quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O vermelho submerso

Era uma família feliz, composta pelo pai, pela mãe e pelo casal de filhos, ainda muito crianças, em sua viagem de férias de verão. Eram bem loiros, com olhos verdes e dentes muito brancos, que reluziam mais ainda devido ao fato de estarem sempre rindo. Passeavam agora pela areia de uma linda praia tomada por coqueiros e, de vez em quando, a filha corria para frente, como se já soubesse que em seguida o pai também correria e iniciariam uma divertida perseguição.

Caminhavam rumo a um simpático restaurante de frutos do mar, localizado na orla. Ao subirem as escadas do recinto e sentarem-se, à espera do garçom, vislumbravam a magnífica paisagem ao seu redor: as águias que voavam em círculos, os atletas a praticarem esportes tanto na areia quanto na água, os gritinhos infantis contentes, o sol imponente em um céu completamente azul, o horizonte que se perdia no infinito. A água do mar, porém, tinha algo de muito curioso: era vermelha. A família nem comentou entre si sobre essa estranha coloração, afinal já a haviam percebido antes. Creditavam àquilo a um tipo de ilusão de ótica, provocada pelo pôr-do-sol, que tem por característica deixar o cenário alaranjado. Mas, no fundo, sabiam que o sol estava muito longe de se pôr (ainda estava na hora do almoço!) e que o mar não estava cor de laranja, mas vermelho, um vermelho bem vivo.

Sem se importarem com a vermelhidão do mar, viram o garçom, enfim, chegar para atendê-los. Anotou seus pedidos e, em alguns minutos, a família já desfrutava de deliciosos pratos. Depois de satisfeitos, voltaram à praia, onde repousaram a refeição por uma ou duas horas e, depois de um cochilo, decidiram por regressar à água.

Quando entraram novamente no mar, a água era já de um azul cristalino, muito diferente do vermelho que avistaram do restaurante. Contentes, mergulharam e brincaram, riram e se divertiram ainda mais, até se cansarem e resolverem fazer uma última pausa.

 Mas eu quero voltar para a água antes de irmos embora! – falou o filho, enquanto saíam do mar.
– Voltaremos. Vamos só descansar um pouquinho – respondeu o pai, sempre sorridente.

Nisso, a filha soltou um grito, para espanto dos outros três.

 Mamãe! Papai! Me cortei, eu acho!

Suas pernas estavam completamente ensanguentadas.

 Oh, filha! Deixa-me ver isso... – disse a mãe.
 É sangue, mamãe! É sangue!

O pai pegou sua garrafinha de água e molhou as pernas da filha, limpando-as completamente, para, em seguida, procurar pelo machucado.

 Que estranho! Não tem nenhum corte, nenhuma ferida... – disse o pai. – De onde pode ter vindo tanto sangue?

De fato, uma vez limpas, as pernas da menina não tinham nenhum sinal de machucado. O irmão, que olhava para a água sem piscar os olhos, parecia ter descoberto a origem daquele sangue. Mas não. Nem mesmo ele viu que, ainda que a primeira camada de água fosse limpa e cristalina, as águas do fundo eram do mesmo vermelho que conseguiam ver de cima, do restaurante. E não era qualquer vermelho. Era sangue. Muito sangue. Um oceano de sangue repousado sob uma fina camada de água reluzente.

Ficaram pensativos por algum tempo, mas logo o clima de alegria voltou a reinar e decidiram retornar ao mar pela última vez, agora que a tarde já principiava a cair. Correndo entusiasmados, deram um último mergulho, mas o pai orientou os filhos a irem para outro lugar da praia, pois ali havia muitas pedras.

 Mas tem pedras em todo lugar – argumentou a filha. – Lá do outro lado, eu também andava e sentia algumas delas batendo em minha perna. Pensei até que fosse uma pedra o que tivesse me ferido.
 Acho que aqui tem mais – respondeu o pai. Acabaram por ir ao outro lado da praia. Durante a caminhada, feita pelo próprio mar, andavam com dificuldade, tendo de vencer inúmeros empecilhos debaixo d’água, o que pensavam ser pedras. Não eram. Tinha muitas coisas, mas nenhuma era pedra. Tinha crânios, braços, pernas, enxadas e armas, isso para citar somente as mais comuns, pois havia muitas coisas que simplesmente não eram concretas, como gritos, por exemplo, muitos gritos, muitos choros. Tudo afundado no vermelho absoluto, naquele sangue com gosto salgado. Aliás, esse sal, que todos pensavam ser oriundo das águas marítimas, nada tinha a ver com isso. Eram lágrimas, litros e litros de lágrimas derramadas no meio daquele mar de sangue.

sábado, 23 de agosto de 2014

Papo de louco

Isaías e Davi conversavam na sala de visitas do hospício.

