sábado, 9 de agosto de 2014

O poema proibido

O maior segredo do poeta era seu primeiro poema. Era um escritor renomado, talentoso, reconhecido por todo o meio literário, mas escondia a sete chaves seus primeiros versos, escritos na adolescência. A crítica deduzia que deveriam ser linhas ruins, assimétricas, sem ritmo. Ele negava. Dizia ser outro o motivo. Fosse como fosse, o poema deveria ir com ele para o caixão.

Foi aí que se enganou! Quando morreu, a primeira coisa que os jornalistas fizeram foi vasculhar sua casa em busca do misterioso poema.

Sua esposa não sabia de nada. “Ele também o escondia de mim.” Seus filhos, idem. Que poesia misteriosa era essa, escrita havia tanto tempo, que deveria ficar tão longe dos olhos do público? Os jornalistas abriram as gavetas do armário, desarrumaram os criados-mudos, procuraram embaixo do colchão, atrás da TV, no sótão, no porão... A família não reclamava, pois também queria ler o primeiro poema escrito pelo poeta, o poema maldito, mudo, escondido, proibido. Cadê ele? Espera! Parece que acharam algo. Uma pasta com vários poemas, a maioria já publicada. Tem que procurar entre os não publicados! Mas são muitos. Como saber qual foi o primeiro? Tem data! Os poemas estão datados! Mas, ainda que se faça uma lista por ordem de dia, mês e ano, quem garante que o primeiro de todos está mesmo ali?

– Já sei! – exclamou a esposa. – O poema proibido foi escrito no dia 03 de abril de cinquenta anos atrás. 
– Ohhhh! – fizeram todos, afoitos. Como ela chegava a essa conclusão?
– Foi no aniversário de dezesseis anos dele!

Sim! Ele já havia admitido publicamente que havia escrito o poema proibido no aniversário de dezesseis anos! Agora, é só procurar! Será que está na pasta? Tem que estar! Remexem todos os papéis amarelados, rasgados, remendados. Cadê? Não acham! Persistem. São muitos os poemas. Que o poeta esteja descansando em paz e não veja essa intromissão! Todos pedem perdão à sua alma. Era notório, era sabido por todo mundo que ele não queria que ninguém lesse esse poema. “Desculpe, amor”, “desculpe, pai”, “desculpe, sogro”, “desculpe”, “desculpe”, “desculpe”, “desculpe”, “desculpe”... Quê? Acharam!

– Está aqui! Está aqui!

Juntaram-se todos, ofegantes, para ler. Depois de tantos anos, o mistério estava sendo desvendado. Quando essa poesia se tornasse pública, que felicidade seria! Mas, antes, os desbravadores teriam a honra de lê-lo primeiramente, maldito poema nunca lido por ninguém.

Chamava-se “Tristeza” e tinha cinco versinhos:

Hoje estou triste.
É meu aniversário, mas preferia que não fosse.
Estou triste e com vontade de chorar um bocado!
Não estou alegre, não.
Estou só e, desculpa repetir, estou triste.

Todos ficaram estupefatos com a simplicidade do poema. Nada a ver com o poeta construtor de metáforas, de escrita refinada, que, mesmo jovem, em uma época não muito distante desse triste aniversário, encantava leitores de todo o mundo. Mas no fim da folha, virando-a ao contrário, em letras muito pequenas, quase imperceptíveis, era possível ler:

Lembrete: nunca mostrar esse poema para ninguém. Sem metáforas, minha alma se desnuda e não posso fingir ser quem não sou.

2 comentários: