pegara o misto quente de outra pessoa e esta não notara nada? Parecia que cada vez mais habitava uma realidade paralela, sem nenhum ponto de interseção com o mundo dos vivos. Além disso, aquele maldito pesadelo não lhe saía da cabeça. Estaria Beatriz bem? Aquele sonho significava algo? Se sim, o quê? E seu corpo: onde estava? Como era possível aquele desaparecimento, em uma área tão pequena como a do acidente, dentro da cidade? As coisas faziam menos sentido do que nunca.

Chegou de volta ao pequeno precipício e viu que os bombeiros já haviam retomado as buscas. A viatura estava estacionada na rua acima, por onde Sergio passava. O motorista estava no interior do veículo, com as portas abertas. Sergio entrou pelo lado do carona, pegou um papel e uma caneta que estavam no banco de trás e escreveu: “O que estão procurando?”. Posicionou o papel na frente do bombeiro. Ele não lhe respondeu. Jogou o bilhete no rosto do condutor, de modo que ele ao menos sentisse, no tato, o papel. O pequeno objeto, porém, caiu no colo do sujeito e, posteriormente, voou para fora do carro, sem que o indivíduo esboçasse nenhuma reação.

Era desesperador. Isso tudo era uma grave punição por ter fugido do hospital. Deveria ter esperado pelo anjo-guia ou pelo diabo ou por qualquer coisa que lhe explicasse que merda era essa que estava acontecendo! Falava palavrões, chutou a viatura, deu um soco na cara do motorista e nada, ele não sentiu nada! Apertou a buzina, ela fez barulho, mas ninguém estranhou que aquela coisa estivesse emitindo ruído sem ninguém a pressionando! Que agonia! Provavelmente o bosta daquele bombeiro, que sabe-se lá por que não estava junto com os outros na busca, nem ouviu a buzina! Sergio começou a chutar o para-brisa, com toda a força que pôde, até quebrá-lo, fazendo-lhe estilhaçar por completo, e nada! Nada! Nada! Para não dizer que o bombeiro não teve nenhuma reação, ele pegou o celular e foi checar seus e-mails.

Sentia falta agora daquelas pessoas que riam dele no saguão do hospital. Por mais que zombassem de Sergio, ao menos interagiam com ele. Após isso, teve a velha que tentou resgatá-lo e, depois, nada mais. Ninguém tornou a vê-lo ou ouvi-lo. Deixou de existir por completo. Sentia-se enlouquecendo.

Largou o lugar onde a viatura estava e desceu a ribanceira, na esperança, agora já bem remota, de encontrar seu corpo. As dores do cansaço já começavam a atacá-lo, a assim como a necessidade de uma refeição real e de roupas limpas. Sentia-se sujo e mal cheiroso, não sabendo se por falta de banho ou porque sua carne de cadáver putrificava. Caminhou entre árvores, percorreu a parte menos íngreme do precipício, andou por cerca de três horas, tudo inocuamente. Se os profissionais de busca não localizavam seu corpo, que lhe fazia crer que ele encontraria? Na verdade, já estava convencido de que simplesmente desaparecera no acidente, não deixando nenhum vestígio no local. Deixou de existir por completo, sendo inúteis todas aquelas pessoas trabalhando em uma causa perdida.

Quando desistiu de procurar, já suava bastante. Tinha que voltar para casa, rever Beatriz. O sonho. Não se esquecia do sonho. Caminhou de volta até o ponto de ônibus, irritando-se ao ver quatro veículos passarem e ninguém dar sinal. Só no quinto, conseguiu subir. A camisa, imunda, grudava-lhe ainda mais no corpo. A calça jeans estava igualmente suja. Tinha mato por todo o corpo, nas roupas, nos cabelos. Para seu desespero, só puxaram a cordinha de descida três paradas depois da sua e Sergio, que já estava exausto, teve que andar todo esse caminho de volta. 