 Amanhã vai ser um dia histórico, meu amigo!  anunciou Davi.
 E por quê?
 Meu pai assinará amanhã uma lei que vai, enfim, repartir as riquezas desse país!
 Ô, Davi, deixa de loucura! Continua achando que é filho do rei?
 Do rei, não. Do presidente. Vivemos num país presidencialista e republicano, meu caro Mathias!
 Ô, Davi, deixa de loucura, já falei! Seu pai não é nem rei nem presidente.
 Não fale do que não sabe! Ele é o presidente dessa nação!
 Está bem, Davi... Está bem... Mas vai, diga-me como está passando, que é o que interessa.
 Estou bem, à medida do possível. São muitos os inimigos querendo derrubar nossa família, tomar o poder, mas estamos resistindo. Depois de amanhã, certamente toda a opinião pública estará a nosso favor.
 Ô, Davi, deixa de loucura!
 Isaías, se você falar isso outra vez, não respondo por mim!
 Está bem, está bem...  Aqui, Isaías pensou que poderia ser perigoso contrariar um louco.
 Penso na Suzana, como será que ela está? Não falei com ela hoje...  perguntou Davi.
 Que Suzana?
 Minha mulher! Mas que memória a sua, Isaías!
 Mas você é solteiro, Davi!
 Como solteiro? Não se lembra da Suzana? Coxas grossas, seios fartos, longos cabelos pretos, corpo espetacular... Ai, que saudade dela!
 Ô, Davi...  Antes de completar a frase, Isaías se deteve.
 Há três semanas ela viajou para a Dinamarca. Que saudade!
 Que ela foi fazer na Dinamarca? - perguntou Isaías, quase condescendente.
 Gravar um filme que se passa lá. Como você bem sabe, ela é uma grande atriz de sucesso.
 Ô, Davi, deixa de loucura!

Aqui, Davi se levantou com fúria, para espanto de todos os outros loucos no recinto.

 Desculpa, Davi, desculpa  emendou logo Isaías.  Você tem razão, minha memória anda péssima. Já me lembrei da Suzana. Agora, acalme-se, por favor.

Davi sentou-se, carrancudo.

 Eles ainda vão me matar, Isaías!
 Quem?
 Os inimigos que já citei. Invejam tudo o que diz respeito a mim! Meu poder, minha fortuna, minha mulher!
 Poder? De acordo com o que compreendi, o rei era o seu pai, não você.
 Presidente, Isaías! Presidente! Bem, mas, como você sabe, a família do presidente também acaba por ter poderes... E me invejam muito!
 Quem são esses inimigos? - perguntou Isaías, com voz infantil e cansada.
 Homens grandes do partido de oposição! Temo que me matem!
 Ô, Davi! E como você não quer que eu fale para você deixar de loucura?
 Porque eu não estou louco!  vociferou Davi. Nessa hora, todos os outros loucos riram, como se dissessem: "É o que todos aqui falamos, meu querido."

Davi, que de tão imerso em seus próprios pensamentos nem percebeu as risadas, levantou-se e alisou o rosto, como se para enxugar o suor.

 Preciso ir embora, Isaías. Preciso ir.
 Então, trate de tomar direito seus medicamentos. Assim, você melhorará e terá alta.
 Que medicamentos? Já te disse que não estou louco. Preciso sair daqui para resolver coisas com os seguranças.
 Que seguranças?
 Os que contratei para me proteger. Preciso falar para eles que também quero proteção aos meus familiares. Provavelmente, precisarei contratar outros mais.
 Ô, Davi, deixa de loucura!

Foi o estopim. Davi levantou-se outra vez furiosamente e segurou Isaías pela gola da camisa. Nisso, os guardas do hospício se precipitaram rumo aos dois, separando-os.

 Que briga é essa aqui?  gritou um dos guardas.  O senhor, como parente de um internado, deveria se portar melhor. E o senhor  apontou para o outro  deveria se lembrar de que, se não se comportar adequadamente, jamais terá alta!

Os dois pediram desculpas e abraçaram-se, como bons amigos que eram.

