terça-feira, 12 de agosto de 2014

Minha casa, minha língua

André morava havia já cinco anos na África do Sul, na fantástica Cape Town. Caminhava em um belo fim de tarde por Sea Point, ao lado de seu amigo sul-africano Alan. Contava-lhe que achava incrível ver esse céu continuamente azul, sem que o clima jamais parecesse seco. Alan explicava-lhe o curioso fenômeno que dificultava a condensação das nuvens no verão de Cape Town, nuvens estas que, quando se formavam, apareciam apenas ao longe, compondo o horizonte com a belíssima Table Mountain.

– Eu amo esse lugar – revelou André, com um largo sorriso.
– Eu também – respondeu o sul-africano. – E muito me alegra que você se sinta em casa na África do Sul.
– Mas eu não me sinto em casa – disse André, sem retirar o sorriso do rosto.
– Como não?
– Minha casa é o Brasil. Eu, aqui, me sinto feliz, talvez até mais feliz que no Brasil, mas, definitivamente, não em casa.
– Por que não?
– Por várias razões, Alan. Uma delas é que estou falando contigo em inglês. Em casa, eu falo em português.
– Só por isso?
– Não sei se só por isso. Acho que não. Mas, sem dúvida, esse é o principal fator.
– Se eu aprender português, você vai passar a se sentir em casa?
– Ainda não – André riu –, pois você seria só uma pessoa a saber português, enquanto os jornais, as TVs, os rádios, tudo estaria em inglês, em afrikaans ou em algum outro idioma.
– Não entendo. Você fala tão bem inglês, consegue se comunicar com todos tão fluentemente, por que isso?
– Posso conseguir me comunicar em inglês, mas nunca vou conseguir verdadeiramente me expressar.
– Não?
– Não creio. E, ainda que consiga, o esforço que tenho que fazer para pensar em inglês, por mais fluente que eu seja, não é natural. Na verdade, nem sequer é natural ouvir as pessoas falando inglês nem francês nem espanhol nem nada que não seja o português. O ouvido cansa. Minha língua, minha casa.
– Então, em Portugal ou em Angola, você se sentiria em casa?

André pensou e respondeu:

– Não creio. Fui a Moçambique e não me senti em casa. É outro idioma, para mim.
– Ah, vá lá! Você agora é um desses adeptos de que o Brasil fala brasileiro, não português?
– De forma nenhuma! Falamos português e não temos por que nos envergonharmos disso! Mas é um outro português…
– Um outro sotaque?
– Acho que vai além do sotaque. Se eu afirmar que não me sentiria em casa em Cabo Verde por causa do sotaque, teria que admitir que tampouco me sentiria em casa na Paraíba, o que não é verdade.
– E então?
– É uma outra forma de ver o mundo, acho que é isso. Os jornais não têm sotaque, no entanto um jornal português é diferente de um jornal brasileiro. O primeiro é um jornal internacional, o segundo é um jornal de casa.
– E se essa forma de mundo fosse escrita em inglês? Se pegássemos um jornal brasileiro e o traduzíssemos, você o identificaria como um jornal de casa?
– De forma nenhuma. Até porque, na tradução, a visão se perderia. E acho que, aqui, eu chego ao ponto de conseguir me comunicar, mas não me expressar em inglês. Quando falo outro idioma, minha visão de mundo, que só pode ser transmitida em português, se esvai!
– Se você conversar com outro brasileiro, em inglês, tampouco se expressará?
– Tampouco.

Alan se deu por vencido:

– Então, já que você não consegue se expressar, vamos jantar?
– Vamos jantar. – André ampliou seu riso.
– Seu prato preferido?
– Combinado.

Entraram em um restaurante e foram jantar um delicioso bobotie, enquanto o vento balançava as águas do inigualável mar sul-africano.

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