Subiu o elevador de sempre, mas em uma agitação incomum. Quando entrou no apartamento, foi diretamente ao quarto da filha. Ela estava lá, como sempre, vendo TV e mexendo no computador. Sentiu-se aliviado: fora só um pesadelo. O alívio, porém, não impediu uma pitada de decepção, por a garota ter tão rapidamente retomado seu cotidiano e, ao menos na aparência, não estar sentindo falta do pai. Sergio sentou ao lado da garota, como gostava de fazer aos domingos, pensou em falar-lhe algo, mas, sabendo que seria inútil, saiu de volta à sala. Foi até a cozinha, viu o que tinha na geladeira. Precisava de uma verdadeira refeição, que não tinha havia dois dias. Com a maior naturalidade, pegou o feijão que estava na panela, esquentou, aqueceu também um frango assado e comeu. Não se lembrava que só tinha isso em casa: feijão e frango. Claro, faltava o arroz, que não comprara.

Stella apareceu repentinamente e ele se assustou, como se estivesse fazendo algo proibido, mas logo voltou a comer naturalmente. Deixou a louça suja na mesa, louça que Stella pegou e lavou, como se tivesse sido ela própria a sujar. Sergio abriu o armário, pegou o doce de leite, passou em um biscoito e comeu. Jogou a faca suja na pia, lavada por Stella assim que ela percebeu. “Até que não é uma má vida”, ele pensou, tentando em vão achar graça de si mesmo. Voltou à sala, ligou a TV e assistiu a algum jogo de futebol sem importância. Stella passou pela sala e ignorou a TV ligada em um canal de esporte, coisa que ela nunca faria.

Sergio fez ainda mais algumas experiências a fim de ser notado. Tocou a campainha, mas Stella, assim como a filha de Mãe Soraya, olhou a porta, não viu ninguém e não deu maior importância. Depois, tentou registrar sua voz em um gravador, mas a gravação não teve som. Fez todos os barulhos que pôde, ninguém ouviu. Passou o restante do dia tentando que o percebessem, mas sempre inutilmente. À noite, foi para a cama e dormiu ao lado de Stella, embora ela nada tenha notado. Quanto a isso, ao menos, ele já estava acostumado. “Nada diferente de quando eu era vivo. Estar ou não nessa cama há anos não faz diferença.”

Adormeceu com esse triste pensamento.


8

Sergio acordou antes de todos e, por um momento, esqueceu-se que estava morto. Foi ao banheiro, abriu a torneira de água quente e fez todo o seu processo habitual, como se estivesse vivo. Quando saiu do banho, o dilema: como proceder agora que não tinha mais trabalho aonde ir?

Sergio tomou café, incluindo seu pão com manteiga favorito. Esperou um pouco mais até Stella e Beatriz acordarem, para ver a rotina da casa a qual nunca presenciara. Stella preparou um achocolatado para Beatriz, enquanto esta se banhava. Depois, a menina tomou a bebida, arrumou-se para o colégio e Stella trocou seu pijama por uma roupa simples, rápida, suficientemente adequada para levar a filha ao ônibus escolar. Sergio acompanhou as duas e ficou em dúvida se seguia com Beatriz para a aula ou se voltava com Stella para casa. Irracionalmente achou que seria barrado na escola, ignorando que ninguém o veria, e voltou com a esposa. 

Quando entraram em casa, Sergio logo atrás de Stella, ela seguiu ao aparelho telefônico e fez uma ligação:

 Oi, amor.

Sergio estremeceu.

 Pode vir  disse Stella.

Sergio tentou se enganar, pensou ter ouvido mal, não queria acreditar no que tinha acabado de escutar.

Não se passaram mais do que dez minutos quando, com sua própria chave, adentrou no recinto um homem de meia idade, alto, cabelos castanhos, barba por fazer. Cumprimentou Stella com um beijo na boca e perguntou:

 O que aconteceu com seu marido?
 Acho que morreu.
 Você não me contou praticamente nada!
 Por telefone, é difícil, Beatriz estava aqui. Só pude falar por alto mesmo...
 Sim, mas me conte. Morreu como?
 Acidente de carro. Na verdade, ele sumiu sem deixar rastro. Encontraram o carro dele batido, mas nada do corpo. E o lugar era pequeno, não tinha onde o corpo dele ter sumido.
 O que você está insinuando?
 Não estou insinuando nada, para com essa mania de buscar entrelinhas no que falo.
 Stella, a gente está junto há três anos, é claro que tem entrelinhas aí.