 Além disso  continuou o guarda , o horário de visitação já terminou há mais de cinco minutos. Fim de conversa. Me acompanhe até a enfermaria imediatamente!

E aqui, Isaías entrou com o guarda rumo às dependências internas do hospício e Davi foi conversar com um de seus seguranças, que o aguardava do lado de fora.

domingo, 17 de agosto de 2014

Vertigem

Parece vertigem,
mas é fuligem.
Parece nó, mas é pó,
só.
Parece nervoso,
parece ansioso,
parece ranzinza,
mas é a cinza
que acinza
a nuvem, o céu,
o véu, o mel,
o meu, o teu,
o prédio, a casa,
quem casa,
a igreja,
o muro, murmuro:
é o pó, é o nó,
já falei
que é só.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Em busca do conhecimento

O jovem estudante precisou de cinco dias de viagem para chegar a um antigo povoado onde diziam morar o maior sábio ainda vivo. Mesmo uma vez alcançada a cidadezinha, o rapaz ainda teve de caminhar por muitas horas até chegar ao local mais afastado de todos, exatamente onde se via uma casinha humilde, extremamente isolada, e, em frente à porta da entrada, um senhor sentado com óculos pequeninos e redondos de aro escuro, que acentuavam o formato oblíquo dos olhos muito negros, acima de rugas bem formadas, onde parecia repousar toda a sabedoria do mundo.

Tímido, o estudante não se aproximou logo. Observava que os olhos do velho estavam concentrados em uma escultura de aproximadamente dois metros de altura, posta em frente à casa, a poucos passos da entrada. O senhor permanecia sentado e parecia ter ignorado completamente a chegada do visitante. Encarava a escultura como se ali estivesse todo o enigma dos muitos séculos da humanidade. Tratava-se de uma obra nada linear, com pedaços de extremidades terminadas ao acaso tanto à direita quanto à esquerda, com imensos buracos vazios ao longo de suas formas, possuída completamente por apenas duas cores: amarelo e vermelho.

Bem, o estudante não havia feito essa longa e exaustiva viagem para apenas observar de longe o sábio. Precisava tomar coragem e se aproximar, mostrar-se interessado, como, aliás, de fato, estava. Excitava-se com a escultura, porque sabia que aquele era apenas um dos muitos enigmas que encontraria nas horas que esperava compartilhar com o velho. “Na pior das hipóteses, serei repelido e terei perdido somente a viagem, tendo que fazê-la de volta”, pensou e, com isso, caminhou mais convictamente na direção da cadeira onde o senhor se sentava.

 Bom dia... Com licença... – disse o estudante, hesitante.

O velho virou-se lentamente, com bastante dificuldade, e só depois de alguns segundos pareceu ter percebido que se tratava de uma voz e uma face humanas, possivelmente havia muito sem ver.

 Oh! Bom dia, meu jovem!

A aparente boa recepção do velho acalmou o jovem, que temia perturbar o sábio em seu retiro espírito-intelectual.

 Mas então temos um forasteiro perdido? – perguntou o senhor. – Oh, deve estar com muita sede. A cidade fica longe, devo te dizer. Precisará de umas boas horas de caminhada para alcançá-la. Mas como veio parar aqui? Se perdeu por muito!

O velho era muito mais comunicativo do que o jovem supunha.

 Na verdade – respondeu o estudante –, não estou perdido. Ao contrário, caminhei justamente para conhecer o senhor.
 A mim? Oh, e o que pode querer de mim alguém tão jovem e saudável?
 Desejo... Desejo compartilhar um pouco do famoso conhecimento que o senhor possui.
 Famoso?
 Sim, muito famoso! – respondeu o jovem, desconfiado de que o velho se sentira lisonjeado com o adjetivo. Continuou exaltando-o, para agradá-lo ainda mais: – Na cidade, falam muito do senhor. E nem me refiro ao povoado mais próximo. Eu venho de muito mais longe e, mesmo na minha terra, o senhor tem enorme fama. Muito comentam acerca do maior sábio vivo do planeta, que mora em terras isoladas a extremo leste, exatamente aonde vim encontrá-lo. 

O velho mexeu-se estranhamente na cadeira e, de forma inesperada, levantou-se, com dificuldade:

 E o que deseja, então? – perguntou.
 Gostaria de saber se é possível passar algum tempo com o senhor e aprender sobre as coisas da vida.
 Será uma honra.

Nem em seus momentos mais otimistas, o garoto imaginaria receber uma resposta positiva tão facilmente.

