sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Em busca do conhecimento

O jovem estudante precisou de cinco dias de viagem para chegar a um antigo povoado onde diziam morar o maior sábio ainda vivo. Mesmo uma vez alcançada a cidadezinha, o rapaz ainda teve de caminhar por muitas horas até chegar ao local mais afastado de todos, exatamente onde se via uma casinha humilde, extremamente isolada, e, em frente à porta da entrada, um senhor sentado com óculos pequeninos e redondos de aro escuro, que acentuavam o formato oblíquo dos olhos muito negros, acima de rugas bem formadas, onde parecia repousar toda a sabedoria do mundo.

Tímido, o estudante não se aproximou logo. Observava que os olhos do velho estavam concentrados em uma escultura de aproximadamente dois metros de altura, posta em frente à casa, a poucos passos da entrada. O senhor permanecia sentado e parecia ter ignorado completamente a chegada do visitante. Encarava a escultura como se ali estivesse todo o enigma dos muitos séculos da humanidade. Tratava-se de uma obra nada linear, com pedaços de extremidades terminadas ao acaso tanto à direita quanto à esquerda, com imensos buracos vazios ao longo de suas formas, possuída completamente por apenas duas cores: amarelo e vermelho.

Bem, o estudante não havia feito essa longa e exaustiva viagem para apenas observar de longe o sábio. Precisava tomar coragem e se aproximar, mostrar-se interessado, como, aliás, de fato, estava. Excitava-se com a escultura, porque sabia que aquele era apenas um dos muitos enigmas que encontraria nas horas que esperava compartilhar com o velho. “Na pior das hipóteses, serei repelido e terei perdido somente a viagem, tendo que fazê-la de volta”, pensou e, com isso, caminhou mais convictamente na direção da cadeira onde o senhor se sentava.

 Bom dia... Com licença... – disse o estudante, hesitante.

O velho virou-se lentamente, com bastante dificuldade, e só depois de alguns segundos pareceu ter percebido que se tratava de uma voz e uma face humanas, possivelmente havia muito sem ver.

 Oh! Bom dia, meu jovem!

A aparente boa recepção do velho acalmou o jovem, que temia perturbar o sábio em seu retiro espírito-intelectual.

 Mas então temos um forasteiro perdido? – perguntou o senhor. – Oh, deve estar com muita sede. A cidade fica longe, devo te dizer. Precisará de umas boas horas de caminhada para alcançá-la. Mas como veio parar aqui? Se perdeu por muito!

O velho era muito mais comunicativo do que o jovem supunha.

 Na verdade – respondeu o estudante –, não estou perdido. Ao contrário, caminhei justamente para conhecer o senhor.
 A mim? Oh, e o que pode querer de mim alguém tão jovem e saudável?
 Desejo... Desejo compartilhar um pouco do famoso conhecimento que o senhor possui.
 Famoso?
 Sim, muito famoso! – respondeu o jovem, desconfiado de que o velho se sentira lisonjeado com o adjetivo. Continuou exaltando-o, para agradá-lo ainda mais: – Na cidade, falam muito do senhor. E nem me refiro ao povoado mais próximo. Eu venho de muito mais longe e, mesmo na minha terra, o senhor tem enorme fama. Muito comentam acerca do maior sábio vivo do planeta, que mora em terras isoladas a extremo leste, exatamente aonde vim encontrá-lo. 

O velho mexeu-se estranhamente na cadeira e, de forma inesperada, levantou-se, com dificuldade:

 E o que deseja, então? – perguntou.
 Gostaria de saber se é possível passar algum tempo com o senhor e aprender sobre as coisas da vida.
 Será uma honra.

Nem em seus momentos mais otimistas, o garoto imaginaria receber uma resposta positiva tão facilmente.

 Mas deixe-me pegar um pouco de água para você – disse o velho. – Essa terra é muito seca e os estrangeiros costumam estranhar muito, ficando sedentos com extrema frequência.
 Agradeço imensamente – respondeu o jovem, só para não fazer desfeita, pois, na verdade, não tinha nenhuma sede. Enquanto o velho entrou na casa para buscar a água, o jovem ficou olhando a escultura. Por que aquelas formas? Por que aquelas cores? O que significava aquilo?
 Aqui, meu jovem, seu copo d`água.
 Obrigado. Essa obra de arte... Foi o senhor quem construiu?
 Oh, não! Não fui eu. Para ser sincero, nem me lembro onde a consegui. Desconfio de que, quando me mudei para cá, ela já estava aí.
 Se mudou? O senhor não vivia aqui?
 É claro que não, meu jovem. Vivi na cidade por muito tempo. Mas houve um momento em que percebi que o meio urbano não me satisfazia mais e resolvi viajar. Aqui cheguei e me instalei.
 É um ótimo lugar para os seus fins – elogiou o estudante. – Sem dúvida, o lugar ideal para atingir o autoconhecimento e a plenitude.
 Não estou certo disso – respondeu o sábio. – Mas voltemos a esse assunto em um instante. Preciso ir ao banheiro. Meu intestino anda péssimo ultimamente.