Três anos? Sergio simplesmente começou a chorar. Não de tristeza, mas de raiva. Na verdade, quando esse homem entrou no apartamento, com uma chave que ele próprio possuía, os olhos de Sergio já se encheram de lágrimas e, aí, poderia se dizer que eram de tristeza, mas, depois dessa revelação dos três anos, o choro desabou e, agora, era de raiva. Sem dúvida, era de raiva.

 O que estou te dizendo é que não sei se ele morreu  confessou Stella.

O amante riu:

 Como não sabe? Viu a situação do carro dele? Está nos jornais, deu na TV. O cara está morto, é claro!

Não foram poucas as tentativas de Sergio de golpear o homem, mas todas em vão.

Stella começou a chorar, o que pegou Sergio de surpresa. Não chorava por sua morte, chorava? É claro que não! Por que, então?

 Você está nervosa  disse o homem, acariciando a mão de Stella, que se entregava a ele.  É natural que você esteja assim. Mas venha aqui, se encosta em mim, me abraça.

Stella cedeu a todas as carícias do amante, que beijava-lhe a nuca, o pescoço, a boca. Não levou muito tempo até estar completamente entregue ao homem, desnudando-se aos poucos, respondendo positivamente a todas as investidas do parceiro. Sergio, que já passara pelas fases da tristeza e da raiva, vivia agora um momento de incredulidade. Por que se prestava àquilo, era a pergunta à qual nunca poderia responder, mas permanecia encarando, como que sem reação, a mulher, que havia pouco Sergio cogitava estar chorando por ele, nos braços de outro, ambos já completamente despidos. Ela, que havia tanto tempo sem tocar Sergio, agora se mostrava tão afetuosa nos braços de outro sujeito. A volúpia que o casal demonstrava era inacreditável para Sergio. Era outra Stella, completamente desconhecida para aquele que fora seu marido e que, agora, era um espectador invisível do amor que outrora não recebera.

Sergio precisou de alguns minutos para decidir não mais assistir àquelas cenas. Foi necessário tempo para sair do estado de estupefação em que se encontrava. Enfim liberto da paralisia, saiu do apartamento. Mais uma vez, não sabia aonde ir. Não saber o que fazer, a falta de perspectiva, tudo isso já era hábito para ele. Acontece que essa rotina de incertezas tornava-se cada vez mais sufocante. Considerou retomar as buscas pelo seu corpo  seria em vão , visitar Mãe Soraya  a filha não o veria e não o deixaria entrar , ir ao trabalho como se vivo estivesse  mas para quê?

Sergio optou por ir ao colégio da filha, decisão que deveria ter tomado já pela manhã. Por que escolheu voltar para casa com Stella? Para ver e ouvir a esposa com o amante e sentir toda aquela repulsa e um mudo desespero?

Quando chegou à escola, perdido, desnorteado, abatido, não sabia qual era a turma da filha. Foi a todas as salas até encontrá-la. Entrou na classe onde ela estava, sentou-se ao seu lado e sentiu-se o vigia invisível da filha, condição perfeita para um detetive, papel que, apesar disso, não estava disposto a desempenhar. Não queria monitorar Beatriz na escola, ver com quem ela andava ou quem namorava, queria apenas vê-la. Somente desejava fazer parte da rotina da menina, já que não fizera quando era vivo. Lembrou-se que ela chorara quando ele lhe dissera que ia morrer e sentiu ainda maior afeição pela filha. Ela assistia à aula comportadamente, mas com olhar vago, claramente sem prestar atenção a nada que o professor explanava. “Nem imagina que sua mãe está trepando com outro agora”, Sergio pensou, lutando para que a raiva não o dominasse novamente.

Sergio estava tremendo, sem saber por quê. Viu Beatriz seguindo para o pátio, na hora do intervalo, distante dos amigos, isolando-se no canto oposto à cantina, justamente onde havia menos pessoas. Vez ou outra algum colega tentava conversar com ela, mas Beatriz respondia de forma monossilábica, evasiva. “Ao contrário do que pensei, ela não retomou sua rotina como antes de minha morte. Ela está muito mais introspectiva do que era. Ou será que não? Será que sempre foi assim?” 

Não sabia responder: penalidade pela pouca convivência com a filha.