 Mas deixe-me pegar um pouco de água para você – disse o velho. – Essa terra é muito seca e os estrangeiros costumam estranhar muito, ficando sedentos com extrema frequência.
 Agradeço imensamente – respondeu o jovem, só para não fazer desfeita, pois, na verdade, não tinha nenhuma sede. Enquanto o velho entrou na casa para buscar a água, o jovem ficou olhando a escultura. Por que aquelas formas? Por que aquelas cores? O que significava aquilo?
 Aqui, meu jovem, seu copo d`água.
 Obrigado. Essa obra de arte... Foi o senhor quem construiu?
 Oh, não! Não fui eu. Para ser sincero, nem me lembro onde a consegui. Desconfio de que, quando me mudei para cá, ela já estava aí.
 Se mudou? O senhor não vivia aqui?
 É claro que não, meu jovem. Vivi na cidade por muito tempo. Mas houve um momento em que percebi que o meio urbano não me satisfazia mais e resolvi viajar. Aqui cheguei e me instalei.
 É um ótimo lugar para os seus fins – elogiou o estudante. – Sem dúvida, o lugar ideal para atingir o autoconhecimento e a plenitude.
 Não estou certo disso – respondeu o sábio. – Mas voltemos a esse assunto em um instante. Preciso ir ao banheiro. Meu intestino anda péssimo ultimamente.

O jovem sentiu-se um pouco embaraçado com aquela fala, mas assentiu. Enquanto isso, tornou a admirar a escultura e a levantar possibilidades para o conhecimento ali contido. Assim que o velho retornasse, tocaria no assunto. O que era aquela escultura? Não sabia se deveria ser tão direto – os sábios não costumam gostar de perguntas óbvias. Quando ouviu a descarga e a porta do banheiro se abrir, o estudante endireitou-se e se quedou mais ereto.

 Desculpe o mau cheiro – disse o velho. – Como eu disse, meu intestino...
 Sim, sim... Não se preocupe.
 Quer mais água? Bebeu com tanta rapidez! Sem dúvida, estava muito sedento.
 Não, obrigado.
 Uma coca-cola, talvez?
 Coca-cola? Aqui?
 Por que não, meu jovem?
 Fazia outra ideia de um sábio.
 Que ideia? Vamos, diga-me se... Oh, raios! Esse foi dos bons! Que peido! Oh, jovem, por favor, me perdoe.
 Claro...
 Ontem mesmo eu estava arrotando muito, mas devo isso ao excesso de coca-cola. Mas não soltei um peido! Foi hoje que meu intestino resolveu se manifestar...
 Compreendo...

“Será que isso é algum teste de resistência? Estará ele testando meus limites?”, pensava o estudante, visivelmente constrangido.

 Vamos! Não se sinta envergonhado – disse o sábio. – A verdade é que demos azar. Nunca recebo visitas e, justamente no dia de hoje, meu intestino resolve ser mau anfitrião.
 Acontece... Mas me diga... Aquela escultura... O que o senhor pensa sobre ela?
 Ah! O que mais me impressiona naquela obra são as cores, embora muitas pessoas deem mais valor à forma.

“Agora, sim! Acho que o assunto vai deslanchar, enfim!”

 E o que o senhor pensa sobre as cores? – perguntou o estudante, mas, logo achando-se muito óbvio, tentou estender um comentário posterior: – Parece-me uma combinação tão improvável de cores. O vermelho e o amarelo não parecem externar com exatidão a mensagem do artista que estava contida na forma. Digo... Forma e cores parecem bem destoantes, mas, talvez, fosse mesmo essa a intenção do escultor.
 Puta merda!

Aqui, o estudante estremeceu. Primeiramente, por ouvir palavrões vindos do velho erudito. Depois, porque acreditou que aquela infeliz interjeição fora fruto de alguma colocação esdrúxula que fizera em sua pífia interpretação sobre a obra de arte.

 Fodeu! – prosseguiu o velho.
 O que foi? – perguntou o estudante, sentindo suas bochechas queimarem.
 Fui peidar de novo... e me caguei completamente!

Era o fim. Se aquele era um teste de resistência, o estudante cedia. Virava as costas e se preparava para ir embora.

 Preciso ir. Não posso mais ficar.
 Oh, mas já? Fique um pouco mais.

Por que o velho lhe pedia para ficar? Se aquilo era um teste e o estudante fora reprovado, não tinha por que aquele senhor insistir pela sua permanência. Não tinha por que querer um discípulo incapaz. De posse desses pensamentos, o estudante concluía, tristemente, que o sábio era, na verdade, um embuste.

