quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O vermelho submerso

Era uma família feliz, composta pelo pai, pela mãe e pelo casal de filhos, ainda muito crianças, em sua viagem de férias de verão. Eram bem loiros, com olhos verdes e dentes muito brancos, que reluziam mais ainda devido ao fato de estarem sempre rindo. Passeavam agora pela areia de uma linda praia tomada por coqueiros e, de vez em quando, a filha corria para frente, como se já soubesse que em seguida o pai também correria e iniciariam uma divertida perseguição.

Caminhavam rumo a um simpático restaurante de frutos do mar, localizado na orla. Ao subirem as escadas do recinto e sentarem-se, à espera do garçom, vislumbravam a magnífica paisagem ao seu redor: as águias que voavam em círculos, os atletas a praticarem esportes tanto na areia quanto na água, os gritinhos infantis contentes, o sol imponente em um céu completamente azul, o horizonte que se perdia no infinito. A água do mar, porém, tinha algo de muito curioso: era vermelha. A família nem comentou entre si sobre essa estranha coloração, afinal já a haviam percebido antes. Creditavam àquilo a um tipo de ilusão de ótica, provocada pelo pôr-do-sol, que tem por característica deixar o cenário alaranjado. Mas, no fundo, sabiam que o sol estava muito longe de se pôr (ainda estava na hora do almoço!) e que o mar não estava cor de laranja, mas vermelho, um vermelho bem vivo.

Sem se importarem com a vermelhidão do mar, viram o garçom, enfim, chegar para atendê-los. Anotou seus pedidos e, em alguns minutos, a família já desfrutava de deliciosos pratos. Depois de satisfeitos, voltaram à praia, onde repousaram a refeição por uma ou duas horas e, depois de um cochilo, decidiram por regressar à água.

Quando entraram novamente no mar, a água era já de um azul cristalino, muito diferente do vermelho que avistaram do restaurante. Contentes, mergulharam e brincaram, riram e se divertiram ainda mais, até se cansarem e resolverem fazer uma última pausa.

 Mas eu quero voltar para a água antes de irmos embora! – falou o filho, enquanto saíam do mar.
– Voltaremos. Vamos só descansar um pouquinho – respondeu o pai, sempre sorridente.

Nisso, a filha soltou um grito, para espanto dos outros três.

 Mamãe! Papai! Me cortei, eu acho!

Suas pernas estavam completamente ensanguentadas.

 Oh, filha! Deixa-me ver isso... – disse a mãe.
 É sangue, mamãe! É sangue!

O pai pegou sua garrafinha de água e molhou as pernas da filha, limpando-as completamente, para, em seguida, procurar pelo machucado.

 Que estranho! Não tem nenhum corte, nenhuma ferida... – disse o pai. – De onde pode ter vindo tanto sangue?

De fato, uma vez limpas, as pernas da menina não tinham nenhum sinal de machucado. O irmão, que olhava para a água sem piscar os olhos, parecia ter descoberto a origem daquele sangue. Mas não. Nem mesmo ele viu que, ainda que a primeira camada de água fosse limpa e cristalina, as águas do fundo eram do mesmo vermelho que conseguiam ver de cima, do restaurante. E não era qualquer vermelho. Era sangue. Muito sangue. Um oceano de sangue repousado sob uma fina camada de água reluzente.

Ficaram pensativos por algum tempo, mas logo o clima de alegria voltou a reinar e decidiram retornar ao mar pela última vez, agora que a tarde já principiava a cair. Correndo entusiasmados, deram um último mergulho, mas o pai orientou os filhos a irem para outro lugar da praia, pois ali havia muitas pedras.

 Mas tem pedras em todo lugar – argumentou a filha. – Lá do outro lado, eu também andava e sentia algumas delas batendo em minha perna. Pensei até que fosse uma pedra o que tivesse me ferido.
 Acho que aqui tem mais – respondeu o pai. Acabaram por ir ao outro lado da praia. Durante a caminhada, feita pelo próprio mar, andavam com dificuldade, tendo de vencer inúmeros empecilhos debaixo d’água, o que pensavam ser pedras. Não eram. Tinha muitas coisas, mas nenhuma era pedra. Tinha crânios, braços, pernas, enxadas e armas, isso para citar somente as mais comuns, pois havia muitas coisas que simplesmente não eram concretas, como gritos, por exemplo, muitos gritos, muitos choros. Tudo afundado no vermelho absoluto, naquele sangue com gosto salgado. Aliás, esse sal, que todos pensavam ser oriundo das águas marítimas, nada tinha a ver com isso. Eram lágrimas, litros e litros de lágrimas derramadas no meio daquele mar de sangue.

2 comentários:

  1. Gostei de seu blog, bem literário, blog de contista. Parabéns, Marcelo Maio. Assinado: Hélio Consolaro

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    1. Ah, agora apareceu seu comentário, hehe! Valeu! =)

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