Não viu Beatriz voltar para a segunda parte da aula. Teve a ideia de voltar ao hospital, procurar pela senhora altiva que o socorrera, a última pessoa a enxergá-lo. Ia pedir desculpas por ter fugido da salinha, dizer que, caso fosse essa a intenção da velha, queria ver o anjo responsável pela sua transição entre os dois mundos; se não fosse esse o seu propósito, esperaria o quanto fosse necessário na maldita salinha por qualquer coisa, mas que alguém o acudisse, rapidamente, imediatamente, que alguém o ajudasse e o enxergasse, não podia mais viver assim – aliás, nem sequer vivia! –, não podia mais tolerar essa situação, havia chegado ao limite da inexistência.

De novo, a chateação com os ônibus. Três se passaram até que alguém desse sinal para ele entrar, quatro pontos se foram até que um passageiro descesse, para ele também saltar. Que inferno! Amaldiçoou sua sorte, xingou Deus e a vida. Chegando ao hospital, passou pelo saguão incólume, despercebido, ninguém ria dele. Que saudade daquelas risadas! Como as desejava agora! Encaminhou-se ao interior do recinto, na busca pela senhora cujo nome não sabia, cuja função ignorava, de quem nada conhecia, a não ser sua expressão facial marcante e o corpo muito ereto, apesar da idade. Não sabia nem a que setor do hospital ela pertencia, se é que realmente trabalhava ali. Uma busca fadada ao fracasso.

Enquanto isso, Beatriz saía do colégio, em passos lentos, rumo ao ônibus escolar. Cabisbaixa, taciturna, evitava perguntas com relação ao seu estado de humor tanto quanto Stella fugia dos questionamentos de seu amante sobre quando se casariam.

 Gustavo, por favor, vai embora!  Stella suplicava.  Depois, conversamos sobre isso.
 Não saio daqui enquanto você não me der uma resposta!  respondeu o amante.
 Que resposta, Gustavo?  ela replicava, chamando-o intencionalmente pelo nome, em vez de usar apelidos carinhosos, como geralmente fazia. Subitamente, parecia-lhe absurda a ideia de se casar com ele, embora já tivesse cogitado várias vezes se divorciar de Sergio para morar com Gustavo.
 Vamos ou não oficializar nossa relação? Não quero mais viver nessa clandestinidade. Acabou, Stella, acabou! Seu marido está morto!
 Eu sou casada! Casada, entendeu bem? Casada!  E Stella sentia um repentino e inexplicável asco de Gustavo.
 Viúva!  ele retificou. Ela virou as costas e ele a puxou violentamente pelos braços. Ela se desequilibrou e o nojo que sentia por aquele homem que usurpava o lugar de seu marido se intensificava.

Beatriz já estava na fila do ônibus, que, para a sorte de Stella, estava atrasado. Ela, que não sabia disso, continuava a pedir, com ódio na voz, para Gustavo ir embora, que sua filha estava chegando, que a menina não podia ver os dois ali, que a pobrezinha já estava muito chocada com a morte do pai, que fosse embora, fosse embora, pelo amor de Deus, que se fosse! Na verdade, o risco de Beatriz ver os dois era causa apenas parcial desse pedido de Stella. O que ela queria, no fundo, era nunca mais olhar Gustavo, nem agora nem nunca. Desejava, em vez disso, rever Sergio, reviver os anos logo após o casamento, a melhor época de sua vida.

Nesse momento, Sergio viu a velha passar ao longe, em um corredor distante que não sabia onde dava. Correu para alcançá-la. A sorte podia estar a lhe sorrir pela primeira vez havia muito tempo. Quando chegou ao corredor, percebeu o vulto da velha virando outra vez. Seguiu-a estabanadamente, afoito, era sua única esperança de salvação.

A melhor amiga de Beatriz, curiosamente uma das poucas que ainda não lhe perguntaram por que estava tão triste, aproximou-se dela, enquanto o ônibus parava para a fila de alunos subir, e quebrou o silêncio:

 Bia, que você tem? Conta para mim.

Beatriz encarou a amiga com olhos molhados e esta continuou:

 Não te perguntei ainda porque quis te dar tempo, te dar espaço. Mas você está mesmo muito estranha hoje.