 Fique, por favor. Prometo que vou me controlar. É muita indelicadeza mesmo da minha parte... Fique, eu nunca recebo visitas...

Quanto mais o velho implorava, mais o estudante se certificava de que aquele não era um sábio, que a lenda era uma farsa. E isso o deixava extremamente furioso.

 Cale-se! – gritou o estudante. – O senhor é um embuste, uma mentira! Preciso voltar já para a cidade e contar, não só no povoado mais próximo, mas em todos os lugares por onde eu passar, que o senhor é uma farsa, que a lenda é uma mentira!
 Porra! Aconteceu de novo! Não grita com um velho que eu me cago todo... Me caguei mais... Minha calça pesa!
 Vá para o inferno!
 Não se vá! Meu intestino tem vontade própria, não é culpa minha... Fique! Fique!

Mas já era tarde. O estudante já estava do lado de fora da casa, afastando-se da visão do velho, caminhando a passos enfurecidos. Acontece, porém, que, quando o jovem já estava a uns seiscentos metros distante, percebeu que não havia desvendado o mistério da escultura. Talvez, afinal, o velho não fosse um embuste. Os sábios também têm o direito de terem problemas intestinais. Também são humanos, também sofrem enfermidades. Resolveu, portanto, agora que já diminuía a sua fúria, voltar em direção à casa do velho. Encontrou-o na mesma posição da outra vez: sentado, admirando a escultura.

 Oh, você voltou! – comemorou o senhor.
 Voltei apenas para te fazer uma pergunta. Aliás, se não me falha a memória, eu já a tinha feito, mas o senhor me ignorou com seus peidos... – E, aqui, graças à mera pronúncia da palavra “peido”, o estudante corou. – O que essa escultura representa?
 Não faço a mínima ideia!

De novo, a raiva voltava ao peito do jovem, que tentou se controlar e disse:

 Mas o senhor falou que as cores o impressionavam!
 E impressionam! Mas não sei o que representam nem o que o artista quis dizer... Na verdade, acho todos esses assuntos intelectuais uma babaquice, se você quer saber. Felizmente, você não parece ser um desses imbecis que buscam a sabedoria, o conhecimento e essas idiotices afins. Por isso, gostei tanto de ti. Sou mesmo considerado um sábio, mas só por ser um eremita. Assim como eu, há vários outros sábios em locais ainda mais afastados daqui. Mas são embustes, exatamente como você me classificou. Aliás, se eu, enquanto um suposto sábio, ainda mereço sua atenção, te dou apenas um conselho: jamais ouça esses velhos doentes que são tidos como sabichões. Não são nada, não entendem nada da vida e, se vêm morar no fim do mundo, não é para buscarem o autoconhecimento, mas por razões diversas que podem passar até mesmo pela covardia. Veja meu caso: um sábio, claro. Todos dizem: um sábio. Mas veja a situação em que me encontro. Lastimável, deplorável. Porém, como eu já disse, estou certo de que você não precisa desses conselhos, pois não está dando a mínima para os sábios. Parabéns por não pertencer a essa laia!

“Mas eu pertenço a essa laia...”, pensou o jovem, extremamente abatido. O velho, que nada percebia, que ignorava as pretensões do estudante, continuava falando baboseiras. “O curioso é que eu disse para ele que vinha justamente em busca do conhecimento. Ou será que não falei? Oh, sim, eu falei. Mas ele nem sequer me ouviu. E uma pessoa que não ouve não pode ser um sábio. Que decepção!”

 E há ainda muitos sábios nas cidades  prosseguiu o velho.  Na verdade, não é preciso se isolar para ser considerado um sábio. Há muitas outras táticas. Porém, são embustes, todos embustes, se me permite que eu use mais uma vez o seu termo. Mas não importa, esse assunto já encheu. O que importa é que preciso arrumar minha alimentação, pois esse intestino...

"Não acredito no que estou ouvindo! Por que resolvi voltar? Ah, sim, a escultura! Não sei se ainda devo tocar no assunto... Que sensação horrível!"

...muita pimenta na comida, por isso fiquei nessa situação... – continuava tagarelando o velho.
 Bem... O senhor disse que não sabe as intenções do artista da escultura – retomou o estudante, já sem o menor interesse, apenas para não ter voltado àquela casa à toa. – Mas falou que as cores te impressionam.
 E impressionam mesmo!
 E por quê?
 Veja bem... Se parecem tanto com as cores do McDonald`s...

