terça-feira, 5 de agosto de 2014

O banana

Qual a linha que separa o pacifismo da covardia?

Joel se fez essa pergunta quando tomou um soco no rosto, no meio do baile. O agressor estava visivelmente alcoolizado e ria do fino sangue que escorria do nariz de Joel, para quem todos olhavam, inclusive sua namorada.

 Que foi?  perguntou Joel, perplexo com a agressão gratuita, de um sujeito que ele nem conhecia.
 Para você aprender!  respondeu o bêbado.
 Aprender o quê?
 Você sabe muito bem!

Não, ele não sabia. E nem o agressor sabia. Mas, ainda que houvesse um motivo, não vem ao caso. O fato é que o baile inteiro abriu um círculo no meio da pista, dentro do qual estavam Joel, sua namorada e o bêbado. Todos esperavam o revide, inclusive a garota. Era a obrigação de Joel devolver o soco que o maluco lhe tinha desferido do nada. Acontece que, apesar do pouco sangue que rapidamente parou de sair, nada restava decorrente da agressão sofrida. O soco não doeu nada. Talvez na alma, quiçá no orgulho, mas certamente não no corpo e, conhecendo Joel um pouco melhor, era de se notar que nem mesmo seu brio havia sido ferido (Joel estava longe de ser alguém que se importasse com honra pessoal).

 Que foi?  perguntou o agressor.  Vai chorar? Vai chamar a mamãe?

O soco tinha sido fraco, mal aplicado, mas inexplicavelmente fez barulho, chamou atenção, foi plasticamente impactante. Para um espectador externo, aquele havia sido um soco e tanto, de deixar a vítima desdentada. Mas não. Não havia feito nem cócegas.

 Viadinho!  o bêbado continuava.  Além de viadinho, é um frouxo! Essa putinha aí, já comi. Dá o cu que é uma beleza! Já comi toda!  Ele se referia à garota com Joel, que, nesse instante, virou-se para o namorado, como a exigir uma retaliação. Mas Joel não queria vingança. Queria apenas ir embora dali, simplesmente para as pessoas pararem de encará-lo. O soco não machucou, as ofensas não o atingiram, mesmo os xingamentos à namorada não o incomodaram, portanto do que se vingar? Era um pacifista por natureza, queria ir embora.

 Já comi essa puta, já comi!

O burburinho aumentava entre as outras pessoas. Até então, elas pareciam divididas sobre a necessidade de retaliar, mas quando começaram as ofensas à garota, pareceu óbvio a todos que nenhum homem honrado deveria suportar um soco na cara e xingamentos à sua namorada, ambas as provocações vindas do mesmo agressor. Virar as costas e ir embora seria o maior atestado de covardia que Joel poderia assinar.

 Ela me disse que seu pau não passa dos 14 centímetros! Putinha vadia!
 Joel!  a garota gritou, exigindo uma resposta do namorado.  Você não pode ser tão banana, não pode! Simplesmente não pode!

Ele não queria reagir, portanto não reagiria. Ceder às provocações só porque os outros assim exigiam, isso, sim, seria um sinal de covardia. Virou as costas, pegou na mão da garota e a trouxe consigo para a porta de saída. O agressor, porém, insatisfeito com a resolução adotada por Joel, caminhou rumo ao casal, pôs a mão em um dos seios da menina e apertou com toda a força!

 Delícia!

Foi o estopim. A garota deu um tapa na cara do sujeito, com um olhar reprovador para Joel, como a dizer: "Se você não toma providências, seu banana, tomo eu!". Joel, achando que tudo aquilo já estava passando dos limites, esquecendo-se de suas recentes conclusões quanto à covardia e cedendo ao tumulto geral que havia se formado  todos a pressioná-lo efusivamente para tomar uma atitude , partiu para cima do sujeito e desferiu-lhe três socos no rosto. O idiota, bêbado que mal se aguentava em pé, tropeçou com os golpes e caiu. No chão, ainda tomou incontáveis pontapés de Joel. Agora, ele não podia parar. Cedeu à guerra, renunciou a paz, tinha que ir até o fim. Chutou tanto o bêbado que o deixou inconsciente. Os seguranças, mais que tardiamente, apareceram para contê-lo e Joel foi expulso da festa.

Hoje, ele responde criminalmente por aquele ato mal pensado. A mãe do bêbado não deixa de ligar todos os dias para Joel e acusá-lo de assassino. Parece que, após tantos pontapés na cabeça, o rapaz morrera ali mesmo.

 Você é um covarde!  grita a mãe do falecido, diariamente, para Joel.  Um covarde! Um covarde! Só um covarde agride um menino que já está no chão, bêbado, sem mecanismo de defesa! Não vou sossegar até te ver na cadeia!

A mulher, porém, sabia que dificilmente Joel seria preso por uma briga de boate, ainda que o resultado não pudesse ter sido mais trágico. O que ela realmente queria era que seu marido (portanto, pai do morto) fosse à casa de Joel e lhe desse uma surra. O marido fingia que não era com ele, mantinha-se taciturno em seu luto e em seu sofrimento. Mas a esposa, os amigos, todos os seus conhecidos não lhe perdoavam pela passividade. A mulher não perdia uma chance de lhe falar:

 Você não pode ser tão banana, não pode! Simplesmente não pode!

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