O jovem sentiu-se um pouco embaraçado com aquela fala, mas assentiu. Enquanto isso, tornou a admirar a escultura e a levantar possibilidades para o conhecimento ali contido. Assim que o velho retornasse, tocaria no assunto. O que era aquela escultura? Não sabia se deveria ser tão direto – os sábios não costumam gostar de perguntas óbvias. Quando ouviu a descarga e a porta do banheiro se abrir, o estudante endireitou-se e se quedou mais ereto.

 Desculpe o mau cheiro – disse o velho. – Como eu disse, meu intestino...
 Sim, sim... Não se preocupe.
 Quer mais água? Bebeu com tanta rapidez! Sem dúvida, estava muito sedento.
 Não, obrigado.
 Uma coca-cola, talvez?
 Coca-cola? Aqui?
 Por que não, meu jovem?
 Fazia outra ideia de um sábio.
 Que ideia? Vamos, diga-me se... Oh, raios! Esse foi dos bons! Que peido! Oh, jovem, por favor, me perdoe.
 Claro...
 Ontem mesmo eu estava arrotando muito, mas devo isso ao excesso de coca-cola. Mas não soltei um peido! Foi hoje que meu intestino resolveu se manifestar...
 Compreendo...

“Será que isso é algum teste de resistência? Estará ele testando meus limites?”, pensava o estudante, visivelmente constrangido.

 Vamos! Não se sinta envergonhado – disse o sábio. – A verdade é que demos azar. Nunca recebo visitas e, justamente no dia de hoje, meu intestino resolve ser mau anfitrião.
 Acontece... Mas me diga... Aquela escultura... O que o senhor pensa sobre ela?
 Ah! O que mais me impressiona naquela obra são as cores, embora muitas pessoas deem mais valor à forma.

“Agora, sim! Acho que o assunto vai deslanchar, enfim!”

 E o que o senhor pensa sobre as cores? – perguntou o estudante, mas, logo achando-se muito óbvio, tentou estender um comentário posterior: – Parece-me uma combinação tão improvável de cores. O vermelho e o amarelo não parecem externar com exatidão a mensagem do artista que estava contida na forma. Digo... Forma e cores parecem bem destoantes, mas, talvez, fosse mesmo essa a intenção do escultor.
 Puta merda!

Aqui, o estudante estremeceu. Primeiramente, por ouvir palavrões vindos do velho erudito. Depois, porque acreditou que aquela infeliz interjeição fora fruto de alguma colocação esdrúxula que fizera em sua pífia interpretação sobre a obra de arte.

 Fodeu! – prosseguiu o velho.
 O que foi? – perguntou o estudante, sentindo suas bochechas queimarem.
 Fui peidar de novo... e me caguei completamente!

Era o fim. Se aquele era um teste de resistência, o estudante cedia. Virava as costas e se preparava para ir embora.

 Preciso ir. Não posso mais ficar.
 Oh, mas já? Fique um pouco mais.

Por que o velho lhe pedia para ficar? Se aquilo era um teste e o estudante fora reprovado, não tinha por que aquele senhor insistir pela sua permanência. Não tinha por que querer um discípulo incapaz. De posse desses pensamentos, o estudante concluía, tristemente, que o sábio era, na verdade, um embuste.

 Fique, por favor. Prometo que vou me controlar. É muita indelicadeza mesmo da minha parte... Fique, eu nunca recebo visitas...

Quanto mais o velho implorava, mais o estudante se certificava de que aquele não era um sábio, que a lenda era uma farsa. E isso o deixava extremamente furioso.

 Cale-se! – gritou o estudante. – O senhor é um embuste, uma mentira! Preciso voltar já para a cidade e contar, não só no povoado mais próximo, mas em todos os lugares por onde eu passar, que o senhor é uma farsa, que a lenda é uma mentira!
 Porra! Aconteceu de novo! Não grita com um velho que eu me cago todo... Me caguei mais... Minha calça pesa!
 Vá para o inferno!
 Não se vá! Meu intestino tem vontade própria, não é culpa minha... Fique! Fique!