Era o fim. O estudante foi embora, dessa vez não furioso, mas decepcionado, extremamente decepcionado. Não falou uma palavra e sentia-se um imenso idiota por ter percorrido tantos quilômetros à toa. Antes tivesse sido ignorado ou mesmo insultado pelo senhor, mas descobrir que ele nada mais era do que um velho normal e doente era para o estudante deveras doloroso.

Foi preciso tempo, foi preciso muito tempo para o jovem – agora, já não mais tão jovem – perceber que o velho, na verdade, havia lhe dado a maior lição de sua vida. E, se ela não fosse diametralmente oposta ao seu novo sentimento para com o velho, diria que este, de fato, era um sábio. A lição era simples, mas só aquele humilde senhor conseguira transmiti-la com tamanha precisão: os sábios não existem.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Minha casa, minha língua

André morava havia já cinco anos na África do Sul, na fantástica Cape Town. Caminhava em um belo fim de tarde por Sea Point, ao lado de seu amigo sul-africano Alan. Contava-lhe que achava incrível ver esse céu continuamente azul, sem que o clima jamais parecesse seco. Alan explicava-lhe o curioso fenômeno que dificultava a condensação das nuvens no verão de Cape Town, nuvens estas que, quando se formavam, apareciam apenas ao longe, compondo o horizonte com a belíssima Table Mountain.

– Eu amo esse lugar – revelou André, com um largo sorriso.
– Eu também – respondeu o sul-africano. – E muito me alegra que você se sinta em casa na África do Sul.
– Mas eu não me sinto em casa – disse André, sem retirar o sorriso do rosto.
– Como não?
– Minha casa é o Brasil. Eu, aqui, me sinto feliz, talvez até mais feliz que no Brasil, mas, definitivamente, não em casa.
– Por que não?
– Por várias razões, Alan. Uma delas é que estou falando contigo em inglês. Em casa, eu falo em português.
– Só por isso?
– Não sei se só por isso. Acho que não. Mas, sem dúvida, esse é o principal fator.
– Se eu aprender português, você vai passar a se sentir em casa?
– Ainda não – André riu –, pois você seria só uma pessoa a saber português, enquanto os jornais, as TVs, os rádios, tudo estaria em inglês, em afrikaans ou em algum outro idioma.
– Não entendo. Você fala tão bem inglês, consegue se comunicar com todos tão fluentemente, por que isso?
– Posso conseguir me comunicar em inglês, mas nunca vou conseguir verdadeiramente me expressar.
– Não?
– Não creio. E, ainda que consiga, o esforço que tenho que fazer para pensar em inglês, por mais fluente que eu seja, não é natural. Na verdade, nem sequer é natural ouvir as pessoas falando inglês nem francês nem espanhol nem nada que não seja o português. O ouvido cansa. Minha língua, minha casa.
– Então, em Portugal ou em Angola, você se sentiria em casa?

André pensou e respondeu:

– Não creio. Fui a Moçambique e não me senti em casa. É outro idioma, para mim.
– Ah, vá lá! Você agora é um desses adeptos de que o Brasil fala brasileiro, não português?
– De forma nenhuma! Falamos português e não temos por que nos envergonharmos disso! Mas é um outro português…
– Um outro sotaque?
– Acho que vai além do sotaque. Se eu afirmar que não me sentiria em casa em Cabo Verde por causa do sotaque, teria que admitir que tampouco me sentiria em casa na Paraíba, o que não é verdade.
– E então?
– É uma outra forma de ver o mundo, acho que é isso. Os jornais não têm sotaque, no entanto um jornal português é diferente de um jornal brasileiro. O primeiro é um jornal internacional, o segundo é um jornal de casa.
– E se essa forma de mundo fosse escrita em inglês? Se pegássemos um jornal brasileiro e o traduzíssemos, você o identificaria como um jornal de casa?
– De forma nenhuma. Até porque, na tradução, a visão se perderia. E acho que, aqui, eu chego ao ponto de conseguir me comunicar, mas não me expressar em inglês. Quando falo outro idioma, minha visão de mundo, que só pode ser transmitida em português, se esvai!
– Se você conversar com outro brasileiro, em inglês, tampouco se expressará?
– Tampouco.

Alan se deu por vencido:

– Então, já que você não consegue se expressar, vamos jantar?
– Vamos jantar. – André ampliou seu riso.
– Seu prato preferido?
– Combinado.