Era uma garota mais velha, mais madura e, por isso mesmo, Beatriz tinha um especial apreço por ela, sentindo-se confortável para lhe falar o que a ninguém dizia. Sentia-se mais à vontade com ela do que com a própria Stella. Contou-lhe tudo: a morte de Sergio, a desconfiança de que ele estava realmente morto, o clima em sua casa, que, mesmo com o pai vivo, era muito ruim e tudo mais o que pôde desabafar.

 Volte aqui! Volte aqui!  gritava Sergio para a velha, que o ignorava. Para a idade, ela andava muito rapidamente, parecia apressada, entrando e saindo por várias portas, adentrando labirintos internos do hospital.

Gustavo segurava Stella pelos braços com violência, agora não mais exigindo uma resposta da mulher quanto ao casamento, mas apenas externando toda a sua raiva. Ela tentava se desvencilhar e, imersa em asco e pânico, não conseguia deixar de pensar que a filha poderia chegar a qualquer momento.

 Meu pai falou que ia morrer  disse Beatriz à amiga.  Isso é o que mais me intriga. Como ele sabia?
 Será que ele se suicidou?  cogitou a amiga.

Beatriz abriu os olhos como se uma evidente hipótese tivesse acabado de ser posta à sua frente.

 Isso faria sentido  respondeu Beatriz, de forma estranha, quase sussurrante.  Isso faria sentido  repetiu.

Sergio estava a poucos passos da senhora, tocou-lhe no ombro, ela virou-se para trás. “Ela me sentiu! Ela me sentiu!” A empolgação se esvaiu quando a velha volveu a cabeça para frente e voltou a andar. Ele tocou-a de novo, ela olhou novamente. Ficou encarando Sergio durante alguns segundos, mas retomou seu caminho mais uma vez. Sergio leu seu crachá: Vânia. Chamou-a pelo nome. Ela ignorou, mas passou a andar ainda mais apressadamente, como se em fuga. Entrou na próxima sala, encarou um senhor que estava sentado em uma mesa, atrás de alguns papéis e de uma tela de computador. Sem introduzir o assunto, Vânia perguntou-lhe:

 Tem mais alguém aqui?

O coração de Sergio disparou de esperança. O velho não entendeu a pergunta, pediu que Vânia repetisse, ao que ela obedeceu sem se constranger:

 Quero saber se o senhor está vendo mais alguém aqui!
 Além da senhora?  ele perguntou, embaraçado.
 Sim!
 A senhora está bem?
 Vê ou não?
 Não.

Vânia desabou em uma cadeira e falou:

 Sinto alguém tocando meu ombro! Penso até ter visto sua face, mas pode ter sido impressão. Parecia aquele louco que fugiu da sala de espera.
 Que louco, especificamente?  o velho perguntou, encarando Vânia por cima dos óculos, com as sobrancelhas franzidas.
 Não me recordo seu nome... Ele bateu o carro, veio para cá trazido pela ambulância. Lembra-se?
 Sergio? Aquele que eu atendi? 
 O próprio!

Sergio pulava de entusiasmo. Gritava algumas sentenças como: “Estou aqui! Estou aqui!”. Os dois, porém, continuavam a conversa:

 Mas ele não tinha nada  disse o velho, que agora Sergio percebia, pelo crachá, tratar-se de um médico.  Uns ferimentos pequenos, apenas.
 Ferimentos leves, é verdade  Vânia respondeu.  Nada mais que meros arranhões...  balbuciou, mais para si mesmo do que para o médico.

Beatriz repetia, já pela quarta vez, que a teoria da amiga fazia mesmo sentido.

 Meu pai se suicidou! Era a única forma de ele saber que morreria! Ele jogou o carro naquela ribanceira de propósito! Mas e o corpo dele? Por que não o encontram?
 Talvez ele tenha jogado o carro no precipício, mas, percebendo não ter sofrido nada, tenha se atirado em alto mar ou em algum lugar de buscas mais difíceis.

Dessa vez, Beatriz não valorizou muito as conjeturas da amiga, que, apesar disso, continuou:

 Ou vai ver ele jogou o carro lá justamente para dissimular, para acharem que ele morreu no acidente, mas ele pode estar agora boiando no oceano e ninguém o encontrará...

Stella deu agora um tapa na cara de Gustavo e, chorando, gritou:

 Nunca mais me segure com essa violência! Não sou sua puta! E saia da minha casa, não vou falar de novo!