Mas já era tarde. O estudante já estava do lado de fora da casa, afastando-se da visão do velho, caminhando a passos enfurecidos. Acontece, porém, que, quando o jovem já estava a uns seiscentos metros distante, percebeu que não havia desvendado o mistério da escultura. Talvez, afinal, o velho não fosse um embuste. Os sábios também têm o direito de terem problemas intestinais. Também são humanos, também sofrem enfermidades. Resolveu, portanto, agora que já diminuía a sua fúria, voltar em direção à casa do velho. Encontrou-o na mesma posição da outra vez: sentado, admirando a escultura.

 Oh, você voltou! – comemorou o senhor.
 Voltei apenas para te fazer uma pergunta. Aliás, se não me falha a memória, eu já a tinha feito, mas o senhor me ignorou com seus peidos... – E, aqui, graças à mera pronúncia da palavra “peido”, o estudante corou. – O que essa escultura representa?
 Não faço a mínima ideia!

De novo, a raiva voltava ao peito do jovem, que tentou se controlar e disse:

 Mas o senhor falou que as cores o impressionavam!
 E impressionam! Mas não sei o que representam nem o que o artista quis dizer... Na verdade, acho todos esses assuntos intelectuais uma babaquice, se você quer saber. Felizmente, você não parece ser um desses imbecis que buscam a sabedoria, o conhecimento e essas idiotices afins. Por isso, gostei tanto de ti. Sou mesmo considerado um sábio, mas só por ser um eremita. Assim como eu, há vários outros sábios em locais ainda mais afastados daqui. Mas são embustes, exatamente como você me classificou. Aliás, se eu, enquanto um suposto sábio, ainda mereço sua atenção, te dou apenas um conselho: jamais ouça esses velhos doentes que são tidos como sabichões. Não são nada, não entendem nada da vida e, se vêm morar no fim do mundo, não é para buscarem o autoconhecimento, mas por razões diversas que podem passar até mesmo pela covardia. Veja meu caso: um sábio, claro. Todos dizem: um sábio. Mas veja a situação em que me encontro. Lastimável, deplorável. Porém, como eu já disse, estou certo de que você não precisa desses conselhos, pois não está dando a mínima para os sábios. Parabéns por não pertencer a essa laia!

“Mas eu pertenço a essa laia...”, pensou o jovem, extremamente abatido. O velho, que nada percebia, que ignorava as pretensões do estudante, continuava falando baboseiras. “O curioso é que eu disse para ele que vinha justamente em busca do conhecimento. Ou será que não falei? Oh, sim, eu falei. Mas ele nem sequer me ouviu. E uma pessoa que não ouve não pode ser um sábio. Que decepção!”

 E há ainda muitos sábios nas cidades  prosseguiu o velho.  Na verdade, não é preciso se isolar para ser considerado um sábio. Há muitas outras táticas. Porém, são embustes, todos embustes, se me permite que eu use mais uma vez o seu termo. Mas não importa, esse assunto já encheu. O que importa é que preciso arrumar minha alimentação, pois esse intestino...

"Não acredito no que estou ouvindo! Por que resolvi voltar? Ah, sim, a escultura! Não sei se ainda devo tocar no assunto... Que sensação horrível!"

...muita pimenta na comida, por isso fiquei nessa situação... – continuava tagarelando o velho.
 Bem... O senhor disse que não sabe as intenções do artista da escultura – retomou o estudante, já sem o menor interesse, apenas para não ter voltado àquela casa à toa. – Mas falou que as cores te impressionam.
 E impressionam mesmo!
 E por quê?
 Veja bem... Se parecem tanto com as cores do McDonald`s...

Era o fim. O estudante foi embora, dessa vez não furioso, mas decepcionado, extremamente decepcionado. Não falou uma palavra e sentia-se um imenso idiota por ter percorrido tantos quilômetros à toa. Antes tivesse sido ignorado ou mesmo insultado pelo senhor, mas descobrir que ele nada mais era do que um velho normal e doente era para o estudante deveras doloroso.

Foi preciso tempo, foi preciso muito tempo para o jovem – agora, já não mais tão jovem – perceber que o velho, na verdade, havia lhe dado a maior lição de sua vida. E, se ela não fosse diametralmente oposta ao seu novo sentimento para com o velho, diria que este, de fato, era um sábio. A lição era simples, mas só aquele humilde senhor conseguira transmiti-la com tamanha precisão: os sábios não existem.

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