Entraram em um restaurante e foram jantar um delicioso bobotie, enquanto o vento balançava as águas do inigualável mar sul-africano.

sábado, 9 de agosto de 2014

O poema proibido

O maior segredo do poeta era seu primeiro poema. Era um escritor renomado, talentoso, reconhecido por todo o meio literário, mas escondia a sete chaves seus primeiros versos, escritos na adolescência. A crítica deduzia que deveriam ser linhas ruins, assimétricas, sem ritmo. Ele negava. Dizia ser outro o motivo. Fosse como fosse, o poema deveria ir com ele para o caixão.

Foi aí que se enganou! Quando morreu, a primeira coisa que os jornalistas fizeram foi vasculhar sua casa em busca do misterioso poema.

Sua esposa não sabia de nada. “Ele também o escondia de mim.” Seus filhos, idem. Que poesia misteriosa era essa, escrita havia tanto tempo, que deveria ficar tão longe dos olhos do público? Os jornalistas abriram as gavetas do armário, desarrumaram os criados-mudos, procuraram embaixo do colchão, atrás da TV, no sótão, no porão... A família não reclamava, pois também queria ler o primeiro poema escrito pelo poeta, o poema maldito, mudo, escondido, proibido. Cadê ele? Espera! Parece que acharam algo. Uma pasta com vários poemas, a maioria já publicada. Tem que procurar entre os não publicados! Mas são muitos. Como saber qual foi o primeiro? Tem data! Os poemas estão datados! Mas, ainda que se faça uma lista por ordem de dia, mês e ano, quem garante que o primeiro de todos está mesmo ali?

– Já sei! – exclamou a esposa. – O poema proibido foi escrito no dia 03 de abril de cinquenta anos atrás. 
– Ohhhh! – fizeram todos, afoitos. Como ela chegava a essa conclusão?
– Foi no aniversário de dezesseis anos dele!

Sim! Ele já havia admitido publicamente que havia escrito o poema proibido no aniversário de dezesseis anos! Agora, é só procurar! Será que está na pasta? Tem que estar! Remexem todos os papéis amarelados, rasgados, remendados. Cadê? Não acham! Persistem. São muitos os poemas. Que o poeta esteja descansando em paz e não veja essa intromissão! Todos pedem perdão à sua alma. Era notório, era sabido por todo mundo que ele não queria que ninguém lesse esse poema. “Desculpe, amor”, “desculpe, pai”, “desculpe, sogro”, “desculpe”, “desculpe”, “desculpe”, “desculpe”, “desculpe”... Quê? Acharam!

– Está aqui! Está aqui!

Juntaram-se todos, ofegantes, para ler. Depois de tantos anos, o mistério estava sendo desvendado. Quando essa poesia se tornasse pública, que felicidade seria! Mas, antes, os desbravadores teriam a honra de lê-lo primeiramente, maldito poema nunca lido por ninguém.

Chamava-se “Tristeza” e tinha cinco versinhos:

Hoje estou triste.
É meu aniversário, mas preferia que não fosse.
Estou triste e com vontade de chorar um bocado!
Não estou alegre, não.
Estou só e, desculpa repetir, estou triste.

Todos ficaram estupefatos com a simplicidade do poema. Nada a ver com o poeta construtor de metáforas, de escrita refinada, que, mesmo jovem, em uma época não muito distante desse triste aniversário, encantava leitores de todo o mundo. Mas no fim da folha, virando-a ao contrário, em letras muito pequenas, quase imperceptíveis, era possível ler:

Lembrete: nunca mostrar esse poema para ninguém. Sem metáforas, minha alma se desnuda e não posso fingir ser quem não sou.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O banana

Qual a linha que separa o pacifismo da covardia?

Joel se fez essa pergunta quando tomou um soco no rosto, no meio do baile. O agressor estava visivelmente alcoolizado e ria do fino sangue que escorria do nariz de Joel, para quem todos olhavam, inclusive sua namorada.

 Que foi?  perguntou Joel, perplexo com a agressão gratuita, de um sujeito que ele nem conhecia.
 Para você aprender!  respondeu o bêbado.
 Aprender o quê?
 Você sabe muito bem!