Gustavo, enfurecido, saiu, batendo a porta da sala com tamanha força que rachou parte do vidro da janela lateral à entrada.

 Arranhões leves  repetiu Vânia.
 Exato  disse o médico , uns arranhões do acidente, nada de mais. Que te impressionou tanto naquele sujeito?
 Acho que a loucura dele. Estava completamente desnorteado. Pedi que ele esperasse a fim de chamar um psiquiatra, um psicólogo ou sei lá quem. Mas ele fugiu!
 Ainda bem que fugiu. Ou criaria problemas para nós. Eu vi que se tratava de um maluco, mas isso aqui não é um hospício.
 O senhor diz isso porque não viu todo mundo rindo dele, lá fora!  exaltou-se Vânia, abaixando a voz logo em seguida e usando um tom mais adequado para conversar com um médico:  Dava pena ver a expressão de perdido do coitado. E como as pessoas são más! Riam mesmo, na cara dele! O mínimo que eu podia fazer, doutor, o mínimo era resgatá-lo e encaminhá-lo para um profissional da área. Não acho que eu tenha feito mal. E lamento que ele tenha fugido…
 Ok, Vânia, você fez muito bem  respondeu o médico, em um tom contidamente irônico.  Agora, se me dá licença, preciso trabalhar.
 Desculpe  disse Vânia, meio envergonhada por tudo o que dissera, a começar por perguntar ao doutor se ele via mais alguém no recinto.

Vânia abriu a porta com cuidado e se retirou, seguida por Sergio, que voltou a chamá-la. Ela não ouvia, mas ainda o sentia quando ele a tocava. Ele a seguia, não podia perdê-la de vista. Como Vânia andava apressadamente, ele tinha que se desviar de algumas pessoas pelo caminho. Em uma dessas ocasiões, esbarrou em um homem, que olhou assustado em sua direção, visivelmente sem entender o que o atingira. Sergio percebeu e voltou a tocar no sujeito. Ele se assustou novamente, passou a mão em seu ombro direito, exatamente no ponto em que Sergio encostara. Sergio percebeu que não era só Vânia que o sentia. Outras pessoas também já podiam senti-lo, mas ainda não escutá-lo. Por quê? Que mudou? Enquanto se questionava sobre essa recente novidade, tropeçou em seu cadarço desamarrado. Como já estava cansado  especialmente depois de seguir Vânia em passos tão apressados , sentou-se em um banquinho de pedra, já na parte externa do hospital, a pensar no que acontecia com ele.

 Não posso explicar o desaparecimento do meu pai. Gostaria muito de saber se ele se suicidou  disse Beatriz, que, repentinamente, já não parecia mais tão convicta da tese da amiga. A teoria do suicídio tinha muitos furos, não fazia sentido por completo.  Só sei que sinto muita falta de meu pai. Gostaria muito de ter sido mais próxima dele. Sempre fomos distantes demais, mas sempre senti o amor que ele tinha por mim. E eu também tinha por ele, é claro. Só não demonstrávamos, um para o outro. Mas ele me amava, eu o amava… Aliás, amava, não. Eu o amo. Eu o amo.

Stella, enfim sozinha, chorava no tapete de casa. Olhava a foto de Sergio. Era uma foto de um ano depois do casamento, quanto ainda viviam um para o outro, exclusivamente. Sentiu saudade dessa época, pois percebia ter sido a única vez em que realmente amara e se sentira amada. Quando perderam esse encanto? Todas as perguntas que Sergio um dia se fizera, enquanto vagueava pela cidade após o expediente, Stella se fazia agora. Conversou com a fotografia do esposo, soluçando do choro, com lágrimas a molhar sua blusa:

 Perdoe minha ausência durante tanto tempo. Eu só queria que você vivesse. Eu só queria que nunca tivesse pedido para você comprar arroz. Eu só queria que seu carro nunca tivesse caído naquele maldito precipício. Eu só queria que você estivesse vivo. Eu só queria dizer que te amo. Eu te amo, Sergio.

Sergio descansava em um banquinho, quando ouviu a voz de um transeunte desconhecido que por lá passava:

 Ei, senhor! Seu cadarço está desamarrado!