Não, ele não sabia. E nem o agressor sabia. Mas, ainda que houvesse um motivo, não vem ao caso. O fato é que o baile inteiro abriu um círculo no meio da pista, dentro do qual estavam Joel, sua namorada e o bêbado. Todos esperavam o revide, inclusive a garota. Era a obrigação de Joel devolver o soco que o maluco lhe tinha desferido do nada. Acontece que, apesar do pouco sangue que rapidamente parou de sair, nada restava decorrente da agressão sofrida. O soco não doeu nada. Talvez na alma, quiçá no orgulho, mas certamente não no corpo e, conhecendo Joel um pouco melhor, era de se notar que nem mesmo seu brio havia sido ferido (Joel estava longe de ser alguém que se importasse com honra pessoal).

 Que foi?  perguntou o agressor.  Vai chorar? Vai chamar a mamãe?

O soco tinha sido fraco, mal aplicado, mas inexplicavelmente fez barulho, chamou atenção, foi plasticamente impactante. Para um espectador externo, aquele havia sido um soco e tanto, de deixar a vítima desdentada. Mas não. Não havia feito nem cócegas.

 Viadinho!  o bêbado continuava.  Além de viadinho, é um frouxo! Essa putinha aí, já comi. Dá o cu que é uma beleza! Já comi toda!  Ele se referia à garota com Joel, que, nesse instante, virou-se para o namorado, como a exigir uma retaliação. Mas Joel não queria vingança. Queria apenas ir embora dali, simplesmente para as pessoas pararem de encará-lo. O soco não machucou, as ofensas não o atingiram, mesmo os xingamentos à namorada não o incomodaram, portanto do que se vingar? Era um pacifista por natureza, queria ir embora.

 Já comi essa puta, já comi!

O burburinho aumentava entre as outras pessoas. Até então, elas pareciam divididas sobre a necessidade de retaliar, mas quando começaram as ofensas à garota, pareceu óbvio a todos que nenhum homem honrado deveria suportar um soco na cara e xingamentos à sua namorada, ambas as provocações vindas do mesmo agressor. Virar as costas e ir embora seria o maior atestado de covardia que Joel poderia assinar.

 Ela me disse que seu pau não passa dos 14 centímetros! Putinha vadia!
 Joel!  a garota gritou, exigindo uma resposta do namorado.  Você não pode ser tão banana, não pode! Simplesmente não pode!

Ele não queria reagir, portanto não reagiria. Ceder às provocações só porque os outros assim exigiam, isso, sim, seria um sinal de covardia. Virou as costas, pegou na mão da garota e a trouxe consigo para a porta de saída. O agressor, porém, insatisfeito com a resolução adotada por Joel, caminhou rumo ao casal, pôs a mão em um dos seios da menina e apertou com toda a força!

 Delícia!

Foi o estopim. A garota deu um tapa na cara do sujeito, com um olhar reprovador para Joel, como a dizer: "Se você não toma providências, seu banana, tomo eu!". Joel, achando que tudo aquilo já estava passando dos limites, esquecendo-se de suas recentes conclusões quanto à covardia e cedendo ao tumulto geral que havia se formado  todos a pressioná-lo efusivamente para tomar uma atitude , partiu para cima do sujeito e desferiu-lhe três socos no rosto. O idiota, bêbado que mal se aguentava em pé, tropeçou com os golpes e caiu. No chão, ainda tomou incontáveis pontapés de Joel. Agora, ele não podia parar. Cedeu à guerra, renunciou a paz, tinha que ir até o fim. Chutou tanto o bêbado que o deixou inconsciente. Os seguranças, mais que tardiamente, apareceram para contê-lo e Joel foi expulso da festa.

Hoje, ele responde criminalmente por aquele ato mal pensado. A mãe do bêbado não deixa de ligar todos os dias para Joel e acusá-lo de assassino. Parece que, após tantos pontapés na cabeça, o rapaz morrera ali mesmo.

 Você é um covarde!  grita a mãe do falecido, diariamente, para Joel.  Um covarde! Um covarde! Só um covarde agride um menino que já está no chão, bêbado, sem mecanismo de defesa! Não vou sossegar até te ver na cadeia!

A mulher, porém, sabia que dificilmente Joel seria preso por uma briga de boate, ainda que o resultado não pudesse ter sido mais trágico. O que ela realmente queria era que seu marido (portanto, pai do morto) fosse à casa de Joel e lhe desse uma surra. O marido fingia que não era com ele, mantinha-se taciturno em seu luto e em seu sofrimento. Mas a esposa, os amigos, todos os seus conhecidos não lhe perdoavam pela passividade. A mulher não perdia uma chance de lhe falar:

 Você não pode ser tão banana, não pode! Simplesmente não pode!